Pesquisar Argumentações No "Ad Argumentandum Tantum"

Carregando...

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

A PARÁBOLA DO MORDOMO INJUSTO E A MORDOMIA CRISTÃ

"1 E dizia também aos seus discípulos: Havia um certo homem rico, o qual tinha um mordomo; e este foi acusado perante ele de dissipar os seus bens. 2 E ele, chamando-o, disse-lhe: Que é isto que ouço de ti? Dá contas da tua mordomia, porque já não poderás ser mais meu mordomo. 3 E o mordomo disse consigo: Que farei, pois que o meu senhor me tira a mordomia? Cavar, não posso; de mendigar, tenho vergonha. 4 Eu sei o que hei de fazer, para que, quando for desapossado da mordomia, me recebam em suas casas. 5 E, chamando a si cada um dos devedores do seu senhor, disse ao primeiro: Quanto deves ao meu senhor? 6 E ele respondeu: Cem medidas de azeite. E disse-lhe: Toma a tua obrigação, e assentando-te já, escreve cinqüenta. 7 Disse depois a outro: E tu, quanto deves? E ele respondeu: Cem alqueires de trigo. E disse-lhe: Toma a tua obrigação, e escreve oitenta. 8 E louvou aquele senhor o injusto mordomo por haver procedido prudentemente, porque os filhos deste mundo são mais prudentes na sua geração do que os filhos da luz. 9 E eu vos digo: Granjeai amigos com as riquezas da injustiça; para que, quando estas vos faltarem, vos recebam eles nos tabernáculos eternos. 10 Quem é fiel no mínimo, também é fiel no muito; quem é injusto no mínimo, também é injusto no muito. 11 Pois, se nas riquezas injustas não fostes fiéis, quem vos confiará as verdadeiras? 12 E, se no alheio não fostes fiéis, quem vos dará o que é vosso?" (Lucas 16:1-12)

Essa parábola é, talvez, uma das quais mais polêmicas e discordâncias tem suscitado em torno da sua interpretação. É, realmente, um texto difícil de interpretar e por conta disso muita confusão é feita, com evidentes erros bíblicos e que acabam gerando prejuízo para o exercício da fé. Longe de querer solucionar esta polêmica, a intenção dessa postagem é apresentar uma proposta de interpretação que não venha a ferir as regras da hermenêutica bíblica.

Primeiramente, devemos estabelecer o que é um mordomo. Um mordomo, no grego, oikonomos, é aquele que estabelece o "nomos" (lei, regra) da "oikos" (casa). A regra da casa, ou seja,  a forma do bom funcionamento da casa, é de responsabilidade do mordomo. Ele é um servo sobre servos, que tem responsabilidade com tudo que envolve a administração da casa do Seu Senhor. O mordomo não é dono, mas o dono da casa lhe confia tudo o que tem para ser cuidado e desenvolvido - inclusive Seus próprios servos. 

Inicialmente, vemos que no texto de Lucas 12:42, o Senhor já havia feito menção acerca do "mordomo fiel e prudente", como resposta à pergunta de Pedro. Ele aplica o conceito, assim, aos seus discípulos; não apenas os Doze, mas a todos aqueles que fossem colocados pelo Senhor como seus mordomos. Esse "mordomo", em Lucas 12, é aquele que dá a ração, a tempo, aos servos do seu senhor. Ração, nesse texto, é a tradução do termo grego "sitometron", "porção de carne", "uma porção medida de grãos ou de alimento" (desse termo veio a palavra "sitômetro", "aparelho usado para medir a densidade dos cereais"). Caracterizaria uma administração fiel (e sábia), portanto, a ração ser (1) entregue aos servos (não subtraída pelo mordomo, em todo ou parte), (2) a tempo, ou seja, na hora da alimentação e (3) na quantidade certa (nem mais, nem menos), de forma fiel e justa, conforme a necessidade de cada servo. Assim, vemos o exemplo bíblico de José, que "sustentou de pão a seu pai, seus irmãos e toda a casa de seu pai, segundo as suas famílias" (Gn 47.12), bem como a toda a terra do Egito

Nosso Senhor, em Lucas 12, nos diz que "bem-aventurado" (isto é, feliz) será o servo-mordomo que for achado fiel, quando Ele voltar. Ele será posto sobre todos os seus bens (Lc 12.43,44). Note que os mordomos do Senhor darão conta de seus atos nessa função, quando da volta do Senhor. Quem é o mordomo fiel? Aquele que é prudente, que governa bem, que trabalha com integridade, e dispõe as necessidades da casa, com suas mãos, com grande discrição e prudência. Novamente, aqui, vemos o exemplo de José, que foi mordomo fiel, sendo nomeado por Faraó o segundo no seu reino, governador de todo o povo do Egito (Gn 41.40,41), cercado de honras (Gn 41.42-44) e, por fim, teve o nome mudado - de José para Zafenate-Panéia (Gn 41.45). O apóstolo Paulo nos ensina que o que se requer de um mordomo é que ele seja achado fiel (I Co 4.2) e, sem sombra de dúvidas, o Senhor promete recompensar àqueles que forem achados, por ocasião de Seu retorno, nessa condição. Todo mordomo fiel sabe que Seu Senhor voltará e trará nas suas mãos o Seu galardão, para dar a cada um segundo as suas obras (Ap 22.12). Grandes recompensas, que durarão por toda uma eternidade!

Quando o mordomo deixa de cuidar com zelo e fidelidade dos bens do seu senhor, ele torna-se infiel. Em Lucas 12, esse mordomo infiel age como se Seu Senhor não fosse voltar: ele "começa a espancar os criados e criadas, e a comer, e a beber, e a embriagar-se" (Lc 12.45). Este mordomo infiel passou a agir com infidelidade para com seus conservos e para com si mesmo. Ele passou a abusar de sua autoridade com seus conservos; enquanto a si mesmo entregou-se a embriaguez e a glutonaria, vivendo sua vida com devassidão. Se entregaram aos prazeres mundanos. O Senhor promete que o mordomo infiel será pego desprevenido pelo próprio Senhor, dando a este mordomo a sua porção - eterna - com os infiéis (Lc 12.46). 

Em Lucas 16, ao contrário de Lucas 12, o destaque é dado somente ao mordomo como sendo infiel, "acusado de dissipar os seus bens" (ou seja, injustiça). Dissipar, do grego "diaskorpizo", significa, dentre outros, "desperdiçar", "espalhar", "defraudar". Portanto o mordomo infiel é incompetente, irresponsável ou negligente em suas funções que o seu Senhor o conferira. Note que o Senhor deste mordomo é "homem rico" (16.1), portanto a mordomia aqui é sobre muitos bens. Essa defraudação, conforme o texto da parábola indica, consistia em não cobrar as dívidas que outros haviam contraído com seu senhor. Sua função, portanto, era cobrador de dívidas. Assim, este mordomo, em sua infidelidade, simplesmente ignorava a sua função, ou seja, não cobrava as dívidasEste mordomo foi, assim, justamente acusado de infidelidade com os bens do seu senhor, o qual, por sua vez, chama-o e demite-o de sua função de mordomo (v.2). 

Note que há várias diferenças entre Lucas 16Lucas 12: o mordomo infiel, em Lucas, recebe uma recompensa eterna, enquanto o de Lucas 16 recebe uma recompensa terrena. Essa diferença já nos mostra que há pelo menos dois aspectos diferentes (e portanto duas intenções diferentes) sendo tratados pelo Senhor nesses dois textos e, portanto, não podem ser encarados como se fossem a mesma coisa. Entender isso é imprescindível para compreender as parábolas; sem isso, criaremos doutrinas estranhas à Bíblia e colocaremos palavras na boca do Senhor Jesus as quais Ele não disse e nem tencionou dizer. Em Lucas 12, o contexto requer que os discípulos são os mordomos e o Senhor Jesus é o dono da casa; já em Lucas 16 nem uma coisa nem outra estão em foco ou são aplicáveis, apesar das semelhanças; o "senhor/homem rico" é um dos filhos deste mundo, que se admira com a nitidez e rapidez de ação do mordomo. Em Lucas 12, o mordomo é considerado infiel por abuso de autoridade e devassidão moral; em Lucas 16 o mordomo é considerado infiel por defraudação/desperdício (por injustiça), por esbanjar os bens do seu senhor (como acontece na parábola do filho pródigo). 

Em Lucas 16, o mordomo é despedido pelo seu senhor. O que ele passa a fazer? Ele passa a negociar as dívidas com os devedores, de forma que estes devedores o recebessem, após a sua demissão, em suas casas. Note que ele permanece infiel - ele manda que os devedores "escrevam num papel" uma dívida menor do que a verdadeira.  Ele estava garantindo seu lugar às custas do seu senhor, pensando egoisticamente só em si mesmo. A intenção óbvia do mordomo aqui é agradar a estes devedores; uma vez que já estava com "aviso prévio" conferido pelo seu senhor. Obviamente, um ato de desonestidade. No entanto, há algo na atitude do ex-mordomo que o ex-senhor (o homem rico da parábola) louva: a prudência (do grego "phronimōs", "sensibilidade"; "inteligência", denotando astúcia e habilidade).  Talvez o melhor título para esta parábola fosse "O Mordomo Hábil", porque e este o destaque e principal lição da mesma. 

Nosso Senhor conclui esta parábola dizendo que "os filhos deste mundo são mais prudentes na sua geração do que os filhos da luz" (v.8) e que nós, crentes em Cristo, devemos "granjear amigos com as riquezas da injustiça; para que, quando estas vos faltarem, vos recebam eles nos tabernáculos eternos" (v.9). A interpretação do versículo 8 é bem simples: ela dá aplicação direta da parábola, mostrando que os filhos da luz precisam aprender a terem criatividade e habilidade para conduzirem os assuntos de Deus, assim como os filhos deste mundo são hábeis e criativos naquilo que pertence ao reino das trevas. A comparação, portanto, está na habilidade em conduzir os assuntos que são confiados, não nos assuntos per se.  

A partir daí, nos versículo 10 o Senhor Jesus continua a aplicação da parábola, mostrando que a fidelidade (ou infidelidade) não está ligada à quantidade do que é confiado, mas é uma questão de princípio (v. 10). Ou seja, ninguém será desculpado por má administração de recursos alheios com a justificativa de que "eram poucos os recursos".  Se os recursos são poucos, a criatividade e a habilidade precisam ser maiores ainda! Aqui, o Senhor responde de antemão àqueles que justificam sua infidelidade para com ele na quantidade de recursos materiais disponíveis - tamanho de Templo, volume de recursos financeiros, etc. Não há desculpa para não fazermos o que o Senhor requer de nós; os recursos podem ser poucos aos nossos olhos, mas se mostrarão suficientes se forem usados com inteligência, habilidade e criatividade! Afinal, o Senhor não pede para fazermos algo "além das nossas forças". Obviamente, aqui figura a necessidade de planejamento para aplicação de recursos, de forma a alcançar metas e objetivos pré-determinados. Este planejamento abrange a identificação e equilíbrio das receitas e despesas, o ajuste de contas, a escolha de investimentos e a renegociação de dívidas, quando necessário.

Sobre planejamento financeiro, o site "Dinheirama.com" traz uma importante reflexão e recomendação: "Ao contrário do que muitos imaginam, o planejamento financeiro independe da renda do indivíduo. No Brasil, não temos a cultura de desenvolver este plano, assim, ficamos mais vulneráveis às incertezas e riscos e deixamos passar as oportunidades. Todos precisam se planejar, pois, além de termos sonhos e objetivos, imprevistos fazem parte da vida e somos capazes de encará-los com muito mais tranquilidade quando preparados financeiramente para tal" (http://dinheirama.com/blog/2014/10/30/planejamento-financeiro-por-onde-comecar-como-fazer/. Acesso: 19/08/2016)

Ainda com relação ao assunto, há uma excelente recomendação feita por Marcel Nozaki Ulharuzo, em seu Trabalho de Conclusão de Curso de graduação em Administração, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, intitulado "Planejamento financeiro em igrejas: estudo de caso na Igreja Batista Brasa Zona Norte": "[...] sugere-se à organização a continuidade das campanhas que visem buscar um adicional às receitas da igreja. Entretanto, propõe-se uma nova abordagem. Conforme o proposto por Drucker (2006), a melhor forma de incentivar que os indivíduos contribuam é trabalhar a relação entre a instituição e os mesmos de forma a proporcionar aos recebedores uma ligação de interesse com os objetivos organização. Isso significaria deixar de expor as necessidades da instituição, para evidenciar as necessidades dos próprios membros que são supridas por intervenção da BZN. [...] Outra sugestão feita é que sejam abertos aos membros os orçamentos elaborados para os grandes investimentos, de maneira a expor as necessidades de captação para a execução dos mesmos [...]. Assim, reformas e investimentos em infraestrutura devem ser viabilizados, na medida em que os próprios contribuintes se identificarem com as carências mencionadas pelos gestores e participarem das campanhas especiais estabelecidas." (https://www.lume.ufrgs.br/bitstream/handle/10183/67514/000868554.pdf?sequence=1. Acesso: 19/08/2016)

Quem quer "viver mudando os móveis" não pode reclamar de que o "salário" é baixo! Não é sair gastando com projetos elaborados "na paixão", mal planejados (especialmente projetos de alto risco), e depois queixar-se que não tem recurso para as obrigações. Por exemplo, não adianta "torrar recursos" com a aquisição de um ônibus para a Igreja se não há volume de entradas capaz de sustentar o abastecimento de combustível e a manutenção do mesmo. Não adianta "investir na produção de música" com a banda da Igreja, se não há negociação com canais de produção e de distribuição e nem estratégia de lançamento e divulgação, nem de manutenção dos integrantes da banda (salário/participação nos lucros/diárias para hospedagem em viagens), ou um mínimo estudo de preferência musical dos eventuais compradores das músicas (lembrando que tudo isso envolve custo, em um investimento de alto risco). Será recurso perdido! Esse conhecimento é básico nas escolas de administração, quer nos cursos de graduação, quer nos MBA! Note que nada aqui é "tesouro no céu", nada aqui é "riqueza eterna"; antes, são "riquezas mundanas" (ou injustas).

É preciso fidelidade na administração das "riquezas injustas"! Por isso, o Senhor pergunta no vers. 11: "Pois, se nas riquezas injustas não fostes fiéis, quem vos confiará as verdadeiras?" Ou seja, quem vos confiará as verdadeiras riquezas - as riquezas espirituais - se nem nas terrenas vocês são fiéis?  Se não conseguimos ser fiéis na gestão do dinheiro, como seremos fiéis na gestão dos dons espirituais? Como receberemos dons de cura, ou operações de maravilhas, se não conseguimos ser fiéis na administração financeira e secular dos aspectos da Igreja? Afinal, se eu administro mal um ("o pouco"), administrarei mal o outro ("o muito") e o Senhor não tem interesse em uma má administração daquilo que é seu. A gestão das "riquezas injustas" (do grego translit. "mamōna adikō") é o estágio profissional para ser "gestor das riquezas verdadeiras". Novamente, o pouco e o muito contrastados. E esse "muito" pode ser ainda muito maior: pode envolver a gestão de nações no milênio (Ap 2.26,27), só para ficarmos no que foi revelado! 

Porém, o versículo 9 é o mais difícil de se interpretar. O fato é que o versículo 9 parece deslocar a interpretação do versículo 8. Porém, o versículo 9 precisa ser interpretado à luz de tudo o que foi dito até aqui, ou seja, à luz do princípio que a parábola de Lucas 16 ensina. É possível "granjear amigos com as riquezas da injustiça", de forma que esses amigos nos recebam nos tabernáculos eternos? Sim, é possível. Exemplificando: é possível usar as riquezas injustas para socorrer aqueles que precisam, e isso ter como desdobramento mais que um laço de gratidão: aquela pessoa pode, dependendo da situação, vir a tornar-se cristã! Veja, por exemplo, Barnabé. Em Atos 4:36,37, encontramos Barnabé vendendo a sua propriedade a fim de ajudar a Igreja no desempenho de sua missão. Ele era um homem bom, de coração disposto e de larga visão. Além de todos os outros belos traços de seu caráter, devemos acrescentar seu forte espírito de fraternidade para com seus irmãos em Cristo, pois era guiado pelo Espírito Santo ao ofertar para suprir a necessidade daqueles que não tinham. Esse, aliás, era o fruto visível da mudança de vida daqueles que confessavam a Cristo. As escrituras dizem: "Todos os que creram estavam juntos e tinham tudo em comum. Vendiam as suas propriedades e bens, distribuindo o produto entre todos, à medida que alguém tinha necessidade...Pois nenhum necessitado havia entre eles, porquanto os que possuíam terras ou casas, vendendo-as, traziam os valores correspondentes e depositavam aos pés dos apóstolos; então, se distribuía a qualquer um à medida que alguém tinha necessidade" (Atos 2:44-45; 4:34-35). 

Acerca disso, comenta o saudoso Rev. David Wilkerson em seu sermão "O Toque de Deus - O Toque Humano": "[...] as possessões que vendiam eram coisas que eles tinham acima e além de suas necessidades, coisas não essenciais à sua sobrevivência. Em alguns casos, elas provavelmente tinham se tornado como fortalezas dentro do coração dos proprietários. Então os bens foram vendidos, transformados em dinheiro, e doados para sustentar as viúvas, os órfãos e os desamparados da igreja. Eis o testemunho que se propagou de Jerusalém - é a mensagem que o Espírito de Deus queria espalhar por todo o mundo: Somente o poder de Deus poderia romper o espírito de materialismo que asfixiava Israel há séculos. Pense no poder que foi necessário para agitar e despertar um povo autocentralizador e ambicioso, que por centenas de anos havia desprezado o pobre. Os estrangeiros que ouviram estes crentes falando em suas próprias línguas, agora viam-nos se desfazendo de materiais valiosos. E estas possessões não eram sucata. Elas obviamente estavam sendo vendidas como sacrifício. Mais uma vez, os observadores tinham de perguntar: "O quê está acontecendo? Por que está havendo tantas placas de 'Vende-se'? Será que essas pessoas estão sabendo de algo que nós não sabemos? [...] Aqui estava o testemunho do Pentecostes. O mundo viu aqueles crentes cheios de poder amando uns aos outros, vendendo seus bens, dando aos necessitados. E era exatamente isso que o Santo Espírito queria deles. Ele desejava um testemunho vivo para o mundo quanto ao amor de Deus. Eles estavam proclamando o evangelho de Cristo através de seus atos." (http://www.tscpulpitseries.org/portuguese/ts020527.html. Acesso: 19/08/2016)

Isso é fazer amigos para a eternidade! E se a forma de fazer esses amigos é ser um bom mordomo com as "riquezas injustas", então que assim seja! Um tesouro no céu é também uma alma que lá entrará por nosso bom testemunho, mas também pela nossa sabedoria e inteligência. Se é a venda de alguma propriedade ou patrimônio adicional, com recurso oriundo sendo revertido para atender à necessidade urgente de uma pessoa; se é a generosidade em ajudar alguém, ou mesmo um simples almoço, roupa, remédio ou carona; enfim, se assim é que essa pessoa conhecerá a Cristo através da minha vida, então assim seja! Eu não devo "reter além do necessário", nem encolher a minha mão frente às necessidades daqueles que me são próximos. Afinal, até dos recursos injustos somos mordomos de Cristo!  Não é à toa que Nosso Senhor Jesus conclui esse ensino, dizendo: "Nenhum servo pode servir dois senhores; porque, ou há de odiar um e amar o outro, ou se há de chegar a um e desprezar o outro. Não podeis servir a Deus e a Mamom" (Lc 16.13). Mamom, aqui, é o termo aramaico transliterado para o grego que é traduzido por riqueza, o mesmo termo usado desde o início desse capítulo. Não é possível, nas palavras de Jesus, servir a Deus e às riquezas ao mesmo tempo; ou somos servos de Deus e assim procuraremos agradar a Deus (e portanto desprezaremos as riquezas) ou agradar as riquezas (mamom) e com isso desprezaremos a Deus!

Concluindo, surge uma pergunta: quem são os mordomos, hoje? Levando em consideração que cada crente em Cristo tem um ou mais dons espirituais (I Co 12.11; I Pe 4.10) e talentos humanos, cada crente, como servo do Senhor, é um mordomo do Senhor a quem o Senhor conferiu Seus bens para serem usados em prol de Sua Igreja e Reino. Porém, há aquele servo a quem foi confiado outros servos - são estes os apóstolos, profetas, evangelistas, pastores e mestres - além dos presbíteros e diáconos e líderes em geral. Mesmo um líder de departamento infantil é um mordomo. Todos os mordomos tem grande responsabilidade com àquilo que é do Senhor, porém muito mais responsabilidade tem aqueles que cuidam também dos outros servos. E um dia o Senhor voltará! Voltará e se reunirá com cada um dos seus mordomos para acerto de contas: "o que fizeste com aquilo que é Meu? Com aquilo que confiei a Ti? Dá contas da tua mordomia!" Vamos prestar conta da nossa mordomia (Lc 16:1), de como usamos nossa vida, família, bens, recursos, talentos, dons,oportunidades, tempo, dinheiro, inteligência, etc. E aí, querido(a) leitor(a), como será no seu caso? O Senhor disse que há quem muito é dado, muito será cobrado (Lc 12.47,48)! Será você considerado fiel ou infiel? Será você posto sobre os bens do Seu Senhor, ou a sua parte será com os infiéis?  

Pense nisso! Deus está te dando visão de águia!

terça-feira, 26 de julho de 2016

A NOIVA DE CRISTO

Porque estou zeloso de vós com zelo de Deus; porque vos tenho preparado para vos apresentar como uma virgem pura a um marido, a saber, a Cristo. (2 Co 11.2)

O apóstolo Paulo, nesse texto, fala aos Coríntios sobre seu zelo por eles, zelo que era do próprio Deus na vida do apóstolo, cuja evidência era o árduo trabalho pastoral no sentido de preparar àquela Igreja de forma a apresentá-la como virgem pura para Seu marido, a saber Cristo Jesus. A ideia subjacente é, portanto, a comparação da Igreja em geral como a noiva de Cristo. A mesma comparação é vista noutras passagens das Escrituras, como Mateus 22:2, 25:1; João 3:29 e, de forma mais elaborada, em Efésios 5:25-32; Apocalipse 19:7-9; 21:2,9.

A frase "estou zeloso" significa corretamente, "eu ardentemente te amo". Grandes e veemente zelo, algo tão elevado quanto Deus o é. As Escrituras denominam Deus como El qanna, que significa “Deus zeloso”. O nome do Senhor é Zeloso, Deus zeloso Ele é (Êx 34.14), portanto nem Israel, nem a Igreja devem adorar outro deus, nem colocar outro deus no lugar de Deus. Se Deus olhasse com indiferença a idolatria, isso implicaria que Ele pouco se importa com suas criaturas humanas; no entanto, isso não é verdade. Deus ama com todo o Seu ser o homem, criado por Ele à Sua imagem e conforme a Sua semelhança; daí tudo que se interponha entre Deus e o homem é objeto abominação e ira por parte de Deus, como expressão do Seu amor exclusivo por nós, Ele não tolera em hipótese alguma qualquer concorrente ou rival do nosso amor por Ele. Sim, o amor de Deus pelo homem é exclusivista, ou seja, Deus não aceita nos dividir com coisa ou ser ou criatura nenhuma; ou somos totalmente Dele, ou não somos Dele! Ele é o marido que não aceita dividir sua esposa com ninguém; quando a esposa do Senhor volta-se para outro deus, o Deus verdadeiro considera isso prostituição e adultério! 

Jamieson, Fausset e Brown, em seu renomado comentário, fazem a seguinte observação: "Sobre o emblema do noivo celestial e da noiva cf. Mateus 22: 2; 25: 6, 10; 2 Coríntios 11: 2, a perfeita união com Ele pessoalmente e a participação em Sua santidade, alegria, glória e reino estão incluídos no símbolo do "casamento". Essa realidade confere ao casamento terreno, heterossexual, monogâmico e indissolúvel, tal qual ordenado por Deus aos homens, uma grande importância: é este casamento que tipifica espiritualmente a união entre Cristo e Sua Igreja, entre o Noivo e a Noiva!

Parênteses: "Vós, mulheres, sujeitai-vos a vossos maridos, como ao Senhor; Porque o marido é a cabeça da mulher, como também Cristo é a cabeça da igreja, sendo ele próprio o salvador do corpo. De sorte que, assim como a igreja está sujeita a Cristo, assim também as mulheres sejam em tudo sujeitas a seus maridos. Vós, maridos, amai vossas mulheres, como também Cristo amou a igreja, e a si mesmo se entregou por ela, Para a santificar, purificando-a com a lavagem da água, pela palavra, Para a apresentar a si mesmo igreja gloriosa, sem mácula, nem ruga, nem coisa semelhante, mas santa e irrepreensível. Assim devem os maridos amar as suas próprias mulheres, como a seus próprios corpos. Quem ama a sua mulher, ama-se a si mesmo. Porque nunca ninguém odiou a sua própria carne; antes a alimenta e sustenta, como também o Senhor à igreja; Porque somos membros do seu corpo, da sua carne, e dos seus ossos. Por isso deixará o homem seu pai e sua mãe, e se unirá a sua mulher; e serão dois numa carne. Grande é este mistério; digo-o, porém, a respeito de Cristo e da igreja. Assim também vós, cada um em particular, ame a sua própria mulher como a si mesmo, e a mulher reverencie o marido" (Ef 5.22-33). O significado mais importante do casamento encontra-se em duas palavras: "Como a Cristo" e "como a Igreja". O significado básico do casamento não é prazer dos cônjuges, mas o testemunho para o mundo de uma União final entre os homens (e mulheres) redimidos e salvos com Cristo. Casamento não é loteria, não é "vamos tentar para ver se dará certo"; ele é modelado na relação de Cristo e a Igreja e, portanto, quando os cônjuges se espelham nesse relacionamento eterno, trazem para dentro de seu próprio relacionamento as características da eternidade. Porque desconsideramos esta Verdade Bíblica, os casamentos humanos fracassam um após outro com extrema frequência. Fecha parênteses

Outra versão do texto de 2 Co 11.2 é assim apresentada: "Porque estou zeloso de vós com zelo de Deus; pois vos desposei com um só esposo, para que eu possa vos apresentar como uma virgem pura a Cristo". Esse era o papel do amigo do Noivo: tratar da noiva com todo zelo e cuidado, como se fosse a sua própria noiva, a fim de apresentá-la pronta ao Noivo para o dia do casamento. Deus deseja trabalhar na nossa identidade como Igreja, a fim de que cada vez mais nós, Igreja do Deus vivo, possa viver como uma Noiva que se prepara ansiosamente para o dia do casamento, que se guarda a si mesmo pura (virgem), para apresentar-se gloriosa ao Seu Noivo! Para isso, temos um Grande amigo conosco, o Amigo do Noivo está no meio da Igreja - o Espírito Santo, chamado na Bíblia de "Paracleto"! Ele quer mudar a identidade da Igreja, de instituição para Noiva, acompanhando o clamor do Espírito em harmonia com Ele (Ap 22.17), dando àquele que tem sede da água da vida (Jo 4.10-14)! Essa transformação de identidade passa por conhecermos quem é o Nosso Senhor Jesus Cristo, para então sabermos quem somos (Sua Igreja) e então passarmos a viver deste modo! Conhecimento aqui é conhecimento prático, experimental; é Cristo sendo formado em nós pelo Espírito Santo!

"Alegremo-nos, exultemos e demos-lhe a glória, porque são chegadas as bodas do Cordeiro, cuja esposa a si mesma já se ataviou, pois lhe foi dado vestir-se de linho finíssimo, resplandecente e puro. Porque o linho finíssimo são os atos de justiça dos santos." (Ap 19.7,8). Existe uma Noiva preparada, pronta para as Bodas! Uma Noiva vestida de "linho finíssimo, puro e resplandecente", que são os atos de justiça da Igreja! Assim, o que o Espírito faz é cada vez mais revestir a Sua Igreja com justiça! Justiça que é conferida por Deus, não auto-imputada, justiça prática derivada da justiça imputada pelo Senhor! 

No estado eterno, os crentes terão acesso à cidade celestial conhecido como Nova Jerusalém, também chamada "a cidade santa" em Apocalipse 21: 2 e 10. A Nova Jerusalém não é a igreja, mas traz algumas das características da igreja . Na sua visão do fim dos tempos, o apóstolo João vê a cidade descendo do céu adornada "como uma noiva", o que significa que a cidade será gloriosamente radiante e os habitantes da cidade, os remidos do Senhor, serão santos e puros, vestindo roupas brancas de santidade e justiça. Ela é chamada noiva, porque a Noiva morará nela, junto com o Noivo! Não entrará nela coisa alguma que contamine, e cometa abominação e mentira; mas só os que estão inscritos no livro da vida do Cordeiro (Ap 21.27).

Nesse livro estão registrados os nomes de todos os homens e mulheres  que alcançaram a salvação eterna,  os nomes de todos aqueles que foram lavados pelo sangue do Cordeiro, Jesus Cristo. O Cordeiro que foi "morto desde a criação do mundo" tem um livro no qual estão escritos todos aqueles que foram redimidos pelo Seu sacrifício. Eles são os que entrarão na Cidade Santa, a Nova Jerusalém (Apocalipse 21:10) e que viverão para sempre no céu com Deus. Por outro lado, Apocalipse 20:15 revela o destino daqueles cujos nomes não estão escritos no livro da vida - eternidade no lago de fogo. Você tem o nome inscrito no Livro da vida do Cordeiro? Para ter o nome escrito no Livro da vida, é preciso entregar Sua vida à Cristo Jesus!

Você já entregou Sua vida ao senhorio de Cristo? Já se arrependeu de seus pecados e da vida que você vive; já renunciou o mundo com seus prazeres? É preciso se arrepender, confessar e renunciar! Sem Jesus você jamais será a Noiva, nem jamais entrará na Cidade Santa! Sem Jesus, você jamais será salvo(a)! Suas boas obras de nada valem; a salvação dada por Deus não está baseada naquilo que você faz, mas naquilo que Deus e Cristo fizeram! Quem salva não é religião, não é sistema, é uma Pessoa, é Deus! Portanto, está baseada na fé, na sua fé posta em Cristo o Senhor, identificando-se com Ele na Sua morte e ressurreição! Querido(a), a cruz que Cristo foi crucificado era a minha cruz, a sua cruz; nós somos quem devíamos morrer ali, como pecadores e malditos que somos. Jesus nada fez para morrer na cruz, não cometeu pecado algum. No entanto, Deus enviou Seu filho amado para sofrer e morrer em nosso lugar, por nossos pecados! 

O tempo de conversão, querido(a) leitor(a), é hoje! É agora! É já, imediatamente! Deus hoje estende a você o convite à salvação: Ele convida você a ser regenerado, convertido e, deste modo, salvo por Cristo Jesus. "Salvo de quê, pastor?", talvez você pergunte. Salvo da ira de Deus, do juízo de Deus que virá sobre o mundo, sobre os perdidos. Somente em Cristo Jesus você pode ser salvo! O que fazer? Pare de se justificar. Para de se considerar muito bom e justo aos seus próprios olhos. Reconheça-se pecador e longe de Deus! Então, permita que Deus gere no seu coração, pelo Seu Espírito, a profunda tristeza por seus pecados. Você pode sentir todo o peso dos seus pecados sobre você? Percebe como seus pecados são horríveis diante de Deus?  Vê quanta crueldade, quanta maldade, quanta malícia e erro há em sua vida? Confesse cada um deles ao Senhor! Confesse-os pelo nome, cada um deles! Agora, querido(a) leitor(a), convido você a olhar para Jesus. Sim, olhe para Ele, inocente, santo, puro, sem pecado, carregando os seus pecados, cada um deles na cruz, diante de Deus. Veja que Ele morreu por você, por seus pecados. E assim, receba a Ele, ressurreto dentre os mortos, como Senhor e Salvador de sua vida. Fale com Ele nessa hora.

Deixe-me propor uma singela oração: Amado Deus, sou pecador e necessito de perdão. Arrependo-me dos meus pecados, pelos quais Cristo morreu e derramou seu precioso sangue por mim. Agora te peço perdão e convido Jesus para entrar em meu coração e minha vida, como meu Senhor e Salvador pessoal.

Se você confiou em Jesus como seu Salvador, começará agora uma maravilhosa vida com Ele. Então:

1. Leia a Bíblia diariamente;
2. Fale com Deus em oração, todos os dias;
3. Seja batizado nas águas, participe do culto e sirva numa igreja, junto com outros irmãos, onde Cristo seja pregado e a Bíblia seja a autoridade final.
4. Fale de Cristo aos outros.


Quero convidar você, agora a conhecer-me e à Igreja que pastoreio, Igreja Batista Ministério Reviver, em Vila da Penha/RJ. Convido você para vir adorar e servir a Deus conosco, aprendendo como viver sua nova vida em Cristo Jesus! Se desejar, entre em contato por este canal, ou pelo e-mail prricardoksf@yahoo.com.br! Deus abençoe sua vida e lembre-se: Deus está te dando visão de águia!

quarta-feira, 6 de julho de 2016

A EXTREMA MALIGNIDADE DO ESTUPRO E SUAS CONSEQUÊNCIAS

E ACONTECEU depois disto que, tendo Absalão, filho de Davi, uma irmã formosa, cujo nome era Tamar, Amnom, filho de Davi, amou-a. E angustiou-se Amnom, até adoecer, por Tamar, sua irmã, porque era virgem; e parecia aos olhos de Amnom dificultoso fazer-lhe coisa alguma. [...] E foi Tamar à casa de Amnom, seu irmão (ele porém estava deitado), e tomou massa, e a amassou, e fez bolos diante dos seus olhos, e cozeu os bolos. E tomou a frigideira, e os tirou diante dele; porém ele recusou comer. E disse Amnom: Fazei retirar a todos da minha presença. E todos se retiraram dele. Então disse Amnom a Tamar: Traze a comida ao quarto, e comerei da tua mão. E tomou Tamar os bolos que fizera, e levou-os a Amnom, seu irmão, no quarto. E chegando-lhos, para que comesse, pegou dela, e disse-lhe: Vem, deita-te comigo, minha irmã. Porém ela lhe disse: Não, meu irmão, não me forces, porque não se faz assim em Israel; não faças tal loucura. Porque, aonde iria eu com a minha vergonha? E tu serias como um dos loucos de Israel. Agora, pois, peço-te que fales ao rei, porque não me negará a ti. Porém ele não quis dar ouvidos à sua voz; antes, sendo mais forte do que ela, a forçou, e se deitou com ela. Depois Amnom sentiu grande aversão por ela, pois maior era o ódio que sentiu por ela do que o amor com que a amara. E disse-lhe Amnom: Levanta-te, e vai-te. Então ela lhe disse: Não há razão de me despedires assim; maior seria este mal do que o outro que já me tens feito. Porém não lhe quis dar ouvidos. E chamou a seu moço que o servia, e disse: Ponha fora a esta, e fecha a porta após ela. E trazia ela uma roupa de muitas cores (porque assim se vestiam as filhas virgens dos reis); e seu servo a pôs para fora, e fechou a porta após ela. Então Tamar tomou cinza sobre a sua cabeça, e a roupa de muitas cores que trazia rasgou; e pôs as mãos sobre a cabeça, e foi andando e clamando. (II Samuel 13:1,2, 8-19)

O Deus da Bíblia é um Deus santo e justo. Em Sua santidade e justiça, Ele não esconde os pecados e a maldade de quem quer que seja, nem mesmo faz vista grossa ou inocenta o culpado. Ele é o primeiro a condenar toda a maldade, todo pecado, qualquer que seja ele, que brota do interior do coração humano. Sim, é do interior do coração, como disse o Senhor Jesus, que procedem os maus pensamentos, mortes, adultérios, prostituição, furtos, falsos testemunhos e blasfêmias (Mt 15.19). O apóstolo Paulo, escrevendo aos Romanos, afirma categoricamente que toda a humanidade está debaixo de pecado, ou seja, que todos são pecadores; que os homens estão "cheios de toda a iniqüidade, prostituição, malícia, avareza, maldade; cheios de inveja, homicídio, contenda, engano, malignidade; sendo murmuradores, detratores, aborrecedores de Deus, injuriadores, soberbos, presunçosos, inventores de males, desobedientes aos pais e às mães; néscios, infiéis nos contratos, sem afeição natural, irreconciliáveis, sem misericórdia" (Rm 1.29-31). A imaginação humana é má desde a sua meninice, é a constatação que Deus faz nas Escrituras (Gn 8.21); o que muda é somente como essa maldade se manifesta posteriormente, com o crescimento do homem.

Essa argumentação começa com um texto bíblico que ilustra bem toda essa maldade que há no coração humano, que relatei no parágrafo anterior. O texto bíblico de II Samuel 13 começa dizendo que Amnon, filho de Davi, teve um sentimento por sua meia-irmã, Tamar. É dito que ele amou-a; porém não de uma forma honrosa, para fazê-la sua esposa, mas de um modo lascivo, para usá-la no intuito de satisfazer seus impulsos sexuais malignos. Em sua tara sexual, Amnon chegou a adoecer de tanta angústia, de tanto desejo por aquela jovem formosa. Ele tinha consciência de que a sua paixão era criminosa, assim ele escondeu seus sentimentos por algum tempo, mas à custa de sua saúde, sendo atormentado pela violência de um desejo quase incontrolável.

Amnon tem um amigo, chamado Jonadabe, sobre quem é dito ser homem muito sagaz. Ao saber o porquê da situação de profunda angústia de Amnon, Jonadabe bola um plano para fazer com que seu amigo obtivesse o que ele desejava. Amnon se fingiria de doente e pediria que sua irmã Tamar fosse em sua casa cuidar dele. Amnon põe o plano em ação. Tamar vai a sua casa, ele manda todos saírem, com astúcia faz com que ela vá ao seu quarto e, sendo mais forte que ela, força-a e deita-se com ela, cometendo estupro e incesto. Depois do odioso ato, de ter saciado seu tesão maligno com sua irmã, o texto diz que Amnon sentiu grande aversão por ela; ela odiou-a e esse ódio foi maior do que o tesão que ele inicialmente sentia por ela.  Sua mente, que a princípio tinha sido impelida pelo desejo, agora estava agitada por remorso, o que levou-o a um extremo diferente, como um pêndulo. O horror da sua culpa o golpeou com uma aversão repentina a quem ele passou a considerar a causa dela, e então odiou sua irmã. Amnon, tendo satisfeito seu desejo, agora experimentava em sua consciência uma clara e verdadeira perspectiva e um profundo sentimento da torpeza e baixeza de sua atitude, da vergonha e do desprezo, e da perda do amor de sua irmã e família; e, principalmente, pelo justo juízo de Deus que viria sobre si assim que o pecado tornasse público. 

E assim expulsou-a de sua casa, violada, humilhada, confusa e possivelmente cheia de culpa. Ela então rasga a sua roupa de muitas cores, e sai andando, com as mãos na cabeça, chorando em voz alta. Não só sua virgindade estava perdida, mas sua fama, seu nome, sua alegria, sua paz..., sua vida estavam agora destruídas! Arruinadas! Perdidas! Ela era agora uma mulher sem esperança, sem o viçoso brilho de sua formosura que dantes possuía; sua face estava tomada de horror e vergonha, a dor tomava sua alma de uma maneira incomparável. Seu pranto se misturava com seus gritos de ira e de impotência, com uma profunda decepção. "Porque", com toda a certeza, era a pergunta que ecoava em sua alma; "porque meu irmão fez isso?", porque, porque e porque. Perguntas sem respostas, que só faziam agravar o seu estado.

Essa história não acaba aqui. Se você querido(a) leitor(a) prosseguir na leitura, verá que outras terríveis consequências surgiram. Absalão, irmão de Tamar (filhos do mesmo pai e da mesma mãe), ficou indignado com Amnon. Ele ficou quieto durante dois anos esperando momento oportuno para se vingar de Amnon pelo estupro de Tamar. Armou uma cilada e mandou que seus servos matassem Amnon.  Davi, pai dos três, sofreu também: Absalão, ferido por seu pai não ter sabido lidar com a situação (não ter punido Amnon como deveria, nem ter recebido-o após seu retorno da casa do avô) manipulou as pessoas e conquistou o apoio de muitos para levantar uma revolta contra o rei. Ele transa com todas as concubinas do rei diante de toda a nação, ao ar livre. O resultado foi uma guerra civil em Israel que terminou com a morte de Absalão.

O episódio, registrado na Bíblia Sagrada por homens inspirados pelo Espírito Santo, de forma a escreverem o que realmente aconteceu, sem omitir nenhum detalhe por pior que seja, é paradigmático para os horrores que vivem muitas jovens e mulheres (até crianças) ao redor do mundo, verdadeiras Tamares, estupradas por irmãos, primos, padrastos, pais, avôs, tios, professores, desconhecidos... até por sacerdotes de religiões, como pastores, padres e pais de santo. Atualmente, quase todo dia a mídia registra um caso de estupro, repletos de crueldade. Crime hediondo, que deixa marcas profundas no corpo e na alma das vítimas - isto quando suas vidas são poupadas pelo monstro, porque em muitos casos após a barbárie essas pobres mulheres são assassinadas!

Conforme a Lei Nº 12.015, de 7 de Agosto de 2009, estupro é "constranger alguém, mediante violência ou grave ameaça, a ter conjunção carnal ou a praticar ou permitir que com ele se pratique outro ato libidinoso". Essa conjunção carnal pode ser tanto a penetração completa quanto a incompleta; já o "ato libidinoso" pode ser qualquer um que vise prazer sexual. É bom que se diga que a Lei 12.015 de 2009 extinguiu o crime de atentado violento ao pudor e incluiu essa conduta em estupro. Portanto, qualquer ato com sentido sexual praticado com alguém sem seu consentimento, até mesmo um toque íntimo, hoje é considerado estupro pela lei. Por sua vez, o menor de 14 anos tem uma proteção especial da lei brasileira. Com essa idade, é proibida qualquer conduta sexual, com ou sem consentimento, isto é, qualquer ato libidinoso com menor de 14 anos, querendo ele ou não, é corretamente classificado como estupro.

O estupro, como um ato de violência e humilhação, provoca na vítima um medo enorme e uma sensação igualmente enorme de impotência e desamparo. A vítima sente culpa, considerando-se responsável direta ou indiretamente pela violência que sofreu; isso é um fenômeno psicológico resultante de anos a fio de imposição da cultura machista na qual, por exemplo, um sorriso é interpretado como "ela tá dando mole, ela está a fim" e onde a jovialidade por parte da mulher é interpretada como "liberalidade sexual - ela topa tudo". Diz o machismo: "não pode haver amizade real e verdadeira entre um homem e uma mulher; apenas desejo sexual". O cara fantasia com a menina, com a moça, com a mulher (como no filme "Beleza Americana", onde o sujeito tem fantasias sexuais com a amiga de sua filha de 16 anos), desenvolvendo e passando a nutrir por aquela pessoa um sentimento sexual maligno intenso, como fez Amnon.

Parênteses: Nada justificativa o estupro! N-A-D-A! Mas, há na sociedade uma supervalorização do sexo que acaba adoecendo e apodrecendo ainda mais aqueles que já são doentes e podres. Hollywood é o berço de muita podridão na área sexual que acaba povoando o imaginário de muita gente e, de certo modo, aumentando ainda mais a perversão nessa área. Exemplos: os filmes "Beleza Americana" (supracitado), "Instinto Selvagem" (precisa comentar?), "Spring Breakers - Garotas Perigosas" (adolescentes usando drogas, fazendo sexo a três, se envolvendo com o crime e usando armas de fogo), "Ninfomaníaca" (...), "Girl House" (um grupo de garotas que resolve ganhar dinheiro alugando uma casa e transmitindo suas aventuras e performances eróticas pela webcam), "Uma Babá Objeto de Desejo", "Paixão Fatal (The Crush)", dentre muitos e muitos outros. Em todos esses filmes há apelos e fantasias sexuais, taras, etc. Existem pessoas que são sensíveis e altamente influenciáveis às mensagens e imagens veiculadas por filmes de terror, outras por violência, outras por sexo e outras por pornografia. O fato é que vivemos numa sociedade cada vez mais hedonista e erotizada, com exacerbado incentivo ao libido, quer por filmes, TV, jornais, revistas, conversas, modo de vestir, etc. Negar a evidente correlação entre o imenso aumento da liberalização e propaganda sexual com o aumento dos casos de estupro é não querer enxergar o óbvio. Fecha parênteses. 

Sim, o estupro causa marcas profundíssimas e seríssimas na alma humana, cuja dor é, talvez, maior do que a dor física que o ato impõe. Os incontáveis relatos das vítimas são extremamente dolorosos, a começar pelo auto-julgamento por parte da vítima, onde ela vê a si mesma como a grande culpada pelo ocorrido ("eu fui na casa dele", "eu dei mole", "bebi muito", "não gritei"). Há muito rancor e ódio, pessoal e contra o agressor. Sentimento de nojo de si mesma. Insistentes e dolorosas lembranças de imagens, sensações e até de odores ("cheiro") relativos ao momento do estupro. A vítima frequentemente tem episódios de profundo choro (especialmente quando está sozinha) e raramente consegue dormir. Pode ter sentimentos suicidas e até mesmo a tentar o suicídio. Mesmo quando ela vem a (re)construir sua vida e ter um (novo) relacionamento, as marcas aparecerão novamente, por exemplo na dificuldade de se relacionar sexualmente de forma prazerosa com seu cônjuge (dor na penetração, dificuldade de atingir orgasmos, etc), não alcançando uma vida sexual saudável. Uma ferida que nunca cicatriza.

E assim a moça, a mulher vítima de estupro se recolhe internamente, se fecha numa complexa interiorização de si mesma e de sua dor. Há muito sentimento de vergonha envolvido. Quando jovem, tem medo de que o agressor conte, à sua moda, para seus pais o ocorrido, e assim a vítima se sente acuada e oprimida, podendo até desenvolver um sentimento pelo agressor (conhecido na literatura como "síndrome de Estocolmo": nome normalmente dado a um estado psicológico particular em que uma pessoa, submetida a um tempo prolongado de intimidação, passa a ter simpatia e até mesmo sentimento de amor ou amizade perante o seu agressor). Ela pode fugir de casa, como uma alternativa para evitar expor sua situação na família. Ou pode passar a ter medo de andar sozinha. A vítima pode passar a sentir desconfiança ou até aversão por pessoas de sexo masculino (dependendo da idade, por jovens ou homens já maduros). O sentimento de ódio pelo agressor pode ser transferido pela vítima para outros homens, impedindo relacionamentos heterossexuais; nesse caso, o relacionamento homossexual pode surgir como "opção segura e carinhosa"

Aliada à dor emocional da violência (que leva a somatizações pelo corpo), a vítima também pode contrair doenças sexualmente transmissíveis. Pode também engravidar (gravidez indesejada), o que só faz agravar o quadro. Algumas decidem manter a gravidez, outras decidem interrompê-la. No Brasil, o aborto é atualmente permitido em três casos: estupro, se houver risco à vida da gestante ou, conforme decisão do Supremo Tribunal Federal (STF), se o feto for anencéfalo. O mesmo Brasil que acumula casos e mais casos de estupro, como a da jovem de 16 anos que foi estuprada por 33 bandidos, no RJ (estupro coletivo); da turista americana de 21 anos estuprada 8 vezes numa van (http://veja.abril.com.br/noticia/brasil/turista-americana-foi-estuprada-oito-vezes-na-van-do-terror); da jovem de 30 anos estuprada durante 6 minutos num ônibus, na Avenida Brasil/RJ (http://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2013/05/06/estupro-de-mulher-em-onibus-no-rio-durou-seis-minutos-diz-delegado.htm); de um bebê de 6 meses de vida estuprada pelo próprio pai, em Colatina/ES (http://www.gazetaonline.com.br/_conteudo/2015/09/noticias/norte/3908959-pai-confessa-que-estuprou-a-propria-filha-de-seis-meses-em-colatina.html); do pai que estuprou a filha de 6 anos, no estado de Mato Grosso, e menina acabou tendo que passar por cirurgia para ter útero reconstruído (http://www.mtnoticias.net/mt-pai-estupra-filha-de-6-anos-e-menina-passa-por-cirurgia-para-ter-utero-reconstruido/) e assim sucessivamente.    

Vale dizer que não só as mulheres são vítimas de estupro. Conforme comenta o pastor Jesse Campos em seu artigo CULTURA DO ESTUPRO (disponível em: http://igbatista.com.br/cultura-do-estupro/), "nos EUA a Pesquisa Nacional sobre Violência Contra a Mulher de 1998 revelou que 1 em 6 homens e 1 em 33 mulheres foram estuprados ou sofreram atentados sexuais durante suas vidas. E em 2007 a pesquisa do Instituto Nacional de Justiça informou que 19% das universitárias e 6,1% dos universitários foram estuprados ou sofreram tentativas de estupro".

É preciso muito tato, muito cuidado, amor verdadeiro e capacidade de compaixão para ajudar uma vítima de estupro - não apenas ajudá-la a denunciar, mas também ajudá-la a superar a dor e o trauma emocional, a auto-rejeição, as barreiras emocionais que surgirão e reinserir esta pessoa na sua vida cotidiana novamente. Não julgar uma vítima como culpada já é um bom começo; a vítima não precisa de juízes moralistas mas sim de compaixão e ajuda.

Assim, aos pais, meu conselho é manter sempre a amizade e o diálogo aberto com seus filhos e filhas. Falem, pais, sobre estupro com as nossas meninas, por mais desconfortável que isso seja para vocês. Ninguém está livre de passar por esta situação (I Pe 2.21) - eu mesmo quase fui estuprado por um fotógrafo aos 6-7 anos de idade, enquanto esperava a consulta com meu pediatra. Ele pediu para que eu abaixasse meu short, queria  todo custo ver e tocar no meu "piu-piu". Queria que sentasse no colo dele. Lembro como se fosse hoje. Acabei relatando a minha mãe muito tempo depois; me lembro do medo que fiquei em contar, porque temia apanhar por ser considerado culpado daquilo tudo. Dia seguinte voltamos com meu pai e um policial naquele lugar; acabou dando em nada porque naquela época só o meu relato, sem prova nenhuma, não adiantava para nada. Só entendi o que aconteceu comigo muitos anos depois.

Do mesmo modo, pais, estejam atentos às mudanças de comportamento de seus filhos. A criança que sofreu abuso tem comprometimento psicológico. Lembre-se do meu relato acima: a criança tem medo de contar; ela não entende o que aconteceu. No entanto, a dor emocional somatiza; é assim que nossa psiquê reage dizendo que algo está errado conosco. Problemas em controlar a urina ("xixi na cama" - incontinência urinária) ou na evacuação que surgem repentinamente podem significar que alguma coisa aconteceu. Alterações no sono. Do mesmo modo, se a criança que sempre foi alegre e cheia de vida tornou-se repentinamente arredia e triste, ou até agressiva. Há crianças que passam a ter brincadeiras sexuais persistentes, exageradas e inadequadas, e até a ter comportamento aparentemente sedutor com pessoas adultas do sexo oposto ao seu.  Não condene, não recrimine. Tenha tato ao lidar com o problema; quanto mais alarde, quanto mais confusão, mais fechada fica a criança. A vergonha e a culpa são também sentimentos que massacram aquele(a) que foi abusado(a). Dificuldades de concentração na escola, queda repentina no desempenho escolar, medo de adultos do sexo oposto ao seu. Idéias suicidas (atenção!!!!!) (veja mais em: http://www.ebc.com.br/infantil/para-pais/2015/11/17-sintomas-indicam-que-crianca-e-vitima-de-abuso-sexual).

Não deixe de procurar as autoridades competentes para denunciar o crime do qual você foi vítima. Por mais doloroso que seja, não tome banho, para que a coleta de evidências possa ser feita e mais rapidamente o criminoso possa ser preso e julgado competentemente pelos seus crimes. Adicionalmente, aconselho a você a buscar a Deus, o único que pode trazer cura real para suas emoções! Curar seu interior! 

Saiba, querido(a), que Deus odeia o pecado e o estupro é um pecado, portanto objeto do ódio de Deus. Deus odeia o que aconteceu com você, mas Deus não odeia você. Ele te ama. Nosso Senhor Jesus levou sobre si as nossas dores: "Verdadeiramente ele tomou sobre si as nossas enfermidades, e as nossas dores levou sobre si; e nós o reputávamos por aflito, ferido de Deus, e oprimido" (Isaías 53:4). Achamos que a dor era Dele, mas na verdade era a nossa dor sobre Ele! Na cruz do Calvário, ali, sozinho, o Senhor carregou sobre Ele o pecado da humanidade e sofreu a dor que esse pecado causa - tanto em Deus como em nós mesmos. Ali, na cruz, Ele sentiu no seu próprio corpo a sua dor física, emocional e espiritual que surgiram em você ao ser estuprada(o). Ele sentiu o que você sentiu e sente! Ele sentiu a dor, a vergonha, a confusão emocional, o ódio, a culpa, enfim toda a complexa mistura de emoções e sentimentos que você sentiu e sente derivado da agressão sexual. Sentiu a dor de um pai, de uma mãe, ao saber do que aconteceu com seu filho, com sua filha!

Deus é o mais interessado em restaurar sua vida. Independente do que tenha acontecido no seu passado, que não pode ser mudado, lembre-se de que o Senhor é maior que o passado e tem preparado para o seu presente e futuro amor, alegria e vida abundante. Desfrute da cura e do restabelecimento obtidos NEle. Ele, o Senhor, não está longe de você, distante, invariável, como se nada tivesse acontecido. NÃO! Ele está perto de você aí onde você está: "Perto está o SENHOR dos que têm o coração quebrantado, e salva os contritos de espírito" (Sl 34.18).

Talvez você tenha engravidado por conta do estupro e decidiu interromper a gravidez. Isso tem assolado a sua alma anos a fio. Talvez você se culpe por ter sido abusada(o) sexualmente, ou por não ser mais virgem. Talvez você se culpe por não conseguir ser pleno no seu relacionamento íntimo com seu cônjuge hoje. Você se sente rejeitado(a), humilhado(a), inseguro(a), amargurado/rancoroso(a), solitário(a).  Jesus, Senhor e Salvador, tem poder para remover todo o sentimento de culpa que você carrega e curar suas emoções! Saiba que você pode sim ter uma vida sadia mesmo tendo sido vítima desta terrível violência! Jesus disse: "O ladrão não vem senão a roubar, a matar, e a destruir; eu vim para que tenham vida, e a tenham com abundância" (João 10:10). Somente o Espírito de Cristo pode consolar você, trabalhando no seu interior, na divisão da alma e do espírito, de forma a restaurar seu ser! E a Igreja que pastoreio está de portas abertas para receber você! Se você quiser, faça-nos uma visita. Teremos o prazer em receber-lhe em nossas reuniões! Deus tem um plano maravilhoso para sua vida!

A graça do Senhor Jesus Cristo, e o amor de Deus, e a comunhão do Espírito Santo seja contigo. Amém!


Independentemente, se quiser publicar seu testemunho pessoal nesse blog como uma ajuda a outras pessoas, ou se quiser somente conversar, meu e-mail é prricardoksf@yahoo.com.br. Fique à vontade para escrever! Prometo ler com atenção e responder-lhe!

segunda-feira, 27 de junho de 2016

DANÇAR NA IGREJA: ISSO PODE, PASTOR?


Louvem o seu nome com danças; cantem-lhe o seu louvor com tamborim e harpa. Louvai-o com o tamborim e a dança, louvai-o com instrumentos de cordas e com órgãos. (Sl 149.3; 150.4)

A dança, como ato de adoração a Deus, é um tema mencionado muitas vezes no Antigo Testamento. A primeira vez que ocorre é no episódio da travessia do Mar Vermelho, quando Miriã celebrou a liberdade da escravidão do Egito: "Então Miriã, a profetiza, a irmã de Arão, tomou o tamboril na sua mão, e todas as mulheres saíram atrás dela com tamboris e com danças. E Miriã lhes respondia: Cantai ao SENHOR, porque gloriosamente triunfou; e lançou no mar o cavalo com o seu cavaleiro." (Êx 15.20,21) Noutra ocasião, vemos Davi, o mavioso salmista de Israel, dançando com toda a sua força diante da arca do Senhor, que era levada para Jerusalém, expressão de adoração e alegria ao próprio Deus e Senhor cuja presença era representada por Sua arca (II Sm 6; I Cr 15). Nota-se, portanto, de forma clara, que o ato da dança como expressão de adoração a Deus não é algo pecaminoso, nem sujo, nem errado do ponto de vista bíblico. Vale dizer, adicionalmente, que tampouco a manifestação corporal da alegria interior é rejeitada por Deus na Bíblia.

No Novo Testamento, contudo, não constam passagens bíblicas sobre a dança como forma de adoração. De fato, por incrível que pareça, há pouca instrução do que deve ser feito, em termos de formas e expressões de adoração a Deus, no Novo Testamento. Com relação ao serviço de adoração, há indicações em Atos dos Apóstolos (At 2.46 - alegria e singeleza de coração), em I Coríntios (I Co 14.26 - havia salmo, doutrina, revelação, língua e interpretação), onde, nesse caso, muito provavelmente o salmo era usado na adoração, como lemos em Efésios (Ef 5.19 - salmos, hinos e cânticos espirituais, envolvendo o cantar e salmodiar ao Senhor) e Colossenses (Cl 3.16, onde Paulo repete basicamente a exortação de Efésios com alguns acréscimos, com a exceção de nesse caso haver ligação com "ensino e admoestação").

Os "salmos" obviamente se referem aos Salmos do Antigo Testamento, cantados com o acompanhamento instrumental daquela época, o que mostra que eles eram usados na adoração a Deus também no Novo Testamento (como visto adicionalmente em At 4.24) (cf. Ellicott's Commentary for English Readers). O próprio Senhor Jesus e seus apóstolos salmodiavam, isto é, cantavam salmos a Deus (Mt 26.30). A distinção entre "salmos" e "hinos" muito provavelmente refere-se a autoria, isto é, enquanto os "salmos" eram os mesmos encontrados no Antigo Testamento, os "hinos" seriam de composição própria dos crentes, sob inspiração do Espírito Santo (concordando com o comentário de Barnes' Notes on the Bible, como vemos em outras passagens do Novo Testamento, como por exemplo o hino cristológico de Paulo em Filipenses cap. 2). Já a interpretação dos "cânticos espirituais" é incerta: estes podem se referir à qualidade dos cânticos cantados ("espirituais", ou seja, cânticos envolvendo temas sagrados, exortações, doutrina, profecias, etc).

Alguns argumentam que a dança é uma forma de adoração restrita ao Antigo Testamento, pois não é vista tacitamente, nem mencionada explicitamente como um método de adoração no Novo Testamento. Portanto, concluem, que os cristãos não devem adorar desta maneira. Esse argumento é conhecido como "argumento do silêncio". No entanto, como tal, este tipo de argumento não se baseia num ensinamento bíblico claro, restringindo-se ao campo hipotético, o qual sempre pode gerar mais de uma hipótese. Como maioria dos primeiros cristãos eram judeus, provavelmente teriam incorporado formas de culto judaico em seu louvor ao Messias ressuscitado. Segundo a professora Débora Cristina Vieira Aleixo explica em seu artigo "A DANÇA EM UMA COMUNIDADE EVANGÉLICA: A VISÃO DOS FIÉIS" (1), "a dança foi parte essencial do culto e da liturgia cristã. Apenas no fim do século II, e inicio do século III, com a preponderância de gentios nos papeis de liderança da Igreja, ocorreram as mudanças mais radicais". Além disso, como a Igreja aprovava os salmos na adoração ao Senhor, não há porque supor que as formas corpóreas de adoração também não fossem usadas. Com toda certeza, havia muito espaço no serviço cristão para a espontaneidade e a iniciativa pessoal. Com o tempo, tristemente deu-se o processo inevitável de organização, estruturação e padronização, o qual foi substituindo a espontaneidade e liberdade no Espírito.

Ainda segundo a prof. Débora Cristina Vieira Aleixo, os pais da Igreja apoiaram o uso da dança como
adoração, oração e culto sob formas variadas. Ela cita como exemplos João Crisóstomo e Agostinho, os quais "concordavam em declarar a dança um meio de elevação dos membros do corpo para que andassem em consonância com o amor de Deus". No entanto, os reformadores, como Lutero, mantinham uma atitude negativa com relação a dança, não vendo razão para seu uso no culto na Igreja. Alie-se a isso o racionalismo, que percebia a dança como altamente subjetiva, além de boa dose do dualismo grego mente e corpo, e a dança foi interrompida na Igreja até o início do séc. XVIII.

Vale dizer que o "argumento do silêncio" já foi usado para justificar muita coisa sem sentido dentro de igrejas, como a proibição do uso de instrumentos musicais.  Já proibiram até bater palmas (aplausos).

Outro argumento muito comum é o da sensualidade. A ideia é que a dança envolveria a exposição excessiva de partes do corpo em roupas curtas, com movimentos sensuais. Citam como justificativa a dança da filha de Herodias no aniversário de Herodes (Mt 14.6). Porém a sensualidade não está necessariamente ligada à dança per se, mas sim a quem dança, ou seja à pessoa. É possível dançar de forma sensual? Sim, claro! Mas também é possível dançar de forma não sensual (o mesmo se aplica às roupas usadas; não precisam nem serem justas, nem marcantes, nem transparentes e muito menos curtas). Julgar toda e qualquer dança como sensual só porque há movimento do corpo soa como mente depravada. Nenhuma irmã ou irmão está dançando num "pole dance" na igreja, nem fazendo a "dança do ventre"; nenhum crente genuinamente convertido ao Senhor toleraria isso em qualquer lugar, especialmente na adoração a Deus! Obviamente, é preciso cuidado com as danças, coreografias e ministrações, pois dependendo dos passos usados, é possível causar uma má interpretação (mesmo que de forma não-intencional), no entanto um pastor maduro e sábio saberá equilibrar e doutrinar a igreja que pastoreia - o que inclui o pessoal da dança - de forma a evitar tais excessos. O problema não é a dança, mas seu uso desprovido de senso crítico. Assim, não devemos cometer o erro de jogar o bebê fora junto com a água suja do banho, ou seja, condenar uma prática só porque alguns cometem erros.  

O bispo Hermes Fernandes, argumentando acerca da pertinência da dança no culto cristão, faz a seguinte pergunta: "Por que numa aliança caracterizada pela liberdade faltaria um elemento como a dança tão apreciada sob a primeira aliança? Seria, no mínimo, um contrassenso acreditar que os que vivem sob a égide da graça seriam privados de um bem tão comum aos que viveram sob o peso da lei". Ele então pondera: "penso que haja lugar tanto para danças ensaiadas (performáticas) como para danças espontâneas e congregacionais.  Tudo dentro de um padrão decente e devidamente ordenado. Sem extravagâncias. Sem chocarrices. Sem histeria. Sem êxtases. Apenas corações tomados da alegria do Espírito, desejosos de expressar sua gratidão a Deus." (http://www.hermesfernandes.com/2013/01/e-legitimo-usar-danca-como-expressao-de.html).

De fato, há um padrão na dança dentro do culto cristão, ao contrário do que pensam alguns. Todos os passos são ensaiados previamente, junto com a música/louvor que será tocada no momento da dança. De forma geral, os passos a serem dados, propostos pelo líder do grupo de dança, são simples e fáceis de se acompanhar pelo grupo, não envolvendo a necessidade de conhecimento de técnicas ou estilos musicais (como jazz ou ballet).  Nesse caso, os movimentos dos dançarinos tem a intenção de reproduzir as ações e gestos contidos na própria música. Há outra forma de dança onde o grupo busca captar o tema principal da música e então desenvolvem movimentações relacionadas com esse tema.

Os tipos de danças que são realizadas no culto cristão protestante variam conforme a intenção do que se quer comunicar (a dança é uma forma de comunicação). Assim, "se o momento pede uma oração de interseção, o movimento é de prostração e súplica. Se o momento pede celebração, a dança é cheia de saltos e rodopios. Se o momento pede uma oração de arrependimento, a dança é cheia de movimentos de contrações e prostração. Por meio deste tipo de movimentação é que a congregação é levada a meditar e a concentrar-se na adoração a Deus durante o momento de louvor de um culto." (1) Dessa forma, há uma variedade de danças que podem ser realizadas, conforme Isabel Coimbra ensina (2), como por exemplo:

a) Dança de Júbilo - aquela através da qual os dançarinos expressam a Deus sua extrema alegria através de giros, saltos e movimentos.  
b) Dança de Adoração – Esta dança é caracterizada por movimentos de elevação e prostração corporal. Há também os giros variados, saltos, movimentos suaves e de contemplação dentre tantos outros.
c) Dança de Intercessão - Esta suplica normalmente é feita através de movimentos de prostração, reverência e de um trabalho corporal iniciado a partir do ventre, movimentos de contração abdominal projetando todo tórax para frente.
d) Dança de Guerra - Uma característica desta dança são os movimentos em marcha variados pela intensidade e vigor corporal, saltos, sapateados e giros.
e) Dança evangelística - a finalidade é anunciar o evangelho através dos movimentos.
f) Dança de ensino – As danças de ensino são danças que ilustram pregações, tendo o intuito de auxiliar no ensino da doutrina.

Portanto, não vejo porque a igreja deva proibir ou opor-se a criação de um grupo de dança litúrgica. Havendo ensino coerente e bíblico, além de acompanhamento pastoral, não há que se falar em coisas como "carnalidade", "sensualidade", etc. Um pastor temente e fiel ao Senhor jamais permitirá que a adoração e a liberdade cristã se transformem em libertinagem e que a graça de Cristo vire desgraça para os crentes. Quanto ao momento de apresentação do grupo de dança - se durante o louvor congregacional ou se por ocasião de uma exibição especial numa época festiva, isso é de foro íntimo da igreja, observando-se sempre o propósito envolvido e o momento em questão.  Para os integrantes do grupo de dança, especialmente o(a) líder, conhecimento bíblico (o que inclui frequência à Escola Dominical e estudos bíblicos específicos acerca da música, louvor e adoração), oração, comunhão, humildade e singeleza de coração - sem mencionar a submissão à autoridade pastoral - são requisitos básicos; afinal, estão dançando para o Senhor, como expressão de adoração a Ele e para a Glória Dele, e não para si mesmos(as). 

Adore ao Senhor! Adore-o com palmas! Adore-o com música! Adore-o com instrumentos e com vocal! Adore-o com danças! Que todo o seu ser - corpo, alma e espírito - louve e adore ao Senhor Jesus, ao Rei dos reis, pois Ele - e somente Ele - é digno de todo louvor e de toda a adoração!

O Rei da Glória numa cruz morreu,
nos levando a presença do eterno Deus!
Pois o véu da separação,
foi rasgado pelo amor de Deus!
Adoremos em Seus tabernáculos,
entremos nos átrios com louvor!
E na presença dos querubins,
te adoramos Senhor!

Pense nisso! Deus está te dando visão de águia!

----------------------------------------------------------------------------------
REFERÊNCIAS:

(1) http://www.cpgls.pucgoias.edu.br/7mostra/Artigos/SAUDE%20E%20BIOLOGICAS/A%20DAN%C3%87A%20EM%20UMA%20COMUNIDADE%20EVANG%C3%89LICA%20A%20VIS%C3%83O%20DOS%20FIEIS.pdf. Acesso: 27jun2016. 

(2) CORREA, Andressa R. A criação em Dança: um olhar sobre o grupo evangélico de dança Estúdio do Corpo. Trabalho de Conclusão de Curso (Licenciatura em Dança). Universidade Federal de Pelotas, 2014. Disponível em http://wp.ufpel.edu.br/danca/files/2014/06/2.-TCC.pdf. Acesso: 27jun2016. 


 

terça-feira, 17 de maio de 2016

UMA PALAVRA SOBRE A HONRA BÍBLICA


Portanto, dai a cada um o que deveis: a quem tributo, tributo; a quem imposto, imposto; a quem temor, temor; a quem honra, honra. (Rm 13.7)


Os presbíteros que governam bem sejam estimados por dignos de duplicada honra, principalmente os que trabalham na palavra e na doutrina; porque diz a Escritura: Não ligarás a boca ao boi que debulha. E: Digno é o obreiro do seu salário. (I Tm 5.17,18)

Honrai a todos. Amai a fraternidade. Temei a Deus. Honrai ao rei. (I Pe 2.17)

Honra a teu pai e a tua mãe, que é o primeiro mandamento com promessa; para que te vá bem, e vivas muito tempo sobre a terra. (Ef 6.2,3)

Honra: (1) consideração devida a uma pessoa que se distingue por seus dotes intelectuais, artísticos, morais; privilégio; (2) atitude de consideração, sentimento ou marca de deferência; (3) marca de distinção; homenagem. Plural: honras, "manifestações que denotam respeito, consideração por alguém que se distinguiu por sua conduta". Do ponto de vista geral, Pedro nos ensina que todos os homens devem ser honrados por nós. Deus, portanto, do ponto de vista geral, nos chama para honrar todos os homens pelo simples fato de que Ele escolheu dar-lhes vida. Jesus viveu e morreu por homens tão pecaminosos para que eles pudessem ser salvos. As pessoas são preciosas para o Pai; elas são tão valiosas para ele como Seu filho. Quando honramos as pessoas, mostramos que elas são importantes para o Todo-Poderoso.

Porém, Paulo, o apóstolo, nos ensina que devemos honrar àqueles a quem devemos isso, ou seja, há no mundo um grupo de pessoas que são especialmente dignas da nossa honra. Indo mais além, no contexto da Igreja, dentre aqueles que merecem honra estão os presbíteros, os anciãos; e os anciãos que governam bem (governo do Corpo) devem ser duplamente honrados, especialmente os que trabalham na Palavra e na doutrina. 

A palavra "honra", do grego "time", significa para fixar valor, estimar, por implicação reverenciar. Imagine uma casa onde as crianças reverenciam seus pais e o marido à esposa, onde uns aos outros se honram. Devemos estimar e fixar o valor do outro. Pela honra criamos um "tampão" espiritual contra os ataques do inimigo, que de outra forma iriam corroer a qualidade de nossas vidas.

A história bíblica de Noé e seus filhos nos revela a importância da honra. Quando Cão expôs seu pai, Noé amaldiçoou o filho de Cão, Canaã. Por que Noé não amaldiçoou Cão, em vez do filho de Cão? Noé sabia que assim como Cão tinha sido para com ele, assim seria Canaã para com seu pai, Cão. A maldição de Noé foi realmente profunda. Ele disse que Canaã seria "um servo dos servos" (cf. Gn 9:25). Por quê? Porque se você não pode honrar um líder imperfeito, você nunca vai avançar na vida. Você será sempre um escravo.

A Bíblia não diz: honre seu pai e sua mãe caso eles sejam perfeitos. A bíblia não diz, honre seu pastor apenas quando ele estiver certo. Na realidade, o grande teste de submissão é quando nosso líder falha conosco. E ele por certo falhará, pois é imperfeito, exatamente como você o é.

Seu chefe, seu pastor, professor, prefeito, pai ou a mãe são todos imperfeitos. A bem da verdade, não existem líderes perfeitos. Quando você os expõe à humilhação ou desonra, dizendo aos outros suas fraquezas, isso traz maldição sobre sua vida. Você nunca irá avançar na vida com essa atitude. Para ser bem sucedido, você precisa ser capaz de submeter-se aos líderes que são imperfeitos sem desonrá-los. Você diz: "Se eu fizer isso, vou me sentir como um hipócrita". Porém, se você não mostrar honra, você já é um hipócrita. Um verdadeiro cristão estima e respeita as pessoas. Você deve honrá-los e respeitá-los. Deus nos chama para honrarmos e respeitarmos as pessoas, até mesmo quando discordamos delas. Sabemos que há ocasiões em que os homens abusam de sua autoridade oficial e resistem à vontade de Deus. Nesses casos, devemos obedecer à autoridade superior do Senhor, que está acima da autoridade institucional. Mas isso é somente quando somos ordenados por um governante, empregador ou até autoridade na igreja a desobedecer diretamente à Palavra de Deus ou renunciar à verdade. Contudo, mesmo neste contexto, não devemos desonrar os que estão em autoridade a fim de obedecer a uma autoridade superior. Não precisamos ter uma atitude rebelde em relação às pessoas a fim de ter uma atitude obediente para com Deus.

Há algo dentro de nós que se rebela contra a idéia de honrar as pessoas. Dizemos, muitas vezes com ar de “espirituais”, que honraremos apenas Deus. Sentimos que é nosso dever manter os outros humildes a fim de que o orgulho não os domine. Na realidade, é o nosso orgulho que nos domina, alimentado pela inveja que sentimos do sucesso dos outros. Veja o que nos ordena a Palavra de Deus: no corpo de Cristo, devemos honrar a cada membro, dando aos que parecem mais fracos, aos menos dignos, aos que não são decorosos honra mais abundante (1 Co 12.23,24). Além de honrar a todos os homens, devemos honrar o rei, ou as autoridades seculares (1 Pe 2.17); devemos honrar os presbíteros ou aqueles que governam a igreja (1 Tm 5.17); no trabalho, devemos honrar e respeitar nossos empregadores (1 Tm 6.1). Também devemos honrar as viúvas (1 Tm 5.3), o cônjuge (1 Pe 3.7; Ef 5.33) e os idosos (Lv 19.32). Na verdade, quando o ancião entra na sala, deveríamos parar de conversar, ficar em pé e reconhecer com reverência a entrada do indivíduo mais velho (isso inclui o ancião, idoso, e o ancião, presbítero). Quando foi a última vez que você viu algo assim?

O próprio Senhor concede honra às pessoas. João 12.26 diz: “Se alguém me serve, siga-me (…), e o Pai o honrará” (veja também Sl 91.14,15). Assim, se o Senhor não tem dificuldade em honrar as pessoas, considerando sua grandiosa glória, por que somos tão aptos a desonrá-las? Além do mais, a honra libera o poder de Deus, ao passo que a desonra o impede grandemente. Jesus ensinou: “Não há profeta sem honra senão na sua terra e na sua casa. E não fez ali muitos milagres por causa da incredulidade deles” (Mt 13.57,58). As pessoas da terra natal de Jesus não o honraram, e Jesus chamou sua falta de honra de “incredulidade”. A forma crítica e desonrosa com que os conterrâneos de Jesus o viam desabilitou-lhes a capacidade de receber os dons que Deus queria que recebessem através dele. Em outras palavras, quando desonramos um homem ou uma mulher de Deus, impedimos que o poder de Deus aja por intermédio deles.

Lembre-se que pastores cansam e muitos tendem a desanimar e muitos já estão desanimados. Segue abaixo algumas dicas de como você pode honrar seu pastor, sendo canal de Deus para abençoar sua vida:

a) Ame a Família do Seu Pastor: quando a família do pastor é amada e cuidada, todo mundo ganha. A família do pastor é encorajada, os membros da igreja são abençoados, e o pastor é amado e apoiado.  Tudo porque um membro da igreja mostrou amor à família do pastor. Lembre-se: "pastores fiéis derramam suas vidas por suas ovelhas e sua igreja." Esse sacrifício pode ser difícil para a família do pastor. Tenha em mente as dificuldades que o ministério podem trazer sobre a família do pastor e apoie-os em oração e encorajamento. Eles precisam dela e o pastor será grato. Lembre-se de amar e honrar também a esposa do pastor, pois é ela que fica nos bastidores. Ela é quem organiza tudo a fim de que seu esposo seja uma bênção de Deus para a Sua Igreja. Ela esta tão próxima dele, que tem condições de ajudá-lo de modo mais decisivo. Ela está a seu lado nos desalentos e aflições; e fica ao lado do esposo quando ele enfrenta as mais agudas tentações. Ela conhece a luta que se desenvolve no espírito e no coração do seu esposo pastor.

b) Respeite seu Pastor: Toda vez que seus passos se dirigem ao púlpito, o pastor carrega o peso, em sua alma, de que ele vai prestar contas um dia. O pastor está trabalhando na Palavra e na oração durante toda a semana e a Bíblia dá uma direção clara de que Ele deve ser honrado e estimado altamente por causa disso. Assim também não deve haver uma fila de ovelhas no final de cada culto esperando para dizer ao pastor uma coisa ou duas sobre o que ele disse ou fez ou deixou de fazer. Nem devem as ovelhas ligar tarde da noite para a casa do pastor para se queixarem, melindradas, das repreensões que receberam por parte dele. Existem problemas a serem tratados? Claro que sim, e temos de lidar com eles da forma adequada, na hora adequada e no fórum adequado. Mas isso não dá a ninguém o direito de ser desrespeitoso com o homem que Deus colocou acima deles.

c) Seja fiel ao Senhor e à Igreja: Um peso muito grande que há no coração de um pastor é o estado do rebanho. Se você respeita e ama seu pastor, esteja em seu lugar.  Exerça seu dom para o qual Cristo lhe chamou. Evangelize. Convide pessoas. Não desapareça do culto cristão. Especialmente nos dias atuais, com vários meios de comunicação, não há razão para não comunicar qualquer necessidade de afastamento. E  Seja solidário tanto verbalmente quanto ativamente: "pastor, estou com o senhor! Vamos em frente!"

d) Dispense e desencoraje feedback negativo, fofocas, rumores e críticas: Estas são coisas que trazem tribulação para pastores. Olha que descrição interessante da fofoca o Rick Warren fez: "Fofocar é transmitir informações quando você nem é parte do problema nem parte da solução". Se você não está envolvido na situação, não perca seu tempo escutando quando alguém te falar uma fofoca. Essa pessoa não é confiável, em breve ela estará falando de você. Os pastores tem um trabalho deveras desgastante, não dificulte as coisas ainda mais. Nada pode ser mais devastador para um pastor do que trabalhar numa igreja na qual os corredores e esquinas estão habitados por pessoas fofocando e murmurando. Proteja-o da maledicência, e dos ataques espirituais, através da sua amizade, apreço e intercessão. Tudo isso é muito importante para o sucesso de um ministério sadio. Tente fazer do trabalho do seu pastor um prazer e não um fardo, fazendo assim você não apenas estará ajudando ele, mas a você mesmo.

e) Ore pelo Seu Pastor: É mais valioso para seu pastor que as pessoas convertam o tempo de reclamação em período de intercessão pelo pastor, para ajudá-lo a perseverar diante da guerra espiritual e dos obstáculos ao ministério. Lembre-se daqueles que dedicaram tempo ouvindo seus problemas, o aconselhando. Tenha orgulho de chamá-lo de “Meu pastor” – mostre a pessoa que você se importa e é grato pela vida dele.

f) Honre seu pastor em datas especiais para ele: não esqueça de mandar uma mensagem no dia de seu aniversário, no aniversário do seu casamento, dê um simples telefonema, um cartão, por mais simples que seja, expressar nestes dias o quanto é importante o trabalho dele na sua vida gera um tremendo impacto nele e na família pastoral.

“Assim que, nós, daqui por diante, a ninguém conhecemos segundo a carne…” (2 Co 5.16). Embora sejamos novas criaturas em Cristo, nosso problema é que só reconhecemos um ao outro segundo a carne. Alguém precisa morrer antes que possamos reconhecê-lo segundo o espírito; temos familiaridade demais um com o outro no nível errado. Precisamos quebrar as limitações que a carnalidade e o ciúme colocaram nas nossas percepções: Cristo habita na pessoa que está ao nosso lado.

Precisamos aprender a não enterrar as pessoas nos seus erros e fracassos. Cristo permanece sempre presente, sempre disposto a restaurar e liberar seu poder, até nos seus vasos caídos e feridos. Para isso, precisamos cooperar, perdoando e aceitando a obra de Deus neles. No sentido mais verdadeiro, é o Espírito de Cristo e o seu potencial que merecem ser reconhecidos e honrados em cada um, até naqueles que ainda não o conhecem. Que aprendamos a não julgar as pessoas segundo a carne, mas a honrá-las de acordo com os olhos da nova criação!

Pense nisso. Deus está te dando visão de águia!
____________________________________

Adaptado de: "O Poder da Honra Bíblica", em https://www.revistaimpacto.com.br/biblioteca/o-poder-da-honra-biblica/.