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terça-feira, 21 de março de 2017

PECADORES NAS MÃOS DE UM DEUS IRADO

"Pecadores nas Mãos de um Deus Irado" foi um sermão pregado por Jonathan Edwards em 8 de julho de 1741, em Enfield, Connecticut. Edwards não era bom orador, mas, enquanto ele pregava, houve pessoas que choravam e clamavam por arrependimento, enquanto que outros se agarravam às colunas da igrejas, como se estivessem sentindo sendo engolidos pelo inferno.

Edwards nunca terminou o sermão em Enfield. O tumulto se tornou muito grande quando a audiência foi tomada por gritos, lamentos e clamores: “O que farei para ser salvo? Oh! estou indo para o inferno! Oh! o que farei por Cristo?” Um dos ministros registrou que “os gritos agudos e clamores eram comoventes e admiráveis”. Várias “pessoas foram esperançosamente mudadas naquela noite. Oh! que prazer e alegria havia em seus semblantes!” Edwards e outros oraram com muitos dos consternados e levaram alguns a “diferentes graus de paz e alegria, alguns a enlevo, tudo exaltando o Senhor Jesus Cristo”, e exortaram outros a se achegarem ao Redentor.

No sermão "Pecadores nas Mãos de um Deus Irado", Edwards nos traz uma importante exortação bíblica: que a punição eterna para quem não possui a Cristo é algo muito real. Neste sermão, ele admitiu o fogo do inferno como algo real e colocou a ênfase na solene tensão entre o julgamento de Deus e a misericórdia de Deus. Edwards apresentou Deus como o juiz perfeitamente justo que estava corretamente indignado em face da rebelião dos seres humanos contra seu amor. Ao mesmo tempo, Deus havia se restringido misericordiosamente, por um tempo, na execução de seus juízos, para dar aos pecadores uma oportunidade de receberem o amor redentor de Cristo e serem salvos da condenação horrível, justa e certa.  

Em tempos modernos, onde cada vez mais as pessoas buscam restringir a pregação bíblica, substituindo-a por auto-ajuda, psicologia e positivismo, este sermão é um "brado veemente e impetuoso" do Espírito Santo, lembrando-nos que Deus não se deixa escarnecer.  Aqueles que fazem "cara feia" e "lançam muxoxos" e "queixumes" diante da pregação genuína da Palavra de Deus, que enganosamente vêem Deus como bonachão, deveriam atentar com muito cuidado para as verdades expostas nesse sermão. 



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PECADORES NAS MÃOS DE UM DEUS IRADO
Por: Rev. Jonathan Edwards
8 de julho de 1741 - Enfield, Connecticut


“Ao tempo que resvalar o seu pé.” (Deuteronômio 32:35)

Nesse versículo, a vingança de Deus é ameaçada sobre os israelitas ímpios e incrédulos que, embora fossem o povo visível de Deus e vivessem debaixo dos meios de graça, e apesar de todas as obras maravilhosas de Deus em benefício deles, permaneciam (conforme o versículo 28) sem juízo e entendimento. Com todo o cultivo do céu, nada produziram senão fruto venenoso e amargo, conforme afirmam os dois versículos que precedem o texto. A expressão que escolhi para minha exposição, “a seu tempo, quando resvalar o seu pé”, parece implicar o seguinte, relacionado à punição e destruição a que aqueles ímpios israelitas estavam expostos:


1. Que estavam sempre expostos à destruição, da mesma maneira que alguém que permanece ou anda em lugares escorregadios está sempre exposto à queda. Isso está implícito na maneira em que a destruição vem sobre eles, sendo representada pelos seus pés escorregando. O mesmo é expresso no Salmo 73.18: “Certamente tu os puseste em lugares escorregadios; tu os lanças em destruição.”


2. Implica que estavam sempre expostos à súbita e inesperada destruição. À semelhança do que anda em lugares escorregadios e está, a todo instante, sujeito a cair, não podendo prever em momento algum se, a seguir, estará de pé ou no chão; e, quando cai, cai imediatamente e sem aviso. Isso também está expresso no Salmo 7318-19: “Certamente tu os puseste em lugares escorregadios; tu os lanças em destruição. Como caem na desolação, quase num momento! Ficam totalmente consumidos de terrores”.


3. Outra coisa implícita é que estão sujeitos a cair por si mesmos, sem serem derrubados pela mão de outrem. Da mesma maneira que o que permanece ou anda em terreno escorregadio de nada precisa além do próprio peso para derrubá-lo.


4. Que a razão de ainda não haverem caído, e de não caírem agora, é apenas que o tempo apontado por Deus não é chegado. Pois está dito que quando esse tempo devido ou designado chegar, seu pé resvalará. Então, serão abandonados à queda, para o que já estão inclinados por seu próprio peso. Deus não mais os sustentará nestes lugares escorregadios, mas os abandonará. E então, neste exato instante, cairão na destruição, à semelhança do que permanece em ladeiras escorregadias, sobre a beira de um precipício, não pode permanecer sozinho e, quando é abandonado, imediatamente cai e está perdido.


A observação a partir destas palavras que agora insistirei é:

Doutrina: “Não há nada que mantenha os ímpios um só momento fora do inferno, senão a mera boa vontade de Deus.”


Por “mera boa vontade” de Deus, refiro-me à Sua boa vontade soberana, Sua vontade livre, imune a obrigações, não sujeita a impedimento algum, nem qualquer outra coisa, como se nada, a não ser a boa vontade de Deus, tivesse qualquer papel na preservação dos ímpios a todo instante. A verdade desta observação será evidenciada pelas seguintes considerações.


1. Não falta poder a Deus para lançar os ímpios, a qualquer momento, no inferno. Quando Ele se levanta, as mãos humanas não podem ser fortes. Os mais fortes não têm poder algum para Lhe resistir, nem podem se libertar de Suas mãos. Ele não apenas é capaz de lançar os ímpios no inferno, mas pode fazê-lo com a maior facilidade. Às vezes, um príncipe terreno encontra grande dificuldade em subjugar um rebelde que encontrou meios de se fortificar, e se fortaleceu pelo número de seus seguidores. Mas isso não ocorre com Deus. Não há fortaleza que seja defendida contra o Seu poder. Ainda que as mãos se juntem, e vastas multidões de inimigos de Deus se combinem e se associem, são facilmente esmiuçados em pedaços. São como grandes montes de palha seca e leve diante do furacão; ou grandes quantidades de restolho seco diante de chamas devoradoras. Achamos fácil pisar e esmagar um verme que vemos rastejar no chão, da mesma forma é fácil cortar ou queimar um fio fino que sustenta algo. Assim também é fácil para Deus, quando lhe agrada, lançar Seus inimigos nas profundezas do inferno. Quem somos nós, para que pensemos permanecer perante dEle, diante de cuja repreensão a terra treme e diante de quem as rochas são subjugadas?

2. Eles merecem ser lançados no inferno, de modo que a justiça Divina jamais se interpõe, e não é um impedimento para que Deus use Seu poder a qualquer momento para destruí-los. Sim, ao contrário, a justiça clama alto por punição infinita pelos seus pecados. A justiça Divina fala acerca da árvore que produz uvas como as de Sodoma, Lucas 13:7: “Corta-a; por que ocupa ainda a terra inutilmente”. A espada da justiça Divina está a todo momento se revolvendo sobre suas cabeças, e não é nada, senão a mão da misericórdia livre de Deus e a Sua mera vontade, que a segura.

3. Eles já estão sob uma sentença de condenação ao inferno. Não apenas merecem, com justiça, ser lançados lá, mas a sentença da Lei de Deus, essa eterna e imutável regra da justiça que Deus fixou entre Si e a humanidade, é posta contra eles, e permanece em oposição a eles de modo que já estão destinados ao inferno. João 3:18: “quem não crê já está condenado”. Desse modo, todo homem não-convertido pertence propriamente ao inferno. Lá é o seu lugar, de lá ele procede (João 8:23: “Vós sois de baixo”) e para lá está destinado, é o lugar ao qual a justiça, e a palavra de Deus, e a sentença de Sua Lei imutável o destinam.

4. Eles são agora os objetos do mesmo furor e ira de Deus, que são expressos nos tormentos do inferno. E a razão pela qual não descem para lá a qualquer instante não é porque Deus, em cujo poder se encontram, não esteja muito irado com eles, como está com as muitas miseráveis criaturas agora atormentadas no inferno, que lá sentem e suportam a fúria de Sua ira. Sim, Deus está muito mais irado com muitos que estão agora na terra; sim, sem dúvidas, com muitos que estão agora nesta congregação, que podem estar tranquilos, do que com muitos que estão nas chamas do inferno. Portanto, não é porque Deus ignora suas impiedades, e não se ressinta delas, que não afrouxa suas mãos e os elimina. Deus não é de forma alguma como eles, embora possam o imaginar assim. A Sua ira arde contra eles, sua condenação não dorme; o abismo está preparado, o fogo está pronto, o forno já está quente, pronto para recebê-los; as chamas ora rugem e brilham. A espada reluzente está afiada e suspensa sobre eles, o abismo abriu sua boca debaixo deles.

5. O diabo está pronto para cair sobre eles e abatê-los como sua possessão no momento em que Deus o permitir. Eles lhe pertencem, tem suas almas em sua posse e sob seu domínio. A Escritura os representa como seus bens (Lucas 11:12). Os demônios os espreitam, estão sempre a sua mão direita, permanecem aguardando por eles como leões famintos que veem a presa e esperam tê-la, mas, no momento, são contidos. Se Deus retirasse Sua mão, pela qual são restringidos, num momento voariam sobre suas pobres almas. A velha serpente os espreita, o inferno escancara sua boca para recebê-los. Se Deus o permitisse, seriam rapidamente engolidos e estariam perdidos.


6. Reinam nas almas dos ímpios aqueles princípios infernais, que agora mesmo os inflamariam e incendiariam no fogo do inferno, se Deus não os restringisse. Há posto na própria natureza do homem carnal um fundamento para os tormentos do inferno. Há aqueles princípios corruptos, com poder reinante e em plena posse deles, que são as sementes do fogo do inferno. Estes são princípios ativos e poderosos, extremamente violentos em sua natureza, e não fosse pela mão restringente de Deus sobre tais princípios, logo explodiriam, se inflamariam à semelhança do que as mesmas corrupções e a mesma inimizade fazem nos corações das almas condenadas, e gerariam os mesmos tormentos que geram naquelas. As almas dos ímpios são comparadas na Escritura ao mar bravo (Isaías 57:20). No momento, Deus restringe a impiedade deles pelo Seu imenso poder, assim como faz às ondas raivosas do mar enfurecido, dizendo: “Até aqui virás, e não mais adiante” (Jó 38:11). Mas se Deus retirasse esse poder restringente, logo a impiedade carregaria tudo diante de si. O pecado é a ruína e a miséria da alma. É destrutivo em sua natureza, e se Deus o deixasse sem restrição, nada mais seria necessário para tornar a alma perfeitamente miserável. A corrupção do coração humano é ilimitada e desmedida em sua fúria. Enquanto os ímpios vivem aqui, é como o fogo preso pelas restrições de Deus, de outro modo, se fosse deixada livre, poria em chamas o curso da natureza. E assim como o coração agora é um poço de pecado, se este não fosse restringido, imediatamente tornaria a alma em um forno ardente, em uma fornalha de fogo e enxofre.

7. Não representa segurança para os ímpios, nem sequer por um instante, que não haja meios visíveis de morte às vistas. Não representa segurança para um homem natural que esteja agora com saúde, e que não veja por que modo poderia partir de imediato do mundo por um acidente, e que não haja nenhum perigo visível em suas circunstâncias. A manifesta e contínua experiência do mundo, em todas as eras, mostra que isso tudo não é evidência de que um homem não esteja agora mesmo às margens da eternidade, e que seu próximo passo não será no outro mundo. Os meios invisíveis e impensáveis das pessoas repentinamente saírem do mundo são inumeráveis e inconcebíveis. Os não convertidos andam sobre o abismo do inferno em uma superfície podre, e há inúmeros lugares nela que são frágeis e não suportarão seus pesos, e estes lugares não são percebidos. As flechas da morte vo-am invisíveis ao meio dia, a vista mais acurada não as vê. Deus tem tão diferentes e insondáveis meios de tirar os ímpios do mundo e mandá-los ao inferno, que não há nada que faça crer que necessite de um milagre, ou que precise sair do curso ordinário de Sua providência para destruir um ímpio no momento em que desejar. Todos os meios de arrancar os ímpios do mundo estão de tal modo nas Suas mãos e tão completa e absolutamente sujeitos ao Seu poder e determinação, que se Ele nunca fizesse uso de meios, e estes estivessem excluídos desta consideração, isto de modo algum faria com que a ida repentina dos ímpios ao inferno dependesse menos da mera vontade de Deus.

8. A prudência dos homens naturais e seu cuidado para preservar a própria vida, ou o cuidado de outros para preservá-las, não os assegura nem por um instante. A isto também a providência Divina e a experiência universal prestam abundante testemunho. Há clara evidência de que a própria sabedoria dos homens não os livra da morte, pois se assim o fosse veríamos alguma diferença entre os sábios e prudentes do mundo e os demais, com relação à susceptibilidade para uma morte repentina e inesperada. Mas, como é de fato? Eclesiastes 2:16: “E como morre o sábio, assim morre o tolo!”.


9. Todos os esforços e esquemas que os ímpios usam para escapar do inferno, ao mesmo tempo em que insistem em rejeitar a Cristo e permanecem, portanto, na impiedade, não os livra um só instante do inferno. Quase todo homem natural que ouve acerca do inferno, se gaba de que escapará dele. Ele depende de si próprio para a sua segurança e se exalta naquilo que faz, no que está fazendo, ou no que pretende fazer. Cada um esquematiza as coisas em sua mente sobre como evitará a condenação, e se exalta de que planejou muito bem para si mesmo, e que seu esquema não falhará. Ouvem, na verdade, que poucos são salvos e que a maior parte dos que já morreram foram para o inferno. Contudo, cada um imagina que ajustou melhor as coisas para o seu escape do que os outros. Ele não pretende vir a esse lugar de tormento e diz consigo mesmo que pretende ter um cuidado efetivo e ordenar as coisas de modo que não haja falha.

Mas os tolos filhos dos homens iludem-se miseravelmente em seus próprios esquemas e na confiança em sua própria força e sabedoria. Eles não confiam senão numa sombra. A maior parte dos que viveram até aqui, sob os mesmos meios de graça, e agora estão mortos, sem dúvidas foram para o inferno. E isto não aconteceu porque não fossem tão sábios quanto os que estão vivos: não foi porque não tenham ordenado bem as coisas para assegurar seu escape. Se pudéssemos falar com eles e questioná-los um por um quanto a se esperavam, quando vivos, e quando ouviam sobre o inferno, serem eles próprios objetos dessa miséria, sem dúvidas ouviríamos todos replicarem: “Não, jamais pretendi chegar aqui. Eu tinha ajeitado as coisas de outra forma em minha mente. Pensei que tinha planejado bem, que meu esquema era bom. Desejava tomar cuidado de verdade; mas tudo aconteceu inesperadamente. Não esperava por aquilo então, nem daquele modo. Veio como ladrão. A morte me surpreendeu: a ira de Deus foi rápida demais para mim. Ó, minha maldita tolice! Estava me gabando e me agradando com vãos sonhos sobre o que faria no futuro, e quando dizia: Paz e segurança, veio sobre mim repentina destruição”. 

10. Deus não se impôs nenhuma obrigação, por nenhuma promessa, de manter os não convertidos fora do inferno sequer por um momento. Ele certamente não fez promessas, seja de vida eterna, ou libertação e preservação da morte eterna, a não ser aos que estão dentro do Pacto da Graça, nas promessas que são dadas em Cristo, em quem todas as promessas são o sim e o amém. Mas certamente aqueles que não são filhos do pacto, não têm interesse nas promessas do pacto da graça, estes que não creem nelas e nem têm interesse no Mediador do pacto.

De modo que, ainda que alguns tenham imaginado e pretendido muitas coisas sobre as promessas feitas aos homens naturais que sinceramente buscam e batem [à porta], está claro e manifesto que, por maiores que sejam os esforços que o homem natural tome na religião, sejam quais forem suas preces, até que creiam em Cristo, Deus não tem obrigação alguma de salvá-los da destruição eterna.
Portanto, o fato é que os não-convertidos estão seguros pela mão de Deus sobre o abismo do inferno. Eles merecem o lago de fogo, e já estão sentenciados a ele. Deus está terrivelmente provocado, Sua ira contra eles é tão grande quanto para com os que já estão sofrendo agora a execução da fúria de Sua ira no inferno, e eles nada fazem nem ao menos para dirimir ou aplacar essa ira. Nem Deus está minimamente preso por qualquer promessa de sustentá-los sequer por um instante. O diabo espera por eles, o inferno escancara sua boca por eles, as chamas se ajuntam e queimam ardentemente à sua espera, para engoli-los. O fogo latente em seus corações está lutando para explodir, e eles continuam sem interesse em qualquer Mediador. Não há, portanto, meio algum às vistas para livrá-los. Em suma, eles não têm refúgio, nada em que possam se segurar. Tudo o que os preserva a cada momento é a mera vontade livre e a clemência desobrigada e desimpedida de um Deus irado.


Aplicação

Este assunto terrível pode ser útil para despertar as pessoas não-convertidas desta congregação. Isso que vocês ouviram é a situação de todos que estiverem fora de Cristo. Esse mundo de miséria, esse lago de enxofre incandescente está estendido amplamente debaixo de vocês. Há o terrível abismo das brilhantes chamas da ira de Deus. A boca do inferno encontra-se escancaradamente aberta, e vocês não tem nada para se apoiar, nem coisa alguma em que possam se segurar. Não há nada entre vocês e o inferno senão o ar, e é apenas o poder e a mera boa vontade de Deus que os sustenta.


É provável que não estejam cientes destas coisas, pois descobrem que estão fora do inferno, mas não veem a mão de Deus nisso. Vocês olham para as outras coisas, como o bom estado dos seus corpos físicos, o cuidado com suas vidas e os meios que usam para a própria preservação. Mas essas coisas, na verdade, nada são, pois se Deus retirasse Sua mão, elas teriam tanto valor para impedir as suas quedas quanto tem o ar rarefeito para sustentar uma pessoa que está suspensa nele.


Suas iniquidades os tornam tão pesados quanto o chumbo e os empurram para baixo com grande peso e pressão em direção ao inferno. Se Deus permitisse, imediatamente afundariam e rapidamente desceriam e mergulhariam no mar sem fundo. A boa saúde e o cuidado e prudência que mantêm, e os melhores esquemas, e toda a justiça, teriam tanta influência para preservá-los e mantê-los fora do inferno quanto uma teia de aranha é capaz de deter uma avalanche de pedras. Não fosse pela boa vontade soberana de Deus, a terra não os suportaria por um só momento, pois vocês são um fardo para ela. A criação geme por causa de vocês. Ela está sujeita ao cativeiro da corrupção involuntariamente. Não é de boa vontade que o sol brilha sobre suas cabeças, para que tenham luz para servir ao pecado e a Satanás. A terra não dá voluntariamente seus frutos para satisfazer suas luxúrias, nem é de boa vontade que serve de palco para que cometam iniquidades. Não é de bom grado que o ar serve para manter a chama da vida em suas narinas, enquanto vocês gastam suas vidas no serviço dos inimigos de Deus. A criação de Deus é boa e foi feita para que o homem servisse a Ele por meio dela, e não é de bom grado que serve a outros propósitos, e geme quando é abusada com propósitos tão diretamente contrários à sua natureza e fim. O mundo os vomitaria, não fosse a mão soberana dAquele que o sujeitou na esperança [da redenção].

Eis as nuvens negras da ira de Deus pairando agora sobre suas cabeças, carregadas de terrível tempestade, e cheias de trovões, e não fosse a mão restringente de Deus, elas imediatamente arrebentariam sobre vocês. A graça soberana de Deus, no momento, refreia es-se vento impetuoso, pois, de outro modo, ele viria com fúria, e sua destruição viria como um redemoinho, e vocês seriam como a palha que o vento dispersa.

A ira de Deus é como grandes águas que estão represadas agora. Ela aumenta mais e mais, e fica mais e mais elevada, até que chega ao limite; e quanto mais é impedida, mais rápido e poderoso é seu curso quando é liberada. É verdade que o julgamento contra suas más obras não foi executado ainda, o ímpeto da vingança de Deus tem sido segurado. Mas, enquanto isso, as suas culpas constantemente aumentam, e a cada dia vocês entesouram mais ira. As águas estão constantemente crescendo e aumentam diariamente com mais força, e não há nada, senão a mera boa vontade de Deus, capaz de deter o que não quer ser detido e se esforça para continuar. Se Deus apenas retirasse Sua mão das comportas do dilúvio, elas imediatamente se abririam, e as ígneas ondas da fúria e ira de Deus se derramariam com fúria inconcebível e viriam sobre vocês com poder onipotente. E se suas forças fossem dez mil vezes maiores, sim, ainda que fossem dez mil vezes mais fortes que o mais resistente e tenaz demônio no inferno, isto nada representaria e nem poderiam suportá-las.


O arco da ira de Deus está curvado, e a flecha ajustada no cordel. A justiça mira a flecha nos seus corações, e estica o arco, e nada, a não ser a mera boa vontade de Deus, de um Deus irado, sem qualquer promessa ou obrigação alguma, é que impede a flecha de a qualquer instante beber o sangue de vocês. Assim, todos vocês que jamais passaram por uma grande mudança de coração, pelo poderoso poder do Espírito de Deus sobre suas almas; todos que nunca nasceram de novo, nem foram feitos novas criaturas, e nunca foram ressuscitados da morte no pecado para um novo estado, nem antes experimentaram uma nova luz e vida, estão nas mãos de um Deus irado. Ainda que tenham reformado suas vidas em muitos aspectos, e experimentado afeições religiosas, e possivelmente mantido uma forma de religião entre suas famílias e parentes e na casa de Deus, não é nada senão sua mera boa vontade que impede que sejam agora mesmo consumidos na destruição eterna. Ainda que estejam pouco convencidos agora da verdade que ouvem, a seu tempo serão plenamente convencidos dela. Vejam que ocorreu o mesmo com aqueles que partiram nas mesmas condições que vocês estão agora; pois a destruição veio repentinamente sobre a maior parte deles, quando não a esperavam e enquanto diziam: “Paz e segurança”. Agora veem que aquelas coisas de que dependiam para sua paz e segurança, nada mais eram do que ar rarefeito e sombras vazias.

O Deus que os sustenta sobre o abismo do inferno, à semelhança de alguém que segura uma aranha ou qualquer inseto asqueroso sobre o fogo, os aborrece e está terrivelmente provocado. Sua ira contra vocês arde como fogo, Ele os vê como dignos de nada mais, se-não de serem lançados no fogo. Ele é tão puro de olhos que não pode encará-los de frente, vocês são aos seus olhos mais abomináveis que a serpente mais odiosa é aos nossos. Vocês O ofenderam infinitamente mais que um rebelde obstinado ofende a seu príncipe; contudo, não é nada, senão a Sua mão, que os impede de cair no fogo a qualquer momento. Não pode ser atribuído a nada mais o fato de vocês não terem ido ao inferno na noite passada; que tenham sido permitidos acordar novamente neste mundo, depois que fecharam os olhos para dormir. E não há outra razão para explicar o porquê de não terem caído no inferno desde o momento que acordaram esta manhã, senão que a mão de Deus os tenha sustentado. Não há outra razão a ser dada para explicar o porquê de não terem ido ao inferno, desde o momento em que sentaram aqui, na casa de Deus, provocando Seus olhos puros com o modo ímpio e pecaminoso de atenderem ao culto solene. Sim, nada mais pode ser dado como razão do porque vocês não são agora mesmo lançados no inferno.

Ó pecador! Considere o temível perigo em que você se encontra: é sobre uma grande fornalha de ira, um abismo largo e sem fundo, cheio do fogo da ira, que você está seguro pela mão de Deus, cuja ira está tão provocada e acendida contra você quanto está contra os condenados do inferno. Você está suspenso por uma linha fina, com as chamas da ira Divina lampejando em volta, e prontas a todo momento para queimá-lo e consumi-lo por completo; e você ainda não tem qualquer interesse em um Mediador, e nada para se agarrar que possa salvá-lo, nada que retire de você as chamas de ira, nada de si mesmo, nada que tenha feito, nem que possa fazer para induzir Deus a poupá-lo um só instante. E considere aqui mais particularmente:

1. De quem é essa ira: é a ira do Deus infinito. Se fosse apenas ira de homem, ainda que do mais poderoso governante, seria comparativamente pequena para ser temida. A ira dos reis é muito mais temida, especialmente dos monarcas absolutistas, que têm as posses e vidas de seus súditos completamente em seus domínios, a serem dispostas conforme desejarem; Provérbios 20:2: “Como o rugido do leão é o terror do rei; o que o provoca à ira peca contra a sua própria alma.” O súdito que levar à ira um príncipe arbitrário, está sujeito a sofrer os mais extremos tormentos que a arte humana possa inventar, ou o poder humano seja capaz de infligir. Mas o maior dos poderes terrenos, em toda sua majestade e poder, e quando vestidos com os maiores terrores, não são senão frágeis e desprezíveis vermes de pó, em comparação com o grande e poderoso Criador e Rei do céu e da terra. O que eles fazem na sua ira e quando estão revestidos pelo seu furor é pouco. Todos os reis da terra, diante de Deus, são como gafanhotos, são nada e menos do que nada: tanto o seu ódio quanto o seu amor são desprezíveis. A ira do grande Rei dos reis é tão superior a deles quanto é a Sua majestade: Lucas 12:4-5: “E digo-vos, amigos meus: Não temais os que matam o corpo e, depois, não têm mais que fazer. Mas eu vos mostrarei a quem deveis temer; temei aquele que, depois de matar, tem poder para lançar no inferno; sim, vos digo, a esse temei.”

2. É à ferocidade de Sua ira que você está exposto. Lemos com frequência acerca da ira de Deus; Isaías 59:18: Conforme forem as obras deles, assim será a sua retribuição, furor aos seus adversários. Assim, Isaías 66:15: “Porque, eis que o Senhor virá com fogo; e os seus carros como um torvelinho; para tornar a sua ira em furor, e a sua repreensão em chamas de fogo”. Também em muitos outros lugares. Assim, lemos sobre o lagar do vinho do furor e da ira do Deus Todo-Poderoso (Apocalipse 19:15). As palavras são deveras terríveis. Se houvesse sido apenas dito: “a ira de Deus,” as palavras já implicariam algo que é infinitamente terrível. Mas é “a fúria e ira de Deus.” A fúria de Deus! A cólera de Jeová! Ó, como deve ser terrível! Quem pode proferir ou conceber o que tais expressões trazem em si? Mas também se diz com frequência: “a fúria e ira do Deus Todo-Poderoso!” Como se fosse haver uma enorme manifestação de Seu grande poder sobre os objetos de Sua ira, como se a onipotência pudesse, por assim dizer, encolerizar-se, e ser exercida do mesmo modo que os homens costumam mostrar suas forças quando estão no máximo de sua ira. Então, qual será a consequência? O que será do pobre verme que a sofrerá? Que mãos serão fortes? E que corações suportarão? A que terrível, inexprimível e inconcebível profundidade de miséria as pobres criaturas, objetos dela, serão afundadas!

Considerem isso, vocês, que aqui estão hoje e ainda permanecem em um estado não regenerado. Que Deus na execução do rigor de Sua ira implica que a executará sem piedade. Quando Ele contemplar o extremo inexprimível do seu caso, e ver os seus tormentos como sendo tão vastamente desproporcionais às suas forças, e ver como suas pobres almas estão esmagadas, e afundadas, por assim dizer, em um mar infinito; então, não terá compaixão de vocês, não impedirá a execução de Sua ira, nem ao menos afrouxará Suas mãos. Não haverá moderação nem misericórdia de Sua parte, nem Deus, então, impedirá seu vento impetuoso. Não se preocupará com o bem-estar de vocês, nem de forma alguma será cuidadoso de que não sofram muito de alguma outra maneira. Nada será aliviado, porque seja duro demais para vocês suportarem. Ezequiel 8:18: “Por isso também eu os tratarei com furor; o meu olho não poupará, nem terei piedade; ainda que me gritem aos ouvidos com grande voz, contudo não os ouvirei”. Agora, Deus está pronto a ter compaixão de vocês. Este é um dia de misericórdia, ainda podem clamar agora com algum encorajamento de que obterão misericórdia. Porém, uma vez que o dia da misericórdia tenha passado, seus mais lamentosos e dolorosos clamores e gritos serão em vão, pois estarão completamente perdidos e afastados de Deus, quanto a qualquer preocupação com o bem estar de vocês. Deus não lhes terá outro uso, a não ser fazer com que sofram a miséria. Continuarão a existir sem nenhum outro propósito; pois serão um vaso de ira preparado para a destruição; e não haverá outro uso para esse vaso, senão ser cheio de ira. Deus estará tão longe de apiedar-se de vocês quando clamarem a Ele, que apenas “rirá e zombará” (Provérbios 1:25-26).

Como são terríveis estas palavras, que são palavras do grande Deus, Isaías 63:3 “Eu sozinho pisei no lagar, e dos povos ninguém houve comigo; e os pisei na minha ira, e os esmaguei no meu furor; e o seu sangue salpicou as minhas vestes, e manchei toda a minha vestidura”. Talvez seja impossível conceber palavras que tragam em si maiores manifestações destas três coisas, isto é, desprezo, ódio e ira de indignação. Se vocês clamarem a Deus por compaixão, Ele estará tão longe de se compadecer da sua dolorosa situação, ou mostrar-lhes a mínima preocupação ou favor que, ao contrário, apenas lhes esmagará com os pés. E embora saiba que não podem suportar o peso de Sua onipotência esmagando vocês, contudo não se importará com isso, mas os esmagará sem piedade, até que sejam esmagados, e o sangue será salpicado sobre Suas vestes a ponto de manchá-las por completo. Ele não apenas os odiará, mas os terá no maior desprezo: não será pensado lugar algum apto para vocês, senão debaixo de Seus pés, para serem pisados como a lama das ruas.

3. A miséria a que vocês estão expostos é a que Deus infligirá com o propósito de mostrar qual é a ira de Jeová. Deus dispôs em Seu próprio coração mostrar a anjos e homens tanto a excelência de Seu amor quanto o horror de Sua ira. Às vezes, os reis terrenos se inclinam a mostrar como é terrível a ira deles, por meio de extremos castigos que executam naqueles que os provocam. Nabucodosor, aquele poderoso e soberbo monarca do império caldeu, se dispôs a mostrar sua ira quando se enfureceu contra Sadraque, Mesaque e Abednego; e deu ordens para que a fornalha de fogo ardente fosse aquecida sete vezes mais do que antes. Sem dúvidas, as chamas foram levadas ao máximo da fúria que a arte humana poderia induzi-las. Mas o grande Deus também está disposto a mostrar Sua ira, e magnificar Sua terrível majestade e grande poder nos sofrimentos extremos de Seus inimigos. Romanos 9:22: “E que direis se Deus, querendo mostrar a sua ira, e dar a conhecer o seu poder, suportou com muita paciência os vasos da ira, preparados para a perdição”.

E, visto que este é seu desígnio, o que já determinou, isto é, mostrar como é terrível Sua ira não restringida, a fúria e a cólera de Jeová, Ele o fará e levará a cabo. Haverá algo a ser realizado e feito que será terrível para quem o testemunhar. Quando o grande e irado Deus houver se levantado e executado Sua terrível vingança contra os pobres pecadores, e os miseráveis estiverem de fato sofrendo o peso e poder infinitos de Sua indignação, então Ele chamará o universo inteiro para contemplar essa terrível majestade e grande poder que deve ser visto então. Isaías 32:12-14: “Baterão nos peitos, pelos campos desejáveis, e pelas vinhas frutíferas. Sobre a terra do meu povo virão espinheiros e sarças, como também sobre todas as casas onde há alegria, na cidade jubilosa. Porque os palácios serão abandonados, a multidão da cidade cessará; e as fortificações e as torres servirão de cavernas para sempre, para alegria dos jumentos monteses, e para pasto dos rebanhos”.

Assim ocorrerá a vocês, que estão nesse estado de não convertidos, se nele persistirem; o poder infinito, a majestade e terror do Deus onipotente será magnificado sobre vocês, na força inefável de Seus tormentos. Serão atormentados na presença dos santos anjos, e na presença do Cordeiro; e quando estiverem nesse estado de sofrimento, os gloriosos habitantes do céu se adiantarão e contemplarão o terrível espetáculo, para que vejam em que consiste a ira e fúria do Todo-Poderoso; e quando tiverem visto, se prostrarão e adorarão essa grande majestade e poder, Isaías 66:23-24: “E será que desde uma lua nova até à outra, e desde um sábado até ao outro, virá toda a carne a adorar perante mim, diz o Senhor. E sairão, e verão os cadáveres dos homens que prevaricaram contra mim; porque o seu verme nunca morrerá, nem o seu fogo se apagará; e serão um horror a toda a carne”.

4. É uma ira eterna. Será terrível sofrer esta ira e fúria do Deus todo-poderoso por um momento, mas vocês devem sofrê-la eternamente. Não haverá fim para esta miséria horrível e extrema. Quando olharem adiante, verão uma longa eternidade, uma jornada infindável adiante de vocês, que engolirá seus pensamentos e confundirá suas almas; e se desesperarão de qualquer espécie de libertação, fim, ou de qualquer mitigação ou alívio. Saberão que deverão suportar longas eras, milhões de milhões de eras, em luta e conflito com esta poderosa vingança impiedosa; e então, quando isso acontecer, quando muitas eras realmente passarem desse modo, saberão que isso tudo não representa senão um ponto em relação ao que resta. De modo que o castigo de vocês será de fato infinito. Ó, quem pode expressar qual será o estado de uma alma em tais circunstâncias! Tudo o que podemos dizer a esse respeito não dá senão um vislumbre fraco e imperfeito daquilo que é inexprimível e inconcebível: pois “quem conhece o poder da ira de Deus?”

Como é terrível o estado dos que estão diariamente e a toda hora em perigo desta grande ira e infinita miséria! Mas este é o desastroso caso de cada alma nesta congregação que ainda não nasceu de novo, ainda que seja moral e rigorosa, sóbria e religiosa. Ó, considere isso, quer seja jovem ou velho! Há razão para pensar que há muitos agora, nesta congregação, ouvindo este discurso, que serão objetos desta mesma miséria por toda a eternidade. Não sabemos quem são, ou os bancos onde estão assentados, ou que pensamentos agora têm. Pode ser que estejam agora relaxados, e ouçam tudo isso sem muita preocupação, e se gabem que não sejam essas pessoas, prometendo a si mesmos que escaparão. Se soubéssemos que há uma pessoa, apenas uma, em toda a congregação, que deve ser objeto dessa miséria, como seria terrível pensar nisso! Se soubéssemos quem era, que visão terrível seria para tal pessoa! Como seria poderoso o clamor lamentável e amargo que o resto da congregação lançaria por ela! Mas, em vez de um, não é provável que muitos se lembrem deste discurso no inferno? E seria por demais maravilhoso se alguns dos que aqui se encontram agora devam estar no inferno em pouco tempo, talvez antes que o ano se acabe? E não seria incrível se algumas pessoas, que agora estão assentadas em alguns dos bancos desta igreja, saudáveis, tranquilas e seguras, estejam lá amanhã de manhã. Aqueles de vocês que persistirem até o fim em um estado natural, que se mantiveram por muito tempo fora do inferno, lá estarão em pouco tempo! A sua condenação não dorme; virá rapidamente, e provavelmente, muito repentinamente, sobre muitos de vocês. Há razão para se maravilharem que não estejam agora mesmo no inferno. Esse certamente é o caso de alguns a quem conheceram e viram, que nunca mereceram o inferno mais do que vocês, e que até aqui pareciam ter tanta chance de estar vivos como vocês. A esperança deles se foi; estão chorando em extrema miséria e perfeito desespero. Mas aqui estão vocês, na terra dos vivos e na casa de Deus, e com oportunidade de obter a salvação. O que não dariam essas pobres e desesperadas almas condenadas por uma oportunidade de um dia como agora vocês têm?

E agora têm uma oportunidade extraordinária, um dia em que Cristo abriu largamente a porta da misericórdia, e de pé chama e clama em alta voz aos pobres pecadores. Um dia em que muitos se reúnem a Ele, e se esforçam pelo reino de Deus. Muitos vêm diariamente do oriente, ocidente, norte e sul; muitos que outrora estiveram nas mesmas condições miseráveis em que vocês se encontram, agora estão em um feliz estado, com seus corações cheios de amor por Aquele que os amou, e os lavou dos seus pecados em Seu próprio san-gue, e regozijam-se na esperança da glória de Deus. Como é terrível ser deixado para trás em tal dia! Ver tantos festejando, enquanto vocês sofrem e perecem! Ver tantos se regozijando e cantando alegres cantos cordiais, enquanto vocês têm razão para prantear pela tristeza do coração, e ulular pela tristeza de espírito! Como podem descansar um só momento em tal condição? As suas almas não são tão preciosas quanto às dos cidadãos de Suffield, que estão dia após dia se reunindo a Cristo?


Não há muitos aqui que viveram por muito tempo no mundo, e até hoje não nasceram de novo? E estão por esse motivo alienados da comunidade de Israel, e nada fizeram enquan-to viveram senão entesourar ira para o dia da ira? Ó, senhores, a situação de vocês é, de modo especial, extremamente perigosa. A sua culpa e dureza de coração é grande em extremo. Não veem vocês como a maior parte dos de sua idade já faleceram e partiram, na atual dispensação notável e maravilhosa da misericórdia de Deus? Vocês precisam considerar o seu caso, e despertar completamente do sono. Vocês não podem suportar a fúria e ira do Deus infinito.


E vocês, rapazes e moças, negligenciarão este precioso tempo que agora desfrutam, quando tantos de sua idade estão renunciando às vaidades juvenis e ajuntando-se a Cristo? Vocês, em especial, agora têm uma oportunidade extraordinária; mas se a negligenciarem, logo acontecerá com vocês o mesmo que com aquelas pessoas que gastaram os preciosos dias de sua juventude no pecado, e agora vieram a dar um terrível passo na cegueira e endurecimento.
E vocês, crianças, que ainda não são convertidas, não sabem que estão indo para o inferno, suportar a terrível ira desse Deus, que agora está irado com vocês noite e dia? Vocês se contentarão em serem filhos do diabo, quando tantas outras crianças na nossa terra estão sendo convertidas, e tornando-se os santos e felizes filhos do Rei dos reis?


E que todos os que ainda se encontram fora de Cristo, pendurados sobre o abismo do inferno, quer sejam velhos e velhas, de meia idade, ou jovens, ou crianças, agora ouçam os altos chamados da palavra e da providência de Deus. Este ano aceitável do Senhor, um dia de tão grande favor para alguns, sem dúvidas será dia de vingança igualmente notável para outros. O coração dos homens endurece e suas culpas aumentam rapidamente em dias como estes, se negligenciarem suas almas; e jamais houve época de tão grande perigo de tais pessoas serem entregues à dureza de coração e cegueira de mente. Deus parece agora estar ajuntando rapidamente Seus eleitos em todas as partes da nação; e é provável que a maior parte dos adultos que alguma vez serão salvos, sejam atraídos em pouco tempo, e que será como foi no grande derramamento do Espírito sobre os judeus nos dias dos apóstolos. Os eleitos serão salvos e os demais serão cegados. Se isso ocorrer a vocês, amaldiçoarão eternamente este dia, e o dia em que nasceram, por terem visto o tempo de derramamento do Espírito de Deus, e desejarão ter morrido e ido ao inferno sem tê-lo visto. Agora, sem dúvidas, ocorre o mesmo que nos dias de João Batista; o machado se encontra de modo extraordinário posto na raiz das árvores, e toda árvore que não produz bons frutos, será cortada e lançada no fogo.

Portanto, que todos os que estão fora de Cristo, agora acordem e fujam da ira vindoura. A ira do Deus Todo-Poderoso agora, sem dúvidas, está suspensa sobre grande parte desta congregação. Que todos fujam de Sodoma: “apressem-se e fujam por suas vidas, não o-lhem para trás, escapem para a montanha, para que não sejam consumidos.”

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Pense nisso. Deus está trazendo despertamento sobre tua vida!

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

PERDOE E ESQUEÇA: A PALAVRA DE ORDEM PARA TEMPOS DO FIM

"Revesti-vos, pois, como eleitos de Deus, santos e amados, de entranhas de misericórdia, de benignidade, humildade, mansidão, longanimidade; suportando-vos uns aos outros, e perdoando-vos uns aos outros, se alguém tiver queixa contra outro; assim como Cristo vos perdoou, assim fazei vós também." (Cl 3.12,13)

Essa é a instrução do apóstolo Paulo aos crentes da igreja de Colossos. Eles deveriam suportar uns aos outros e perdoar uns aos outros. Suportar e perdoar são o resultado direto primeiramente do revestimento dos crentes de benignidade, humildade, mansidão e longanimidade e em segundo lugar do ato supremo do Senhor, que nos perdoou.

É verdade cristalina que um cristão não deve fazer mal a ninguém conscientemente; não deve agir para prejudicar o próximo, independente de ser também cristão ou não. Não deve ser vingativo, nem executar nenhum tipo de vingança pessoal contra quem quer que seja. Deve procurar, dentro de suas possibilidades pessoais, viver em paz com todos os homens; para isso, é fundamental que o seu caráter seja  um caráter transformado por Cristo, ou seja, um caráter misericordioso, benigno, humilde manso e longânimo. Porém, especialmente - e principalmente - no caso de ser também cristão, ou seja de irmãos em Cristo, mais ainda deve haver tal atitude! Se devemos tratar assim os de fora, muito mais os que são de dentro, os domésticos da fé!

Porém, o fato é que com a proximidade da consumação dos tempos e consequentemente da manifestação do "homem do pecado", do iníquo, mais e mais as relações humanas estão se deteriorando, se degenerando. A vida humana, em nossos dias, nunca teve um valor tão baixo - um homem mata outro homem por qualquer razão e mesmo sem razão alguma e aqueles que vêem o corpo inerte, sem vida, caído na sarjeta nada sentem por aquele que foi morto! Matam-se crianças - até bebês - vítimas de toda sorte de violência (sexual e física) e os assassinos são muitas vezes os próprios familiares. Matam-se mulheres e homens, independente de cor e credo, de posição social ou nível educacional, quer por vingança, quer por queima de arquivo, quer em assaltos, quer por pura paixão (os crimes passionais). "No beco escuro explode a violência" e não apenas "no meio da madrugada" (como cantam os Paralamas do Sucesso, na composição de Hebert Vianna, "o Beco"), mas a qualquer hora do dia ou da noite, mas "nada perturba o meu sono pesado, nada levanta aquele corpo jogado, nada atrapalha aquele bar ali na esquina, aquela fila de cinema, nada mais me deixa chocado".

Enquanto nos "becos da vida", dos subúrbios, esquinas e vielas, explode a violência, outro tipo de violência também explode: a corrupção. Esta explode nos altos círculos de poder, em Brasília e nos Estados. Explode nos gabinetes de governadores, de prefeitos, de vereadores; explode na Câmara de Deputados, no Senado Federal e até na Presidência da República! Explode na evasão de divisas, no crime de lesa-pátria tão comum no País e no mundo; explode na malversação do dinheiro público, no crime de usura, no peculato; na indicação de políticos para cargos dirigentes de órgãos da administração, no tráfico de influências, no favoritismo em defesa do interesse próprio, na inescrupulosa ineficiência do Estado - "criando dificuldades para vender facilidades", como diz o ditado popular. Na gestão incompetente, realizada por no mínimo incompetentes - sem formação, habilidade ou atitude necessárias ao desempenho correto da função- , da coisa pública - educação, saúde, segurança, tecnologia, etc.

Toda essa violência que há no mundo é resultado do estado espiritual do mundo: "Sabemos que [...] todo o mundo está no maligno" (I João 5:19). Como argumentei noutra postagem (MORTE OU VIDA: QUAL VOCÊ ESCOLHE?) o mundo está como um morto sepultado, enterrado até a cabeça no maligno. Tal é essa malignidade, tal é o estado do mundo defunto - em alto estado de putrefação, exalando todo fedor oriundo de sua decomposição, que cada vez mais sentimos o odor da morte. E a intensidade desse cheiro só vai aumentar, lamento dizer. Não há nada que possa ser feito para reverter esse estado: o Criador já assinou o atestado de óbito! Não adianta colocar políticos "cristãos" no poder, não adianta operações disso-e-daquilo, não adianta polícia, não adianta nada! Nada, em absoluto, mudará o estado do mundo, pois este escolheu irrevogavelmente para si mesmo servir e seguir o "deus deste século", Satanás. Não há como vencer o sistema em âmbito territorial geofísico ou geopolítico. A violência avançará em todas as áreas, de forma a instalar o caos em todos os países. A crise - seja ela financeira, social, na saúde, na educação, na segurança, na família, na religião, etc - só aumentará mais e mais - em todos os países - até chegar a níveis quase insuportáveis!  

Como o sistema do mundo "tá dominado, tá tudo dominado" pelo diabo, ele avança suas estratégias e artimanhas, com todo poderio do inferno, contra a a Igreja de Nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo, a noiva do Cordeiro. Ele sabe que esta é a única referência, ainda sobrevivente, da Verdade de Deus. A única que pode, pelo poder do Espírito Santo, resistir-lhe firme na fé; a única que tem o poder de Cristo para anunciar o Evangelho a todo homem, libertando-o desse sistema maligno opressor.

Essa estratégia de Satanás contra a Igreja é principalmente "de dentro para fora". Lamentavelmente, Satanás tem alcançado posição no seio de muitas igrejas, semeando heresias destruidoras - como a falsa e demoníaca "teologia da prosperidade", além do sincretismo religioso e do falso misticismo - verdadeiras abominações introduzidas na igreja (veja mais em: QUANDO A IGREJA GERA NÁUSEAS EM DEUS: PARTE 1), com suas falsas curas e falsos milagres. Além de causar escândalos de todo o tipo e assim minar a imagem da Igreja, bem como fomentar a multiplicação de blasfêmias contra o Nome de Cristo, essa ação de Satanás causa confusão no meio dos cristãos, especialmente da atual geração que tem uma preguiça gigantesca de ler e estudar a Bíblia - crentes que estão firmes na fé igual graxa no rolamento. É triste dizer, mas há uma grande grupo de pessoas que dizem ser cristãos mas que, na verdade, nem de perto tocam nas orlas do manto de Cristo. Gente mimada que não aceita repreensão. Não aceita correção. Gente que quer oba-oba, quer milagre, quer pentecoste, quer rolar no chão, quer profetada! Crentes "Leite com Pêra"! Graças a Deus, esse tipo de estratégia não encontra espaço nas ainda Igrejas sérias, que prezam pelo ensino da Palavra de Deus.

Há, no entanto, outra forma tão destruidora quanto a primeira, que por sua virulência, é capaz de penetrar EM QUALQUER IGREJA. Me refiro ao ato de Satanás semear desavença e desconfiança dentro da congregação. Esse estratégia é a mais complicada de se combater, porque ela envolve o sentimento, as emoções que uma pessoa nutre por outra ou por outras. Aqui, Satanás faz com que pequenos erros cometidos ganhem proporções "tsunâmicas", maximizando os erros e separando pessoas. Pessoas que fazem uma confusão imensa em cima do que você prega, ensina e até posta na internet (com ênfase nas redes sociais), distorcendo os fatos para justificar suas teses separatistas. Satanás quer fazer com que os irmãos se estranhem uns aos outros, causando divisão; para isso, geralmente ele semeia insatisfação (contra a liderança na maioria da vezes) e desconfiança (nos reais propósitos da liderança ou de um irmão). As pessoas facilmente levam as coisas para o lado pessoal e com muita frequência são partidaristas: se você "mexe" com alguém que elas estimam mais do que você, pronto. Geralmente esse tipo reclama de grupinhos panelinhas, mas são os primeiros a promoverem tal coisa. Gente que dá lugar a Satanás dentro da igreja e não sabe, fazendo qualquer coisa virar polêmica e motivando assim contendas contra irmãos. Esquecem que o Senhor ABOMINA quem semeia contenda entre irmãos (Pv 6.16-19). Tudo na igreja, desse modo, dá margem para polêmicas e confusões. Se você prega, gera polêmica; se disciplina, gera polêmica; se muda a expressão facial, gera polêmica; se pede ofertas, gera polêmica. Esse assunto de ofertas então é FONTE QUASE INESGOTÁVEL de polêmicas na Igreja, muito por causa dos escândalos.

Abre Parênteses (1): Obviamente, TODAS AS CONTRIBUIÇÕES no Novo Testamento são voluntárias (veja em: DÍZIMOS E OFERTAS: DO ANTIGO PARA O NOVO TESTAMENTO). PORÉM, isso de maneira nenhuma pode servir como desculpa ou justificativa para a avareza. Jesus diz que é do interior do coração que surgem todos os pecados e entre eles inclui a avareza (Mc 7.20-23). O próprio Senhor nos manda acautelar-nos contra a avareza, "porque a vida de qualquer não consiste na abundância do que possui" (Lc 12.15). Nenhum avarento herdará o Reino de Deus - "Não sabeis que os injustos não hão de herdar o reino de Deus? Não erreis: nem os devassos, nem os idólatras, nem os adúlteros, nem os efeminados, nem os sodomitas, nem os ladrões, nem os AVARENTOS, nem os bêbados, nem os maldizentes, nem os roubadores herdarão o reino de Deus." (I Co 6.9,10) Infelizmente, há pessoas que usam as Verdades Bíblicas como suporte ideológico para suas ações antibíblicas e pecaminosas. Avareza é idolatria (Ef 5.5), querido(a) leitor(a) e quando você usa a liberdade em Cristo ligada à contribuição como uma justificativa para sua avareza você está acrescentando pecado sobre pecado. A liberdade, poderíamos dizer, é um trampolim de lançamento para mergulhar no mar infinito da bondade divina, mas pode tornar-se inclusive um plano inclinado sobre o qual escorregar rumo ao abismo do pecado e do mal e, assim, perder também a liberdade e a nossa dignidade. Usar a graça como trampolim para o pecado é equivalente a cair da graça. A nossa liberdade cristã deve ser usada na prática do bem, nunca do mal. Fecha Parênteses.

Um dos objetivos mais importantes de Satanás é levar-nos ao desentendimento, em especial no lar, mas também na igreja. E quando houver desentendimento, a prioridade estava invertida, mais voltada ao que nós desejamos do que ao que DEUS requer. Contendas enfraquecem a igreja como também tornam a mensagem sem crédito. Como membros da igreja visível e obreiros na vinha do Senhor, todos os cristãos professos devem fazer tanto quanto possível para preservar a paz, e a harmonia e o amor na igreja. Notai a oração de Cristo: “Para que todos sejam um, como Tu, ó Pai, O és em Mim, e Eu em Ti; que também eles sejam um em Nós, para que o mundo creia que Tu Me enviaste.” (João 17:21) Deus é desonrado pelos que, professando a verdade, alimentam entre si divergências e discórdias. Satanás é o grande acusador dos irmãos, e todos os que assim procedem se acham alistados ao seu serviço.

Esses melindres e ressentimentos, esse criticismo exacerbado bem como essa desconfiança infundada (em lugares onde há transparência na aplicação dos recursos) precisa acabar. Inimizades, porfias, discórdias, dissensões e facções estão classificadas como obras da carne e, portanto, como impeditivas para alguém herdar o Reino de Deus (Gl 5.19-23). Estas são sempre muito bem dissimuladas com tratamentos “fraternos” e “piedosos”, na melhor das hipóteses! Há aqueles que nunca se submetem, que desacreditam todas as iniciativas antes de começar, que criticam tudo e todos, sempre duvidando do caráter e da bondade de seus líderes a despeito da transparência da vida dos mesmos e da transparência da administração da obra. A causa da Igreja de Cristo - o Evangelho e a Glória de Deus - deve ser tida como superior até mesmo às nossas idéias e opiniões pessoais e deve motivar a paz no seio da Congregação. Devemos ter em mente que contendas, dissensões, facções, porfias e inimizades IMOBILIZAM A IGREJA, impedindo-a de avançar o Reino de Deus e a si mesma, podendo até causar o fechamento de suas portas!

Houve erros? Onde não há erros? Há pontos a melhorarem? Quando não houve? Todos que pensam que fariam melhor, reproduzirão os mesmos erros - e outros tantos - se e quando tiverem oportunidade de agir. Para não imobilizamos a nós mesmos e a igreja em melindres e desconfianças, Paulo nos dá em Colossenses 2 ações que devemos ter: suportar e perdoar. Suportar vem do grego anechomai que significa "tolerar, sofrer, levantar, sustentar, carregar". Essa palavra é muito forte: Paulo diz que eu devo sofrer o meu irmão! Devo ser tolerante com ele apesar dos erros que ele venha a cometer! Devo buscar levantá-lo toda a vez que ele estiver caído e mesmo carregá-lo até ele conseguir andar sozinho de novo! Isso quer dizer que meu irmão tem suas fraquezas e seus erros, assim como eu tenho os meus; portanto, devo estender-lhe a minha mão, colocando-me em posição para ajudá-lo da melhor maneira que eu puder. Mais ainda, não devo romper a comunhão com ele a despeito dos seus erros. Isso não quer dizer "fazer vista grossa" ou não disciplinar quando for necessário; não quer dizer "para meu/minha amiguinho(a)/queridinho(a) tudo; para quem não é, os rigores da lei" como muita gente faz. Quer dizer que devo servir de amparo, de suporte para o outro, nos revestindo (ou seja, tornando a nos vestir) de misericórdia, de humildade (não são apenas os outros que são difíceis… nós também), de mansidão (firmeza com brandura), de paciência (esperar pelo outro como o Senhor espera por nós). Com a palavra "anechomai", Paulo mostra para nós que devemos nos esforçar pelo próximo a ponto de sofrer, aguentar uma situação difícil ou desagradável, aguentar tribulação, perseguição e até mesmo tolerar uma pessoa causadora de situação constrangedora por amor a Cristo.

Paulo vai além: ele diz que também devemos "perdoar uns aos outros". Perdoar vem do grego charizomai, de onde vem a raiz charis, graça. Perdoar é portanto um ato de graça, só possível a quem vive a graça de Cristo em sua vida. Enquanto neste mundo, onde há tanta corrupção em nossos corações, às vezes surgem discussões e dúvidas. Mas é nosso dever perdoar uns aos outros, imitando o perdão através do qual somos salvos. Perdoar o outro se tivermos queixas (gr. momphe) contra ele. Meu Deus, como é fácil termos queixas uns contra os outros! E como é difícil perdoarmos e esquecermos delas! Tem gente que diz perdoar, mas nunca esquece dos erros cometidos, lançando-os em rosto sempre que podem! Não é à-toa que o perdão deve ser feito "assim como Cristo vos perdoou", ou seja, perdão verdadeiro, que diz "apago as tuas transgressões e dos seus pecados não me lembro" (Is 43.25). Perdão verdadeiro envolve esquecimento da transgressão, "apagar da memória o erro", caso contrário não é perdão. Já imaginou se Cristo ficasse nos lançando em rosto nossos pecados? Quem perdoa não fica fazendo "inventário de erros" (porque ano passado você errou assim e assado, e blá blá blá...); perdoou, acabou! Não existe mais o erro! Foi apagado para sempre, não existe mais dívida!

Suportar e perdoar são palavras de ordem de Deus para os crentes de todas as épocas, incluindo principalmente a nossa. Quanto mais cresce a violência, mas as relações interpessoais se estremecerão. Jesus chega ao ponto de dizer que "nesse tempo muitos serão escandalizados, e trair-se-ão uns aos outros, e uns aos outros se odiarão" (Mt 24.10).

"Há pessoas que entra na comunhão do Corpo de Cristo com exigências... julgamentos... rigidez... Tudo o que não acontece de acordo com a sua vontade é considerado um fracasso... Não devemos entrar na comunhão da igreja com exigências, mas com gratidão, porque Deus já pôs o fundamento da nossa comunhão. Ele nos uniu num só corpo, o Corpo de Cristo... Agradecemos a Deus o que Ele fez por nós. Agradecemos porque Ele nos deu irmãos que (como nós próprios) vivem sob seu chamado, seu perdão e suas promessas. Não nos queixamos daquilo que Deus não nos dá, mas agradecemos o que ele nos dá diariamente. Por acaso não basta o que nos é dado: irmãos que, em pecado ou em tribulação, ficam ao nosso lado sob Sua bênção e graça? A comunhão cristã, a que é dada por Deus, não pode ser menor quando um irmão peca, quando a igreja enfrenta circunstâncias difíceis, ou quando ocorrem divergências. Continuamos sendo irmãos, todos sob a graça... Lá, onde o nevoeiro matutino dos ideais se dissipa, nasce fulgurante o dia da comunhão cristã". (Dietrich Bonhoeffer, “Vida em Comunhão”)

Vamos nos assentar e ficar reclamando uns dos outros? Vamos ficar "lambendo nossas feridas"? Dizendo que algo foi feito de forma errada, porque não concordamos da maneira como foi feito, e com isso não seguir mais avante? Vamos imobilizar a Igreja? Vamos "parar tudo" e fechar as portas? Enquanto discutimos filosoficamente se devemos ou não avançar, o Islã é a religião mundial que mais avança no mundo ocidental, em especial na América Latina e na Europa. Garanto a quem quer que seja que nenhum adepto do Islã fica teorizando se deve ou não expandir o Islã, se deve ou não abrir mesquitas noutros países, se deve ou não contribuir financeiramente para isso segundo os projetos do Imam ou do Aiatolá! A Igreja cristã só terá êxito em sua missão quando os crentes aprenderem a suportar e perdoar uns aos outros como algo tão comum quanto beber água, quando entenderem que a Causa de Cristo é superior até a eles mesmos - o que pensam, o que acham, o que sentem ou mesmo suas vidas individuais. O testemunho dos mártires, no passado e hoje, está aí mesmo para quem tiver dúvidas!

Pense nisso. Deus está te dando visão de águia!

sábado, 24 de dezembro de 2016

ANALISANDO A PARTICIPAÇÃO DAS CRIANÇAS NA CEIA DO SENHOR

Examine-se, pois, o homem a si mesmo, e assim coma deste pão e beba deste cálice. (I Co 11.28)

De início, é importante que reconheçamos a questão da participação de crianças na Ceia do Senhor é um assunto polêmico dentre as mais variadas denominações cristãs-evangélicas. Nossos irmãos da Igreja Luterana Evangélica do Brasil, por exemplo, advogam que as crianças podem e devem participar da Eucaristia (da Ceia) mediante ensino preliminar sequencial sobre a importância e seriedade dessa participação (cf. website: http://www.luteranos.com.br/conteudo/ceia-do-senhor-com-criancas. Acesso: 22/12/2016). A Igreja Metodista aceita que as crianças, filhas dos membros da igreja, irmãos/ãs da comunidade de fé ou pelas pessoas responsáveis pela sua educação da fé, participem da Ceia. Por seu turno, o Supremo Concílio da Igreja Presbiteriana do Brasil, respondendo consulta sobre os membro comungantes e não-comungantes e participação das crianças batizadas na infância, na celebração da Santa Ceia do Senhor (CE-SC/IPB-2004 - DOC XXXVII - Quanto ao Documento 004 - disponível em: http://www.executivaipb.com.br/site/atas/CE/CE2004/doc_XXXVII_004.pdf ) conclui que filhos de pais crentes ("filhos do pacto") podem e devem manifestar a fé salvadora e assim que ela manifeste esta fé pode ser recebida por meio da Profissão Pública de Fé e participar assim da Ceia do Senhor. Estes devem receber educação cristã e espiritual formal, a qual deve ser ministrada pelos pais, com ajuda e orientação da Igreja, antes da participação na Ceia do Senhor. Na Igreja Anglicana Reformada do Brasil, os pais são responsáveis de discernir e instruir os seus filhos na fé Cristã. Eles devem decidir se os filhos estão prontos para participar da celebração da Santa Comunhão. Há outras muitas variações sobre esse tema.

Olhando para os diversos entendimentos acerca da participação de crianças na Ceia, a despeito das muitas variações interpretativas, nota-se que há o consenso quase absoluto (com exceção das denominações neopentecostais, onde não há um claro critério de membresia e a ceia é servida para todos os presentes) de que apenas um convertido devidamente batizado nas águas seja admitido na Ceia, excluindo-se desse modo a "Ceia Aberta" (também chamada "Ceia Universal ou Ultra-Livre", onde os elementos são servidos a todos os presentes na ocasião, independente do seu credo, da fé salvadora no Senhor Jesus Cristo e da religião). Assim, uma criança que tenha sido previamente batizada nas águas pode, como crente em Cristo, participar da Ceia, uma vez que a fé salvadora precede tanto o batismo quanto a Ceia. Pelas Escrituras Sagradas, fica evidente que a consciência de pecado, regeneração, fé e salvação precedem o batismo, sendo pré-requisitos para o mesmo, de modo que é necessário que o candidato ao batismo possua discernimento quanto àquilo que representa o batismo. Por derivação, a necessidade do discernimento do ato aplica-se também à Ceia (concordando desse modo com o ensino de I Co 11.28).

No que consiste o auto-exame a que Paulo se refere em "examine-se, pois, o homem a si mesmo"? "Examinar" vem do termo grego "dokimazo", assim a expressão "examine-se a si mesmo" é a tradução de "dokimazetō eauton". O termo dokimazo significa "testar; discernir; examinar; provar; experimentar; julgar"; "colocar à prova"; "distinguir pelo teste"; "aprovado após testado". O termo grego era usado, por exemplo, quando se verificava se algo era genuíno ou não (como metais), como em Rm 14.22; I Co 16.3; II Co 8.22 e I Jo 4.1. O mesmo termo é usado com o sentido de "examinar, escrutinizar, provar" em II Co 8.8 ("...mas para provar, pela diligência dos outros, a sinceridade de vosso amor") e em I Ts 2.4 ("Mas, como fomos aprovados de Deus para que o evangelho nos fosse confiado, assim falamos, não como para agradar aos homens, mas a Deus, que prova os nossos corações").   Vejamos outras traduções da Bíblia Sagrada:

1. Aramaic Bible in Plain English: Because of this, let a man search his soul, and then eat of this bread and drink from this cup (tradução: "Por causa disto, que o homem busque sua alma, e então coma deste pão e beba deste cálice"). 

2. GOD'S WORD® Translation: With this in mind, individuals must determine whether what they are doing is proper when they eat the bread and drink from the cup. (tradução: "Com isto em mente, os indivíduos devem determinar se o que eles estão fazendo é apropriado quando eles comem o pão e bebem o cálice.")

3. Jubilee Bible 2000: But let each man prove himself, and so let him eat of the bread and drink of the cup. (tradução: "Mas cada homem prove a si mesmo, e assim coma do pão e beba do cálice.") O mesmo texto encontra-se nas versões Darby Bible Translation e English Revised Version, com pequenas variações.

4. Bíblia King James Atualizada Português: Examine, pois, cada um a si próprio, e dessa maneira coma do pão e beba do cálice.

Portanto, fica claro que o "auto-exame" recomendado por Paulo como prévio ao participar da Ceia refere-se a uma atividade que deve ser realizada a partir da capacidade de juízo, de julgamento, de raciocínio pessoal. Há a obrigatoriedade, portanto, para aquele que pretende participar da Ceia, de verificar se encontra-se apto para isso ou não. Seguindo-se a leitura de I Co 11 a partir do versículo 27, Paulo vai explicar que a obrigatoriedade do auto-exame deve-se a seriedade e severidade da participação na Ceia: "Portanto, qualquer que comer este pão, ou beber o cálice do Senhor indignamente, será culpado do corpo e do sangue do Senhor. Examine-se, pois, o homem a si mesmo, e assim coma deste pão e beba deste cálice. Porque o que come e bebe indignamente, come e bebe para sua própria condenação, não discernindo o corpo do Senhor. Por causa disto há entre vós muitos fracos e doentes, e muitos que dormem. Porque, se nós nos julgássemos a nós mesmos, não seríamos julgados. Mas, quando somos julgados, somos repreendidos pelo Senhor, para não sermos condenados com o mundo". Noutras palavras, caso o auto-exame não seja realizado, aquele que participa da Ceia corre o sério risco de "participar indignamente, sendo réu do corpo e do sangue do Senhor", "comendo e bebendo a Ceia para sua própria condenação, não discernindo o corpo do Senhor". Como consequência disso, ou seja, da participação indigna, havia entre os crentes Corintos "muitos fracos e doentes", e muitos que haviam morrido.

De antemão, é fácil perceber que esse auto-exame prévio refere-se dentre outras coisas a "discernir o corpo do Senhor". Conforme o Comentário de Benson, discernir o corpo do Senhor envolve considerar a morte de Cristo e os benefícios que o Senhor obteve por meio dela para nós, por seu amor surpreendente por nós, representados naquela solene ordenança; distinguindo assim o pão e o cálice do alimento comum. Ou seja, no erro dos crentes de Corinto estava envolvido o ato de não considerar o simbolismo do pão e o cálice como corpo e sangue do Senhor, mas sim como um alimento comum cotidiano. Aquele pão e cálice eram, nas palavras do próprio Senhor Jesus por ocasião da última Ceia, "o meu corpo" e "meu sangue" (Mt 26.26-28). O pão representa seu corpo dado por nós no Calvário e o vinho simboliza o seu sangue derramado. Note: o pão não se transformava em carne, nem o vinho se transformava em sangue; estes elementos não se transubstanciavam (transformação de uma substância em outra) nem se consubstanciavam (união de dois ou mais corpos na mesma substância) naqueles. Isso, contudo, não significa que devamos considerar a Ceia como somente um rito vazio ou mero memorial, uma vez que há no ato de comer da Ceia severas consequências para quem o fizer indignamente.

Parênteses: Particularmente, o autor desse texto crê que uma vez consagrados no momento da Ceia, o pão e o cálice passam a representar no mundo espiritual o corpo e o sangue do Senhor. Na terra, o pão continua a ser pão e cálice (suco de uva ou vinho) continua a ser o mesmo, jamais alterando sua substância molecular nem tendo a adsorção de moléculas do corpo e do sangue (não há fenômeno de superfície no pão e no cálice); daí segue que ingeri-los é ingerir pão e cálice. Porém, no mundo espiritual, é como se o crente estivesse comendo do corpo e do sangue do Senhor.  

O fato é que a Ceia do Senhor é uma ordenança repleta de significação espiritual, daí segue-se a imperiosa necessidade de entendimento acerca da participação na mesma. Esse discernimento é algo que muitas pessoas com capacidade de julgamento não conseguem alcançar - vide os crentes Corintos, imagine então as crianças!!!

O auto-exame é então aqui determinado como um modo de levar o crente a participar "dignamente" da Ceia do Senhor, evitando-se assim profaná-la, tal como mencionado nos versículos 27 e 29. No auto-exame, o crente faz uma análise honesta e criteriosa sobre o significado da Ceia bem como das razões de sua participação na Ceia. Muitas coisas estão, portanto, envolvidas nesse auto-exame: do ponto de vista pessoal, vão desde o reconhecimento das faltas pessoais com o sincero desejo de abandoná-las bem como da necessidade de perdoar e receber perdão dos irmãos com quem participa da comunhão cotidiana. Passa, portanto, pelo reconhecimento das faltas e pelo consequente arrependimento sincero das mesmas (obviamente, todo aquele que vive obstinadamente em pecado e aqueles que foram excluídos da Igreja não podem participar da Ceia). Olhando agora para o aspecto coletivo, a Ceia é a expressão máxima da comunhão que temos uns com os outros (comunhão envolve decisivamente a participação naquilo que é comum, terreno, de modo que o amor fraternal encontre a sua expressão além do poético, mas de modo prático), pois é a comunhão naquilo que é espiritual e que nos une como Igreja - não instituição humana falida, hipócrita e religiosa, mas sim como Organismo Vivo e Sobrenatural, que é o Corpo de Cristo. Na ceia mostramos a nossa dependência contínua da verdadeira vida que vem de Jesus através da comunhão viva com ele no Espírito neste Corpo de muitos membros. Tudo, portanto, que impede ou dificulta a comunhão no que é terreno, impede a comunhão naquilo que é espiritual; daí, constituem-se faltas contra o Corpo e devem ser também objeto de arrependimento sincero. A Ceia do Senhor nos conclama à união, na qualidade de um só Corpo, e não às divisões, partidos e facções, como se fôssemos membros de diferentes corpos!

Parênteses: Para o pr. Harold Walker, o crente deve chegar-se a Deus sem mentira e sem fingimento, mas com verdade e luz. Aquilo que os outros veem deve ser o que você é. Chegue-se a Deus e à ceia reconhecendo que você é uma “porcaria”, mas uma “porcaria” aceita por Deus. Deus aceita todo tipo de “porcaria”; Ele só não aceita “porcaria com cara de crente”. Deus ama a sinceridade e a verdade. Ele não tem problema com pecado, porque o pecado Ele resolve. Ele tem problema com a religiosidade, pois esta encobre o pecado e nos faz fingir que somos santos. Então, “aproximemo-nos, com sincero coração, em plena certeza de fé, tendo o coração purificado de má consciência e lavado o corpo com água pura.” (Hebreus 10.22). Ter um “coração purificado da má consciência” é ter seus pecados confessados, é andar na luz. Assim que fizer algo errado, procure alguém e confesse seu pecado, fique com a consciência limpa diante de Deus. “Corpo lavado com água limpa” se refere ao batismo. Não se deve tomar a ceia sem ser batizado. No batismo, minha mente é purificada porque recebo perdão pelo sangue. O que lava é o sangue, e não a água. Mas se eu não obedecer à Palavra e descer às aguas, o sangue não vai me lavar. Só posso ter a consciência purificada se eu for batizado.  Portanto, tendo o corpo purificado com água limpa, a mente purificada pelo sangue e um verdadeiro coração na luz, “retenhamos inabalável a confissão da nossa esperança, porque fiel é Aquele que fez a promessa; e consideremo-nos uns aos outros, para nos estimularmos ao amor e às boas obras, não abandonando a nossa congregação, como é costume de alguns, antes admoestando-nos uns aos outros; e tanto mais, quanto vedes que se vai aproximando aquele dia.” (Hebreus 10.23-25). (fonte: http://www.servindocomapalavra.com.br/dinamic2/index.php/textos-publicados/79-como-tomar-a-ceia-do-senhor)

Assim uma criança não batizada, mesmo sendo inocente, pode participar da ceia? A resposta é não. Nesse caso, sua participação seria indigna (I Co 11.27), não por causa de sua condição, mas porque não se enquadra na maneira correta da participação da Ceia. Se as crianças sentirem vontade de tomar a ceia, devem os pais explicar-lhes a razão de sua proibição. No tempo da lei, se alguém comesse da carne do sacrifício de forma indigna, cometia pecado (Lv 7.18; Lv 22.10). Um não batizado ou uma criança, não pode apropriar-se das coisas consagradas ao Senhor: “Laço é para o homem apropriar-se do que é santo…” (Pv 20.25).

Perceba que a solução seria batizar as crianças. Porém, é preciso considerar também no batismo de crianças o elemento do discernimento e da compreensão. Hoje, é comum vermos crianças pedindo para serem batizadas apenas para poderem participar da Ceia, estando ausentes os elementos espirituais necessários para que uma pessoa seja batizada nas águas: arrependimento, confissão e fé, justamente porque lhes falta a capacidade de compreender tais coisas. Aqui, nesse ponto, é bom fazermos a seguinte distinção: há crianças que não atingiram a maturidade para serem batizadas e, portanto, não possuem ainda condições de participação na Ceia. Porém, há também crianças que compreendem bem sua condição para com Deus e podem, portanto, expressarem as condições para serem batizadas e por conseguinte participarem da Ceia. Note que a chamada à salvação, que envolve o reconhecimento da condição perante Deus e a aceitação da solução por Deus proposta, bem como a perseverança no Caminho, envolve a necessidade de reflexão - inicial e sequencial. Os pais e os pastores devem analisar todos os candidatos antes de procederem ao batismo, o que inclui as crianças, e não satisfazerem vontades dissociadas de elementos probatórios verificáveis.   

Com que idade uma criança se torna responsável pelos seus atos, podendo ser então considerado o batismo das mesmas? Os teólogos da idade média pressupunham que com 12 anos as crianças atingiam a fase da responsabilidade. Secularmente, alguns países fixam a responsabilidade (criminal, ou seja, a pessoa passa a ter responsabilidade sobre seus atos perante a lei humana) aos 10 anos. A idade da responsabilidade criminal nos Estados Unidos varia de 6 a 12 anos; na Inglaterra e no País de Gales, é 10 anos; na Suíça, 10; na Escócia, 12; na França, 13; na Rússia, na Alemanha e no Japão, 14; na Suécia e na Dinamarca, 15; em Portugal, 16. No Brasil, apesar da maioridade ser conferida somente aos 18 anos, há crianças de até 8 anos que cometem violência e fazem sexo (até sexo entre crianças). Com a influência cada vez mais poderosa da mídia, bem das pressões - até políticas - para o despertamento sexual das crianças - verdadeira atuação de Satanás sobre as mesmas, é impossível deixar de afirmar que cada vez mais precocemente as crianças atingem a compreensão dos seus atos (perdendo a prerrogativa de inocência). De qualquer modo, os pais - a quem Deus conferiu a primeira e grande responsabilidade de ensinar as crianças - juntamente com os pastores das Igrejas devem analisar caso a caso a fim de decidir batizar ou não uma criança.   

Concluindo: as crianças não devem participar da Ceia, a menos que sejam previamente batizadas nas águas. E isso pressupõe a compreensão de tudo o que está envolvido nesse ato. As exigências são, portanto, as mesmas para adultos, adolescentes e crianças. Não batizar crianças que ainda não tem a condição de sê-lo (bem como negar-lhes consequentemente a participação na Ceia) tem função pedagógico-espiritual tanto para as próprias crianças, como para os adultos, relacionado à valorização da importância e seriedade de ambas as ordenanças. Eventuais justificativas quanto a participação de crianças na Ceia baseadas no Antigo Pacto não se sustentam, tendo-se em vista que a Ceia não é a versão ipsis litteris da Páscoa judaica. Vale lembrar, por fim, que ambas as ordenanças não são sacramentos. Os sacramentos conferem graça e santificação pela simples participação neles; já nas ordenanças é preciso entender a fim de usufruir dos benefícios espirituais dos mesmos (Paulo, em Romanos 6, explica com profundidade o significado espiritual do batismo) e, como vimos no caso da Ceia, é preciso discernir para não participar indignamente.   

Pense nisso!
Graça e paz!

segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

ISRAEL NO DESERTO OU IGREJA NA TERRA: O PAPEL DA LIDERANÇA NA CONDUÇÃO DO POVO DE DEUS

"E disse: Ouvi agora as minhas palavras; se entre vós houver profeta, eu, o SENHOR, em visão a ele me farei conhecer, ou em sonhos falarei com ele. Não é assim com o meu servo Moisés que é fiel em toda a minha casa. Boca a boca falo com ele, claramente e não por enigmas; pois ele vê a semelhança do SENHOR; por que, pois, não tivestes temor de falar contra o meu servo, contra Moisés?" (Nm 12.6-8)

"Então pareceu bem aos apóstolos e aos anciãos, com toda a igreja, eleger homens dentre eles e enviá-los com Paulo e Barnabé a Antioquia, a saber: Judas, chamado Barsabás, e Silas, homens distintos entre os irmãos. E por intermédio deles escreveram o seguinte: Os apóstolos, e os anciãos e os irmãos, aos irmãos dentre os gentios que estão em Antioquia, e Síria e Cilícia, saúde. Porquanto ouvimos que alguns que saíram dentre nós vos perturbaram com palavras, e transtornaram as vossas almas, dizendo que deveis circuncidar-vos e guardar a lei, não lhes tendo nós dado mandamento, Pareceu-nos bem, reunidos concordemente, eleger alguns homens e enviá-los com os nossos amados Barnabé e Paulo, Homens que já expuseram as suas vidas pelo nome de nosso Senhor Jesus Cristo. Enviamos, portanto, Judas e Silas, os quais por palavra vos anunciarão também as mesmas coisas. Na verdade pareceu bem ao Espírito Santo e a nós, não vos impor mais encargo algum, senão estas coisas necessárias: Que vos abstenhais das coisas sacrificadas aos ídolos, e do sangue, e da carne sufocada, e da prostituição, das quais coisas bem fazeis se vos guardardes. Bem vos vá. Tendo eles então se despedido, partiram para Antioquia e, ajuntando a multidão, entregaram a carta." (At 15.22-30)

Dois textos diferentes, duas épocas diferentes. No primeiro, Moisés é o guia, o mediador da Velha Aliança, escolhido por Deus para levar o povo de Deus do Egito para a Terra Prometida. Já no segundo, na época do Novo Testamento, vemos os apóstolos e presbíteros da Igreja decidirem conjuntamente, como liderança eleita por Deus, acerca da validade e aplicabilidade das práticas e ritos do Velho Testamento para os crentes em Cristo Jesus. Nos dois casos, vemos que há uma liderança instituída por Deus, com responsabilidades com relação à Congregação (Israel no Antigo e Igreja no Novo Testamento), lideranças que devem ser respeitadas pelo ofício que desempenham. Porém, as semelhanças entre os dois tipos de liderança param por aí. Isso é muito importante ser compreendido, porque há muitos abusos hoje sendo cometidos por lideranças religiosas, que se apropriaram do dogma da infalibilidade papal e passaram a governar a Igreja seguindo os pressupostos do Absolutismo (teoria política que defende que alguém, em geral, um monarca, deve ter o poder absoluto, isto é, independente de outro órgão. É uma organização política na qual o soberano concentrava todos os poderes do estado em suas mãos). Essas lideranças, discípulas do monarca francês Luís XIV (conhecido como "Rei Sol") o qual declarou solenemente, a seu chanceler, que os  ministros e secretários de Estado iriam auxiliá-lo com seus conselhos, apenas e somente quando lhes fosse pedido. Ou seja, ele, Luís XIV, bastava-se a si mesmo.

Precisamos primeiramente, portanto, compreender com clareza como funcionava a liderança no Antigo Testamento e como ela deve funcionar no Novo Testamento. Novamente, tratam-se de momentos distintos na vida espiritual do povo de Deus. Para entendermos como a liderança funcionava nos dois Testamentos precisamos recorrer a Antropologia Bíblica, especificamente no que se refere à parte imaterial do homem e seu estado, com relação a Deus, em ambos os testamentos.

Daí, inicialmente vemos o homem sendo criado por Deus "do pó da terra", conforme registrado no Livro de Gênesis 2:7: "E formou o SENHOR Deus o homem do pó da terra, e soprou em suas narinas o fôlego da vida; e o homem foi feito alma vivente." Aqui, Deus forma o homem completo - corpo, espírito (fôlego da vida) e alma (que surge do contato do espírito com o corpo). Portanto, vemos o homem tripartite, criado à imagem de Deus. Antes da queda (o pecado original), o homem, que é constituído por três partes - corpo, alma e espírito - gozava de plena comunhão com Deus. A parte do homem responsável pelo relacionamento do homem com o mundo espiritual é o espírito humano. Em seu estado de santidade e comunhão com o Criador, o homem vivia uma vida de saúde física, emocional e espiritual. Com o pecado, a comunhão com Deus foi rompida. O homem, então, passou imediatamente a um estado de morte espiritual (separação do homem de Deus). Essa condição - de morte espiritual - passou de Adão a toda raça humana, o que implica que toda a raça humana perdeu o contato natural, primevo, que tinha com Deus. Isso não significa que o espírito humano deixou de existir, mas que perdeu a sua função, tornando-se inútil.

Assim, na época do Antigo Testamento, todo homem, qualquer que seja, está sujeito a essa condição espiritual: de morte do espírito. Deus não pode se comunicar com o homem utilizando seu espírito; portanto, para haver comunicação entre Deus e o homem, Deus tem (1) que tomar a iniciativa e (2) precisa fazer com que esta comunicação aconteça sem a intervenção de qualquer parte ou modo humano. Ou seja, era Deus comunicando ao homem a Sua vontade de uma forma tal que não houvesse nenhuma chance para interpretação humana. Deus deveria garantir todo o processo de comunicação. Para comunicar-se com a humanidade que Ele tanto amou (e ama), Deus escolhia uma pessoa e usava essa pessoa para transmitir Sua vontade ao homem. Assim, vemos Deus se comunicando com e por Moisés e com e pelos profetas do Antigo Testamento. Por isso, no Antigo Testamento, lemos com frequência que "veio a palavra do Senhor" a uma determinada pessoa (I Sm 15.10; II Sm 24.11; I Rs 6.11; etc).

Como o homem fazia para identificar que a palavra que estava sendo transmitida era a "Palavra do Senhor"? Muito simples: pela critério da inerrância: "Eis lhes suscitarei um profeta do meio de seus irmãos, como tu, e porei as minhas palavras na sua boca, e ele lhes falará tudo o que eu lhe ordenar. E será que qualquer que não ouvir as minhas palavras, que ele falar em meu nome, eu o requererei dele. Porém o profeta que tiver a presunção de falar alguma palavra em meu nome, que eu não lhe tenha mandado falar, ou o que falar em nome de outros deuses, esse profeta morrerá. E, se disseres no teu coração: Como conhecerei a palavra que o SENHOR não falou? Quando o profeta falar em nome do SENHOR, e essa palavra não se cumprir, nem suceder assim; esta é palavra que o SENHOR não falou; com soberba a falou aquele profeta; não tenhas temor dele." (Dt 18.18-22) Note aqui algo muito importante: No Antigo Testamento, não existe em nenhum lugar uma instrução semelhante a "julgai as profecias", porque a profecia naquela época era "tudo ou nada", ou 100% de Deus ou 100% do erro. As profecias dos profetas do Antigo Testamento se constituíram no canôn do Antigo Testamento e não são para serem julgadas, ao contrário; são elas que nos julgam! Nós não julgamos as profecias de Isaías e Ezequiel, por exemplo; mas sim o contrário.
        
Por esta razão, a liderança de Moisés não era objeto de questionamento da parte de Israel: quando Moisés trazia a direção ao povo, essa direção era 100% a direção divina. Logo, questionar a direção dada a partir de Moisés era questionar o próprio Deus! Além disso, nenhum israelita tinha em si condições espirituais para fazer tal julgamento, uma vez que seus espíritos estavam mortos para com Deus. O discernimento espiritual era impossível naquela época! Portanto, todos deviam obedecer inquestionavelmente a liderança que Deus havia levantado!

Porém, a situação "muda de figura" quando passamos ao Novo Testamento. No Novo Testamento, os homens podem ter seus espíritos ressuscitados, podem experimentar o novo nascimento em Cristo Jesus: "O que é nascido da carne, é carne; e o que é nascido do Espírito é espírito" (Jo 3.6). Quando Adão pecou, ele morreu, e bem assim toda a sua descendência. A morte de Adão não foi de imediato uma morte física, mas espiritual. O seu espírito morreu para Deus. O novo nascimento é o renascer deste espírito para Deus. Agora, com o novo nascimento (ou regeneração espiritual), o crente em Cristo torna-se  "habitação do Espírito Santo" (Ef 2.22; I Co 6.19; II Co 6.16; etc), que passa a "dar testemunho" junto com o espírito do crente (mostrando que agora vive novamente) (Rm 8.16). Este novo nascimento possibilita que o crente discirna o espiritual do mundano, podendo julgar todo ensino, pregação, direção, palavra, orientação espiritual à luz (1) da Palavra de Deus, como os nobres crentes de Beréia, os quais examinavam as escrituras  todos os dias  para ver se as coias eram de fato como estava sendo pregada pelos apóstolos (At 17.11) e (2) do testemunho do Espírito no seu espírito, resultado do restabelecimento de sua comunhão com Deus. Percebe? No Novo Testamento, o crente não está mais morto espiritualmente; ele está vivo para com Deus! Portanto, Deus pode falar - e fala - com ele também, sem precisar de intermediários ou mediadores. O único e suficiente mediador entre o homem e Deus, no Novo Testamento, é Nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo (I Tm 2.5).

Obviamente, a responsabilidade no Novo Testamento ficou muito maior: a responsabilidade que só cabia aos profetas do Antigo Testamento recaiu no Novo sobre todos os crentes! Todos passaram a ter a responsabilidade de aprender a ouvir a Deus e de obedecê-Lo e de conhecer as Escrituras. Antes, era só seguir o profeta, o líder. Agora, é preciso discernir a direção dada, se vem do Senhor e até que medida ou é coisa humana ou até do espírito do erro. Sempre lembrando que cada crente, por mais comunhão que tenha com Deus, jamais será infalível em termos espirituais - ou seja, incapaz de discernir 100% as Escrituras e 100% a direção de Deus. Isso deve-se ao fato de ainda possuirmos em nós a velha natureza do pecado. Por isso, surge no Novo Testamento algo inédito e imprescindível no plano de Deus para redenção do homem: A IGREJA. A Igreja, a coletividade dos crentes em Cristo Jesus, lócus espiritual daqueles que nasceram de novo, torna-se um lugar de suma importância para a fé individual, pois é com ela, junto dos meus irmãos e irmãs em Cristo, que vou CONFERIR MUTUAMENTE a direção que interpreto ser de Deus e APROFUNDAR meu conhecimento e prática das Escrituras.  Veja a IMPORTÂNCIA CAPITAL da Igreja: Nela, em comunhão com meus irmãos, estou protegido contra o espírito do erro, uma vez que vou buscar sempre conferir antes de decidir, estudar antes de ensinar! Cada crente, cada irmão e irmã na Igreja é importantíssimo para minha fé, portanto; pois todos podemos ouvir de Deus e devemos discernir aquilo que ouvimos.

É exatamente isso que vemos em ação em Atos 15! Não houve ali, na Assembléia dos crentes em Jerusalém, um "Moisés do Novo Testamento" que dissesse "vamos fazer assim e assim, porque Deus falou comigo e deu essa e aquela direção para todo mundo", como se só ele ouvisse de Deus e os demais não. Não, em hipótese alguma! Nem Paulo e nem Barnabé, apóstolos de Cristo, arrogaram-se "porta-vozes exclusivos do Altíssimo"!  Não, absolutamente! Paulo e Barnabé "contavam quão grandes sinais e prodígios Deus havia feito por meio deles entre os gentios" (At 15.12). Quando estes se calaram, falou Tiago, o qual esclarecendo a questão julgou que não se deveria perturbar aqueles, dentre os gentios, que se convertiam a Deus (At 15.19). E o que aconteceu, em seguida? Os irmãos que ali estavam, que exerciam a liderança da Igreja, juntamente com toda a Igreja, analisaram os fatos narrados e o parecer de Tiago e então usaram o discernimento espiritual que possuíam, a fim de chegar na conclusão do assunto! O texto diz que eles tiveram consenso entre si (At 15.22-25) e entre eles e o Espírito Santo (At 15.28)! É tão óbvio: eles consultaram mutuamente uns aos outros sobre a questão em foco e chegaram a um consenso entre eles; os quais, obviamente, consultaram ao Senhor para saber se aquele consenso obtido entre eles era também consenso com o Espírito! Nem mesmo o consenso entre eles foi tido como ponto final na questão - e estavam ali homens como Tiago, Paulo, Barnabé, etc - mas o reconhecimento que cada um tinha de que estavam sujeitos ao erro os enchia de temor e os levaram a consultar também com o Senhor - este sim, a Palavra final!

Amado(a) leitor(a), a verdade é que hoje carecemos muitíssimo dessa sensibilidade espiritual! Hoje, homens tomam para si a prerrogativa que só cabe ao Espírito Santo, dando eles a palavra final nas questões de fé! Homens que com isso abrem um precedente imenso para que um espírito do erro, para que um demônio infernal acabe guiando todo um conjunto de pessoas para a perdição! O sentimento é que parece haver uma névoa nas mentes dos crentes quando se levanta um "Moisés do Novo Testamento": eles abrem mão de discernir, de debater, de questionar e aceitam tudo que é dito, tudo que é falado, de forma passiva, como se desprovidos de espírito (e em alguns casos de cérebro mesmo)! Não existe "um decidir por todos" no Novo Testamento! Pastor, apóstolo, bispo, missionário, evangelista, presbítero, papa, profeta, padre... não importa o título; ele não é infalível, não é absoluto, não é rei sol! Eles exercem a liderança da Igreja e glória a Deus por isso! São os líderes do povo de Deus! Porém, esses líderes devem consultar entre si SEMPRE quando forem tomar decisões que envolvam a Igreja, sendo importante também ouvir a Igreja, e após haver consenso, ser IMPRESCINDÍVEL consultar o Senhor. Veja: É PARA CONSULTAR AO SENHOR DEPOIS DE HAVER CONSENSO ENTRE OS HOMENS, NÃO ANTES! Não é "irmão, eu consultei ao Senhor sobre isso e aquilo, e Ele me deu essa direção..." NÃO, NÃO E NÃO!

Parênteses 1: Lembrando que para haver consenso é preciso haver mais do que uma reunião (a famosa "reunião de repasse"): é preciso haver liberdade de expressão!

Parênteses 2: O pior de tudo é que os "Moisés do Novo Testamento" cobram de todos depois quando a direção falha, quando dá zebra. Na hora de decidir, o "Deus me falou e vocês é que escutem calados"; na hora que dá zebra "somos um corpo e todos precisam ajudar". Olhe para as seitas neopentecostais e você facilmente constatará isso!

Quero ser muito enfático aqui, querido(a) leitor(a): É PARA BUSCAR O CONSENSO ENTRE A LIDERANÇA, podendo envolver a Igreja e obrigatoriamente, após o consenso, BUSCAR AO SENHOR SOBRE O ASSUNTO! É óbvio que para aqueles assuntos que já estão claramente estabelecidos nas Escrituras, isso não se aplica. Por exemplo, eu não preciso consultar e nem obter consenso se devo, como líder, ensinar sobre pecado, céu e inferno, necessidade de arrependimento, obras mortas, etc. Não preciso de consenso para pregação e ensino das Escrituras, nem para correção e disciplina daqueles que pecarem. Não preciso de consenso para escrever esse texto nem esse blog. Mas preciso de consenso (incluindo com o Senhor) se devemos ou não "adotar inovações" como prática da Igreja, ou em casos de mudança de logradouro, ou levantamento de obreiros, envio de missionários, etc. Veja que em todas as seitas e heresias que surgiram no meio do povo de Deus, elas foram fruto de "pessoas que julgaram ter ouvido a direção de Deus" e que não consultaram, mas apropriaram-se da prerrogativa de "palavra final" e assim levaram (e levam) milhões à destruição espiritual. Foi assim, por exemplo, com o presbiteriano Joseph Smith Jr., que afirmou ter recebido "uma nova revelação", não consultou com ninguém e acabou criando o Mormonismo; foi assim com o presbiteriano Charles Taze Russell, fundador do Russelismo ou Testemunhas de Jeová, só para mencionar alguns. Modernamente, veja-se o ESTRAGO que o Movimento G-12 fez em inúmeras Igrejas, construído sobre uma experiência pessoal de visão de um líder, desviando milhares de crentes do verdadeiro Evangelho de Cristo, com seu "paipóstolo patriarca", untado e besuntado, que seguem estritamente o dogma da infalibilidade patriarcal!

A revelação chegou à plenitude em Jesus Cristo, querido(a) leitor(a); portanto, toda alegação de novas revelações e novas verdades, por sonhos, visões e outros meios, deve ser cotejada com as Escrituras, corretamente interpretadas. Vale lembrar que é um dos princípios da Reforma Protestante o sacerdócio universal dos crentes, de livre exame da Bíblia e, portanto, de livre acesso a Deus, por meio de Jesus Cristo. Por isso, devem ser rejeitados o sacerdotalismo, o sacramentalismo e o ritualismo, qualquer tipo de hierarquia na esfera espiritual e eclesiástica, e a pretensão humana de interpor-se entre o crente e Deus. Há sempre que se prestar atenção em duas coisas: na direção individual do Espírito Santo e na direção do Espírito Santo aos demais que estão contigo no mesmo propósito e intenção do coração. O papel da liderança no Novo Testamento é buscar o consenso entre si e com Deus, para só então agir!

 Pense nisso!
Graça e Paz!