sábado, 26 de janeiro de 2019

XENOFOBIA E ULTRANACIONALISMO: O QUE A BÍBLIA TEM A DIZER?

"Se o estrangeiro peregrinar na vossa terra, não o oprimireis. Como o natural, será entre vós o estrangeiro que peregrina convosco; amá-lo-eis como a vós mesmos, pois estrangeiros fostes na terra do Egito. Eu sou o SENHOR, vosso Deus." (Lv 19.33,34)

"Amai, pois, o estrangeiro, porque fostes estrangeiros na terra do Egito." (Dt 10.19)

O Deus e Pai de Nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo é santo, justo e bom. Ele é bom para com todos, quer sejam justos quer sejam injustos, abençoando tanto estes como aqueles. Jesus nos ensinou que como filhos do Pai devemos ser bondosos e graciosos, "porque ele faz nascer o seu sol sobre maus e bons, e faz chover sobre justos e injustos." (Mt 5.45) Ele, o Grande Eu Sou, deu uma série de prescrições a Israel, no Antigo Testamento, no trato com as pessoas menos validas, com aquelas mais fragilizadas e expostas à exploração na época: os estrangeiros, os órfãos e as viúvas. Com relação a essas pessoas, Deus ordenou a Israel que não oprimisse os órfãos e as viúvas de modo nenhum e em situação alguma. Quando a colheita era feita - produto da bênção de Deus - Israel não deveria "rebuscar" as plantações, a fim de deixar o que comer para essas pessoas: "Quando, no teu campo, segares a messe e, nele, esqueceres um feixe de espigas, não voltarás a tomá-lo; para o estrangeiro, para o órfão e para a viúva será; para que o SENHOR, teu Deus, te abençoe em toda obra das tuas mãos. Quando sacudires a tua oliveira, não voltarás a colher o fruto dos ramos; para o estrangeiro, para o órfão e para a viúva será. Quando vindimares a tua vinha, não tornarás a rebuscá-la; para o estrangeiro, para o órfão e para a viúva será o restante." (Dt 24.19-21) Os dízimos, assunto e prática desvirtuados em tempos modernos, era para sustento também do órfão, da viúva e do estrangeiro: "Quando acabares de separar todos os dízimos da tua messe no ano terceiro, que é o dos dízimos, então, os darás ao levita, ao estrangeiro, ao órfão e à viúva, para que comam dentro das tuas cidades e se fartem." (Dt 26.12) Deus via o tratamento com os órfãos, viúvas e estrangeiros com tamanha seriedade, a ponto de haver uma maldição ligada à perversão do direito que eles possuíam da parte do próprio Deus: "Maldito aquele que perverter o direito do estrangeiro, do órfão e da viúva. E todo o povo dirá: Amém!" (Dt 27.19) Tudo isso era manifestação prática da grandiosidade, justiça, bondade e amor de Deus: "Pois o SENHOR, vosso Deus, é o Deus dos deuses e o Senhor dos senhores, o Deus grande, poderoso e temível, que não faz acepção de pessoas, nem aceita suborno; que faz justiça ao órfão e à viúva e ama o estrangeiro, dando-lhe pão e vestes. Amai, pois, o estrangeiro, porque fostes estrangeiros na terra do Egito." (Dt 10.17-19)

Amor, para Deus, não é assunto filosófico. Não é discurso teórico, nem mecanismo de bajulação. Amor para Deus sempre foi, é e sempre será algo prático! Quem não ama de forma prática não ama; e que não ama não conhece a Deus, pois Deus é amor (I Jo 4.8). Quando a Igreja surgiu pela primeira vez no contexto da humanidade, ela impactou poderosamente a sociedade onde estava, porque havia manifestação prática do amor divino: as pessoas vendiam seus bens e distribuíam para quem tivesse necessidade: "Vendiam suas propriedades e bens, e dividiam o produto entre todos, segundo a necessidade de cada um." (At 2.45) É interessante notar que o amor prático na Igreja era tal que surgiu um ministério específico (os diáconos) designado com a função de repartir diariamente às viúvas (elas de novo!) o necessário para viver (At 6.1-6), que por sua vez era fruto do produto arrecadado com a venda das propriedades e bens dos irmãos mais abastados. 

Perceba a lógica de Deus: Deus havia concedido prosperidade material à vida de alguns irmãos a fim de que agora eles pudessem usar dessa prosperidade para suprir as necessidades daqueles que nada possuíam, que dependiam da misericórdia manifesta nas doações da Igreja para poderem sobreviver. Prosperidade, querido(a) leitor(a), não é essa pouca-vergonha que estão ensinando por aí nos púlpitos das igrejas atualmente, uma prosperidade para prósperos, ou para prosperar um punhado de gente que ama viver encostada, com o boi na sombra, inimiga do trabalho! Prosperidade de jatinhos, de carrões, de ternos, de jóias, de viagens, de mansões e restaurantes caros - prosperidade de luxúria! Prosperidade, para o Deus da Bíblia, é algo que ele dá a alguns para que estes sejam instrumento Seu para abençoar àqueles que nada tem! Não é à toa que está escrito: "Porque não é para que os outros tenham alívio, e vós, sobrecarga; mas para que haja igualdadesuprindo a vossa abundância, no presente, a falta daqueles, de modo que a abundância daqueles venha a suprir a vossa falta, e, assim, haja igualdade, como está escrito: O que muito colheu não teve demais; e o que pouco, não teve falta." (II Co  8.13-15) 

Assim, perceba que o pensamento e a vontade de Deus sobre o cuidado com os pobres e mais vulneráveis à exploração não mudou. É o mesmo pensamento, a mesma vontade, manifesta tanto no Antigo quanto no Novo Testamento.  A forma como nós, povo de Deus, somos usados pelo próprio Deus para abençoar estas pessoas pode mudar, mas o fato de Deus nos requerer disponíveis para a ministração dessa graça não mudou. Contextos mudam, a Vontade de Deus permanece para sempre!

Qual é o contexto hoje? O contexto hoje é o do materialismo e do egocentrismo. A humanidade está muito materialista e muito, mas muito egocêntrica. Raríssimas pessoas estendem a mão para ajudar a quem precisa! Raríssimas são aquelas que se compadem dos pobres, dos injustiçados, dos indefesos, dos oprimidos social e economicamente. Líderes mundiais ditos "de esquerda", como o autoproclamado presidente-ditador da Venezuela, fazem das "tripas ao coração" para perpetuarem-se no poder às expensas do bem-estar de seu povo. Milhares de pessoas abandonam todos os dias seus lares, suas casas, suas famílias e seus países em busca de terem o mínimo para poder sobreviver, indo em direção a outros países. Uma vez neles, passam a serem vítimas de toda a sorte de exploração e de maldade. Veja, por exemplo, o caso das mulheres venezuelanas que vieram para o Brasil: muitas acabaram na prostituição. Sabe por que? Para poderem se sustentar e sustentar seus filhos! Isso mesmo: mães, donas de casa, esposas, com ensino superior e qualificação profissional... vendendo seus corpos, violando-se a si mesmas, expostas a toda a sorte de doenças e a todo tipo de violência, para poderem ter o que comer! 

A reportagem veiculada pelo Estadão relata o drama das meninas venezuelanas obrigadas a se prostituir para comer (https://brasil.estadao.com.br/noticias/geral,prostituicao-vira-opcao-para-imigrantes-venezuelanas-em-roraima,70002278447). Muitos outros veículos de notícias relataram o drama das venezuelanas (acesse: https://www.dn.pt/lusa/interior/venezuela-oitenta-reais-o-preco-das-venezuelanas-que-sobrevivem-da-prostituicao-no-norte-do-brasil-9813595.html). Assista a baixo a reportagem do Câmera Record (link: https://www.youtube.com/watch?v=sliqYllS2ns). Note o que o repórter diz: são os brasileiros que mais exploram essas mulheres! Enquanto isso, enquanto os venezuelanos não tem nem o que comprar para comer em seu país e precisam se prostituir noutras nações, o ditador venezuelano refestela-se num banquete luxuoso em restaurante caro, em Istambul/Turquia!



Eu reconheço que para o país que recebe esses refugiados é muito difícil dar uma solução. Até porque a solução tem que partir do país de origem. Reconheço que países como os da América do Sul, que vivem profundas crises internas, socias e econômicas, receber mais pessoas faz com que essas crises sejam agravadas. Um exemplo disso é a saúde pública: no Brasil, só para ilustrar, com médicos, técnicos e enfermeiros sem receberem salários há meses - além da falta de pessoal; sem medicamentos e equipos e sem infraestrutura adequada (pessoas internadas em cadeiras e no chão, banheiros podres, baratas e ratos por todo lado, sem ar-condicionado, sem monitores cardíacos, etc.) para os próprios brasileiros, dar atendimento ainda a milhares de pessoas de outras nações é impossível (a roubalheira de recursos destinados à saude, pela classe política aliada com um conjunto de empresários picaretas, tem sido imensa ao longo dos anos)! A mesma análise pode ser feita nos sistemas trabalhistas, educacionais e de moradia. Reconheço que não dá simplesmente para invadir esses países e tirar o muquirana ditador à força do poder, que a solução é muito delicada. Não tenho respostas diretas para como as nações devam lidar com esse tipo de problema, ainda que deve ser descartado totalmente toda e qualquer medida que "feche as portas da nação" para esses refugiados. Nesse sentido, construir um muro na fronteira para impedir a entrada deles está totalmente fora de questão, como quer os EUA. De igual modo, a prática de mais violência contra essas pessoas é algo extremamente maligno, como propõe o partido Alternativa para a Alemanha (em alemão: Alternative für Deutschland, sigla AfD). 

No entanto, ainda que as soluções não sejam fáceis, o êxodo de refugiados deve servir de aviso divino para os governos e nações do mundo. Cada vez mais, aumenta o fluxo de imigrantes refugiados em diversas partes do globo e isso tende a crescer ainda mais. Com o aumento das guerras, doenças, escassez de trabalho e de comida (já prejudicada pelas mudanças climáticas), mais e mais pessoas necessariamente sairão de seus países em direção a outros mais abastados. Esses países "de primeiro mundo", como os da Europa e EUA, terão que lidar com isso gostando ou não. Não devemos nos esquecer que muito do que ocorre no mundo hoje deve-se às políticas comerciais e tecnológicas adotadas por essas nações ao longo de séculos a fio, explorando os recursos naturais e mão-de-obra das nações ditas "subdesenvolvidas" em prol de sua cobiça desenfreada, do "welfare state", do "modo de vida" de luxúria dessas nações às expensas de outras. O pecado que as nações cometeram por séculos a fio contra outras nações voltará para elas, timtim por timtim, não tenha dúvida disso! O sangue de crianças inocentes, de homens e mulheres, derramado para que madames tenham diamantes pendurados até no nariz está clamando da Terra para o céu! Mesmo no caso das nações "de terceiro mundo", haverá forte juízo contra ela por causa do sangue derramado na violência urbana, na morte de inocentes, nos hospitais, etc. para políticos e governantes diabólicos viverem como nababos. O Dia do Senhor vem contra todas as nações da Terra: "Porque o Dia do SENHOR está prestes a vir sobre todas as nações; como tu fizeste, assim se fará contigo; o teu malfeito tornará sobre a tua cabeça." (Obadias 1:15)

Aqui entra o papel da igreja, o qual ela vem sistematicamente negligenciando: PRIMEIRO, de parar de uma vez por todas de alimentar esse pecado de luxúria e de cobiça desenfreada, de desejo satânico de poder a qualquer custo, prostituindo-se com a política e com o mundo e seus valores. CHEGA! Chega dessa podridão, desse fedor de excremento pútrido que muitas denominações ditas cristãs vem exalando por imiscuir-se com o mundo! Vou grafar em maíscula: IGREJA NÃO APÓIA POLÍTICO NENHUM SEJA ELE DE QUE ORIENTAÇÃO FOR, NÃO ABRE PÚLPITO PARA POLÍTICO NENHUM, NÃO NEGOCIA COM O MUNDO E SEU SISTEMA E NEM ADOTA PARA SI OS MESMOS VALORES QUE O MUNDO ADOTA! Igreja é local de comunhão, de vida com Deus, de conversão, de ensino bíblico para a vida eterna, de misericórdia e de amor. Não é lugar de "irmão vota em irmão", de "ele sim/ele não" e outros mundanismos do gênero! Não é lugar de troca de apoio político por participação/cargo na administração! Não é lugar de exaltação a um estilo de vida nababesco e luxurioso como ideal para um cristão, em "pede-pede" de grana (justificada na "satanalogia da prosperidade", "proste-se e me adore que eu tudo te darei") para viver com boi na sombra e para crescimento e glória do império neobabilônico chamado "minha denominação evangélica, do fundador presidente bispo sumo apóstolo pontifex maximus"! Pastor nenhum é e nem deve querer ser um Nabucodonosor moderno, tampouco nenhum crente deve sê-lo ou querer sê-lo ou mesmo apoiar/financiar tal ambição! 

SEGUNDO, espera-se que a mão daquela que serve (ou diz servir) ao Senhor não seja mirrada. Assim, deve usar toda a grana que ajuntou e estender a mão para os necessitados. Deve fazer isso enquanto coletividade (que espera-se não ser a coletividade Borg) e enquanto indivíduo. Tem muito? Não vai te fazer falta dar comida a quem tem fome, nem roupa ao nu, nem água ao sedento! Agora, atenção: não é fazer isso como é feito em muitas denominações, onde a misericórdia prática só acontece nos eventos ditos missionários. Isso é misericórdia fogo de palha, para aplacar a consciência! Pergunto: quem tem fome, tem-na um único dia? Sua necessidade será plenamente satisfeita num único evento isolado? NÃO! A ajuda tem que ser diária, ou pelo menos dar para a pessoa sobreviver durante um tempo com ela; quando acabar, tem que ajudar de novo, de novo e de novo até resolver definitivamente a situação daquela pessoa!  Só para exemplificar: no vídeo acima, uma venezuelana se prostitui por R$ 80. Será que a igreja não pode dispor desse valor, de modo a tirar essas mulheres das ruas (se não todas, pelo menos uma única)? E faça-me um favor: tem recurso que dá e sobra para isso! Tem para alugar casa de festa para a denominação, então tem que ter para isso também! Tem para o jatinho do pastor, para o terninho novinho dele! Tem para a saia comprida da irmã!, para o brinco caro da outra, para a bota python! Tem para gravar CD/DVD! DÍZIMOS E OFERTAS SERVEM É PARA AJUDAR QUEM PRECISA POVO DE DEUS, NÃO PARA SUSTENTAR VIDA MANSA DE NINGUÉM! Mesmo pequenas denominações podem ajudar: se não contribuindo diretamente, podem ajudar contribuindo com o trabalho. É só olhar direitinho que você verá facilmente muita coisa que essas pessoas, que vivem em extrema miséria e pobreza, precisam e que são passíveis de serem atendidas! Afinal, temos pedreiros, carpinteiros, mecânicos, donas de casa, médicos, enfermeiros, físicos, engenheiros, professores, pedagogos, psicólogos, dentistas, advogados, juízes, empresários, etc. convertidos a Cristo; amém? Será que esses irmãos e irmãs não podem ajudar em nada? Não acredito nisso!

Segundo dados da a Agência da ONU para Refugiados, estamos testemunhando os maiores níveis de deslocamento já registrados. Cerca de 68,5 milhões de pessoas em todo o mundo foram forçadas a sair de casa. Entre elas estão quase 25,4 milhões de refugiados, mais de metade dos quais são menores de 18 anos. Refugiados são pessoas que estão fora de seu país de origem devido a fundados temores de perseguição relacionados a questões de raça, religião, nacionalidade, pertencimento a um determinado grupo social ou opinião política, como também devido à grave e generalizada violação de direitos humanos e conflitos armados. (fonte: https://www.acnur.org/portugues/)


Um filme muito bacana sobre o exemplo de um homem que salvou milhares de refugiados da morte é "A Lista de Schindler". O filme retrata a vida de Oskar Schindler, um empresário alemão que salvou a vida de mais de mil judeus durante o Holocausto ao empregá-los em sua fábrica. Sustentado a alegação que seus trabalhadores eram essenciais para a iniciativa de guerra alemã, Schindler interviu por seus funcionários quando eram submetidos às condições brutais do campo de concentração de Plaszow, através de subornos e diplomacia pessoal. Em outubro de 1944, Schindler obteve autorização dos alemães para mudar a fábrica para Morávia, e seu assistente elaborou várias versões de uma lista com os nomes de 1.200 prisioneiros judeus necessários para trabalhar na nova fábrica. Estas listas ficaram conhecidas, entre os judeus, como “A lista de Schindler” (fonte: https://medium.com/louca-por-hist%C3%B3ria/conhe%C3%A7a-a-hist%C3%B3ria-que-originou-o-filme-a-lista-de-schindler-bceefce546d4). Eis um diálogo muito significativo, num trecho do filme:

Oskar Schindler: Eu poderia ter conseguido mais. Eu poderia ter conseguido mais. Eu não sei. Se eu ao menos... Eu poderia ter conseguido mais.
Itzhak Stern: Oskar, há mais de mil e cem pessoas aqui que estão vivas por causa de você. Olhe pra elas.
Oskar Schindler: Se eu tivesse feito mais dinheiro... Eu gastei tanto dinheiro. Você não tem idéia. Se eu ao menos...
Itzhak Stern: Haverão gerações graças ao que você fez.
Oskar Schindler: Eu não fiz o bastante!
Itzhak Stern: Você fez muito.
[Schindler olha para o seu carro]
Oskar Schindler: Este carro. Goeth teria comprado este carro. Por quê eu fiquei com ele? Dez pessoas logo ali. Dez pessoas. Dez pessoas a mais.
[remove seu distintivo nazista de ouro da lapela]
Oskar Schindler: Este distintivo. Duas pessoas. Duas pessoas a mais. Ele teria me dado duas por isso, no mínimo. Uma pessoa. Uma pessoa, Stern. Por isto.
Oskar Schindler: Eu poderia ter conseguido mais uma pessoa... e eu não fiz isso! E eu... não fiz isso!

(fonte: https://alistadeschindler.com/Filme/CitacoesMemoraveis)

Note, querido(a) leitor(a): Deus não mudou! O Senhor jamais muda! Ele não é homem para que minta, nem filho de homem para que se arrependa! Dar pão ao que em fome e roupa para o nu, aliviar os oprimidos e menos favorecidos é função especial da Igreja! Amar ao Senhor e amar ao próximo como a si mesmo são os dois grandes mandamentos, dos quais se derivam os demais, e o resumo da Bíblia! Como disse o pr. Caio Fábio, "Deus não tem nenhum altar de culto fora do amor ao próximo! Quem não entendeu isso ainda nada compreendeu do Evangelho!" As nações, por sua vez, tem também o seu papel nisso. Nenhuma nação que se diga cristã, preservadora de valores e da família, onde Deus é dito estar acima de todos, pode fechar seus olhos e recolher suas mãos para os refugiados, sob pena de juízo severo da parte de Deus! Xenofobia e ultranacionalismo não encontram base em Cristo nem na mensagem de Sua cruz! O amor é prático! Deus levantou um Schindler e uma Madre Teresa no passado, hoje quer despertar e levantar Seu povo para isso! Lembre-se, por fim, do que disse o Senhor sobre os dois grandes grupos que haverá por ocasião de sua vinda: 
  • GRUPO 1, DAS OVELHAS: "Então, dirá o Rei aos que estiverem à sua direita: Vinde, benditos de meu Pai! Entrai na posse do reino que vos está preparado desde a fundação do mundo. Porque tive fome, e me destes de comer; tive sede, e me destes de beber; era forasteiro, e me hospedastes; estava nu, e me vestistes; enfermo, e me visitastes; preso, e fostes ver-me. Então, perguntarão os justos: Senhor, quando foi que te vimos com fome e te demos de comer? Ou com sede e te demos de beber? E quando te vimos forasteiro e te hospedamos? Ou nu e te vestimos? E quando te vimos enfermo ou preso e te fomos visitar? O Rei, respondendo, lhes dirá: Em verdade vos afirmo que, sempre que o fizestes a um destes meus pequeninos irmãos, a mim o fizestes." (Mt 25.34-40)
  • GRUPO 2, DOS BODES: "Então, o Rei dirá também aos que estiverem à sua esquerda: Apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno, preparado para o diabo e seus anjos. Porque tive fome, e não me destes de comer; tive sede, e não me destes de beber; sendo forasteiro, não me hospedastes; estando nu, não me vestistes; achando-me enfermo e preso, não fostes ver-me. E eles lhe perguntarão: Senhor, quando foi que te vimos com fome, com sede, forasteiro, nu, enfermo ou preso e não te assistimos? Então, lhes responderá: Em verdade vos digo que, sempre que o deixastes de fazer a um destes mais pequeninos, a mim o deixastes de fazer. E irão estes para o castigo eterno, porém os justos, para a vida eterna." (Mt 25.41-46)
Pense nisso!
Graça e paz!

domingo, 6 de janeiro de 2019

RELIGIÃO: A FÉ EM CRISTO NUMA CASCA DE NOZ


"Eu poderia viver recluso numa casca de noz e me considerar rei do espaço infinito..." (William Shakespeare, "Hamlet", ato 2, cena 2) 

Dentro de uma casca de noz. Limitado no espaço, no tempo e na cosmovisão. E mesmo assim considerar-se rei do infinito. Parece uma tarefa simples, afinal tudo o que essa pessoa conhece é tudo o que ela vê e assim o seu infinito é aquilo que seus sentidos podem captar. Um infinito que é na verdade finito. E pequeno. 

O físico Stephen Hawking usou o mesmo texto citado no início dessa argumentação como inspiração para escrever seu bestseller "O Universo numa Casca de Noz". Segundo Hawking, não devemos ficar reclusos em nosso próprio "universo", mas expandir nossos pensamentos ao infinito.  A partir dessa lógica, ele discorre sobre Cosmologia, de forma simples e agradável. 

Viver numa casca de noz sem nunca considerar esta limitação é algo muito comum. É comum nas atividades humanas; onde há um ser humano, haverá sempre a possibilidade deste considerar a si mesmo "rei", isto é, conhecedor de toda a realidade possível, em virtude dessa realidade ser apenas uma fração de uma realidade infinitamente maior. Essa arrogância é típica de muitos pesquisadores em suas áreas de saber, que ao reduzirem a realidade passam a crer que já atingiram o clímax do conhecimento. Uma vez na casca de noz, cessa a curiosidade e consequentemente a capacidade de fazer perguntas, estagnando o conhecimento e com ele a própria compreensão da realidade das coisas. 

Reduzir a realidade para tentar compreendê-la não é, por si só, algo ruim. Na verdade, se tentássemos entender a realidade que nos envolve e da qual somos participantes, sob todos os seus amplos e inumeráveis aspectos, nunca iríamos chegar a conhecimento algum. Imagine tentar entender a Química, por exemplo, sem particularizar esse estudo, sem reduzi-la nas disciplinas de Fisico-Química, Química Orgânica, Química Inorgância, Química Geral, Química Analítica, Bioquímica, Termodinâmica, Química Quântica, Cinética Química e Catálise, etc.! O grande desafio no entendimento de qualquer assunto é tanto considerar (1) se não é possível haver algum aspecto daquela área que não foi abordado, quanto (2) como juntar as partes, ou seja, como entender a área maior a partir de suas partições menores. 

Considerando agora a fé em Cristo, discernir as partes da realidade é fundamental. Podemos viver as partes como se fossem toda a realidade sem nunca considerar que existe uma realidade maior, superior a que estamos vivendo. Podemos fazer pior: podemos considerar como parte da fé aquilo que jamais foi, é ou será uma parte da mesma, vivendo a fé e considerando-a em seu clímax a partir dessa falsa parte. É possível viver numa caverna escura, acorrentado, de costas para a luz, ignorando por completo que há um mundo fora da caverna e, ainda assim, crer que está vivendo em plena relidade das coisas. Isso muito se assemelha ao mito ou Analogia da Caverna, de Platão:

Imaginemos homens que vivam numa caverna cuja entrada se abre para a luz em toda a sua largura, com um amplo saguão de acesso. Imaginemos que esta caverna seja habitada, e seus habitantes tenham as pernas e o pescoço amarrados de tal modo que não possam mudar de posição e tenham de olhar apenas para o fundo da caverna, onde há uma parede. Imaginemos ainda que, bem em frente da entrada da caverna, exista um pequeno muro da altura de um homem e que, por trás desse muro, se movam homens carregando sobre os ombros estátuas trabalhadas em pedra e madeira, representando os mais diversos tipos de coisas. Imaginemos também que, por lá, no alto, brilhe o sol. 

Finalmente, imaginemos que a caverna produza ecos e que os homens que passam por trás do muro estejam falando de modo que suas vozes ecoem no fundo da caverna. Se fosse assim, certamente os habitantes da caverna nada poderiam ver além das sombras das pequenas estátuas projetadas no fundo da caverna e ouviriam apenas o eco das vozes. Entretanto, por nunca terem visto outra coisa, eles acreditariam que aquelas sombras, que eram cópias imperfeitas de objetos reais, eram a única e verdadeira realidade e que o eco das vozes seriam o som real das vozes emitidas pelas sombras.

Suponhamos, agora, que um daqueles habitantes consiga se soltar das correntes que o prendem. Com muita dificuldade e sentindo-se freqüentemente tonto, ele se voltaria para a luz e começaria a subir até a entrada da caverna. Com muita dificuldade e sentindo-se perdido, ele começaria a se habituar à nova visão com a qual se deparava. Habituando os olhos e os ouvidos, ele veria as estatuetas moverem-se por sobre o muro e, após formular inúmeras hipóteses, por fim compreenderia que elas possuem mais detalhes e são muito mais belas que as sombras que antes via na caverna, e que agora lhes parece algo irreal ou limitado.

Suponhamos que alguém o traga para o outro lado do muro. Primeiramente ele ficaria ofuscado e amedrontado pelo excesso de luz; depois, habituando-se, veria as várias coisas em si mesmas; e, por último, veria a própria luz do sol refletida em todas as coisas. Compreenderia, então, que estas e somente estas coisas seriam a realidade e que o sol seria a causa de todas as outras coisas. Mas ele se entristeceria se seus companheiros da caverna ficassem ainda em sua obscura ignorância acerca das causas últimas das coisas. Assim, ele, por amor, voltaria à caverna a fim de libertar seus irmãos do julgo da ignorância e dos grilhões que os prendiam. Mas, quando volta, ele é recebido como um louco que não reconhece ou não mais se adapta à realidade que eles pensam ser a verdadeira: a realidade das sombras. E, então, eles o desprezariam...


Exatamente assim dá-se com quem vive sua fé em Cristo aprisionado na caverna da religião. Sim, a religião é uma verdadeira caverna escura, onde a realidade maior é convenientemente substituída por uma compreensão deturpada dessa realidade, onde a fé em Cristo se resume em assistência aos cultos e programações e na contribuição financeira com os mesmos (e com a liderança religiosa). Nessa "casca de noz", aquilo que é grande é apequenado de forma conveniente. Não para compreensão, não para entendimento, mas para obscurecimento da verdade. Nada escapa da religiosificação.

É interessante perceber que a religião dita cristã traz seus elementos de verdade. O problema é verdade e mentira foram diluídos e então cristalizados juntos, ou seja, a religião resume-se em elementos da verdade cristalizados juntos com a mentira, não uma verdade pura. Com isso, com a mistura, a verdade perde muito do seu poder real e transformador. Veja, a religião cristã pode ter pregação da Bíblia, mas o poder dessa pregação esvai-se à medida que a realidade por ela abrangida restringe-se à vida na casca de noz, dentro da religião. Prega-se sobre a plena liberdade em Cristo, por exemplo, mas ao mesmo tempo delimita-se para os ouvintes essa liberdade, restringindo-a ao ato de ir aos cultos dominicalmente, ser bom dizimista/ofertante e nunca, jamais e em hipótese alguma questionar das decisões e erros da liderança, tornando os efeitos dessa pregação inócua. Ensina-se, por exemplo, sobre comunhão entre os cristãos com direito a citações de textos em grego e hebraico, mas reduz-se essa "comunhão" a meros gestos nas reuniões, onde após a mesma cada um vai para sua casa e dane-se o outro com seus problemas; onde ninguém se entende, ninguém considera ninguém - onde nora quebra pau com sogros e cunhados e vice-versa, onde líderes traem outros por cobiça de posição, por "tapinha nas costas"; onde "toda paz, todo amor" tão badalados em verso e prosa não passam de cena religiosa. Ensina-se sobre fé, mas o exercício dessa fé é somente nos brados e gritos durante as reuniões, onde precisa-se frequentemente de um "objeto de fé" para servir de "ponto de contato pós-reunião". Tudo isso é apenas discurso vazio, inócuo.

Conheço muita gente que vive exatamente assim, numa casca de noz religiosa: tem aqueles que convidam outros para suas reuniões não com o propósito de ajudá-los, ou por simples gesto de amor desinteressado por todas as demais coisas mas totalmente interessado por elas; antes, o fazem para aumentar o número de frequentadores e assim "ganharem pontos" junto às suas lideranças, ou até à Deus. "Precisamos fazer essa igreja crescer!", "Fulano é mau obreiro porque não faz a obra crescer!", e por aí vai, esfolando-se para aumentar o público pagante. Tem outros que acham que cuidar de igreja é preparar lanchinhos e manter sempre o local de reuniões limpinho (não que isso não seja importante, mas note o reducionismo). Tem aqueles que acham que pastorear é sinônimo de pregação triunfalística psicologizada, aceitando tudo que é pecado sem nunca advertir e orientar realmente a pessoa. Tem aqueles que assistem às reniões apenas por causa da pressão exercida na casca de noz, para não serem "julgados e sentenciados" como "rebeldes", "desviados", "falsos cristãos", e por aí vai. No fundo de seus corações, consideram aquilo tudo um saco, uma perda de tempo: vão porque tem que ir, estão porque tem que estar, fazem porque tem que fazer; não por real amor ou interesse genuíno em Deus e nos outros. Se pudessem, estariam noutro lugar, como numa praia ou num cinema ou mesmo em casa. Mas, ao estarem presentes, mesmo contrariados, naquela "prisão da alma", seus "líderes-carcereiros" dirão que "está tudo bem na vida deles", "que estão em comunhão" e que "Deus os abençoará por ali estarem"! 

Leia a Bíblia, especialmente o Novo Testamento. Você terá um choque ao lê-la e comparar o que ela diz com aquilo que se vive na casca de noz religiosa, na caverna das trevas da religião. Princípios muito claros no Novo Testamento (que está no Antigo também, mas no Novo é gritante) são o do exercício da fé em Cristo respeitando-se sempre a liberdade do cristão (liberdade de ir e não ir, de fazer ou não fazer, de comer e não comer, de contribuir com quanto quiser e não contribuir, dessas contribuições serem destinadas para ajudar aos irmãos necessitados), do exercício do amor a Deus de forma concomitante e indissolúvel do amor do próximo, do interesse do coração em estar reunido (reunião é por prazer, por amor, não por coação), do desejo sincero de edificar vidas, de sempre abençoar pessoas (independente de elas crerem ou virem a crer ou não como os cristãos crêem), de viver a vida de bem com todos, do perdão pessoal e do perdão divino interligados, de suportar com fé o mal, de corrigir e ajudar os que se desviam, de socorrer os aflitos e atribulados até mesmo com as posses se preciso for, de todos poderem participar ativamente das reuniões (de forma ordenada, é claro), do cultivo de uma vida valorosa e cheia de boas obras, da evidência do fruto do Espírito como modo de vida (e não mera curiosidade bíblica), e por aí vai. Da compreensão da Unidade da fé como algo maior do que a unidade denominacional. De que uma pessoa ou denominação não é "feliz proprietário" da verdade em detrimento de outra denominação "que está nas trevas" (a síndrome dos únicos certos).  Que mesmo aqueles que não crêem ainda em Cristo como Senhor e Salvador pessoal tem seu valor para nós e que Deus pode trazê-los a nós de forma que haja um relacionamento benéfico e abençoador para ambos. Que o cescimento do Reino de Deus é antes de tudo interior e não exterior, para só então ser exteriorizado. Que a tão propalada "obra de Deus" é constituída 100% de pessoas vivas, não de coisas; fazer a obra é então cuidar dessas pessoas pelas quais Cristo morreu, não cuidar de estruturas sem vida. Que Igreja é diferente de denominação, que é possível ser Igreja sem ser denominação ou estar em uma denominação. Percebe como a fé em Cristo é muito, mas muito maior do que aquilo que se vive na dita religião cristã??

Quem vive numa casca de noz, limitado em sua vida e em sua compreensão, acha-se "rei do infinito". São "reis da divindade", "entendedores de Deus", decifradores dos códigos da Bíblia, possuidores dos segredos eternos do Altíssimo. Os "reis do infinito" fazem uma imensa questão de serem assim reconhecidos! Veja, por exemplo, o que se dá com o tal "conhecimento bíblico": quanto mais se conhece, menos se vive e mais "arrota-se" superioridade sobre os demais! A pessoa faz questão de ler a Bíblia e de ler muitos e muitos livros e enciclopédias sobre a Bíblia somente para dizer para si mesmo e para outros "eu conheço isso tudo!" E ai de quem não concorde com ela! Conhecimento bíblico, assim, na denominação, vira "coisa de especialista em Deus" com direito a "esfregar" "o currículo ministerial" na "cara dos outros"! Afinal, ninguém é tão "rei do infinito" quanto o fulano é, devendo todos se recolherem às suas insignificâncias diante de sua Majestade! Sua Majestade falou, tá falado!

Minha proposta para você, dileto(a) leitor(a), é que você procure enxergar sua fé em Cristo além da abóbada da casca religiosa. Faça isso a partir da Bíblia, do Novo Testamento especialmente (lembre-se que o Novo Testamento tem ascendência sobre o Antigo Testamento em matéria de fé para o cristão; qualquer ensino derivado do Antigo deve ser comparado com o Novo). E, a partir dessa realidade expandida, viva intensamente esta fé! Jesus, em João 10, nos diz que o ladrão (os líderes religiosos, que usam e se aproveitam da religião para benefício próprio, cujo o dinheiro e a influência é o que lhes importam) veio para matar, roubar e destruir; ao contrário, Ele veio para nos dar vida e vida em abundância! Os "reis do infinito" um dia constatarão sua pequenez e insignificância, quando se deparem com o Infinito Ressuscitado, o Verdadeiro Rei dos reis e Senhor dos senhores! Não seja você mais um rei do infinito, saia da casca e veja que há uma realidade superior, de Deus para você! Passe a viver, de verdade, a sua fé em Cristo! A fé verdadeira, expandida, é maravilhosa! Chega de teorias! Chega de discursos que nunca viram prática, chega de toda religiosificação da fé! Chega de vida de caverna em trevas, de casca de noz! Venha para a luz em Cristo! 

"Mas a vereda dos justos é como a luz da aurora, que vai brilhando mais e mais até ser dia perfeito. O caminho dos perversos é como a escuridão; nem sabem eles em que tropeçam." (Pv 4.18,19) 

Pense nisso!
Graça e paz!

quarta-feira, 26 de dezembro de 2018

QUANDO VOCÊ SE TORNA UM EMPECILHO AO PROJETO PESSOAL DE ALGUÉM

Essa postagem foi extraída do blog do Bispo Hermes C. Fernandes (http://hermesfernandes.blogspot.com/), de autoria do próprio.

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QUANDO VOCÊ SE TORNA UM EMPECILHO AO PROJETO PESSOAL DE ALGUÉM


Por Hermes C. Fernandes
sexta-feira, dezembro 07, 2018

Era uma vez um rei rico e poderosíssimo que do alto de seu palácio avistou uma modesta propriedade e a cobiçou. Tratava-se de uma vinha como outra qualquer, tão comum naqueles dias no território de seu reino. Porém, algo o incomodava. Todos os dias, ao acordar e abrir a janela de seu quarto, ele dava de cara com o seu vizinho Nabote, cultivando cuidadosamente sua plantação. Se aquela vinha fosse em qualquer outro lugar, ele não se importaria. Mas era justo ali, bem debaixo de seu nariz. Ouvir Nabote e seus servos cantarolando enquanto colhiam as uvas soava-lhe como um insulto.

O rei Acabe, então, começou a se perguntar: “Por que esta vinha não pode ser minha? Se sou o dono do palácio, por que não posso ser também seu dono? Posso transformá-la em uma horta!”

Ele não queria apenas se apropriar daquela terra, mas também acabar com o que nela estava plantado. Seu sonho era arrancar videira por videira e substitui-la por hortaliças. Tudo isso por um mero capricho.

O fato é que o ser humano nunca se dá por satisfeito. Quanto mais tem, mais quer. E como diz o adágio, a grama do vizinho é sempre mais verde que a do nosso próprio quintal. O outro sempre tem o que nos falta. Então, o que nos resta, senão tentar nos apropriar do que é seu?

Num belo dia, Acabe resolve fazer uma oferta a Nabote. Ele estava disposto a dar a Nabote uma vinha melhor do que aquela em qualquer lugar do reino, ou a pagar em dinheiro o valor que fosse pedido, mas, para seu desgosto, Nabote rejeitou sua oferta, alegando que a vinha era uma herança que recebera de seus pais.

Não há preço que pague por aquilo a que atribuímos valor. Para Nabote, a vinha não era somente um meio de subsistência para a sua família, mas uma herança pela qual deveria zelar. Se Acabe lhe oferecesse dez vezes o seu valor, ele certamente recusaria.

Muito antes que Acabe construísse ali o seu nababesco palácio, os ancestrais de Nabote já cultivavam aquelas terras. Portanto, o intruso ali era Acabe, não Nabote. Os direitos de um se baseavam na posição que ocupava, os do outro, na ocupação em que se posicionava. Nabote pertencia a Jezreel. Acabe, a Jezabel.

Acabe sentiu-se ofendido pela recusa da oferta. Voltando para casa, deitou-se em sua cama e virou-se para a parede. O que é uma vinha para quem tem um palácio? Ele não sossegaria enquanto aquela propriedade não fosse transformada em seu quintal.

Sua mulher, a perversa rainha Jezabel, perguntou-lhe a razão de sua angústia, e ao tomar conhecimento do ocorrido, propôs-se reverter a situação em seu benefício. Mas não sem antes chamar-lhe atenção:

“Governas tu agora no reino de Israel? Levanta-te, come pão, e alegre-se o teu coração; eu te darei a vinha de Nabote.”

Em outras palavras: “Acabe com isso, Acabe! Vira homem! Pare de ficar choramingando pelos cantos! Você é ou não é o rei desta bagaça! Se ele se recusa a vender a propriedade, vai lá e toma. Faça valer sua autoridade! Sabote a Nabote!”

Há pessoas que têm o dom de incitar o que há de pior em nossa natureza. Ainda que pareçam desejar o nosso bem, encorajando-nos a uma tomada de posição, usam de artifícios nada louváveis, desafiando-nos o brio.

A malévola rainha escreveu cartas em nome do rei, usou seu anel real para assiná-las, e enviou-as aos anciãos e nobres da cidade. Provavelmente, Acabe nem sequer leu o que fora assinado com o seu anel. Outro pensou e decidiu por ele. Triste quando somos colocados numa posição involuntariamente, sem que tenhamos sido consultados. Triste quando alguém se acha no direito de decidir o que é melhor para nós.

Quem não consegue nos manipular, geralmente se aproveita da ingenuidade das pessoas para manipulá-las contra nós. Nabote demonstrou que não era manipulável. Portanto, Jezabel decidiu resolver a questão manipulando pessoas para deporem contra ele.

Sua ordem foi direta e específica, porém, revestida de uma falsa aura de espiritualidade. Descaradamente, ela manda convocar um jejum. Quem poderia questionar algo que fosse acompanhado de uma disciplina espiritual tão valorizada naqueles dias? Porém, o tal jejum era apenas uma estratégia baixa para encobrir seu verdadeiro intento. Assim como há quem se utilize até de um pedido de oração para espalhar boatos maldosos com o objetivo de destruir a reputação alheia.

Dois “filhos de Belial” (assim eram chamados homens ímpios que se vendiam por qualquer trocado) foram subornados para testemunharem contra Nabote, afirmando por A mais B que ele havia blasfemado contra Deus e contra o rei. A sentença para isso não poderia ser outra, senão a morte.

Ali, diante de um povo aparentemente piedoso, Nabote foi friamente executado por apedrejamento, e assim, sua terra pôde ser encampada pelo rei.

Para o casal de monarcas, Nabote não passava de um empecilho que precisava ser removido de seu caminho. Por recusar a oferta do rei, pagou com a própria vida.

Existem maneiras distintas de se livrar de um empecilho. Antes de tirar-lhe a vida, trataram de destruir sua reputação. Mas o que realmente queriam era sua propriedade. Assim como há quem justifique uma decisão injusta em um suposto erro alheio. Por trás dos motivos alegados, há razões inconfessáveis. Decisões que parecem ser tomadas de última hora, já estavam sendo engendradas há anos, esperando tão somente a oportunidade para ter em que se justificar.

O que era uma vinha, cujos frutos se eternizavam ao serem processados e transformados em vinho para alegrar a tantos, agora se tornava numa horta cujo objetivo seria o de saciar necessidades imediatas e o capricho de um rei ensandecido e insensato. Cultivar uma vinha é sempre mais trabalhoso. Há que se esperar, esperar e esperar, até que as uvas brotem. Uma vez colhidas, terão que ser pisadas para a extração do mosto, e em seguida, colocadas para fermentar até que surja o bom e desejável vinho. Já a horta é para quem tem pressa e almeja resultados imediatos, e que para tal, é capaz até de sacrificar a honra, a lealdade, a amizade, e o compromisso um dia assumido diante de Deus e dos homens.

 * Baseado em fatos reais relatados em 1 Reis 21:7-15  

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GUERRAS ORDENADAS POR DEUS: ENTENDENDO ANTIGO E NOVO TESTAMENTOS

Quando te achegares a alguma cidade para combatê-la, apregoar-lhe-ás a paz.
E será que, se te responder em paz, e te abrir as portas, todo o povo que se achar nela te será tributário e te servirá.
Porém, se ela não fizer paz contigo, mas antes te fizer guerra, então a sitiarás.
E o Senhor teu Deus a dará na tua mão; e todo o homem que houver nela passarás ao fio da espada.
Porém, as mulheres, e as crianças, e os animais; e tudo o que houver na cidade, todo o seu despojo, tomarás para ti; e comerás o despojo dos teus inimigos, que te deu o Senhor teu Deus.
Assim farás a todas as cidades que estiverem mui longe de ti, que não forem das cidades destas nações.
Porém, das cidades destas nações, que o Senhor teu Deus te dá em herança, nenhuma coisa que tem fôlego deixarás com vida.
Antes destruí-las-ás totalmente: aos heteus, e aos amorreus, e aos cananeus, e aos perizeus, e aos heveus, e aos jebuseus, como te ordenou o Senhor teu Deus.
Para que não vos ensinem a fazer conforme a todas as suas abominações, que fizeram a seus deuses, e pequeis contra o Senhor vosso Deus.
(
Deuteronômio 20:10-18)

Guerra! A Bíblia, no Antigo Testamento, traz o registro de inúmeras batalhadas travadas pelo povo de Deus, por Israel, sob o comando de Deus. Podemos inferir, com base nisso, que Deus apóia a guerra? Ou que o cristão deve pegar em armas para defender-se? É um tema sério, que precisamos analisar sob diversas perspectivas. 

Longe da pretensão de querer esgotar o assunto, proponho a seguinte análise. 


I. DEUS É DEUS DE AMOR E DE MUITA LONGANIMIDADE, MAS DE JUSTIÇA TAMBÉM. 

Inicialmente, note que o mesmo Deus que comandou Israel como General Supremo no Antigo Testamento, também deixou claro que Ele nunca teve prazer em nada disso. O texto de Ezequiel assim descreve o sentimento de Deus para com a morte de ímpios: "Desejaria eu, de qualquer maneira, a morte do ímpio? diz o Senhor DEUS; Não desejo antes que se converta dos seus caminhos, e viva? Porque não tenho prazer na morte do que morre, diz o Senhor DEUS; convertei-vos, pois, e vivei" (Ezequiel 18:23,32).  Deus diz claramente que não deseja e nem tem prazer na morte de ímpios, ou seja, o sentimento Dele é de desprazer, de tristeza, de insatisfação com isso. Os sentimentos de Deus para com a morte de pessoas como consequência do pecado NUNCA serão o de prazer ou felicidade. O Deus da Bíblia, a quem João nos diz que é Amor, não é de forma alguma um sádico. A Bíblia, da criação à nova criação, revela um Deus que é santo, justo e bom. Deus tem bons planos para o mundo que ele fez. Seu caráter divino é revelado com precisão e perfeição pela sua reconciliação "todas as coisas" para si mesmo em e através de Jesus (Colossenses 1: 15-20).

Todas essas descrições de Deus descrevem-no como inabalável na retribuição ao mal, embora Ele não tenha deleite, também inabalável em amor e encorajamento em direção àqueles corações que estão voltados para Ele. O desejo óbvio de Deus é que os pecadores se arrependam e vivam. Deus leva ao limite máximo a Sua paciência, aguardando que os pecadores se convertam para só em último caso, depois de todas as oportunidades de arrependimento esgotarem, executar Seu justo juízo. Ele faz isso por amar o homem, mesmo o pior dos pecadores. Foi assim que Ele lidou com os povos cananeus na época do Antigo Testamento e é assim que Ele lida com cada pessoa, povo, tribo, língua e nação no Novo Testamento. Observe que Deus ordenou guerra contra Canaãs somente após 400 anos de espera para seu pecado atingir "a medida completa" (Gênesis 15:16). Isto é, Deus não puniu os cananeus pelo pecado imediatamente - sua misericórdia se prolongou por muito tempo, porque sua compaixão e graça são longas. E se os cananeus se tivessem voltado para Deus, eles seriam salvos e poupados. A história de Raabe fornece evidências para isso (Josué 2). Ela é salva por causa de sua fé em Deus, apesar do fato de ser prostituta e cananéia. Mesmo a história de Raabe não é única no Antigo Testamento, contradizendo o argumento de que o Deus bíblico é xenófobo ou um "purificador étnico": Jetro, o midianita, é trazido para o rebanho de Israel em sua fé (Êxodo 18) e Rute, a moabita, é claramente trazida para o rebanho de Israel por causa de sua fé em Deus (Rute 1). Os filhos de José e de Moisés são também de etnia mista, trazidos para a família de Deus.

Acrescente-se aqui que é dito nos textos judaicos (o Talmude) que quando os anjos quiseram recitar uma canção de louvor quando o Mar Vermelho cobriu os egípcios, Deus os repreendeu, uma vez que Ele não se regozija com a queda dos perversos: “Como podem cantar quando meu povo está morrendo?” (Talmude, Tratado Sinédrio, 39b). O que Deus estava dizendo aos anjos era que, em certo sentido, aquele não era um dia feliz. Ele não criara os egípcios para o mal; no entanto, por eles terem escolhido o mal, era necessário agora erradicá-lo. (fonte: http://www.aish.com/ci/s/When_Evil_Falls.html)


II. A REALIDADE MORAL DAS CIDADES-ESTADO CANANÉIAS.

Precisamos também ver essas terríveis retribuições em seu cenário histórico. A disseminação da maldade era tão penetrante que a imoralidade, a degradação e a barbárie invadiram todas as facetas da vida. As crianças eram sacrificadas aos deuses pagãos em rituais com requintes de crueldade. Nos templos cananeus havia prostitutas masculinas e femininas (homens e mulheres “sagrados”) e toda sorte de excessos sexuais eram praticados (orgias, bestialismos, sodomias, etc.). Acreditava-se que esses rituais faziam prosperar, de alguma forma, as colheitas e o gado. As mulheres, na adoração aos falsos deuses cananeus, mantinham relações sexuais com os "prostitutos cultuais" buscando deles engravidarem; quando homens, esses mesmos prostitutos se submetiam a penetração anal. As sacerdotisas prostitutas que se autoconsagravam à deidade não tinham a permissão de engravidarem, assim se submetiam também, assim como seus equivalentes masculinos no sacerdócio, à penetração anal.  Os adoradores masculinos que penetravam nos sacerdotes e nas sacerdotisas acreditavam que se uniam com a própria deusa.

Em 1921, o maior cemitério de crianças sacrificadas no antigo Oriente Próximo foi descoberto em Cartago. Está bem estabelecido que esse rito de sacrifício infantil originou-se na Fenícia, o vizinho do norte da antiga Israel, e foi levado a Cartago por seus colonizadores fenícios. Centenas de urnas funerárias cheias de ossos cremados de bebês, a maioria recém-nascidos e de algumas crianças até os seis anos de idade, bem como animais foram descobertos em Cartago. (cf. WHITE, Andrew. Abortion and the Ancient Practice of Child Sacrifice. Journal of Biblical Ethics in Medicine, v. 1, n. 2, p. 27, 2003.)

O infanticídio era uma prática comum. Em Deuteronômio 12:31 diz-se dos habitantes de Canaã que "eles até queimam seus filhos e suas filhas no fogo para seus deuses" (2 Rs 3:27). A adoração ao divindade pagã chamada Moloque envolvia esse tipo de ritual. Acredita-se que os ídolos de Moloque eram estátuas de metal gigantes de um homem com a cabeça de um touro. Cada imagem tinha um buraco no abdômen e possivelmente braços estendidos que faziam uma espécie de rampa ao buraco. Um incêndio era acendido em ou em torno da estátua. Os bebês eram colocados nos braços ou no buraco da estátua. Quando um casal sacrificava o seu primogênito, eles acreditavam que Moloque iria assegurar a prosperidade financeira para a família e para as crianças futuras.

A adoração de ídolos era abundante e a sociedade totalmente contaminada. Não havia a conceituação entre bem e mal, entre certo e errado. Tudo era permitido. Hoje perdemos a distinção entre entre o bem e o mal. A tolerância é apresentada como o grande valor religioso. De fato, a tolerância à diversidade é um alto valor cristão, mas hoje em dia a tolerância é entendida como a virtude de aceitar quase todo comportamento sob o sol. Vale tudo - em nome da tolerância! Um resplandecente relativismo moral é o resultado, e as crianças crescem com cada vez menos absolutos morais para guiá-las. Raramente ouvimos o termo pecado, mas ao invés disso, uma dúzia de palavras mais brandas são empregadas. Certamente o Senhor não tolerará essa abominação à sua santidade para sempre. Jesus é cristalino sobre o castigo dos malfeitores, pois no dia do juízo Deus dirá aos malfeitores: “Apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno, preparado para o diabo e seus anjos” (Mateus 25:41). Nossa sociedade não se importa muito em ouvir sobre a dor e a punição, e prefere o Jesus manso e moderado de alguns escritores contemporâneos. 

Acrescente a esses pecados outros, como a crueldade e opressão com os mais fracos (como os órfãos, as viúvas, os estrangeiros, os pobres, os inválidos, os doentes, etc.), a exploração da miséria econômica gerando mais miséria em todas as áreas da vida humana e o enriquecimento ilícito, por meio da inversão de valores e da corrupção, tudo justificado pela religião. Segundo o blog "Meu Scriptorium", "O exército passou a fazer parte da classe dominante das cidades. Os camponeses, que pagavam tributos em troca de proteção e de outros serviços, passaram a ser extorquidos, pagando uma quantia acima do valor justo para fins de acúmulo de riquezas e de luxo para a corte ou para que esta promovesse guerras de conquista [...] os camponeses passaram a ser cada vez mais espoliados, e para pagar os pesados tributos precisavam trabalhar muito, e, além disso, havia ainda a corvéia, isto é, o trabalho forçado e sem remuneração nas terras do rei e em obras públicas como aquedutos, estradas, cidades, armazéns, palácios, templos, etc." (fonte: https://meuscriptorium.wordpress.com/2010/08/24/condicao-social-e-politica-da-canaa-pre-israelita/)

Isso acabou enchendo o "cálice" da ira de Deus e ensejando o Juízo para aqueles povos. E, como dito, Deus usou Israel como instrumento desse Juízo. Vale ressaltar que a vitória de Israel nessas batalhas só era alcançada por causa da intervenção da parte de Deus. É importante ressaltar que Deus permitiu que Seu povo também sofresse derrota diante das nações inimigas quando eles, que deveriam ser exemplos para outras nações, passaram a praticar o mesmo pecado que elas (Isaías cap. 1). 


III. GUERRA: PROTEÇÃO DE DEUS A UM POVO QUE NÃO ERA NADA. NEM POVO. 

No Antigo Testamento, Deus luta por Israel para garantir sua terra para seu povo, para que seu plano de redenção possa se concretizar. Para garantir que Seu povo sobreviva, um bando de escravos que sequer possuíam noções elementares de saúde pública e vida em sociedade, diante de nações já estabelecidas e bem equipadas e treinadas na arte de guerra. Muito tempo depois de sua introdução em Canaã, Israel ainda sofreu sob a superioridade dos "carros de ferro" dos cananeus. 

Por causa da superioridade militar, que as armas de ferro davam aos cananeus, é que os hebreus se queixavam a Josué de não poder tomar-lhes as cidades: "A montanha não nos é suficiente; todos os cananeus, que habitam a planície, possuem carros de ferro, tanto os de Bet-San e suas cidades dependentes como os que vivem no vale de Jezrael. Então Josué disse à casa de José, de Efraim e de Manasses: "Tu és um povo numeroso e tua força é muita; não terás só uma parte, antes, terás a montanha, cuja floresta desbravarás, e seus limites pertencer-te-ão. Expulsarás os cananeus, apesar dos seus carros de ferro e da sua força" (Jos,17f 16-18). Mais tarde, dir-se-á que Yabin, rei cananeu de Hazor, possuía um exército de 900 carros de ferro (Jz 4.3).

Aquelas nações cananéias eram "mais fortes e mais numerosas" que o povo de Israel (Dt 7.1). Sem a ajuda de Deus, o povo liberto do Egito seria facilmente subjugado e novamente escravizado pelos cananeus com toda certeza. Note que o povo de Israel recém saído do Egito não era grande coisa, numericamente falando: "O Senhor não tomou prazer em vós, nem vos escolheu, porque a vossa multidão era mais do que a de todos os outros povos, pois vós éreis menos em número do que todos os povos" (Dt 7.7). Eles não tinham mérito, grandeza, riqueza, poderio ou renome. 

Como já vimos, os cananeus eram muito superiores em tudo ao povo escolhido de Deus, quer na esfera militar, quer na esfera social (artes, comércio, arquitetura, etc.). Tirá-los do Egito para deixá-los desprotegidos era o mesmo que condená-los a morte. Ao contrário, Deus os havia removido do Egito e seria o Guarda de Israel em todos os momentos, mesmo naqueles que eles fizeram por merecer o contrário. Pedir que Deus não proteja Seu povo, ao qual Ele amou e ama, é o mesmo que pedir a um pai ou a uma mãe que não defenda e proteja o filho indefeso que gerou.  



IV. GUERRA NO NOVO TESTAMENTO: BATALHA ESPIRITUAL CONTRA SERES ESPIRITUAIS.

Essas guerras foram travadas em um determinado momento da história de Israel e não devem ser repetidas pela Igreja nem ser justificadas por quaisquer povos no mundo atual. Embora alguns tenham usado o material da "guerra divina" no Antigo Testamento como base para a máquina de guerra (especialmente durante a colonização das Américas), tais aplicações do material bíblico simplesmente não se harmonizam com a história das Escrituras. Esse tipo de guerra era particular para Israel quando se mudou para a terra de Canaã. Para o cristão, não há lugar algum para pegar em armas à maneira de Israel para conquistar uma terra. 

No ensinamento de Jesus, que é uma revitalização da lei do Antigo Testamento, a tarefa do povo do Reino de Deus é amar seus "inimigos" (incluindo as nações inimigas) e servi-los com as boas novas do Reino (Mateus 5: 43-8, 28: 18-20). O livro de Efésios ensina poderosamente que, por causa da vitória de Deus em Cristo, o cristão não guerreia nem por terra nem por lugar no mundo. O mundo inteiro está sob a autoridade de Cristo (Mateus 28:18), e assim o mundo é do Senhor. Onde quer que um cristão viva no mundo de Deus, ele ou ela se envolve em uma batalha espiritual contra os governantes cósmicos que inutilmente promovem a guerra contra a vitória de Deus em Cristo (Efésios 5: 1-9, 6: 10-18). A "guerra" cristã envolve aprender a viver corretamente o triunfo que Deus proveu em Cristo e em Seu Reino. Esta instrução subversiva em Efésios revela que o Reino de Deus é e será estabelecido não através da coerção e ou dominação, mas através do amor auto-sacrificial, à maneira de Cristo.

As guerras ditas em "nome de Deus" na era cristã não possuem respaldo nenhum da parte de Deus e por Ele nunca foram ordenadas. Cruzadas, Inquisição, Holocausto, etc. não passam da simples materialização da extrema malignidade humana, que para cumprir seus mais podres e sórdidos desejos é capaz de até mesmo justificar seus atos mais cruéis como sendo "da parte de Deus". Argumentar em termos de similaridade que essas aberrações modernas tem respaldo no Antigo Testamento demonstra total ignorância quanto aos processos históricos e espirituais tanto do Antigo Testamento quanto do Novo Testamento. A história da revelação de Deus ao homem se passa em cenários humanos, não sendo produto que imaginações idealizadoras humanas; o Deus que se revela faz isso a partir da perspectiva histórica, de forma gradual. 

A bandeira de Cristo jamais será a mesma que Constantino adotou. A cruz não é instrumento de conquista de outras nações, nem de "conversões forçadas". A cruz é antes local de renúncia pessoal, de rendição, de humilhação, de vergonha e de dor. Local de morte, pela qual cada cristão passou um dia e deverá obrigatoriamente passar todos os dias de sua vida, "matando" o seu eu com seus pecados pessoais, de forma a viver a nova vida de Deus em Cristo. A bandeira de Cristo é a bandeira do kenosis, do auto-esvaziamento de si mesmo: "De sorte que haja em vós o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus, que, sendo em forma de Deus, não teve por usurpação ser igual a Deus, mas esvaziou-se a si mesmo, tomando a forma de servo, fazendo-se semelhante aos homens; e, achado na forma de homem, humilhou-se a si mesmo, sendo obediente até à morte, e morte de cruz" (Filipenses 2:5-8).


V. E SOBRE AS GUERRAS MODERNAS? 

E sobre as guerras, hoje? É correto um cristão "pegar em armas" para defender seu país? Note que nesse caso estamos nos referindo a outro assunto: não se trata de guerras religiosas, ou guerras com viés e ideologia religiosa ("em nome de Deus"); tratam-se de guerras sócio-políticas e econômicas. Sobre estas guerras "não-religiosas, Norman L. Geisler comenta: "A guerra em defesa dos inocentes não é assassinato. Uma guerra contra um agressor injusto não é assassinato. Deus, às vezes, ordena que os homens usem a espada para resistir aos homens maus. O militar não desempenha uma função má (Lc 3.14)". Vale dizer que há uma guerra urbana sendo travada em várias capitais mundiais entre a polícia e grupos de meliantes. Nesse caso, as forças policiais são agentes da lei e têm a função estatal de proteger os inocentes, constituindo-se no braço do Estado nessa função. É a isso que se refere o apóstolo Paulo em Romanos 13: há um povo e um Estado (a potestade superior); a função do Estado é defender seu povo e para isso ele (o Estado, não o povo) faz uso da espada. O Estado é, assim, "ministro" (servo) "de Deus para o nosso bem". Quando o mal é praticado, esse ministro de Deus traz a espada (note que a espada não é trazida à debalde, isso é, à-toa).  

Quando mais próximo do fim dos tempos, mais guerras e rumores de guerras surgirão. O ódio crescerá entre as pessoas e os povos, haverá muitas traições e escândalos. O amor se esfriará, enquanto assistiremos a vertiginosa escalada da violência em todas as esferas da sociedade e do mundo modernos. O pecado será intensificado e os limites éticos e morais serão removidos, mesmo na esfera legal. Isso é inevitável. Nenhum governante humano poderá impedir ou reverter esse processo, mesmo que ele seja "cristão" e cheio de "boas intenções e idéias". O mal no mundo não está ligado a partidos ou ideologias políticas, está ligado ao homem independentemente da ideologia ou religião que professe ou da condição social ou posição que possua. 

Obviamente que essas guerras não são o ideal de Deus para a vida humana sobre a Terra. Deus várias vezes deixou isso claríssimo no Antigo Testamento; no Novo Testamento escancarou ainda mais essa verdade por meio do Seu Filho. Deus nos criou para vivermos no Paraíso terrestre, mas nós concedemos ao diabo o "direito" de agir na Terra e trazer todo o inferno com ele. Haverá, contudo, um dia onde os homens não aprenderão mais a guerra e as armas de guerras serão convertidas em instrumentos agrícolas: "E julgará entre muitos povos, e castigará nações poderosas e longínquas, e converterão as suas espadas em pás, e as suas lanças em foices; uma nação não levantará a espada contra outra nação, nem aprenderão mais a guerra. Mas assentar-se-á cada um debaixo da sua videira, e debaixo da sua figueira, e não haverá quem os espante, porque a boca do Senhor dos Exércitos o disse." (Mq 4.3,4)

domingo, 16 de dezembro de 2018

A PERIGOSA RELAÇÃO DE PODER NA RELIGIÃO: JESUS É NOSSA LIBERDADE TOTAL

"Uma relação de poder se forma no momento em que alguém deseja algo que depende da vontade de outro. Esse desejo estabelece uma relação de dependência de indíviduos ou grupos em relação a outros. Quanto maior a dependência de A em relação a B, maior o poder de B em relação a A. Essa dependência aumenta à medida que o controle de B sobre o que é desejado por A aumenta". (Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Rela%C3%A7%C3%B5es_de_poder)

Poder e dependência caminham juntos. Como descrito acima, a relação de poder surge quando há uma relação de dependência; quanto maior a dependência, mais intensa é a relação de poder. Uma das formas de poder é o poder coercitivo, quando há imposição de vontade por ameaças e punições. Por meio do poder coercitivo a relação de dependência é assegurada e fortalecida, criando-se um ambiente de medo da punição asseverada por meio de ameaças pelo "dominador".

Desde os priscas eras, as religiões são utilizadas como instrumento de dominação, onde as relações em seu âmbito dão-se, via de regra, por meio do exercício de poder de um indivíduo tido como "especial" sobre um conjunto de outros indivíduos adeptos àquela religião. Esse "indivíduo especial", ser humano como outro qualquer, é assim visto pelos demais por seus "atributos sobrenaturais" que lhe conferem uma espécie de "garantia divina" de suas ações; afinal, esta pessoa é tida como "divinamente autorizada" naquilo que fizer, quer para o bem de seus "discípulos"/"irmãos" quer para o mal destes. Esse "líder reconhecido e autorizado por Deus", com autenticidade assegurada por sua "performance sobrenatural", pode "abençoar" ou "amaldiçoar", pode "trazer a cura" ou "trazer a doença" sobre aqueles que o seguem segundo a sua conveniência. Isso o torna "inquestionável", "acima de qualquer suspeita" naquilo que fala e faz.

Muitos, infelizmente, por suas condições pessoais de saúde física e/ou emocional, ou mesmo pelo interesse em servir a Deus, se tornam presas fáceis desses "líderes místicos". Pessoas com vários tipos de doenças, muitas desenganadas pela medicina secular, ou mesmo deprimidas por qualquer razão, acabam procurando nas religiões a solução para seus problemas. Há aquelas que, por outro lado, tem um desejo de se relacionar com Deus de alguma maneira e acabam procurando uma determinada religião para aprenderem como fazer isso. Pessoas que geralmente tem experiências sobrenaturais (nas religiões espíritas, diz-se possuírem uma "mediunidade"; no cristianismo, "um chamado"; no hinduísmo/budismo, "desenvolver a espiritualidade", etc.) e querem entender o que vivenciaram com "mestres" ou mesmo que desejam se tornar "mestres" daquela religião - querem se tornar pais/mães-de santo, médiuns, pastores, sacerdotes, padres, médiuns, etc., que buscam na religião um refúgio, proteção, apoio, respostas e orientação. É nesse ponto onde se tem início a construção da relação de poder e de dependência a qual pode acabar em várias formas de abuso; esse abuso é frequentemente mantido em silêncio por exercício do poder coercitivo. 

Uma das formas de abuso relatada na literatura é o abuso sexual. Outra é o assédio sexual. Tanto o assédio quanto o abuso estão presentes em várias religiões diferentes, sob diversas justificativas ideológicas. Relativo ao catolicismo, segundo DOYLE (2003) desde 1984 o abuso sexual por parte do clero católico vem atraindo a atenção do público. O abuso é minimizado de maneira geral pelas afirmações que inicialmente negam sua ocorrência, ou desqualificam a vítima perante o agressor e à instituição na qual exerce a liderança religiosa. Há relatos, acusações (verídicas e inverídicas) e casos de abuso sexual cometidos por pais-de-santo, pastores, monges, etc., incluindo na crônica jornalística: o do pastor (fonte: https://noticias.gospelmais.com.br/pastor-abusa-de-cinco-adolescentes-e-diz-que-foi-ordem-de-anjo-duas-estao-gravidas-do-milagre.html), o do padre, em Goiás (fonte: https://noticias.r7.com/cidades/padre-abusa-de-menor-deficiente-em-sauna-de-go-06062016), do monge budista chinês (fonte: https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2018/08/monge-budista-e-investigado-por-ma-conduta-sexual-na-china.shtml) e por aí vai. 

A notícia jornalística mais recente é a do médium espírita conhecido como João de Deus, da cidade de Abadiânia, no interior de Goiás, acusado por mais de 300 mulheres que afirmam terem sido vítimas de abuso sexual por parte do religioso durante tratamentos espirituais (fonte: https://g1.globo.com/go/goias/noticia/2018/12/14/justica-decreta-prisao-de-joao-de-deus-apos-denuncias-de-abusos-sexuais-em-abadiania.ghtml). O médium teve sua prisão preventiva decretada pela justiça goianiense. O grande desafio será provar que houve abuso, na hipótese de realmente ter acontecido tal coisa (https://odia.ig.com.br/brasil/2018/12/5603133-investigacao-sobre-joao-de-deus-se-concentra-em-15-casos-diz-delegado.html). Se ele é ou não culpado das acusações, quem vai decidir é a justiça brasileira. E acima dela, a divina.

O fato é que quando o abuso realmente acontece, infelizmente muitas vítimas de abusadores optam em não denunciar o abuso sofrido. Muitas fazem isso por medo de represálias por conta das ameaças que os religiosos abusadores fazem. Observe que a relação de poder e dependência pode ser opressora para o dependente; por sua vez, quem detém o poder pode usá-lo como arma ao seu lado. Imagine o seguinte caso hipotético, com foco na religião qualquer que seja ela): uma pessoa qualquer teoricamente usada por Deus para fazer milagres e que é, por isso mesmo, "idolatrada" pelos seus seguidores, tida como infalível. Na mente dos seguidores, esse líder tem muito poder espiritual. Agora, se esse líder, usando-se da percepção que seus seguidores tem dele, começa a fazer ameaças (como "reverter a cura realizada", ou "colocar doenças em quem não tem" ou "destruir a vida da pessoa" ou "amaldiçoar" ou "matar a família") para encobrir algum erro conhecido, capaz de denegrir sua imagem, seus seguidores crerão nele! Isso infelizmente é muito comum de acontecer em círculos religiosos, especialmente aqueles excessivamente místicos, cheios de rituais - "pirotécnicos" ou não, "individualizados" ou "gerais" - ditados pelo líder religioso! Isso pode se replicar não só na religião, mas em qualquer relação de poder e dependência. 

Fico aqui pensando que Deus está no céu olhando para isso tudo e não está gostando do que vê. Deus que está tendo Seu santo nome associado a uma infinidade de erros, crimes, pecados, mandos e desmandos, pelos mais diversos ditos "homens de deus", como se Ele fosse o autor ou o incentivador dessas coisas. Por certo, quem passa por um abuso sexual terá traumas por anos a fio, sem falar que a fé em Deus de quem passa por um abuso sexual cometido no âmbito da religião ficará abalada. Assim, quem comete este crime o faz tanto contra a vítima quanto contra Deus e ambos exigirão a justa punição do autor, cada um a seu tempo. A Bíblia Sagrada nos mostra que um dia Deus haverá de julgar toda a humanidade, cada um segundo as suas obras (Rm 2.6; Ap 20.12), quer sejam religiosas ou não, quer sejam pastores, padres, pais de santo, monges, médiuns ou qualquer outra denominação religiosa aplicável. Ninguém ficará de fora desse julgamento naquele dia, nem vivos nem mortos!

Para você, que frequenta uma religião, meu conselho é que você tenha muito cuidado! Independente da religião e do deus que professa, os líderes que ali estão são seres humanos que nada tem de divinos e que, portanto, estão sujeitos a cometerem abusos de toda a sorte, até mesmo os de cunho sexual. Um bom sinal que é hora de você colocar "suas barbas de molho" é quando o líder começa a fazer exigências pessoais descabidas, com ou sem ameaça de maldição (os famosos "sacrifícios" ou "votos de fé", como por exemplo fazer um trabalho espiritual que envolve elementos que você reconhece como errados). Se a "lâmpada" do seu "desconfiômetro" acender por qualquer razão, atenção! Deus tem bom-senso e criou o bom-senso em nós e por isso mesmo nada vai te obrigar a fazer que contrarie esse bom-senso. 

Lembre-se: Deus não precisa que você dê nada a Ele! Pense: se Ele criou tudo, você acha que Ele realmente precisa de algo seu? Você acha que Ele vai mandar você sofrer qualquer tipo de abuso em Seu nome pelo líder religioso? Você acha que Deus quer isso para "provar sua fé"? Ou você acha que Deus vai mandar você ser massacrado pelo líder religioso? Ele criou você! Olhe o que Ele diz em Sua Palavra, a Bíblia: "Agradar-se-á o Senhor de milhares de carneiros, ou de dez mil ribeiros de azeite? Darei o meu primogênito pela minha transgressão, o fruto do meu ventre pelo pecado da minha alma? Ele te declarou, ó homem, o que é bom; e que é o que o Senhor pede de ti, senão que pratiques a justiça, e ames a benignidade, e andes humildemente com o teu Deus?" (Miquéias 6:7,8) Viu o que Ele pede de você? Justiça, benignidade e humildade! O Deus que a Bíblia apresenta, querido(a) leitor(a), ama você! Ama ao ponto de ter enviado Seu Filho, Jesus, para morrer em Seu lugar! Isso mesmo: Deus, sabendo que você tinha que morrer por causa dos seus pecados, enviou Seu filho para ser seu substituto na morte! Hoje, crendo em Cristo, você não precisa morrer eternamente; só vai morrer uma única vez - a morte de todos os mortais, no seu corpo. Sua alma viverá, seu espírito Deus renovará e no seu corpo tudo novo se fará! 

Saber que tendo a Cristo vou morrer uma única vez é fonte de consolo e segurança. Mesmo que a pessoa venha a ser portadora de alguma doença mortal - e que não seja curada por Deus com ou sem o uso da medicina - com Cristo, a morte dela será o fim de toda a dor e sofrimento no corpo físico e na alma. Todos nós queremos viver, Deus nos criou para a vida; porém, a morte já não assusta mais quando eu tenho a Cristo como Senhor e Salvador da minha vida. Com Ele, ainda que morto, viverá; o Senhor há de ressuscitar-me um dia: "Disse-lhe Jesus: Eu sou a ressurreição e a vida; quem crê em mim, ainda que esteja morto, viverá; e todo aquele que vive, e crê em mim, nunca morrerá. Crês tu isto?" (João 11:25,26) 

E mais: com Cristo, eu não preciso procurar líder religioso nenhum para ser curado, ou abençoado, ou prosperado. Primeiro porque Jesus é o único intercessor entre Deus e os homens (I Tm 2.5), segundo porque em Cristo já fomos abençoados com todas as bençãos espirituais necessárias: "Bendito o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, o qual nos abençoou com todas as bênçãos espirituais nos lugares celestiais em Cristo" (Efésios 1:3). E quanto as bênçãos materiais? Essas, Jesus garantiu que o Pai sabe o que nós precisamos para viver e o Pai é bondoso e misericordioso. Se for de Sua vontade, Ele dará; mas saiba que dando ou não dando tal bênção (como a cura), Ele continua te amando e um dia limpará dos seus olhos todas as lágrimas. Mesmo que seja difícil, Ele sempre nos ajudará a carregarmos nossa cruz!


Ter Jesus, portanto, é ter vida plena, vida em abundância! Vida livre e leve, sem o fardo religioso, sem um líder religioso ditador por me explorando e/ou abusando de mim. Não preciso apresentar sacrifícios de fé. Não preciso fazer campanhas ou peregrinações. Não preciso possuir ou carregar objetos consagrados. Não preciso de ritual nenhum. Adorar a Deus com Jesus é fácil e ao mesmo tempo difícil: fácil, porque não preciso de ritos nem músicas nem lugares especiais, difícil porque precisa ser em espírito e em verdade, do fundo do coração com amor a Ele. 

 Creia em Jesus! Ele disse: "Não se turbe o vosso coração; credes em Deus, crede também em mim. Na casa de meu Pai há muitas moradas; se não fosse assim, eu vo-lo teria dito. Vou preparar-vos lugar. E quando eu for, e vos preparar lugar, virei outra vez, e vos levarei para mim mesmo, para que onde eu estiver estejais vós também." (João 14:1-3) Ele não disse que te daria um lugar na religião, mas na casa do Pai, junto ao Pai e a Ele.

Pense nisso!
Que a Graça do Senhor Jesus e o Amor de Deus Pai seja contigo!

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Referências:


DOYLE, Thomas P. Roman Catholic clericalism, religious duress, and clergy sexual abuse. Pastoral Psychology, v. 51, n. 3, p. 189-231, 2003.

domingo, 9 de dezembro de 2018

A ESSÊNCIA DA GRAÇA É O FAVOR DIVINO SEM MÉRITO, HOJE E ETERNAMENTE

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Guarda-me, ó Deus, porque em ti confio.
A minha alma disse ao Senhor: Tu és o meu Senhor, a minha bondade não chega à tua presença,
Mas aos santos que estão na terra, e aos ilustres em quem está todo o meu prazer.
As dores se multiplicarão àqueles que fazem oferendas a outro deus; eu não oferecerei as suas libações de sangue, nem tomarei os seus nomes nos meus lábios.
O Senhor é a porção da minha herança e do meu cálice; tu sustentas a minha sorte.
As linhas caem-me em lugares deliciosos: sim, coube-me uma formosa herança.
Louvarei ao Senhor que me aconselhou; até os meus rins me ensinam de noite.
Tenho posto o Senhor continuamente diante de mim; por isso que ele está à minha mão direita, nunca vacilarei.
Portanto está alegre o meu coração e se regozija a minha glória; também a minha carne repousará segura.
Pois não deixarás a minha alma no inferno, nem permitirás que o teu Santo veja corrupção.
Far-me-ás ver a vereda da vida; na tua presença há fartura de alegrias; à tua mão direita há delícias perpetuamente.

(Salmo 16)

Nesse salmo, Davi medita sobre os benefícios que recebia de Deus e, por isso, se sente impulsionado a dar graças. Davi se rende e se devota inteiramente ao Senhor, declarando que a plena e substancial felicidade consiste em repousar exclusivamente em Deus. Ou seja, podemos dizer que esse salmo retrata algo que poucos entendem, ensinam e conhecem: Graça. 

Essa Graça, manifesta na prática por toda bondade, misericórdia e benefícios de Deus para com Davi, é a mesma Graça de Deus hoje. Isso mesmo: mesmo em tempos da Lei, a intenção de Deus sempre foi tratar Seu povo com Graça. Dentre outras razões que fogem ao escopo aqui, por isso a Lei veio primeiro: para que, tendo experimentado a Lei, possamos reconhecer a profundidade e a altura da Graça! Quem viveu os rigores da Lei e por ela foi considerado transgressor e digno de morte, com toda certeza verá a Graça como um bálsamo e jamais dela procurará se apartar!

Esse é um dos principais problemas com sistemas religiosos legalistas. Todo legalista, que diz ter prazer em viver a Lei e que procura se auto-afirmar diante de seus co-religiosos pelo cumprimento de códigos e regras, vive na mentira e é, na verdade, um mentiroso.  Ninguém jamais conseguiu viver a Lei nem jamais conseguirá vivê-la, pois a Lei foi dada para condenar. A Lei condena cada homem, mulher e criança como pecador inveterado, amante do pecado e servo do mesmo, fazendo silenciar toda auto-justificação e reduzindo todo manto escarlate de justiça pessoal à condição de pano sujo e rasgado, de trapo de imundícia! 

O legalista entende que precisa pagar a Deus alguma coisa e se esforça para realmente fazê-lo. Daí, ele se esforça ao máximo para ser digno diante de Deus, de forma a "retribuir" a Deus por todos os Seus benefícios. Na prática, o legalista diz a Deus "olha, estou pagando a dívida! Vê como eu sou o melhor de todos! Vê como eu me esforço! Jejuo 3 vezes ao dia, oro 6 vezes, dou o dízimo de tudo, frequento assidamente as reuniões, faço caridade..." e por aí vai. Devedor a Deus é algo que todo ser humano de todas as eras sempre será; no entanto, essa dívida, impagável pelo lado humano, somente pode ser paga pelo sacrifício gratuito de Cristo Jesus. Esse é o único pagamento aceito por Deus - aquele que Seu Filho pagou! Por isso, aquele que crê em Jesus, que se identifica com o Seu sacrifício na cruz e que rende a vida à Ele, passa a viver na condição de devedor eternamente perdoado! Dívida cancelada, totalmente paga! Perdoado no passado, perdoado no presente e perdoado no futuro! "E a vós outros, que estáveis mortos pelas vossas transgressões e pela incircuncisão da vossa carne, vos deu vida juntamente com ele, perdoando todos os nossos delitos; tendo cancelado o escrito de dívida, que era contra nós e que constava de ordenanças, o qual nos era prejudicial, removeu-o inteiramente, encravando-o na cruz" (Cl 2.13,14)  Segue-se então que agora a vida, na condição de perdoado pela fé em Cristo, é a vida de fé e gratidão, de confiança em Deus e de amor retributivo, de nossa parte, Àquele que nos amou primeiro! Cada gesto na vida, portanto, deve ser um gesto movido pelo amor a Deus, como louvor e ações de graças a Ele, e não a apresentação de um "rol de notas fiscais de pagamento"!  

Graça é a relação de Deus para conosco, mas é também a nossa relação para com Ele! Não existe recebermos Graça e retribuirmos Lei! Deus não aceitará Lei da nossa parte, de forma alguma! Ou é Graça, ou estamos dizendo a Deus com nossas atitudes que a dívida com Ele permanece e, com isso, o sacrifício de Jesus foi em vão para nós!

Voltando ao Salmo 16, Davi fala da Graça. Ele começa dizendo: “Guarda-me, oh Deus, porque em ti me refugio”. Davi pede ao Senhor que lhe proteja durante todo o curso de sua vida. Deus era o refúgio de Davi – nenhum esconderijo humano, nenhuma iniciativa humana para a auto-proteção tem sucesso se o Senhor não for o verdadeiro refúgio, se a confiança não estiver Nele.

Temos muitos inimigos externos, estamos cercados por eles todo o dia: Satanás em derredor, buscando tragar a nossa alma. O mundo, com suas ofertas sedutoras. O espírito de violência que está sobre o mundo, atuando sobre os pecadores. Doenças de toda a sorte.  Somos provados pelo tentador com tamanha força e com furor, com tantas artimanhas e astúcia, que faz com que nossa batalha individual e coletiva seja humanamente falando muito desigual. Ele é um anjo (caído), nós somos seres humanos! Além disso, temos muitos inimigos internos: As nossas fraquezas e tendências ao retrocesso, à queda, ao pecado, ao desânimo, à desconfiança em Deus e à desistência. Crises emocionais e espirituais.  Se formos olhar para nós mesmos, para nossas próprias forças e capacidades de defesa, de perseverança, veremos o quão fracos e pequenos nós somos. Como dizia Lutero em seu hino “Castelo Forte”, “a nossa força nada faz, estamos nós perdidos”! QUANTO OS NOSSOS INIMIGOS JÁ TENTARAM – E AINDA TENTAM – NOS DESTRUIR!

O fato de estarmos hoje com vida física e espiritual, de termos vencido até aqui, é por um único motivo: porque temos feito o Senhor o nosso refúgio! Ele é a nossa fortaleza, o nosso Castelo Forte! Deus nos traz todo o dia o seu socorro e assim somos diariamente protegidos! JESUS É O NOSSO SENHOR!  

“Digo ao Senhor, outro bem não possuo: Davi diz que não pode dar nada a Deus, não só porque Deus não tem necessidade de coisa nenhuma, mas também porque o homem mortal não pode merecer o favor divino por alguma coisa que venha a fazer para Deus. “Outro bem não possuo”, Na KJV, é traduzido por “minha beneficiência não te alcança”. É impossível para os homens, por quaisquer méritos pessoais, fazerem com que Deus tenha obrigações para com eles, como se Deus se tornasse devedor aos homens. NÓS SEMPRE SEREMOS DEVEDORES PERDOADOS! Quando nos achegamos a Deus, devemos fazer isso sem nenhuma presunção. Não há bem nenhum em nós, nenhum mérito pessoal. Todo o serviço prestado ao Senhor nada é em si mesmo, somos indignos de recompensas da parte do Senhor.

Davi menciona “os santos que estão na terra”. Eles são excelentes, são nobres, notáveis. Não deve haver nada mais precioso para nós que nossos irmãos e irmãs em Cristo. Devemos dar valor e prestigiar aos que temem a Deus, buscando ter comunhão com eles, pois isso Deus considera como agradável! O verdadeiro estado do meu coração é indicado por meu amor por eles. Em todos os lugares e em todos os momentos, o amor para aqueles que amam a Deus e uma disposição para buscar o bem deles, sua felicidade e sua amizade, será uma característica da verdadeira piedade e devoção. Obviamente, tudo aquilo que destrói essa comunhão é inimigo ferrenho de Deus, devendo ser reputado como nosso inimigo também! Note, ainda, que isso não significa ter comunhão com ímpios em qualquer nível (v.4). As dores deles são multiplicadas, porque vivem impiamente, indo após deuses falsos. Não devemos oferecer as suas “libações de sangue”, nem mencionar os nomes de suas abominações com nossos lábios (Ef 5.11,12). 

Davi bendiz ao Senhor que o aconselha, tanto de dia quanto à noite, falando-o em sua consciência e assim direcionando sua vida. É somente por meio da direção do Senhor que podemos fazer as escolhas certas nas horas certas. Davi não vivia segundo seu conceito de certo e de errado, mas segundo a vontade revelada de Deus para sua vida. Viver segundo o conceito de certo e errado é a pior coisa que podemos fazer, porque é justamente esse tipo de vida que nos levou ao "abismo espiritual" que vivemos! Viver segundo certo e errado é viver segundo o conhecimento do certo e do errado, do bem e do mal; é viver com base na árvore do conhecimento! Por outro lado, quem busca viver segundo a árvore da vida, vive na dependência de Deus. Deus é o guia, Ele é quem diz se é isso ou aquilo que Ele deseja de nós, não nós mesmos com nosso discernimento tosco de certo e errado.  É VIVER SEGUNDO A VONTADE REVELADA DE DEUS E BUSCAR REVELAÇÃO DA VONTADE DE DEUS PARA VIVER.

A Palavra de Deus nos adverte: Onde não há conselho os projetos são vãos (Provérbios 15.22). O Senhor dos Exércitos é maravilhoso em conselho e grande em obra (Isaías 28.29). Não há sabedoria, nem inteligência, nem conselho contra o Senhor (Provérbios 21.30). Eis por que precisamos desse Guia por excelência: nada somos sem o nosso Criador e sem a Sua excelsa Palavra! Deus tem prazer em nos direcionar os passos, em dirigir a nossa vida. Ele não fica feliz diante das nossas quedas, encrencas, fracassos; não tem prazer em nossa ruína. Por isso não nos deixou sozinhos nesse mundo, mas nos deu o Seu Espírito, que fala aquilo que Dele ouviu, que mora em nosso interior. Nosso Senhor nos deu a Igreja, e nos deu uns aos outros. Deus dons e ministérios. Deu a Sua Palavra. Isso tudo é graça TEMOS QUE APRENDER A OUVIR E A OBEDECER AO SENHOR PARA NOSSA PRÓPRIA FELICIDADE! 

Ao exclamar, "O Senhor é a porção da minha herança", Davi se identifica com os filhos de Levi, cuja herança era o Senhor (Dt 10.9). Nossa herança é o Senhor. É Ele o Único bem verdadeiro que temos em vida, e o Único bem verdadeiro que teremos na morte! Tendo o Senhor sempre na nossa presença, diante dEle, jamais seremos abalados! Viveremos alegres e repousaremos seguros hoje, amanhã e sempre! É interessante que Davi fala de linhas. Essas linhas falam daquelas usadas na medição e na divisão da herança (terra de Canaã). Davi diz que a ele coube uma formosa herança – o próprio Senhor! A Davi, coube o Senhor na divisão da herança – Isso é Graça!

O Senhor é quem sustenta a nossa sorte! É o Senhor quem determina o nosso destino, não o acaso. É Ele quem garante o nosso futuro. Todos quantos não tem seu fundamento e confiança postos em Deus vivem em estado de irresolução e incerteza. São constantemente levados pelos dilúvios de erros que prevalecem no mundo.

Davi, por ter o Senhor sempre em sua presença, sabe que jamais será abalado! Por isso, mesmo diante de tantos inimigos e desafios, ele não fica deprimido, mas se alegra e exulta! Sua confiança no Senhor estende-se dessa vida até ao limite máximo da vida humana – a morte física. NEM A REALIDADE DA MORTE ASSUSTAVA A DAVI.

A morte, na Bíblia, é mais que um estado. Ela é uma pessoa, um inimigo a ser vencido (I Co 15.26). Um inimigo cruel, que anda junto com o inferno, tragando as almas dos homens (Ap 6.8). Porém, mesmo diante desse terrível inimigo, Davi dizia "Minha carne repousará segura"! Aleluia! Davi cria na sua imortalidade. Seu corpo não ficaria eternamente na sepultura sob o poder da corrupção, nem sua alma ficaria eternamente no lugar dos mortos; Deus haveria de o ressuscitar, para uma vida imortal. Davi, sem saber, profeticamente fala acerca da vitória de Cristo sobre a morte e sobre o inferno, vitória esta que por Cristo é extensiva a todo verdadeiro crente em Cristo, que crê e entrega a sua vida aos cuidados do Salvador e Senhor Jesus!

O Santo do Senhor (Jesus) não permaneceu com sua alma na morte, nem viu a corrupção. Deus ressuscitou a Cristo, rompendo os grilhões da morte, pois não era possível que fosse retido por ela (At 2.24-32). O corpo de Davi permanece nessa terra, mas sua alma está na presença imediata do Senhor. Hoje, Davi aguarda, junto com uma incontável multidão de santos, a ressurreição física do seu corpo! Nós também, fiéis em Cristo, haveremos de um dia ressuscitarmos do pó da terra. Nem mesmo a morte, nem mesmo o inferno, pode contra aquele que tem a sua vida posta em Deus! A POSSE DE CRISTO SOBRE NÓS SE ESTENDE A TODA A CONDIÇÃO DA VIDA HUMANA, ATÉ A RESSURREIÇÃO. ISSO É GRAÇA, FAVOR IMERECIDO, HOJE E ETERNIDADE A FORA! PARA TODO O SEMPRE!
 
Graça! Graça na proteção e no cuidado de Deus! Graça na direção para a vida e na salvação eterna, inteiramente provista e mantida por Deus! Nada que façamos, nenhum bem que entreguemos, nenhuma dádiva, nenhuma oferta, nenhum sacrifício pode hoje e nem jamais poderá, eternamente, pagar isso que Deus fez, faz e fará por nós e em nós!  Não há pagamentos a serem feitos, nem há uma dívida a ser paga! Jesus pagou tudo por nós, de forma que hoje estamos quites com Deus por Cristo Jesus! Ele, o Senhor Jesus, é o Penhor da Nossa Herança! Mesmo nossas boas obras foram todas preparadas por Deus de antemão, antes da salvação, para que um dia andássemos nelas; mesmo essas boas obras são feitas em Cristo com a Graça de Cristo, pois sem Ele nada podemos fazer!

A verdade é que eu e você, querido(a) leitor(a), somos como um deserto seco, incapaz de florescer por si mesmo! Somos terra de ninguém, infrutífera, rachada! Mas a Graça de Deus é tal que escolhepara Si eu e você, desertos estéreis, e ainda nos faz florescer!   Nunca apresente a Deus seu currículo de boas obras e realizações, porque para Aquele que te salvou a multidão das tuas boas obras e realizações são apenas o testemunho da Graça de Deus na sua vida! Afinal, é Ele quem efetua em vós tanto o querer como o realizar, segundo a sua boa vontade (Fp 2.13)!

Pense nisso!
Graça e paz!