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segunda-feira, 27 de junho de 2016

DANÇAR NA IGREJA: ISSO PODE, PASTOR?


Louvem o seu nome com danças; cantem-lhe o seu louvor com tamborim e harpa. Louvai-o com o tamborim e a dança, louvai-o com instrumentos de cordas e com órgãos. (Sl 149.3; 150.4)

A dança, como ato de adoração a Deus, é um tema mencionado muitas vezes no Antigo Testamento. A primeira vez que ocorre é no episódio da travessia do Mar Vermelho, quando Miriã celebrou a liberdade da escravidão do Egito: "Então Miriã, a profetiza, a irmã de Arão, tomou o tamboril na sua mão, e todas as mulheres saíram atrás dela com tamboris e com danças. E Miriã lhes respondia: Cantai ao SENHOR, porque gloriosamente triunfou; e lançou no mar o cavalo com o seu cavaleiro." (Êx 15.20,21) Noutra ocasião, vemos Davi, o mavioso salmista de Israel, dançando com toda a sua força diante da arca do Senhor, que era levada para Jerusalém, expressão de adoração e alegria ao próprio Deus e Senhor cuja presença era representada por Sua arca (II Sm 6; I Cr 15). Nota-se, portanto, de forma clara, que o ato da dança como expressão de adoração a Deus não é algo pecaminoso, nem sujo, nem errado do ponto de vista bíblico. Vale dizer, adicionalmente, que tampouco a manifestação corporal da alegria interior é rejeitada por Deus na Bíblia.

No Novo Testamento, contudo, não constam passagens bíblicas sobre a dança como forma de adoração. De fato, por incrível que pareça, há pouca instrução do que deve ser feito, em termos de formas e expressões de adoração a Deus, no Novo Testamento. Com relação ao serviço de adoração, há indicações em Atos dos Apóstolos (At 2.46 - alegria e singeleza de coração), em I Coríntios (I Co 14.26 - havia salmo, doutrina, revelação, língua e interpretação), onde, nesse caso, muito provavelmente o salmo era usado na adoração, como lemos em Efésios (Ef 5.19 - salmos, hinos e cânticos espirituais, envolvendo o cantar e salmodiar ao Senhor) e Colossenses (Cl 3.16, onde Paulo repete basicamente a exortação de Efésios com alguns acréscimos, com a exceção de nesse caso haver ligação com "ensino e admoestação").

Os "salmos" obviamente se referem aos Salmos do Antigo Testamento, cantados com o acompanhamento instrumental daquela época, o que mostra que eles eram usados na adoração a Deus também no Novo Testamento (como visto adicionalmente em At 4.24) (cf. Ellicott's Commentary for English Readers). O próprio Senhor Jesus e seus apóstolos salmodiavam, isto é, cantavam salmos a Deus (Mt 26.30). A distinção entre "salmos" e "hinos" muito provavelmente refere-se a autoria, isto é, enquanto os "salmos" eram os mesmos encontrados no Antigo Testamento, os "hinos" seriam de composição própria dos crentes, sob inspiração do Espírito Santo (concordando com o comentário de Barnes' Notes on the Bible, como vemos em outras passagens do Novo Testamento, como por exemplo o hino cristológico de Paulo em Filipenses cap. 2). Já a interpretação dos "cânticos espirituais" é incerta: estes podem se referir à qualidade dos cânticos cantados ("espirituais", ou seja, cânticos envolvendo temas sagrados, exortações, doutrina, profecias, etc).

Alguns argumentam que a dança é uma forma de adoração restrita ao Antigo Testamento, pois não é vista tacitamente, nem mencionada explicitamente como um método de adoração no Novo Testamento. Portanto, concluem, que os cristãos não devem adorar desta maneira. Esse argumento é conhecido como "argumento do silêncio". No entanto, como tal, este tipo de argumento não se baseia num ensinamento bíblico claro, restringindo-se ao campo hipotético, o qual sempre pode gerar mais de uma hipótese. Como maioria dos primeiros cristãos eram judeus, provavelmente teriam incorporado formas de culto judaico em seu louvor ao Messias ressuscitado. Segundo a professora Débora Cristina Vieira Aleixo explica em seu artigo "A DANÇA EM UMA COMUNIDADE EVANGÉLICA: A VISÃO DOS FIÉIS" (1), "a dança foi parte essencial do culto e da liturgia cristã. Apenas no fim do século II, e inicio do século III, com a preponderância de gentios nos papeis de liderança da Igreja, ocorreram as mudanças mais radicais". Além disso, como a Igreja aprovava os salmos na adoração ao Senhor, não há porque supor que as formas corpóreas de adoração também não fossem usadas. Com toda certeza, havia muito espaço no serviço cristão para a espontaneidade e a iniciativa pessoal. Com o tempo, tristemente deu-se o processo inevitável de organização, estruturação e padronização, o qual foi substituindo a espontaneidade e liberdade no Espírito.

Ainda segundo a prof. Débora Cristina Vieira Aleixo, os pais da Igreja apoiaram o uso da dança como
adoração, oração e culto sob formas variadas. Ela cita como exemplos João Crisóstomo e Agostinho, os quais "concordavam em declarar a dança um meio de elevação dos membros do corpo para que andassem em consonância com o amor de Deus". No entanto, os reformadores, como Lutero, mantinham uma atitude negativa com relação a dança, não vendo razão para seu uso no culto na Igreja. Alie-se a isso o racionalismo, que percebia a dança como altamente subjetiva, além de boa dose do dualismo grego mente e corpo, e a dança foi interrompida na Igreja até o início do séc. XVIII.

Vale dizer que o "argumento do silêncio" já foi usado para justificar muita coisa sem sentido dentro de igrejas, como a proibição do uso de instrumentos musicais.  Já proibiram até bater palmas (aplausos).

Outro argumento muito comum é o da sensualidade. A ideia é que a dança envolveria a exposição excessiva de partes do corpo em roupas curtas, com movimentos sensuais. Citam como justificativa a dança da filha de Herodias no aniversário de Herodes (Mt 14.6). Porém a sensualidade não está necessariamente ligada à dança per se, mas sim a quem dança, ou seja à pessoa. É possível dançar de forma sensual? Sim, claro! Mas também é possível dançar de forma não sensual (o mesmo se aplica às roupas usadas; não precisam nem serem justas, nem marcantes, nem transparentes e muito menos curtas). Julgar toda e qualquer dança como sensual só porque há movimento do corpo soa como mente depravada. Nenhuma irmã ou irmão está dançando num "pole dance" na igreja, nem fazendo a "dança do ventre"; nenhum crente genuinamente convertido ao Senhor toleraria isso em qualquer lugar, especialmente na adoração a Deus! Obviamente, é preciso cuidado com as danças, coreografias e ministrações, pois dependendo dos passos usados, é possível causar uma má interpretação (mesmo que de forma não-intencional), no entanto um pastor maduro e sábio saberá equilibrar e doutrinar a igreja que pastoreia - o que inclui o pessoal da dança - de forma a evitar tais excessos. O problema não é a dança, mas seu uso desprovido de senso crítico. Assim, não devemos cometer o erro de jogar o bebê fora junto com a água suja do banho, ou seja, condenar uma prática só porque alguns cometem erros.  

O bispo Hermes Fernandes, argumentando acerca da pertinência da dança no culto cristão, faz a seguinte pergunta: "Por que numa aliança caracterizada pela liberdade faltaria um elemento como a dança tão apreciada sob a primeira aliança? Seria, no mínimo, um contrassenso acreditar que os que vivem sob a égide da graça seriam privados de um bem tão comum aos que viveram sob o peso da lei". Ele então pondera: "penso que haja lugar tanto para danças ensaiadas (performáticas) como para danças espontâneas e congregacionais.  Tudo dentro de um padrão decente e devidamente ordenado. Sem extravagâncias. Sem chocarrices. Sem histeria. Sem êxtases. Apenas corações tomados da alegria do Espírito, desejosos de expressar sua gratidão a Deus." (http://www.hermesfernandes.com/2013/01/e-legitimo-usar-danca-como-expressao-de.html).

De fato, há um padrão na dança dentro do culto cristão, ao contrário do que pensam alguns. Todos os passos são ensaiados previamente, junto com a música/louvor que será tocada no momento da dança. De forma geral, os passos a serem dados, propostos pelo líder do grupo de dança, são simples e fáceis de se acompanhar pelo grupo, não envolvendo a necessidade de conhecimento de técnicas ou estilos musicais (como jazz ou ballet).  Nesse caso, os movimentos dos dançarinos tem a intenção de reproduzir as ações e gestos contidos na própria música. Há outra forma de dança onde o grupo busca captar o tema principal da música e então desenvolvem movimentações relacionadas com esse tema.

Os tipos de danças que são realizadas no culto cristão protestante variam conforme a intenção do que se quer comunicar (a dança é uma forma de comunicação). Assim, "se o momento pede uma oração de interseção, o movimento é de prostração e súplica. Se o momento pede celebração, a dança é cheia de saltos e rodopios. Se o momento pede uma oração de arrependimento, a dança é cheia de movimentos de contrações e prostração. Por meio deste tipo de movimentação é que a congregação é levada a meditar e a concentrar-se na adoração a Deus durante o momento de louvor de um culto." (1) Dessa forma, há uma variedade de danças que podem ser realizadas, conforme Isabel Coimbra ensina (2), como por exemplo:

a) Dança de Júbilo - aquela através da qual os dançarinos expressam a Deus sua extrema alegria através de giros, saltos e movimentos.  
b) Dança de Adoração – Esta dança é caracterizada por movimentos de elevação e prostração corporal. Há também os giros variados, saltos, movimentos suaves e de contemplação dentre tantos outros.
c) Dança de Intercessão - Esta suplica normalmente é feita através de movimentos de prostração, reverência e de um trabalho corporal iniciado a partir do ventre, movimentos de contração abdominal projetando todo tórax para frente.
d) Dança de Guerra - Uma característica desta dança são os movimentos em marcha variados pela intensidade e vigor corporal, saltos, sapateados e giros.
e) Dança evangelística - a finalidade é anunciar o evangelho através dos movimentos.
f) Dança de ensino – As danças de ensino são danças que ilustram pregações, tendo o intuito de auxiliar no ensino da doutrina.

Portanto, não vejo porque a igreja deva proibir ou opor-se a criação de um grupo de dança litúrgica. Havendo ensino coerente e bíblico, além de acompanhamento pastoral, não há que se falar em coisas como "carnalidade", "sensualidade", etc. Um pastor temente e fiel ao Senhor jamais permitirá que a adoração e a liberdade cristã se transformem em libertinagem e que a graça de Cristo vire desgraça para os crentes. Quanto ao momento de apresentação do grupo de dança - se durante o louvor congregacional ou se por ocasião de uma exibição especial numa época festiva, isso é de foro íntimo da igreja, observando-se sempre o propósito envolvido e o momento em questão.  Para os integrantes do grupo de dança, especialmente o(a) líder, conhecimento bíblico (o que inclui frequência à Escola Dominical e estudos bíblicos específicos acerca da música, louvor e adoração), oração, comunhão, humildade e singeleza de coração - sem mencionar a submissão à autoridade pastoral - são requisitos básicos; afinal, estão dançando para o Senhor, como expressão de adoração a Ele e para a Glória Dele, e não para si mesmos(as). 

Adore ao Senhor! Adore-o com palmas! Adore-o com música! Adore-o com instrumentos e com vocal! Adore-o com danças! Que todo o seu ser - corpo, alma e espírito - louve e adore ao Senhor Jesus, ao Rei dos reis, pois Ele - e somente Ele - é digno de todo louvor e de toda a adoração!

O Rei da Glória numa cruz morreu,
nos levando a presença do eterno Deus!
Pois o véu da separação,
foi rasgado pelo amor de Deus!
Adoremos em Seus tabernáculos,
entremos nos átrios com louvor!
E na presença dos querubins,
te adoramos Senhor!

Pense nisso! Deus está te dando visão de águia!

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REFERÊNCIAS:

(1) http://www.cpgls.pucgoias.edu.br/7mostra/Artigos/SAUDE%20E%20BIOLOGICAS/A%20DAN%C3%87A%20EM%20UMA%20COMUNIDADE%20EVANG%C3%89LICA%20A%20VIS%C3%83O%20DOS%20FIEIS.pdf. Acesso: 27jun2016. 

(2) CORREA, Andressa R. A criação em Dança: um olhar sobre o grupo evangélico de dança Estúdio do Corpo. Trabalho de Conclusão de Curso (Licenciatura em Dança). Universidade Federal de Pelotas, 2014. Disponível em http://wp.ufpel.edu.br/danca/files/2014/06/2.-TCC.pdf. Acesso: 27jun2016.