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quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

TENHA CUIDADO CONTIGO MESMO E COM TEU ENSINO!

"Tem cuidado de ti mesmo e da doutrina. Persevera nestas coisas; porque, fazendo isto, te salvarás, tanto a ti mesmo como aos que te ouvem." (I Tm 4.16)

ἔπεχε σεαυτῷ καὶ τῇ διδασκαλίᾳ. ἐπίμενε αὐτοῖς· τοῦτο γὰρ ποιῶν καὶ σεαυτὸν σώσεις καὶ τοὺς ἀκούοντάς σου. (I Tm 4.16 - TR-1894)

epeche seautō kai tē didaskalia; epimene autois; touto gar poiōn kai seauton sōseis kai tous akouontas sou. (I Tm 4.16 - WH-1881 - Transliterado) 

A palavra "doutrina" é a tradução do termo grego "didaskalia"; este é melhor traduzido por "ensino". Conforme a construção do texto no grego, καὶ τῇ διδασκαλίᾳ, significa "e teu ensino". Com isso, se fôssemos traduzir ao pé da letra o versículo, ficaria da seguinte maneira: "Preste atenção para reter/permanecer você mesmo e no ensino. Continue/persevere nestas coisas, fazendo isso você salvará a ti mesmo e teus ouvintes". Trata-se, portanto, de uma dupla recomendação, de Paulo para Timóteo e de Deus para nós, hoje.

Tome cuidado consigo mesmo. Isso pode ser entendido como referente a qualquer coisa, de natureza pessoal, que qualifique positivamente (ou negativamente) para a obra. Obviamente, aquilo que for positivo deve ser cultivado; aquilo que for negativo deve ser eliminado. Isto pode ser aplicado tanto com relação à piedade pessoal; à saúde; aos costumes; aos hábitos de vida; ao temperamento; aos propósitos; ao contato com os outros.O ministro de Cristo deve manter sua atenção fixa em seu próprio comportamento e conduta, porque pode, com seus atos, palavras e comportamento, contribuir para o destino eterno de seus ouvintes/leitores, quer positivamente ("salvará os que te ouvem") ou negativamente ("porá a perder/desviará aqueles que te ouvem", por contraposição lógica).

O comportamento pessoal é muito importante na vida de um servo de Cristo, especialmente se for um ministro (diáconos, presbíteros, evangelistas, pastores, bispos, apóstolos, professores, missionários, ministros de louvor, líderes de departamentos, etc). Este comportamento deve ser condizente com a realidade da fé em Deus, pois a fé em Deus é transformadora da natureza humana. Ou seja, a fé em Cristo produz inevitavelmente na vida humana o novo nascimento, com a geração da nova natureza, divina, no interior do homem. Esse novo nascimento precisa, obrigatoriamente, ser evidenciado pelos frutos - o que a Bíblia chama de "frutos dignos de arrependimento"; afinal de contas, segundo Tiago, a fé sem obras é morta, inativa, inoperante, incapaz de gerar vida. Se alguém crê em Cristo, tal fé obrigatoriamente gera a vida de Deus na vida humana e esta vida é manifesta de forma notória! Esta mudança de vida é fruto observável na vida de qualquer pessoa que verdadeiramente tenha crido em Cristo como Senhor e Salvador e é a evidência de genuína conversão (e salvação dos pecados); qualquer cristão verdadeiro experimenta tal mudança e, portanto, um líder cristão deve principalmente trazer esta evidência em sua vida.

Note: não estamos aqui, de modo algum, falando em perfeição absoluta, ou vida sem pecado. Não. Mas o que estamos dizendo é que se uma pessoa crê em Cristo verdadeiramente, ela recebe suporte divino para não viver mais continuamente no pecado e, por sua nova natureza, passa a odiar o pecado. Porém, de um ministro de Cristo, é exigido um pouco mais - é exigido que ele tenha cuidado consigo mesmo, isto é, que ele exerça vigilância contínua sobre sua própria vida (como apascentar alguém sem apascentar primeiro a si mesmo?) de forma a não causar escândalo, trazer blasfêmia ao nome de Deus (Rm 2.24) ou que o Caminho da Verdade venha, de alguma maneira, a ser blasfemado (II Pe 2.2). Há uma ética cristã, bíblica, a ser observada por qualquer cristão genuíno, especialmente por um ministro cristão genuíno. Este ethos cristão é a forma com que alguém que traz sobre si o nome de Cristo deve se comportar, de forma a claramente distingui-lo como povo de Deus; trata-se, portanto, da identidade, do modo de ser, do caráter cristão.   

Assim, em relação à moral, o ministro de Cristo deve estar de pé. Em seu contato com os outros e em seus hábitos pessoais, ele deve ser correto, consistente e cavalheiro, de modo a não dar oportunidade a nenhuma ofensa desnecessária. A pessoa de um ministro deve ser pura e limpa; suas maneiras, como irá mostrar a influência justa da fé cristã sobre o seu temperamento e comportamento; seu estilo de conversa, como um exemplo para os velhos e os jovens, e, como não ofender as leis de cortesia e urbanidade. Não há verdadeira fé, nem vida espiritual, em uma pessoa imunda em seus pecados; em modos grosseiros; que se conduz de forma inconveniente; com hábitos desleixados - ser um verdadeiro cavalheiro deve ser tanto uma questão de consciência do ministro do evangelho como de um verdadeiro cristão. A fé salvadora refina as maneiras - ela não os corrompe; torna a pessoa cortês, educada, e gentil - nunca produz modos grosseiros, ou hábitos ofensivos (Barnes' Notes on the Bible). 

Deve cuidar do estado de seu coração, de sua consciência, de seus afetos, seu espírito, seu caráter, sua linguagem, tudo deve manter-se embaixo do santo controle do Espírito e da Palavra de Deus. É necessário que esteja instruído com a verdade e vestido com a couraça da justiça. Sua condição moral e sua marcha prática devem concordar com a verdade que ministra; do contrário, o inimigo, com segurança, ganhará vantagem sobre ele. O mestre deveria ser a expressão vivente do que ensina; ao menos, tal deveria ser o objeto perseguido por ele com sinceridade, com veemência e com perseverança. É de desejar que esta santa medida esteja constantemente ante “os olhos de seu entendimento” (C. H. Mackintosh, in: http://camposdeboaz.com.br/tem-cuidado-de-ti-mesmo-e-da-doutrina-c-h-mackintosh).

Um ministro de Cristo não usa de palavras de baixo calão em seus diálogos e nem aprova tal coisa; não aprova nada que fira a moral que ele professa nem faz uso dessas coisas. Nos tempos modernos, atuais, não "compartilha" nem "curte" textos com palavrões, com xingamentos e ofensas ou que incentivem tal coisa; nem fotos de nudez ou que incentivem a nudez, a pornografia, o sexo livre e irresponsável. Ele(a) tem todo cuidado com "brincadeirinhas"/"piadinhas" que possam dar base a chocarrices e parvoíces com quem quer que seja, sempre evitando-as ao máximo.Nem troca de farpas, indiretas, etc. Em tudo o que faz, o ministro de Cristo busca a glória de Deus. No trato com quem quer que seja, o ministro respeita os sadios limites impostos pela Palavra de Deus. Ele(a) não fica com conversas inapropriadas, nem compartilha "selfies sedutoras" ou "nudes" via whatssap, facebook, e-mail ou por qualquer outro meio - nem mesmo fotos com roupas sensuais. Ele(a) não aparece seminu(a) em talk shows ou programas de auditório, nem em revistas masculinas/femininas.

Abre parênteses: não adianta ficar no "churicantaslabarai" no culto na Igreja, tendo "visagem e revelamento" no mistério Kodak,  rodopiando e rolando no chão, se fora desse ambiente a vida é desregrada; se no dia-a-dia vive na fornicação, falando mal de pastor e de Igreja e espalhando contendas aonde vai. O mesmo Espírito Santo que dá dons é Aquele que dá Seu Fruto, o caráter de Cristo em nossa vida. Deus é um só, o Espírito é um só e a fé é uma só, onde quer que estejamos. Fecha parênteses. 

O comportamento de um ministro de Cristo não pode ser usado por Satanás como instrumento da perdição, como ferramenta para fazer desviar da fé a vida do povo de Deus! Isso não pode acontecer em hipótese alguma! Se um ministro não tem cuidado de si mesmo, ele não salvará nem a si mesmo, nem aqueles que o ouvem - e isso é muito sério! "Cada vez mais e mais pessoas são pegas na armadilha dos escândalos. Cresce o número de perdidos ao passo que aumentam as barreiras para conversão de pecadores. Hoje, cada crente verdadeiro corre grande perigo de que, caso venha a se desviar, nunca mais encontre o caminho de retorno a fé cristã. O mundo está cada vez mais acelerado, o diabo cada vez mais diabólico e homem cada vez mais endiabrado. Temo a dizer que talvez nunca, em toda a história, o laço do passarinheiro revelou-se tão eficaz quanto nos nossos dias! O escândalo faz cada vez mais seus prisioneiros, trazendo censura ao genuíno ministério cristão na face da Terra (II Co 6.3) por aqueles que acabam julgando tudo e todos pela atitude de alguns." (ESCANDALOSOS E SEUS ESCÂNDALOS, http://apenas-para-argumentar.blogspot.com.br/2013/05/escandalosos-e-seus-escandalos.html)

Por outro lado, um verdadeiro ministro de Cristo também tem cuidado com o ensino. Ele ensina somente a Verdade Bíblica, tendo todo cuidado em se esmerar nesse afã. Ele busca "destilar o ensino" "como o orvalho sobre a relva" (Dt 32.2), num processo de purificação daquilo que ele tenciona ensinar, quer direta, quer indiretamente. Ensino direto é aquele que é ministrado ao povo de Deus; já ensino indireto é aquele que o ministro demonstra aprovar. Nesse ponto, é preciso compreender que quando um ministro cristão permite que um falso ensino (ou mesmo um ensino correto, só que de aplicação particular, com grande potencial de ser generalizado e, com isso, gerar erro) tenha o status de "concordância" por parte dele. Novamente, em tempos modernos, hoje há uma proliferação de "sabedoria" nas redes sociais, onde são circuladas, curtidas (e compartilhadas) frases de efeito, teoricamente atribuídas a líderes cristãos famosos - do passado ou do presente - que trazem lições ou que se referem a verdades particulares. Muitas, inclusive, só fazem sentido se estiverem dentro do contexto onde foram originalmente proferidas (se é que foram proferidas um dia).  Como exemplo, veja a frase abaixo. 


Facilmente é possível perceber que ela possui, no mínimo, dupla interpretação. A primeira delas, direta, traz o ensino de que é desejável, aprazível, correto que o pregador não seja cortês. Noutras palavras, um pregador "correto" deveria ser, portanto, descortês. Só que a palavra "descortês" (aquele que não é cortês) é sinônimo de grosseiro, rude, violento. Pergunto: o correto, por parte de um pregador, é ser rude? É ser grosseiro? É ser violento? Pois é isso que a fase "bem-dita" está dizendo, induzindo diretamente a um erro. Agora, por outro lado, assumindo que foi realmente o ev. Leonard Ravenhill que proferiu essa frase (porque não há citação da referência, de forma a podermos confirmar se é dele mesmo a autoria dessa frase), ela precisa ser interpretada dentro de um contexto. Como não o sabemos, vamos a segunda possibilidade de interpretação - a indireta: o problema do "pregador cortês" é com o quê ele é cortês! Nesse caso, com base na análise da linha teológica e de pensamento do ev. Leonard Ravenhill exarada em seus sermões, obras, etc., (e a Bíblia, sempre) eu diria que o problema é quando o pregador é cortês com o pecado de seus ouvintes, isto é, quando ele suaviza a mensagem que prega para não desagradar aqueles que a ouvem. Percebeu a diferença? Aqui tratei de um exemplo bem simplório, apenas para que o leitor possa entender; pouca repercussão ele gera (a não ser em mentes muito, mas muito confusas). 

Na frase abaixo, faça o mesmo exercício anterior. Qual é interpretação direta? Para que ensino antibíblico moderno essa interpretação direta aponta, com a "chancela" de John Henry Jowett (já que é atribuída a ele)? 


Observe que mesmo o ensino direto, bíblico, precisa vir dentro de um contexto. Já dizia a máxima da hermenêutica: "texto, sem contexto, é pretexto. Só serve para jogar no cesto". Contexto é tudo que vem antes e depois do texto; pode ser um versículo, dois, três; um capítulo, um livro ou toda a Bíblia. Vejamos um exemplo bem simplório: "Trabalhai, não pela comida que perece, mas pela comida que permanece para a vida eterna, a qual o Filho do homem vos dará; porque a este o Pai, Deus, o selou." (Jo 6.27) Fora de qualquer contexto, o que o texto acima parece ensinar? Que o trabalho cotidiano - isto é, ter um emprego, de forma a ter um salário - para se alimentar é (1) perda de tempo e (2) errado; o homem deve trabalhar para o Senhor Jesus (como ou fazendo o quê não sei), de forma que com seu trabalho receba, como pagamento, uma comida que permanece para a vida eterna (ainda ensina salvação por obras!). Percebe quanta baboseira, quanta heresia mesmo, pode ser gerada a partir de um ensino sem contexto (e ainda com a chancela de um ministro de Cristo, o que confere peso de veracidade do ensino)?

Hoje há uma proliferação de falsos ensinos e falsos mestres contra os quais a Igreja de Cristo precisa ser alertada, à luz da Palavra de Deus, pelos genuínos ministros de Cristo. Mais do que nunca, faz eco ao nosso coração a solene e grave advertência do Espírito (I Tm 4.1) quanto à apostasia dos últimos tempos. Hoje, há muitas pessoas que seguem ensinos de homens; outros, que seguem ensino de demônios. O falso ensino tem se misturado com o verdadeiro, e somente a partir do exame sério e comprometido das Escrituras, do ensino bíblico responsável, será possível fazer a distinção entre ambos. Periodicamente, ventos de doutrina sopram contra a Igreja levando muita gente boa, muitos filhos e filhas de Deus, em roda. Portanto, o ministro de Cristo precisa ser sóbrio e ter cuidado com o seu ensino, direto ou indireto. É preciso estudar muito as Escrituras, comparando texto com contexto, além de ler bons comentários, dicionários, enciclopédias e livros de autores reconhecidamente cristãos, de forma a ter clareza bíblica sobre o que vai ensinar.  

Moralmente, é extremamente perigoso que um homem ensine em público o que sua vida prática desmente – perigoso para si mesmo, desonroso para o testemunho e prejudicial para aqueles a quem ensina. Que deplorável e humilhante é para um homem, quando contradiz com sua conduta pessoal e sua vida doméstica a verdade que apresenta publicamente na Igreja. Isto é algo que há de se temer sobremaneira e que terminará indefectivelmente nos resultados mais trágicos. (C. H. Mackintosh, in: http://camposdeboaz.com.br/tem-cuidado-de-ti-mesmo-e-da-doutrina-c-h-mackintosh). Por outro lado, às vezes um falso ensino pode ser gerado pelo simples descuido com aquilo que é teoricamente bíblico e correto, mas mal interpretado ou aplicado; isto se dá às vezes por preguiça e desleixo, às vezes por desconhecimento. O problema está no impacto que isso causa ou possa vir a causar na vida espiritual de uma pessoa. Há erros que não afetam a eternidade e que são passíveis de conserto; há erros que podem fazer com que uma pessoa se perca de Cristo para sempre, apostatando da fé. A pergunta é se vale a pena correr o risco de não ter a salvação, para si ou para os ouvintes, por ensinar o erro (diretamente ou indiretamente, com o tal curte/compartilha/publica/divulga) pelo desmazelo com a própria vida com o ensino propriamente dito.

Lembre-se: A quem muito foi dado, muito será cobrado. Está escrito: "E, a qualquer que muito for dado, muito se lhe pedirá, e ao que muito se lhe confiou, muito mais se lhe pedirá." (Lc 12.48b)

 Pense nisso. Deus está te dando visão de águia!

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

TOME A SUA CRUZ E SIGA A CRISTO!



E chamando a si a multidão, com os seus discípulos, disse-lhes: Se alguém quiser vir após mim, negue-se a si mesmo, e tome a sua cruz, e siga-me. (Mc 8.34)

Negar a si mesmo e tomar a cruz. Essa é uma instrução dura da parte do Mestre. Especialmente hoje, num mundo onde o soft e o fácil é colocado como meta de vida, essas palavras de Cristo trazem uma profunda crise a alma humana.  "Seguir ao Senhor", nas palavras Dele próprio, envolvem três coisas: (1) negar a si mesmo; (2) tomar a cruz pessoal e (3) segui-Lo. Negar a si mesmo não é negar uma coisa específica, mas sim uma pessoa específica - a si mesmo. É a contramão radical do eu humano, é a mudança diametralmente oposta. É negar - ou dizer um categórico e sonoro "não" - para o eu como determinador dos meus próprios alvos, aspirações e desejos.

Aplique isto mentalmente por um momento em sua própria vida, querido(a) leitor(a). Veja o profundo impacto que causa, ainda que no campo mental, negar a si mesmo! Imagine-se tendo que negar ao seu próprio eu. O eu, que me defende; o eu, que procura o meu bem pessoal; o eu, que me traz prazer e bem-estar; o eu, que dita meu curso de vida; o eu, que impulsiona-me a agir em favor de mim mesmo em qualquer situação, a procurar evitar ao máximo o sofrimento, a perda, a dor. Negar o eu é dizer não a isso tudo. É ser profundamente tentado - pelo eu que ama a si mesmo - a deixar uma situação que fere a esse eu, mas diante dos apelos desse "eu" dizer "não, eu fico nessa situação, por mais dor que ela me causa, porque isso é da vontade do Meu Senhor"! É ter tudo, todas as condições possíveis e imagináveis, para evitar o "aperto d'alma", mas ouvir do Senhor "trate de ficar aí mesmo onde você está! Não te mandei sair, nem ir para lugar nenhum!"

Igualmente doloroso, Nosso Senhor nos manda "tomarmos a nossa própria cruz". Tomar a cruz é assumir a Vontade de Deus para nossa vida, por mais dolorosa, vergonhosa ou humilhante que ela seja. Um fato sobre a Vontade de Deus é que ela pode ser tanto geral, para a Igreja como um todo, quanto específica, isto é, para cada cristão em particular. Por exemplo, o Senhor Jesus chamou 12 homens e fez deles Seus apóstolos. Contudo, Ele escolheu dar a Pedro as chaves do reino. E escolheu dar a Paulo, chamado para ser apóstolo posteriormente, a revelação da Graça de Deus. Segundo a tradição, Pedro morreu crucificado de cabeça para baixo numa cruz; já Paulo foi decapitado por Nero, em 67 d.C. (conforme a tradição da Igreja). É importante entendermos isso, porque a vontade de Deus específica para a vida de um(a) irmã(o) pode ser diferente da vontade de Deus específica para mim. Não devo, portanto, ficar chocado, chateado com Deus ou mesmo sentir-me "menos amado" se Deus deseja que um irmão siga para a sua cruz de uma forma diferente da forma que Ele manda que eu siga para a minha própria cruz. Se a estrada dele é mais longa que a minha, se o Pai requer que eu seja "martirizado" antes de meu irmão, que assim seja! Não devo reclamar com o Pai se isso acontecer, porque o Pai celeste sabe o que é melhor tanto para minha vida quanto para a vida de meu irmão (Rm 8.28 - [...] todas as coisas contribuem juntamente para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito.); Ele, que conhece o interior do homem, sabe quando alguém está pronto para ir a cruz! Afinal, Deus não nos pede coisa alguma que Ele mesmo não proveja as condições - espirituais, emocionais, físicas, etc - de realizarmos.

Note: negar a si mesmo e tomar a cruz não é viver uma vida de ascetismo. Nem mesmo suportar com resignação os problemas que a vida apresenta. É muito mais profundo e complexo que isso! É dizer não ao "eu" e assumir a Vontade de Deus para sua vida! 

Aqui, há uma importante realidade sobre a cruz. A cruz é local de morte. Quando eu tomo a minha cruz, estou assumindo que a cruz é minha, ou seja, é para mim, meu destino final, o local onde entregarei inevitavelmente a minha vida nas mãos de Deus. Sim, a minha vida, a sua vida e a vida de cada verdadeiro cristão na face dessa terra - aquele que verdadeiramente nasceu de novo - tem como propósito glorificar ao Pai de forma derradeira por meio da morte na cruz. Claro que essa morte na cruz, a qual me refiro, é a morte do eu com suas vontades egoístas diante do absoluto da Vontade de Deus para a minha vida. Claro que, em última instância, pode envolver o martírio propriamente dito, se esta for a vontade de Deus para mim. Milhares de cristãos sofreram o martírio na época das perseguições imperiais; outros milhares estão também recebendo o martírio em países fechados ao Evangelho, onde ser cristão é crime punível com a morte. Martirizados pelas mãos de homens extremamente cruéis, que não poupam sequer crianças; homens perversamente malignos, influenciados por Satanás em sua guerra, apelidada de "santa", contra a Igreja. E, digo isto: milhares, quiçá milhões, hão de sofrer o martírio. A violência contra o povo de Deus, contra a Igreja e contra Israel, não terá fim - ainda não.    

Abre parênteses: Lamento dizer isso, mas segundo as profecias bíblicas, nenhum acordo de paz de Israel será duradouro (Zc 12.2,3). Somente o Messias, Jesus (Yeshua) pode trazer a verdadeira paz para a nação de Israel. Tristemente, Israel verá muitos bombardeios e muitas guerras, ideologicamente justificadas como uma "disputa de territórios" pelas nações e pela mídia, mas com o propósito não-declarado de exterminar Israel do mapa. Cabe dizer que os palestinos merecem ter a sua própria terra - isso é justo; porém, é igualmente justo que Israel tenha também a sua própria terra, conquistada no reinado de Davi e reconhecida por direito em 1948. A terra de Israel pertence a Israel, não aos palestinos; foi dada por herança a Isaque, filho de Sara com Abraão, e seus descendentes; não a Ismael, filho de Agar e Abraão, e seus descendentes (Gn 21.10-12). Todo palestino genuinamente convertido a Cristo reconhece o direito de Israel à sua terra. Fecha parênteses.  

Se o martírio for a Vontade de Deus para a sua vida, querido(a) leitor(a), então que assim seja. Se você vive num país onde ser cristão é ser considerado "ovelha para o matadouro" por amor ao Senhor, então ame-O com a sua própria vida. Você é o exemplo de fé para todo o Corpo de Cristo na face dessa terra! Porém, querido(a), se é da vontade do Senhor que você viva uma vida de renúncia de seu próprio eu, e isso até o limite de crucificá-lo na cruz, então glorifique ao Senhor cumprindo a Sua vontade! Somos revestidos de esperança e de fé pelo Senhor, por contemplarmos Seu grandioso exemplo quanto a este mister: "E apartou-se deles cerca de um tiro de pedra; e, pondo-se de joelhos, orava, dizendo: Pai, se queres, passa de mim este cálice; todavia não se faça a minha vontade, mas a tua. E apareceu-lhe um anjo do céu, que o fortalecia. E, posto em agonia, orava mais intensamente. E o seu suor tornou-se em grandes gotas de sangue, que corriam até ao chão." (Lucas 22:41-44) Note como foi doloroso para o próprio Senhor cumprir a Vontade do Pai em Sua vida - Ele chegou a suar grandes gotas de sangue (num fenômeno clínico chamado hematidrose, onde se dá o rompimento das finíssimas veias capilares que estão sob as glândulas sudoríparas, por estresse emocional extremo, o sangue se mistura ao suor e se concentra sobre a pele), tamanha a angústia e ansiedade que o conhecimento dessa Verdade - ser crucificado - trazia à Sua vida! Ele até ora ao Pai para que se fosse possível, se houvesse outro modo, que o Pai o livrasse daquela situação; mas ao mesmo instante Ele diz "não faça a minha vontade, mas a tua". Não faça o que eu quero; o que o meu eu está gritando dentro de mim; mas faça-se, Meu Paizinho querido, a Tua vontade na minha vida!

Que ninguém pense, em momento algum, que Jesus doou-nos a vida dele contrariado, ou forçado. NÃO! Ele dá a sua vida de bom grado - "Por isto o Pai me ama, porque dou a minha vida para tornar a tomá-la. Ninguém ma tira de mim, mas eu de mim mesmo a dou; tenho poder para a dar, e poder para tornar a tomá-la. Este mandamento recebi de meu Pai." (Jo 10.17,18) Ele mesmo disse, diante de seus algozes, que se Ele quisesse poderia "orar a meu Pai, e que ele o daria mais de doze legiões de anjos" (Mt 26.53), isto é, poderia ser livre de todo sofrimento. Ele escolheu dar a Sua vida e nada mudaria isso, pois esta era a Vontade de Deus para Ele - mas com toda a Sua humanidade aqui está o Mestre, orando ao Pai, sabendo que o cálice da ira de Deus, destinado à humanidade, seria oferecido a Ele. Jesus ora e pergunta ao Pai se beber do cálice era o único meio de redimir, de salvar as almas de incontáveis trilhões de pessoas. E ainda assim, sob esta terrível agonia, sentindo as profundas dores que o pecado da humanidade trazia sobre Ele, cuja intensidade somos totalmente incapazes de compreender, lá estava o desejo mais intenso do Senhor que era fazer a Vontade de Seu Pai. Não era da Vontade do Pai que o cálice passasse do Filho - o Filho deveria beber do cálice da ira, e a Vontade do Filho era exatamente essa! Sua oração é respondida de forma sobrenatural, com um anjo sendo imediatamente enviado para O fortalecer, testificando ao mundo que não havia outra maneira de redimir a humanidade perdida.

Abre parênteses: Ele mesmo, o próprio Senhor Jesus, como Anjo do Senhor, havia poupado Isaque de ser oferecido por Abraão em holocausto (num dos montes localizados na terra de Moriá), bradando do céu a Abraão (Gn 22.12). Abraão não negara a Deus seu filho, seu único filho; não seria Deus Pai que negaria o Seu, numa das mais belas provas da fidelidade de Deus e da abrangência de Suas alianças. O sacrifício substitutivo de Cristo por nós é perfeitamente tipificado pelo carneiro oferecido em lugar de Isaque. Segundo muitos mestres da Palavra de Deus, exatamente naquele monte, na região de Moriá, é que ficava o calvário no qual Cristo seria crucificado muitos anos depois. Fecha parênteses.

A instrução do Senhor para quem quer segui-Lo ainda é a mesma atualmente: negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-O. Num mundo cada vez mais hedonista, onde o prazer e a satisfação pessoal são colocados como objetivos de vida, é ainda mais confrontadora e desafiadora. São poucas as pessoas que realmente vivem suas vidas conforme esta instrução e, quem escolhe viver assim, vive sob constante guerra consigo mesmo, travada no interior, nas profundezas da alma humana. Porém, estes, que escolheram viver para satisfazer a Vontade do Mestre, cujo prazer maior é obedecê-Lo acima de qualquer coisa - até de si mesmo -, estes tem o suporte de Deus nas horas mais soturnas desta vida. Exatamente como o Mestre, podemos estar certos de que haverá socorro divino na hora que mais precisarmos. Os anjos são espíritos ministradores enviados a nosso favor; devemos crer no ministério dos anjos e aceitá-lo em nossa vida. Deus enviará do céu a força necessária para vivermos para Ele; Ele estenderá Sua mão poderosa sobre nossa vida.

Viva a sua vida segundo a Vontade de Deus, querido(a) leitor(a). A Vontade de Deus é boa, perfeita e agradável (Rm 12.2) e viver segundo ela é a garantia de viver uma vida que agrada ao Pai. Precisamos nos identificar com Cristo neste nível, se quisermos sair do nominalismo religioso de fachada, isto é, sermos realmente seus seguidores. Só é seguidor de Jesus quem prioriza fazer a Vontade de Deus acima da sua própria.

Pense nisso. Deus está te dando visão de águia!