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quarta-feira, 6 de agosto de 2014

FALTOU O CONHECIMENTO, SOBROU A ESPECULAÇÃO


"Eis que o meu povo está sendo arruinado porque lhe falta conhecimento da Palavra."(KJAP)
"O meu povo está sendo destruído, porque lhe falta o conhecimento." (BP)
(Os 4.6a)

Destruição, ruína, perecimento... é a situação do povo de Deus, nas palavras de Oséais. Tudo porque faltou ao povo de Deus o conhecimento; não um conhecimento qualquer, mas o conhecimento de Deus! Quando continuamos a ler esta passagem, vemos que Deus responsabiliza diretamente o sacerdote porque este rejeitou o conhecimento de Deus. Assim, ambos - sacerdotes e o povo - rejeitaram o conhecimento; Deus vai justamente rejeitá-los. Esqueceram-se a lei de Deus; nem a desejaram nem se esforçaram para mantê-la na mente, e transmiti-la a lembrança de sua posteridade; por isso, Deus vai justamente esquecê-los e seus filhos. 

Como conhecer a Deus? Ora, pela Sua Palavra! O próprio texto de Oséias é muito claro nesse sentido, ligando a falta do conhecimento de Deus à rejeição por sua Lei. Porque eles, o povo de DEUS, rejeitaram a Lei de DEUS, então estavam sendo destruídos. Eles são destruídos por falta da Palavra de Deus, pois o verdadeiro conhecimento de Deus é a vida da alma, a verdadeira vida, a vida eterna, como diz o nosso Salvador: "Esta é a vida eterna: que te conheçam a ti, único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, a quem enviaste." (Jo 17.3) Nosso Senhor nos ordenou: "Examinais as Escrituras, porque vós cuidais ter nelas a vida eterna, e são elas que de mim testificam" (Jo 5.39). 

Hoje, vivemos exatamente os mesmos dias de Oséias. O povo de Deus - sacerdotes e povo (no conceito típico do meio evangélico atual) rejeita fortemente as Escrituras, a Bíblia, como base para o exercício da fé cristã. Os "sacerdotes" (clero evangélico) rejeitaram a Bíblia. Se - e quando - é citada nos cultos, é fora de contexto, servindo apenas como pretexto para ratificar as práticas do sacerdote ou da denominação a que pertence. A mensagem da cruz foi trocada por uma mensagem de auto-ajuda psicologizada, com forte carga emocional e apelativa, com ênfase financeira derivada de uma teologia monetarizada, buscando assim cativar e manter pessoas. Estas, por sua vez, não tem nenhum interesse em ler a Bíblia e conhecê-la (apesar da imensa facilidade em se conseguir uma). Com a desculpa de considerá-la "difícil de ler", "rebuscada", etc., as pessoas no geral preferem que alguém as diga o que fazer - isso se for do interesse, é claro - do que elas mesmas buscarem O Caminho e conferirem as mensagens pregadas. Assim, preferem ouvir um líder carismático falar sobre "como ficar rico em 10 semanas", "como vencer Mamom e Limom dando o seu tudo para deus", "hedonismo cristão - como alcançar essa bênção", etc. - e sequer LER A BÍBLIA para ver se é assim mesmo - do que ouvir sobre pecado, inferno, vida e morte eterna, santificação, caráter cristão, etc. 

Assim, sacerdotes e povo seguem... seguem sem Deus, rejeitando a Deus e Sua Palavra... seguem o caminho errado, nada parecido com o caminho ensinado por Cristo e por seus apóstolos (Pedro, Paulo, João, etc). Quem estuda a Bíblia e "lê" o meio evangélico moderno, facilmente percebe que não são equivalentes. Facilmente vê que não são compatíveis; é como tentar encaixar um cilindro num espaço com a forma quadrada. Ao contrário: quem estuda a Palavra facilmente percebe que as mesmas coisas que a Bíblia combate, considerando-as como erro, como apostasia da fé, são exatamente as mesmas coisas que são praticadas hoje! São pessoas perdidas, desorientadas biblicamente! 

Sei que mesmo assim há gente séria, que tenta ainda buscar ao Senhor, mesmo estando debaixo de um sacerdócio que rejeitou a Bíblia. Existe povo de Deus em muitos lugares, até naqueles onde Deus não está, onde Ele não habita. Isso acontece porque o Espírito Santo, que é Deus, é ilimitado em Suas ações e ministério, convencendo o homem do pecado, da justiça e do juízo onde quer que este homem esteja. Ele não fala de Si mesmo - ainda que pudesse fazê-lo - mas anuncia a Cristo ao homem: "Mas, quando vier aquele, o Espírito de verdade, ele vos guiará em toda a verdade; porque não falará de si mesmo, mas dirá tudo o que tiver ouvido, e vos anunciará o que há de vir. Ele me glorificará, porque há de receber do que é meu, e vo-lo há de anunciar." (Jo 16.13,14) Até mesmo em lugares que se enquadram espiritualmente como Babilônia é possível encontrar povo de Deus (Ap 18.4).

Ministerialmente, sem falsas modéstias - que são, na verdade, hipocrisia - tenho zelo pelo conhecimento da Palavra, tanto meu, como pastor, como do rebanho que pastoreio. A Igreja a que pertenço tem essa característica: levamos a Deus e a Sua Palavra muito a sério. Culto após culto, reunião após reunião, seguimos pregando a Palavra de Deus e exortando os crentes a conhecerem e viverem as verdades das Escrituras. Ensinamos a Palavra como Verdade Absoluta de Deus para o homem, não mercadejando com ela, nem manipulando-a ou suavizando-a para atrair pessoas. A Palavra de Deus é o que é, porque Deus é o que é - Ele é, era e há de ser, o Princípio e o Fim, o Alfa e o Ômega da Igreja e de toda a Criação! Temos em funcionamento no RJ um Seminário Bíblico-Teológico, com mais de 10 anos de existência, num curso presencial nível bacharel (curso livre) com duração de 06 (seis) anos (atualmente com 09 alunos matriculados) todo em material próprio (apostilas); em Volta Redonda, nossa filial, temos uma extensão do Seminário, com ensino a distância, e um Curso de Preparação Profética Intensiva (CPPI), onde estuda-se as Escrituras de forma profunda e detalhada!

Domingo passado, uma ovelha minha veio a mim, perguntando-me acerca dos últimos acontecimentos do meio evangélico moderno. Perguntou-me sobre uma polêmica atual do meio evangélico brasileiro, ligada a construção do "templo de Salomão" pela Universal. Segundo ele, havia uma polêmica circulando na mídia, dizendo que o anticristo iria usar esse templo. Daí, ele queria saber que história era essa; ele sabia que aquilo estava errado, mas corretamente buscou seu pastor e mestre para conferir. "Como assim, pastor?" Bem, fui atrás da tal polêmica, para me familiarizar com ela, a fim de poder responder a amada ovelha. Fui atrás e achei a fonte de tudo: segundo uma matéria publicada no site "Gospelmais", fiéis da Igreja Universal afirmavam que réplica do Templo de Salomão, construído recentemente pela denominação, será o local de “assentamento do anticristo” (link da matéria: http://goo.gl/acJ3O. Acesso em 06/08/14, às 16h25min). A notícia tem como base o texto publicado no blog "Evangelista da IURD" (link: http://evangelistasdaiurd.blogspot.com.br/2013/01/a-profecia-revelada-templo-de-salomao.html . Acesso em 06/08/14, às 16h25min)

Analisei a postagem publicada no blog "Evangelista da IURD". Se, por um lado, ela tem mérito na tentativa de buscar na Bíblia a verdade, por outro lado ela falha na interpretação correta dos textos bíblicos citados. São muitos os erros crassos ligados à interpretação básica, à cultura bíblica mínima. Se houve boa intenção em trazer despertamento, por outro lado o autor precisa estudar mais a Palavra, de forma a não cometer os erros de hermenêutica e exegese bíblicas apresentado em sua postagem.  Proponho o seguinte: vamos colocar os "pingos nos is". Vamos analisar texto bíblico com o seu contexto, sempre, porque é assim que um crente deve estudar a Palavra. Vamos deixar de lado os chutes, as especulações, as teorizações da própria cabeça. Vamos para a Bíblia!

Portanto, comecemos a partir do mesmo ponto. Vejamos o que o Evangelista Marcos sobre o assunto: "Ora, quando vós virdes a abominação do assolamento, que foi predito por Daniel o profeta, estar onde não deve estar (quem lê, entenda), então os que estiverem na Judéia fujam para os montes." (Mc 13.14). Note que o texto não diz que algo está "fora de lugar", mas sim que está no lugar onde não deveria estar. Apesar de parecer, não é a mesma coisa. Uma coisa fora de lugar pode, eventualmente, ficar nesse lugar. Por exemplo, um pé de sapato solto de seu par, noutra prateleira, dentro da sapateira está fora de lugar, mas nada impede que fique desse jeito. Contudo, algo que está no lugar onde não deveria é algo que está num lugar proibido para aquela coisa. Por exemplo, uma barata dentro do pote de açúcar. Percebeu a diferença? Então sigamos em frente. Conforme esse texto, o que está no lugar onde não deveria? A resposta é "abominação do assolamento" (ou abominação da desolação, ou desoladora, etc., refere-se a mesma coisa). Assim, é a abominação do assolamento que está no lugar onde não deveria estar. Ok? 

Será que existe nos evangelhos sinóticos outras passagens semelhantes? E o restante da Bíblia, tem algo a dizer sobre o assunto? Precisamos verificar, afinal na Bíblia não há contradições doutrinárias. O ensino de um livro bíblico não se choca com o ensino de outro livro bíblico. "Quando, pois, virdes que a abominação da desolação, de que falou o profeta Daniel, está no lugar santo; quem lê, atenda". (Mt 24.15) Opa! Aqui temos uma dica importante: Jesus cita a predição de Daniel quando se refere a abominação da desolação, a qual está no lugar santo. Ora, se há abominação no lugar santo, ficou óbvio o porque Marcos afirma que esta abominação está no lugar onde não deveria!

Já que o Senhor citou Daniel, vejamos o que esse livro tem a dizer: "E estarão ao lado dele forças que profanarão o santuário, isto é, a fortaleza, e tirarão o holocausto contínuo, estabelecendo a abominação desoladora." (Dn 11.31) Olhando para este texto, a abominação desoladora (ou da desolação, se preferir) é estabelecida no lugar de alguma outra coisa. Qual? O próprio texto responde: o holocausto contínuo. O que é esse holocausto? Holocausto é um dos tipos de ofertas estabelecidas por Deus nos Livros de Êxodo e Levítico, no Antigo Testamento. O holocausto era um sacrifício que estava completamente queimado. Nada dele era comido, e então o fogo consumia o sacrifício inteiro. Nele, o adorador israelita trazia um animal masculino (um touro, cordeiro, cabra, pombo, ou rola, que dependem da riqueza do adorador) para a porta do tabernáculo. O animal devia ser sem defeito. Os sacerdotes eram responsáveis por lavar as várias partes do animal antes de colocar sobre o altar, que ficava no santuário.

Logo, como a abominação desoladora é estabelecida em substituição ao holocausto contínuo, conclui-se essa abominação desoladora está sendo oferecida no altar de holocausto. Fica muito óbvio novamente o porquê Marcos afirmar que esta abominação está no lugar onde não deveria: porque ela está sendo oferecida no altar de Deus! Perceba que, deste modo, o que está fora de lugar não é o Templo, como diz a postagem; mas sim a abominação.

Por outro lado, em nenhum lugar diz que esse templo, que será alvo de tamanha profanação, é o Templo de Salomão. O templo de Salomão foi aquele que foi construído por Salomão, conforme registrado no Livro de II Crônicas. Esse Templo foi pilhado e destruído na invasão Babilônica: "Porque fez subir contra eles o rei dos caldeus, o qual matou os seus jovens à espada, na casa do seu santuário, e não teve piedade nem dos jovens, nem das donzelas, nem dos velhos, nem dos decrépitos; a todos entregou na sua mão. E todos os vasos da casa de Deus, grandes e pequenos, os tesouros da casa do SENHOR, e os tesouros do rei e dos seus príncipes, tudo levou para Babilônia. E queimaram a casa de Deus, e derrubaram os muros de Jerusalém, e todos os seus palácios queimaram a fogo, destruindo também todos os seus preciosos vasos. E os que escaparam da espada levou para Babilônia; e fizeram-se servos dele e de seus filhos, até ao tempo do reino da Pérsia." (II Cr 36.17-20) O Templo que foi reconstruído em seu lugar é o chamado "Segundo Templo", após o retorno do cativeiro na Babilônia, sob orientação de Zorobabel. O templo começou com um altar, feito no local onde havia o antigo templo, e suas fundações foram lançadas em 535 a.C.. Sua construção foi interrompida durante o reinado de Ciro, e retomada em 521 a.C., no segundo ano de Dario I. O templo foi consagrado em 516 a.C.. Diferentemente do Primeiro Templo, este templo não tinha a Arca da Aliança, o Urim e Tumim, o óleo sagrado, o fogo sagrado, as tábuas dos Dez Mandamentos, os vasos com Maná nem o cajado de Aarão. A novidade deste templo é que havia, na sua corte exterior, uma área para prosélitos que eram adoradores de Deus, mas sem se submeter às leis do Judaísmo.

Nos quinhentos anos desde o retorno, o templo havia sofrido bastante com o desgaste natural e com os ataques de exércitos inimigos. Herodes, querendo ganhar o apoio dos judeus, propôs restaurá-lo. As obras iniciaram-se em 18 a.C., e terminaram em 65. O segundo templo foi destruído pelos romanos, através de Tito, no ano 70 depois de Cristo.

Quando é que vai se dar esta abominável desolação? A última semana de Daniel, ou a septuagésima semana de Daniel, é justamente esse período que se aproxima, chamado de Grande Tribulação. Que vai acontecer logo depois do arrebatamento da Igreja. A Igreja vai ser tirada da terra; e quando a Igreja for tirada da terra, o Anticristo assume o comando. E este elemento, quando assumir o comando, ele vai ser recebido justamente pelos judeus, que vão dar as boas vindas para ele como o Messias. Os judeus andarão de braços dados com o Anticristo sem saber, porque ele vai trazer soluções extraordinárias para o mundo. Mas quando chega no meio dessa tribulação, dessa semana (de anos), conforme disse Daniel, ele vai quebrar o pacto, fará cessar o sacrifício, e vai colocar a abominável desolação.

Então ao termo dos primeiros três anos e meio da Grande Tribulação, isto é, no meio desse período, o Anticristo simplesmente vai entrar no santuário, em Jerusalém, vai remover o sacrifício contínuo dos judeus e vai colocar ali uma abominável desolação. Possivelmente fazer o que Antíoco Epifânio fez, colocando uma porca no altar de sacrifício (lembre-se que porco é um animal considerado imundo segundo o livro de Levítico) e/ou uma imagem do anticristo sobre o altar, a exemplo do que também fez Antíoco erguendo uma imagem do deus pagão Zeus Olímpico sobre o altar do holocausto. O Anticristo entrará no templo judeu, que então terá sido reconstruído em Israel, já que não existe atualmente. Ele proibirá o sacrifício contínuo (diário) e colocará no Templo (a “fortaleza”) algo denominado “a abominação desoladora”. Note que forçosamente é preciso que, segundo a Escatologia Bíblica (que leva em conta o livro de Apocalipse, de Daniel e outros) o Templo seja reconstruído em Israel (não no Brasil) na primeira metade da grande tribulação (Dn 9.27; II Ts 2.4,9).

Segundo Arno Froese, "fazemos bem em compreender que os sinais do final dos tempos dados pelo Senhor são especificamente direcionados a Israel. Quando Jesus explicou os eventos dos tempos finais a Seus discípulos juntamente com os sinais que aconteceriam antes de Sua volta, Ele endereçou essas palavras ao povo de Israel." (http://www.chamada.com.br/mensagens/sinal_do_fim.html)

Pastor, e quanto ao templo construído no Brasil? Bem isso é outra história. De antemão, afirmo que nada tem de especial no sentido espiritual, como se fosse mais poderoso ou sobrenatural do que qualquer galpão alugado onde funciona uma Igreja genuinamente evangélica. Trata-se de uma construção que buscou representar aquilo que um dia existiu enquanto estrutura física, porém que jamais representará a estrutura espiritual, conforme registrado em Crônicas. Vivemos hoje na Nova Aliança, onde Jesus é o centro; onde todas as liturgias, símbolos e tipos do Antigo Testamento foram Nele cumpridos e, com isso, tornaram-se obsoletos e inapropriados no relacionamento entre Deus e os homens. Por exemplo, em Cristo foi abolida a circuncisão, os sacrifícios de holocausto, etc. Em Cristo, vivemos não a Lei, mas a Graça.

Pense nisso. Deus está te dando visão de águia!

segunda-feira, 9 de junho de 2014

NEM TANTO AO MAR, NEM TANTO A TERRA: EQUILÍBRIO EMOCIONAL É O MELHOR, SEMPRE!


"Se chorei ou se sorri, o importante é que emoções eu vivi" (Emoções, Roberto Carlos).

Emoções... agitações de sentimentos, por vezes antagônicos, conflitantes. Postula-se que a palavra deriva do latim emovere, onde o e- (variante de ex-) significa "fora" e movere significa "movimento". As emoções são tão complexas e intrincadas que não existe uma teoria psicológica para as emoções que seja geral ou aceita de forma universal. Do mesmo modo, as emoções são tão poderosas que quando manifestas em plenitude sobrepujam a lógica - por isso, já dizia Blaise Pascal: "O coração emite razões e reações que a própria razão desconhece".

Donde vem as emoções? Por certo, não dá para explicar sua existência à luz do darwinianismo. Tampouco dá para explicá-las à luz dos fenômenos bioquímicos complexos da química cerebral. Tanto o primeiro quanto o último são reducionistas, empobrecendo um fenômeno tão maravilhoso e tão complexo! A melhor e mais completa explicação sobre as emoções é teológica, isto é, teo-lógica, dentro da lógica de Deus: As emoções que possuímos vem de Deus. Deus, ao criar o homem do pó da terra, conforme o Livro de Gênesis, sopra em suas narinas o fôlego da vida; e o homem foi feito alma vivente. Esta é uma descrição bela e simples, que possibilita o entendimento de qualquer pessoa. A alma humana (nephesh) é formada, assim, pelo contato entre o fôlego de vida (nshamah chay) soprado por Deus com a matéria, o pó da terra (`aphar). Ao soprar o fôlego de vida, Deus soprou em Adão - o primeiro homem - aquilo que Ele possui, aquilo que é próprio de Deus. Deus não soprou "ar" (mistura de gases: O2, N2, CO2, etc), mas soprou nas narinas daquele ser algo espiritual, derivado do próprio Deus. Esse "sopro divino" trouxe consigo elementos próprios à sua natureza.

Olhe por um minuto para o restante da criação de Deus: todos os animais possuem algo chamado instinto. Instinto é o impulso interior que faz um animal executar inconscientemente atos adequados às necessidades de sobrevivência própria, da sua espécie ou da sua prole. Quando observamos uma leoa cuidar de seus filhotes podemos até nos encher de ternura; porém, aquele animal faz tal coisa por mero instinto. Não há uma consciência moral - "o dever de mãe" - por parte da leoa com seus filhotes (note que a recíproca é verdadeira: quando o animal cresce, ele segue seu caminho sem nenhum laço emocional com sua progenitora, apesar desta ter cuidado dele; do mesmo modo, ela não dá nenhuma importância a seu filhote quando crescido - não há uma família, a leoa não vira avó, rs). Nem há um sentimento de amor ou carinho do animal com sua prole. Nós atribuímos isso aos animais - nossas características morais e emocionais, porém só nós as possuímos verdadeiramente. Não devemos reduzir o homem, coroa da criação de Deus, ao restante da criação, pois são coisas separadas. A nossa alma é diferente da alma dos animais, sendo criada de forma diferente da deles. O Espírito Santo não considerou relevante informar ao homem como a alma dos animais foi criada, mas em Sua Sabedoria infinita considerou tal coisa no que tange ao homem.

As emoções que possuímos, portanto, vieram de Deus no momento em que Ele resolveu em Seu eterno propósito criar o homem e são constituintes inseparáveis da alma humana. Noutras palavras, não há nenhuma possibilidade de que o homem não possua emoções, por isso seria equivalente remover a alma humana, o que se dá somente por ocasião da morte. Toda pessoa viva possui emoções - e as mais variadas possíveis: raiva, amor, compaixão, tristeza, ternura, amizade, etc.  Essa variação também aponta para Deus. No início, estas emoções estavam todas em equilíbrio em nossa alma. Estávamos em perfeita harmonia com Nosso Criador, com a criação e conosco mesmo. Com a queda, contudo, o pecado gerou em nós um processo de desequilíbrio e de afastamento de Deus, sendo ele mesmo (os efeitos do pecado) um ato inicial quanto um processo ininterrupto na vida do homem.

Parênteses (1): São várias as religiões e filosofias orientais que trazem ao homem uma proposta de "reequilibrar seu interior", de "entrar em harmonia com o cosmos", etc, por meio de técnicas de relaxamento e meditação. Contudo, do ponto de vista bíblico, tal coisa é impossível: o homem só poderá ter o perfeito reequilíbrio de seu interior quando este homem, convertido à Cristo, tiver seu exterior transformado pelo poder de Deus, quando o que é mortal se revestir da imortalidade e que aquilo que é corruptível se revista da incorruptibilidade (I Co 15.50-53). Até lá, o controle emocional só é possível por meio do Espírito Santo, que habita no crente, controlar suas emoções quando - e somente quando - este permitir tal controle. Tais técnicas são, na verdade, consideradas pecado por parte de Deus, pois são a tentativa (pífia, por sinal), do homem prover para si mesmo aquilo que necessita independente de Deus; noutras palavras, essas técnicas são a manifestação do mesmo pecado que o homem cometeu no Éden: querendo ser igual a Deus, desobedeceu Seu Pai e Criador e condenou, com isso, toda (T-O-D-A) a criação a estar sob influência direta do pecado. Fecha parênteses.

Assim,  o pecado que cometemos no Éden desestabilizou toda a nossa tricotomia. O corpo a cada dia que passa envelhece, adoece e se decompõe; não existe um único órgão, osso, célula do corpo humano que não seja passível de adoecer, envelhecer e por fim morrer. Nosso espírito (parte nossa responsável pelo nosso contato e ação no mundo espiritual) está morto em nós (separado de Deus) e nossa alma está em total confusão, fazendo as vezes do espírito, e cheia de complexos, culpas, medos, fobias, etc... além das confusões emocionais. As tão conhecidas "crises emocionais"! Um turbilhão de emoções avassaladoras, com altíssimo poder em si mesmas - tanto para construir, quanto para destruir! As emoções são tão intensas e tão incompreendidas que diante delas temos duas reações básicas: ou extravasá-las ou reprimi-las. Ambas as reações podem ser - e são, na maioria das vezes - negativas, porque interferem naquilo que somos essencialmente.

Somos ensinados a reprimir nossas emoções. Há uma robotização do ser humano, buscando cada vez mais anular as emoções em detrimento da razão. Desde crianças somos ensinados a reprimir: "não chora senão você apanha!", "homem não chora!", etc. Assim acontece nas empresas, nas indústrias, nas escolas e, pior ainda, nas igrejas (especialmente nas tradicionais, ainda que tristemente esta realidade seja a mesma em muitas igrejas ditas renovadas). Muitos são os teólogos atuais, modernos, que combatem radicalmente qualquer manifestação emocional no culto: "não pode bater palmas ou dar brados - os famosos "aleluias! Glórias a Deus!", porque o culto é silencioso e contemplativo" (!?!). Noutras palavras, alegria está riscada do culto a Deus! Nada de riso! A única emoção permitida aqui são as lágrimas! Triste herança do catolicismo romano, onde a liturgia é tão rígida e inflexível - tal qual o homem a planejou - que não há espaço para manifestações humanas na adoração e serviço a Deus. "Sigam o rito, porque seguindo o rito, com cara amarrada e boca fechada, Deus se agradará de vós", dá para ouvir em cada expressão carrancuda dos teólogos e pastores anti-emoção. De onde veio isso? Da influência platônica na teologia da Igreja. Platão, no século IV a.C, apregoava que o homem deveria suprimir sua sensibilidade, suas emoções, pois elas o impediriam de agir moralmente, ou seja, racionalmente. Para ele, filosofar era agir puramente de forma racional!

Sabe o que isso produz? Gente doente! Doente de alma! Pessoas cheias de patologias almáticas. Gente que vê bagunça e diabo em tudo, cheios de neuroses e psicoses! Não parecem gente, parecem máquinas! São "Exterminadores do Presente", inflexíveis, durões! Afinal, o que vale é a regra do culto; a fidelidade a Deus é a fidelidade à regra do culto - regra esta criada pelo próprio homem! Ora, quem disse - e onde está escrito na Bíblia - que o culto não pode ter o aspecto emocional envolvido como participante? Quem estabeleceu quais emoções - e suas manifestações - podem e quais não podem, quais são aceitas e quais não são - e pior ainda - por Deus?!?

1 CELEBRAI com júbilo ao SENHOR, todas as terras.
2 Servi ao SENHOR com alegria; e entrai diante dele com canto.
3 Sabei que o SENHOR é Deus; foi ele que nos fez, e não nós a nós mesmos; somos povo seu e ovelhas do seu pasto.
4 Entrai pelas portas dele com gratidão, e em seus átrios com louvor; louvai-o, e bendizei o seu nome.
5 Porque o SENHOR é bom, e eterna a sua misericórdia; e a sua verdade dura de geração em geração.

(Salmo 100)

Celebração, júbilo, alegria, canto, gratidão, louvor... tudo isso envolve as emoções!!!! E esse Salmo é só um pequeno exemplo!

Obviamente - e não podia deixar de ser assim - há o outro lado da moeda: há aqueles que postulam que as emoções devem ser extravasadas a qualquer custo, a qualquer preço. Desse lado, olhando para dentro da igreja, estão aqueles que são contrários a toda a forma de liturgia. O culto a Deus, para estes obrigatoriamente precisa envolver barulho, agitação, movimento. É a turma do "levante os braços", "dê um brado", "pule no seu lugar", "grite no ouvido do seu irmão", etc. Ainda que as movimentações físicas tenham o seu lugar no culto, aqui estamos tratando dos excessos. Ou seja, nesse extremo, não há lugar para a introspecção, para a reflexão silenciosa. Não há espaço para a razão, para a lógica, pois o único apelo é à emoção e feito com base puramente emocional. Noutras palavras, as emoções são o único parâmetro aceitável para medir a espiritualidade pessoal e coletiva. Daí, entendem que precisam cair no chão e sair rolando, que precisam berrar para serem ouvidos, que precisam pular numa perna só e por aí vai, típico do movimento neopentecostal.

Assim, na forma litúrgica do discurso neopentecostal, percebe-se que há uma fixação em expressividade emocional intensa. Qualquer forma comedida e tímida de louvar a Deus no momento de culto é radical e toscamente constrangida se não estiver sob o formato de expressão intensa e ampla de emoções, o que é julgado por ideal. O Louvor a Deus é medido por essa expressividade emocional que precisa ser extensa e intensa, senão não é caracterizado como louvor ao Pai. Um formato litúrgico é imposto como o verdadeiro e o idealmente aceito. Esse formato litúrgico é equivocado, pois se baseia na exclusividade de apenas um item da dimensão humana como fator expressivo do louvor, desconsiderando todas as outras muitas dimensões da subjetividade humana. Um parâmetro de louvor ideal equivocadamente se estabelece levando em consideração somente um aspecto do humano (grifo adicionado). Um louvor comedido de emoções e catarses é típico de "almas sem Cristo e que não oferecem o melhor para Deus". Dizem: "deem o seu melhor para Cristo". E esse "melhor" a que o clero litúrgico se refere é a expressividade ampla, extensa e intensa de emoções e gestuais. Nesse "melhor para Cristo", o âmbito do cristianismo genuíno fora decepado para ceder formato a um reducionismo na vida do suposto adorador. A vida de adorador se avalia pelas emoções expressas no culto, somente. É a chamada Adoração Extravagante. De onde tiraram respaldo bíblico para esse nome não se sabe. (Prof. Karene Monte, http://www.batistaspi.com.br/site/wp-content/uploads/2013/04/Excel%C3%AAncia-no-Planejamento-do-Culto.pdf)

A bem da verdade, reitero: tanto a repressão quanto o extravasamento sem limite algum das emoções são situações a serem evitadas pelos crentes em Cristo. O culto a Deus pode conter ambos os elementos, emoção e razão. Isso não é pecado, nem é errado. Mas o que não pode haver é o desequilíbrio, o descontrole, como por exemplo vemos hoje em muitos lugares sendo praticado sob a justificativa de "manifestação espiritual". Muito do "mover espiritual" que hoje vemos não passa de "mover da alma", sem o devido controle do Espírito. As unções de animais, por exemplo, nada mais são do que essa manifestação da alma humana no extravasamento de suas emoções mais complexas. Quando o mover é genuinamente espiritual, não será preciso alguém "iniciar" esse mover; o próprio Espírito Santo fará isso. Quando o mover é Dele, gerado por Ele, e quando é da alma humana, o contraste é muito grande.O mesmo raciocínio se aplica aos dons espirituais e ao batismo com o Espírito Santo.

Parênteses (2): os mestres tradicionais tendem a menosprezar a necessidade e a realidade dos dons espirituais. Segundo eles, são coisas que não existem (como o batismo com Espírito Santo), fruto das emoções humanas. Eu tendo a compreendê-los em sua tese (não significa aceitá-los), por conta da abundante quantidade de excessos e falsificações que há por aí. As falsificações são tantas que é quase impossível não se deparar com uma (como a tal "unção das vassouras", sic). Porém, é importante dizer algumas coisas sobre isso. Primeiro, que muitas dessas falsificações não são feitas por malícia, mas por pura questão emocional. Segundo, que se há falsificações, há o verdadeiro o qual é inversamente proporcional em quantidade com as falsificações, ou seja, se há muito de um, há pouco de outro (nesse caso, há pouco mesmo, quase raro). Agora, o que não dá para fazer - nem aceitar - é dizer que ambos os fenômenos espirituais não existem em nossos dias. Fazer isso é (1) forçar a Bíblia a dizer o que ela não diz (na famosa tese antibíblica do cessacionismo); (2) ignorar as evidências existentes (aconselho ler o livro "A Igreja do Século 20: A História Que Não Foi Contada", de John Walker, que traz uma análise séria e imparcial sobre os fatos históricos. Se quiser posso citar outros 10 autores). Se o excesso e a falsificação conduz à negação da realidade representada, então a lógica impõe que toda falsificação e excesso conduz invariavelmente ao mesmo. Seguindo essa linha lógica, a conclusão estapafúrdia seria que a Igreja verdadeira não existe mais, porque no mundo existe a falsa igreja; não existem mais mestres e profetas verdadeiros, porque existem os falsos e por aí vai. Outro erro nessa lógica é afirmar que estas experiências são falsas. Ora, se são falsas, é porque existe a verdadeira. Só faz sentido dizer que uma coisa é falsa se pudermos dizer que há uma coisa equivalente, porém verdadeira. Isso não conduz à negação, de forma alguma. Fecha parênteses.  

Parênteses (3): Há anos assisto a esse debate Hamletiano interminável sobre batismo com Espírito Santo e dons espirituais. Pergunto: o que isso produziu na história da Igreja? Qual foi a real contribuição que esse debate trouxe para a edificação da Igreja? Continuo perguntando: se essa questão é secundária - como teorizam alguns - então porque fazer "carro de batalha" com ela? Porque insistir com um tema "secundário", que tanto causam contendas e conflitos, que muitos prejuízos trouxeram a causa do Evangelho? Porque os cristãos responsáveis, sérios e tementes a Deus gastam seu precioso tempo (e principalmente tempo do Reino, contrariando assim a orientação apostólica de "remir o tempo") com essas questões secundárias, de somenos importância - e isso há décadas? Para que esse debate interminável? Ora, se é secundário como dizem alguns, então que prevaleça a liberdade cristã: se um grupo assim o crê, não seja combatido por outro que não crê e assim respectivamente, não é isso? O foco não deveriam então ser as questões principais, que realmente importam à fé, questões fundamentais? Porém, a evidência tão notória acerca do debate acalorado sobre essas e outras questões - ditas secundárias - aponta para outra realidade, diferente do discurso poético: quem diz que essas questões são secundárias e não cessa de combatê-las, diz uma coisa na poesia, outra coisa na prática; para estes, tais questões não são secundárias, mas sim PRIMÁRIAS. A bem da verdade, o que existe é a ação de um momento fletor e de uma força cisalhante, intencional ou não, para ou fazer mudar a opinião ou trazer ruptura (divisão) à Igreja. Quem ganha com isso? Eu, com certeza, não ganho nada. O Reino não ganha nada. Duvido que um cristão responsável, sério e temente a Deus ganhe alguma coisa também. Fecha parênteses.    

Sou radicalmente contrário aos excessos, porque via de regra todo excesso leva aos extremos; estes, quando assumidos, levam a extremismos e radicalismos desnecessários e inúteis. Não sou favorável, assim, nem ao extremo do "culto repressor", nem tampouco do "culto libertino, sem regras". Não vejo como arrancar as emoções da alma humana, mas pela Palavra de Deus vejo que elas são passíveis de serem controladas pelo Espírito Santo, podendo ser usadas em todas as atividades humanas, inclusive na adoração a Deus, pessoal e/ou coletiva. Já vi e vivi muito para cair na armadilha do reducionismo, classificando pejorativamente meus irmãos tradicionais como frios; há muita gente que pertence a este grupo de irmãos que tem uma fé mais viva e intensa que muito crente dito avivado: gente que ama a Deus, que ora, que jejua, que lê Bíblia e que é fiel ao Senhor (já servi e tenho o prazer de servir com muitos assim!). Porém, do mesmo modo, me recuso a cair na mesma armadilha ao classificar os meus irmãos renovados ou pentecostais como emocionalistas e falsificadores do que é espiritual. Tenho plena certeza de que há irmãos com experiências espirituais verdadeiras, gente séria e temente a Deus, que vivencia dia-a-dia essa realidade. Do mesmo modo, já servi e tenho o prazer de servir com gente assim!

Pense nisso. Deus está te dando visão de águia!

quarta-feira, 21 de maio de 2014

ÉTICA CRISTÃ: HÁ UM PADRÃO BÍBLICO PARA A ROUPA DO CRENTE?



Antes de abordamos o tema proposto, cabe dizer que os tempos atuais são muito diferentes dos tempos antigos em tudo, em especial no que se refere a Igreja. Antigamente, há alguns anos, havia uma preocupação quase que coletiva na maioria dos crentes com questões que hoje são tratadas como supérfluas. Por exemplo, havia muita preocupação com a ética pastoral, o que fazia com que os pastores fossem muito admirados pelos crentes e até mesmo pelos não-crentes. Do mesmo modo, havia uma preocupação com a ética cristã de forma mais ampla, naquilo que poderíamos chamar de "testemunho cristão": cada crente primava pelo bom testemunho em todas as áreas de sua vida, evitando ao máximo causar "escândalos" (sobre escândalos, veja a postagem "ESCANDALOSOS E SEUS ESCÂNDALOS", em http://apenas-para-argumentar.blogspot.com.br/2013/05/escandalosos-e-seus-escandalos.html). 

Hoje, quando falamos em testemunho, muitas pessoas entendem que trata-se tão somente de alguma bênção ou livramento que Deus tenha proporcionado na vida da pessoa. O entender hoje é muito diferente! Isso se dá por várias razões e é muito provável que as gerações passadas tenham de alguma maneira falhado em transmitir esses valores às novas gerações (o problema da geração seguinte: "E foi também congregada toda aquela geração a seus pais, e outra geração após ela se levantou, que não conhecia ao SENHOR, nem tampouco a obra que ele fizera a Israel", Jz 2.10). Outra hipótese é que àqueles a quem foi transmitido os valores cristãos antigos não foi suficientemente forte para fazer o mesmo na sua própria geração, ou até, quem sabe, viu-se impotente diante das rápidas e acentuadas mudanças que o evangelicalismo brasileiro experimentou dos anos 80 em diante.

A verdade, porém, é que de fato muita coisa foi alterada. O que no passado era visto como "comportamento cristão sadio" pela Igreja hoje é visto como algo ultrapassado, velho, caduco, fora de moda. É visto como "legalismo". É interessante notar que o mundo comporta-se exatamente da mesma maneira: o antes "venerado" e "desejado" ato do casamento, sonho de moças e rapazes que desejavam constituir família, hoje é visto como sendo algo banal, sem importância, mera convenção social com pouca ou nenhuma utilidade. Pior é que a respeito do casamento - e de outros valores antigos, bíblicos - a Igreja atual apresenta a mesma visão interpretativa do mundo, ou seja, o casamento como algo supérfluo (haja vista o crescimento do número de pessoas divorciadas na Igreja). Isso é, por si só, algo sintomático; revela um processo de aculturamento da Igreja com o mundo e, consequentemente, afastamento dos padrões bíblicos. É sinal que o sal está cada vez mais sem sabor, sem suas propriedades de salgar. Não é à-toa que o sal insípido está cada vez sendo mais e mais pisado pelos homens, nos meios de comunicação (Tv, jornais, internet, etc) e na sociedade, que insiste em querer dizer à Igreja o que ela deve crer.

Parênteses (1): A IGREJA CRÊ NÃO NO QUE O MUNDO ACHA CERTO. O conceito de certo e errado do mundo nada, absolutamente, tem a ver com a Igreja. A Igreja sadia crê na Bíblia - de Gênesis a Apocalipse - e no Deus da Bíblia. Se isso é loucura para o mundo - e de fato é - paciência, não será a Igreja, "que está no mundo mas não é do mundo" que se mundanizará para ser aceita pela sociedade. Crentes são diferentes? Sim, são. Jesus era diferente daquilo que o mundo convencionava - e até hoje convenciona - sobre Deus? Sim, Ele foi, é e será. Não compartilha da mesma fé? Lamento. Isso é problema e direito seu. Mas não venha impor, direta ou indiretamente, o que a Igreja deve ou não crer. Não gostou do que crê a Igreja? Não frequente-a e que Deus tenha piedade da sua alma. Como cita o Pr. Isaltino, em http://www.isaltino.com.br/2013/08/o-novo-teologo-da-veja/: "a Igreja é a única instituição sobre a face da terra que reivindica autoridade divina. Se o pessoal concorda ou não, se gosta ou não, não vem ao caso. Mas se a Igreja e as igrejas perderem essa noção de substância, nada podem fazer. Nivelam-se a qualquer outra instituição. Sequer merecem o espaço que lhe dão. Não compete aos de fora ditarem a agenda da Igreja e das igrejas. Parece-me com a postura do “cristianismo alemão” e das igrejas controladas em países comunistas: “Vocês pregam o que nós dizemos”. Não querem os palpites da Igreja? Recusem-nos. Mas não deem seus palpites à Igreja. A Igreja não se vê como uma ONG criada para satisfazer as pessoas e massagear seu ego. Ela tem valores muito ricos, que vêm de milhares de anos, não pode se pautar pelas novidades que surgem." Fecha parênteses. 

Parênteses (2): Hoje, há o retorno da velha estratégia do inferno em mudar o texto bíblico quando não se concorda com ele. Há uma proliferação de "bíbrias" dos mais diversos tipos e gostos, elaboradas arrancando-se textos e passagens da Bíblia ou modificando sua redação. Isso é válido? Sim, perfeitamente. Podem criar uma religião - ou mesmo Igreja - em torno dessas adulterações da bíblia? Sim, podem. A pergunta é: será que Deus concorda com isso? Será que Ele aprova? Vamos deixar O próprio responder:  "Porque eu testifico a todo aquele que ouvir as palavras da profecia deste livro que, se alguém lhes acrescentar alguma coisa, Deus fará vir sobre ele as pragas que estão escritas neste livro; E, se alguém tirar quaisquer palavras do livro desta profecia, Deus tirará a sua parte do livro da vida, e da cidade santa, e das coisas que estão escritas neste livro." (Ap 22.18,19) Àqueles que modificam o texto bíblico, atenção! Fecha parênteses.

Nessa argumentação, abordaremos uma dessas práticas "cristãs religiosas" (se quiser chamar assim) que foi modificada pela sociedade: a questão do vestuário. Logo de saída, antes de qualquer coisa, atenção: Não há um padrão bíblico para tipo de pano ou de roupa! Os crentes não são chamados a usarem vestes talares ou roupões (como é costume de alguns); porém, do mesmo modo, não são chamados a usarem "micro-isso" ou "micro-aquilo". Um crente não deve nem viver como legalista, nem tampouco como mundano; a posição bíblica correta é sempre a liberdade com responsabilidade. Mas como ela se manifesta neste sentido? O que a Bíblia ensina? Obviamente, os exemplos bíblicos que serão vistos, dos quais extrairemos os princípios que devem reger nossas vidas como filhos e filhas de Deus, se referirão ao sexo feminino, por um contexto histórico-cultural; no entanto, por ilustrarem princípios eternos, valem para ambos os sexos e para nossos dias e dias futuros. Assim, atenção: Os exemplos são HISTÓRICOS-CULTURAIS; já os PRINCÍPIOS ilustrados nos exemplos são ETERNOS.

1) Paulo e as Mulheres em Corinto: "Portanto, se a mulher não se cobre com véu, tosquie-se também. Mas, se para a mulher é coisa indecente tosquiar-se ou rapar-se, que ponha o véu." (I Co 11.6; ver também vv.13-16)

O apóstolo Paulo, nesse texto, exorta às mulheres cristãs de Corinto, com relação ao uso do véu. Por que ele tratou desse tema naquela igreja (e não nas demais)? Esse fato indica que havia alguma coisa em Corinto, que não havia noutras cidades onde Paulo estabeleceu Igrejas. Ou seja, havia um motivo histórico-cultural, típico de Corinto, para Paulo tratar desse tema nessa Igreja. Na Antigüidade, a mulher carregava no corpo um sinal da autoridade do marido. Esse sinal era o véu. Esse mesmo costume prevalece até hoje entre alguns povos do Oriente. Nestes lugares, a mulher honesta não deve aparecer em público sem o véu, ou algo correspondente. Era um sinal da honra e da dignidade das mulheres (Gn. 24.65; Ct 4.1).

Também considerava-se o véu um sinal de subordinação da mulher ao marido, por isso que não o usavam as mulheres de luto, as prostitutas e as esposas infiéis.  Na cidade de Corinto localizava-se o "templo de afrodite",  templo que era frequentado por 1.000 sacerdotisas/prostitutas, mantidas a expensas do povo, onde sempre estavam prontas para se entregar a prazeres imorais, como culto à deusa. A prostituta cultual, para se diferenciar da mulher de bem, fazia o seguinte: raspava o seu cabelo, assim, todos que vissem uma mulher com cabelo raspado, saberia de que se tratava de uma prostituta cultual de Afrodite. Esta era uma forma de identificá-las.O Templo de Afrodite ficava plantado sobre a acrópole de Corinto, e tanto os homens para lá subiam a fim de ter relações sexuais com as sacerdotisas prostitutas cultuais, como também, regularmente, elas mesmas desciam a montanha, até a cidade, na qual havia também toda sorte de bacanais e orgias. Ora, tão forte era esse perfil da cidade, que no mundo grego, havia o verbo "corintianizar".

Assim, qual era o princípio envolvido na recomendação do uso do véu por Paulo às irmãs em Corinto? O princípio fundamental nas instruções de Paulo é o respeito pelo local de culto e pelo culto, propriamente dito. A questão de ausência do véu servia de escândalo, pois as irmãs da Igreja eram confundidas com as sacerdotisas de Afrodite. Obviamente, o que Deus tencionou em nos ensinar com este exemplo é que a mulher (e o homem) cristão não deve se vestir ou se comportar de forma a ser confundido com um mundano (além de, é claro, respeitar o culto e o local de culto).

Como aplica-se isso hoje, ou seja, como aplica-se esse princípio hoje? Ora, basta uma rápida olhada na nossa sociedade, que cada vez mais prima pela exposição do corpo, beirando em muitos casos a nudez (especialmente feminina). Hoje, por certo o apóstolo Paulo proibiria às mulheres cristãs usarem microvestidos apertadíssimos, calças justíssimas, blusas transparentes e coisas do tipo, pois é justamente esse o comportamento das não-crentes. Note que exatamente como em Corinto, essa prática de usar roupas (cadê a roupa?!?) muito curtas e/ou transparentes traz confusão e perturbação ao culto cristão. Obviamente, não estamos nos referindo a visitantes, mas sim à crentes devidamente batizadas nas águas, que professam ter se convertido e aceito a Cristo como Senhor e Salvador de suas vidas.  

2) Paulo e seus conselhos à Timóteo: "Que do mesmo modo as mulheres se ataviem em traje honesto, com pudor e modéstia, não com tranças, ou com ouro, ou pérolas, ou vestidos preciosos, Mas, como convém a mulheres que fazem profissão de servir a Deus, com boas obras." (I Tm 2.9,10)

Aqui, vemos mais uma vez a preocupação apostólica com a verdadeira essência da fé. Para Paulo, o que as mulheres cristãs mais deveriam se preocupar era com a decência do vestuário (pudor e modéstia), pois ele seria uma demonstração do caráter da mulher que se apresentava para participar do culto. Em grego, esse texto escreve-se: ὡσαύτως καὶ τὰς γυναῖκας ἐν καταστολῇ κοσμίῳ, μετὰ αἰδοῦς καὶ σωφροσύνης, κοσμεῖν ἑαυτάς, μὴ ἐν πλέγμασιν, ἢ χρυσῴ, ἢ μαργαρίταις, ἢ ἱματισμῷ πολυτελεῖ
Aqui, modéstia é a tradução de σωφροσύνης, sōphrosunēs, "sobriedade, temperança, equilíbrio, moderação, recato", que indica controle das paixões e dos desejos, e pudor é a tradução de αἰδοῦς, aidous, "reverência, timidez, respeito".  A modéstia procura não atrair a atenção para si mesma nem se mostrar de maneira inconveniente. Portanto, a modéstia é o elemento chave do caráter cristão e, as vestes devem fazer a mesma “confissão” que os lábios fazem. Vestir-se com modéstia significa um sentimento moral que inclui respeito para com o sentimento de outros, ou seja, indica um senso de respeito aos limites de conveniência. Enfim, a modéstia não quer exibir-se, não se revela em nudez quer na igreja ou fora dela.

"Quando você se veste decentemente, você reconhece que Deus ordenou as roupas para cobrirem, e não para chamarem atenção para sua pele nua. Você se cobre por respeito a Ele, ao Evangelho, aos seus irmãos cristãos – e por respeito a quem Ele te criou para ser. Decência significa que você concorda com o Senhor sobre o verdadeiro propósito de se vestir e que abre mão de seu interesse próprio para se vestir de uma maneira que exalte a Cristo. Então, naquele provador de roupas, experimentando aquela saia, gaste tempo sentando, curvando-se, esticando-se em frente ao espelho e pergunte a si mesma: “Essa saia é decente? Ela faz o que deveria fazer? Ela me cobre devidamente? Será que ela mostra minha nudez subjacente – ou exalta o Evangelho de Cristo?" (Mary Kassian)


Há realmente mulheres, que se tornam indecentes na maneira de trajar, usando vestidos transparentes ou escandalosamente decotados. Às vezes, aparecem com as costas desnudas e o busto quase totalmente exposto, numa demonstração de evidente adesão aos padrões mundanos. Existem, ainda, as preferências pelas mini-saias, as quais despertam a lascívia dos olhares cupidinosos. As vestes falam bem alto dos sentimentos do interior e das pretensões do coração, ou seja, “o como” nos vestimos está relacionado com “o que” somos por dentro. Há uma moda desavergonhada e provocante em vigor no mundo que nenhuma relação possui com o padrão de santidade prática da Bíblia Sagrada. Atualmente, o padrão definido pelos meios de comunicação como sendo a mulher ideal é a sensual, geralmente pouco vestida, que exibe o corpo. Não se procura a mulher virtuosa, mas a mulher formosa. É o reflexo de uma sociedade que cultua o corpo e que tem a mulher apenas como um pedaço de carne em exposição num açougue chamado exibicionismo. É preciso que os servos e as servas de Deus não se deixem aviltar pela imposição diabólica da moda, mas se ataviem com trajes decentes, com modéstia e bom senso. Os homens, por exemplo, não devem usar calças, bermudas ou shorts que marquem seus genitais, mas do mesmo modo vigiarem sobre sua forma de se vestir.

Que o mundo dite seus padrões de moda àqueles que são do mundo, isso é problema do mundo. Contudo, nós, Igreja de Cristo, não somos do mundo e não podemos aceitar os padrões e valores do mundo, que chocam-se diretamente com os padrões e valores de Deus, como equivalentes! Afinal, como disse Jesus: "Se o mundo vos odeia, sabei que, primeiro do que a vós, me odiou a mim. Se vós fôsseis do mundo, o mundo amaria o que era seu, mas porque não sois do mundo, antes eu vos escolhi do mundo, por isso é que o mundo vos odeia. Lembrai-vos da palavra que vos disse: Não é o servo maior do que o seu Senhor. Se a mim me perseguiram, também vos perseguirão a vós; se guardaram a minha palavra, também guardarão a vossa. Mas tudo isto vos farão por causa do meu nome, porque não conhecem aquele que me enviou." (Jo 15.18-21)

As mulheres cristãs podem - e devem - encobrir a beleza de suas partes mais íntimas com o propósito de servir aqueles que são mais fracos, porque isso espelha o evangelho. O chamado à modéstia não é um chamado para se cobrir porque tem algo sujo a respeito do corpo feminino – nada pode estar mais longe da verdade. As mulheres cristãs não precisam lutar pelos seus direitos de exibir sua beleza; elas podem guardar isso para um futuro contexto de intimidade mais apropriado e mais agradável a Deus, junto aos seus queridos esposos.

Precisamos disciplinar nossa mente e comportamento de maneira que nosso exterior e nossas atitudes reflitam o senhorio de Cristo em nossas vidas. Se não tivermos moderação, acabaremos pecando com certos exageros, seja no vestir, no falar ou nas demais áreas de nossa vida. O modo como nos vestimos revela o que somos. É claro que uma mulher pode está pudicamente vestida e ter um coração cheio de rapinas, mas a Deus ela não engana. Não estamos defendendo aqui que a mulher - ou o homem - se vista de forma ridícula ou que não cuide da aparência; não é isso. O fato de se ter a possibilidade de uma mulher está pudicamente vestida e ter um coração podre não invalida o figurino estabelecido por Deus: modéstia e bom senso.
 
Muitas outras passagens bíblicas poderiam ser citadas, e elas chegariam no mesmo princípio: nós, crentes em Cristo, devemos usar a nossa liberdade cristã, gerada pela Graça de Deus, com o devido cuidado de não causar tropeço ou escândalo, quer aos irmãos mais fracos na fé, quer à comunidade dos fiéis, quer ao Evangelho. Paulo chegar a dizer que não podemos usar a Graça para justificar nossos pecados, ou como se a graça fosse uma espécie de trampolim para o pecado. Como vivemos a nossa vida, uma vez que estamos em Cristo Jesus, é assunto para o Espírito Santo, que já deixou claro nas Escrituras como fazê-lo. Somos livres em Cristo, porém essa liberdade deve, à luz da Bíblia, ser exercida com responsabilidade, como temor e tremor, pois havemos de um dia dar contas de nossas atitudes, palavras e pensamentos. 

Pense nisso. Deus está te dando visão de águia!

sexta-feira, 7 de março de 2014

FARISAÍSMO, ONTEM E HOJE... QUE AMANHÃ, NUNCA MAIS!

"Mas ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! pois que fechais aos homens o reino dos céus; e nem vós entrais nem deixais entrar aos que estão entrando. Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! pois que devorais as casas das viúvas, sob pretexto de prolongadas orações; por isso sofrereis mais rigoroso juízo. Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! pois que percorreis o mar e a terra para fazer um prosélito; e, depois de o terdes feito, o fazeis filho do inferno duas vezes mais do que vós." (Mt 23.13-15)

Hipócritas... é assim que Jesus chama a classe religiosa que se considerava muito conhecedora de Deus e do sobrenatural, os grandes mestres da teologia judaica, os fariseus. Estes, os fariseus, se consideravam os únicos donos da verdade divina, donos de Deus, como se Deus tivesse dono. Se consideravam os únicos santos, os únicos puros, os únicos sábios, os únicos em qualquer coisa que se referisse a fé judaica. Todos que não fossem fariseus eram considerados por estes como publicanos e pecadores; afinal os fariseus consideravam a si mesmos como os servos mais espirituais e devotos de Deus. Contudo, no afã de trazer o povo de volta a uma submissão estrita à Palavra de Deus, o afastavam cada vez mais e mais desse Deus, assim como eles há muito já estavam distantes desse mesmo Deus, falado a verso e prosa em seus ensinos.

Jesus nos diz que estes fariseus (e os escribas, responsáveis por copiarem a lei), eram hipócritas, apesar de todo seu zelo religioso. Por quê? Porque, em síntese, eles praticavam a justiça de homens, apesar de se referirem à justiça de Deus. Essa justiça de homens tinham muitas características que a distinguia da justiça divina: enquanto a justiça divina era exercida na base da misericórdia, a justiça humana era exercida com base no senso do "mais santo e mais justo que você" (sou melhor do que você, que não é nada perante mim). Enquanto a justiça divina absolvia o arrependido, a justiça humana condenava os inocentes. Enquanto a justiça divina manifesta-se no interior para o exterior, envolvendo a mudança de comportamento, a justiça humana era algo apenas exterior, vazio, sem vida - verdadeiros sepulcros caiados, copos de botequim limpos apenas exteriormente. Enquanto a justiça divina vinha pela fé em Deus, a justiça humana era advinda das obras.

Toda atividade de proselitismo ("faraígelismo") feito pelos fariseus não gerava frutos para o Reino de Deus. Na verdade, Jesus diz que todo este afã em fazer discípulos por parte dos fariseus produzia filhos do inferno para o inferno, duas vezes mais piores que seus mestres. Jesus diz adicionalmente que eles fechavam aos homens o Reino dos céus; assim, além deles mesmos não entrarem, não deixavam mais ninguém entrar! Mesmo aqueles que iam entrando são "barrados" pelos fariseus com suas atitudes farisaicas.  Jesus os acusa de "devorar a casa das viúvas", talvez persuadindo-as a fazer grandes doações. Interessante isso, deles procurarem as casas das viúvas, porque as viúvas eram uma das classes de pessoas mais necessitadas e carentes, sem condições de se auto-defenderem, naquela época. Assim, os fariseus agiam com o mesmo princípio de Amaleque, o qual atacava a retaguarda dos filhos de Israel quando estes saíam do Egito, ferindo os fracos que iam atrás, estando Israel cansado e afadigado; e não temeu a Deus. (Dt 25.17,18)

Ao olhar isso tudo e ao ver a atitude de muitos ditos pastores e líderes evangélicos, não posso deixar de ver semelhanças entre suas atitudes e as dos fariseus. Infelizmente, a religião dominou o coração de muitos e muitos, transformando a fé simples em Jesus numa verdadeira religião farisaica. A bem da verdade, o cristianismo nunca conseguiu ser livre totalmente das amarras da religião. A reforma trouxe grande bênção, restaurando a importância da Palavra, mas nunca foi a intenção dos reformadores resolverem o problema do institucionalismo e da religião. O fato é que homens se cercaram de seus ritos mortos sem vida, voltando-se para si mesmos cheios de vaidade e vanglória, considerando-se maiores, melhores, mais sábios e espirituais que todos os demais. Gente que ama o institucionalismo, e que coloca o institucionalismo acima do organismo-organizado que é o Corpo de Cristo, incapazes de entender o que é comunhão na prática.

Parênteses: Aliás, o orgulho é uma das marcas distintivas de um fariseu: todo fariseu orgulha-se daquilo que ele pretensamente pensa saber, ter ou ser, espiritualmente falando, acima dos "pobres pecadores e publicanos". Orgulho, ou altivez de espírito... sempre precederá a queda. Grandes impérios, orgulhosos, com seus grandes imperadores, prepotentes, ruíram ao longo da história. Onde está hoje o império Assírio? E o Babilônico, com Nabudonosor e companhia? Onde está hoje o império Austro-Húngaro? E o Sacro Império Romano-Germânico? E Hitler, onde está? Todos reis, todos imperadores e seus impérios caíram. Todos os orgulhosos um dia caem, mais cedo ou mais tarde. Fecha parênteses.

As variações do farisaísmo moderno observam-se em dois grandes extremos: o primeiro extremo é aquele do rompimento total com tudo que é bom e justo na fé, quando o líder torna-se ele mesmo uma espécie de "deus encarnado", a quem Deus atende a tempo e hora e quem tem a "autoridade" de mudar o ensino da Bíblia (os famosos apóstolos, bispos, pastores, etc. modernos), onde a liberdade é exercida sem responsabilidade alguma. O segundo extremo é aquele do cerceamento total da liberdade cristã (afinal, a liberdade para quem sempre viveu e ainda vive preso assusta deveras: "Como assim ser livre? Como assim não controlar as coisas?"), com a criação de uma infinidade de regrinhas humanas para conferir "decência e ordem" ao exercício da fé, uma verdadeira religião mais pesada ainda do que as demais existentes, cheia de pompa, de aparência "de sabedoria, em devoção voluntária, humildade, e em disciplina do corpo" coisas que "não são de valor algum senão para a satisfação da carne." (Cl 2.23). Em ambas, vê-se o elemento farisaico.

Sinceramente, não sei qual dos dois tipos de religião é pior. A primeira, faz da fé cristã algo mais parecido com o movimento hippie da década de 60, com a exceção de haver um super-líder a frente do grupo, um "semi-deus" com seus "atributos divinos auto-conferidos", quase um Thor-gospel. Esse, considera-se e é considerado a "última bolacha do pacote", poderoso; o único que pode decifrar o "código de Deus", cheios de paramentos e togas. Já o segundo também tem seu super-líder, o qual é geralmente uma pessoa que se destaca na religião, de boa oratória e fama (o qual pode falar a bobagem que for, que se ele não violar o código máximo da religião, todos o aplaudirão de pé e dirão "esse é homem de Deus", sic). Aqui também os paramentos e as togas são vistas; louvam uns aos outros por suas togas, túnicas, diplomas, títulos, etc. Mesmo o Espírito Santo foi esquecido, em ambos os sistemas religiosos; deixado de lado, foi substituído pelos sistemas, dogmas, liturgias - referências e referenciais puramente humanos - ou mesmo pela total ausência delas! Hoje, Aquele que dirigia a vida e as decisões da Igreja está relegado a uma doutrina sobre Ele, quando muito!

Parênteses: nada tenho contra títulos e diplomas, desde que eles não ocupem no coração o lugar que pertence unicamente a Deus; desde que eles não se transformem em falsos deuses, nem transformem seus proprietários em falsos deuses. Títulos e diplomas são coisas boas, se usados e entendidos de forma correta. Fecha parênteses.    

Não me admira que algumas pessoas estejam rompendo com esse sistema religioso (veja a matéria "A NOVA REFORMA PROTESTANTE E A RESTAURAÇÃO DA IGREJA", em: http://apenas-para-argumentar.blogspot.com.br/2010/08/nova-reforma-protestante-e-restauracao.html), reunindo-se em comunidades que se constituem numa alternativa ao atual modelo de cristianismo - capitalista, psicologizado e encastelado, resgatando assim a simplicidade da fé cristã. Eu mesmo estou cansado da religião, em todas as suas formas, que só fazem produzir pessoas arrogantes, cheias de si mesmas; estou cansado da multidão de ritos externos, que nada produzem no interior. Estou cansado dessa coisa que aparenta vida, sem ter vida e que ainda por cima é chamada "cristã"; dessa doutrina de homens que não ensina para a vida, mas que serve apenas para manter a morte, para discussões intermináveis sobre a natureza do ser e do nada no melhor estilo de Jean-Paul Sartre. Estou cansado dessa fábrica de aperfeiçoamento dos defeitos de caráter chamada religião! Isso se dá porque Deus foi transformado em "doutrina sobre Deus", Cristo em mero tema de mensagem sem Cristo e o Espírito Santo só é mencionado na bênção apostólica! Foi isso que a religião fez: reduziu Deus de forma a caber certinho no conjunto de idéias sobre Deus; como diz o Pr. Caio Fábio, um Deus que foi domesticado, tornado previsível, que age apenas e somente no limite da lógica humana! Como ele diz, em seu artigo "DEUS SÓ É BOM SE FOR FIXO!" (http://www.caiofabio.net/conteudo.asp?codigo=02434):

O interessante, entretanto, é que os humanos, que sempre criaram “imagens de escultura” para serem seus deuses, ou que, modernamente, cultuam, por exemplo, a igreja, a religião, gurus, etc..., como verdadeiros deuses —, ficam, entretanto, chocados, quando se diz que a “teologia” acabou, que a filosofia cristã especulativa e grega é uma estultícia, e que em Jesus está tudo... Sim, Deus aberto, explicito, santamente arreganhado. Diante disso, questão é: como se pode cultuar uma imagem fixa e criada pelo homem e, ainda assim, ficar escandalizado quando se diz, fundado no fato de que “quem vê o Filho, vê o Pai”, que quem vê Jesus, vê Deus? A resposta é tão obvia quanto o pecado humano: “Deus de pedra a gente topa, mas vivo e humano-divino, andando e nos chamando a andar, a gente não quer”. Sim, porque se prefere qualquer coisa fixa, seja um ídolo de barro, pau, pedra, ouro, gesso, bronze, etc; ou seja um “Deus” feito de pacotes de salvação; de unções especiais feitas por homens especiais; ou algo coberto pela aura de uma espiritualidade ativada pela via de um rito, de um culto, de uma oferta, ou de qualquer outra forma de controle e gestão do sagrado — do que simplesmente crer que quem vê Jesus, vê o Pai; e tem tudo. [...]

Enquanto isto...Os mercenários, os lobos, ou os doutores de Deus, tentam convencer o povo de que se não forem obedecidos, ou seguidos em suas sabedorias, no primeiro caso haverá maldição; e, no segundo caso, uma viagem sem volta para fora da “sã doutrina”; a qual, só é sã porque é a deles; e eles são os “sãos” que não precisam de médico. Por esta razão, Jesus continuará a ser a manifestação e encarnação do Pai para os cristãos, desde que sempre seja visto pelos olhos mal-intencionados de uns; ou apenas fanaticamente condicionados dos que confessam tudo isto, mas têm pavor que o povo acredite, e não precise mais de suas “sacerdotalidades” a fim de prosseguirem na jornada. “Filhinhos, guardai-vos dos ídolos!” —advertiu o velho apóstolo João!

Daí, meu repúdio a religião: ela é farisaica em sua essência e exercício! Qualquer conceituação sobre Deus que não gere vida zoe na vida bios e que não tenha relação com a vida não é verdadeira! Qualquer conceito, "teologia", dogma, ensino ou doutrina que escravize o homem não provém do Espírito Santo! Qualquer fé dita em Jesus que não produza transformação de vida não é fé em Cristo Jesus! A fé cristã é simples, a religião cristã é complicadíssima, cheia de termos difíceis e contraditórios; a primeira até uma criança entende, a segunda, nem com muito estudo dá para se entender! A primeira é a prática de Cristo, pura e simples; a segunda é impossível de ser praticada, pois é filosofia e filosofismo, a não ser pelo fariseu filosofista. A primeira produz irmãos e amigos, faz com que os homens habitem na família de Deus, a segunda produz inimigos mesmo entre irmãos! É inconcebível um evangelho farisaico que aprisiona Deus, porque Deus jamais será contido ou aprisionado por qualquer coisa, humana, sub-humana ou sobre-humana!

O deus da religião está morto, como dizia Nietsche; é um deus fraco, um deus olímpico, cheio de pecados e esquisitices como o homem, de quem foi formado. Porém o Deus da Bíblia é vivo; Ele é, era e há de Ser, um Deus vivo que age como tal, que não se conforma ao homem, mas que lhe é superior; um Deus que não habita em tendas da filosofia, nem em templos feitos por mãos dos "especialistas de Deus", mas o Deus que está acima das religiões, incomparável! Deus tremendo, Todo-Poderoso, El-Shadday! Deus que fala o que quer falar, quando quer falar; que age como quer, quando quer! É inadmissível crer num Deus moldado pelas regras farisaicas, injusto e incompassivo, aprisionador do homem e da criação! Minha alma rejeita de pronto aquilo que tentam fazer passar pelo Meu Senhor; como dizia o velho hino "E ao ver as gravuras, os quadros pintados, daquilo que dizem ser o Meu Senhor, meu ser não aceita o que está na tela, é falsa a inspiração do pintor [escritor, teólogo, pensador, filósofo, religioso]. Não creio, não creio num Cristo vencido, [subjugado, domesticado pelo homem], cheio de amargura, semblante de dor! Mas creio num Cristo, de rosto alegre, pois creio num Cristo que é vencedor!"  

Justiça, paz e alegria no Espírito Santo, isso é que é o verdadeiro Reino de Deus. Porém, o reino de Deus segundo os homens domesticadores de Deus é o inverso: Injustiça, guerras e chateação! Um reino confuso, deprimente, previsível, monótono, cartesiano, de um deus computadorizado e descrito numa linguagem quase matemática, cheia de lógicas humanas! Por essas e por outras, ninguém entrava no Reino de Deus na época antiga, dos fariseus, combatidos por Jesus; porque havia tanto pré-requisito, tanto isso-e-aquilo, que o reino de Deus fora usurpado pelos homens, porteiros do Reino! Jesus, contudo, afirma que eles não eram porteiros do Reino como pensavam de si mesmos, tampouco entravam nesse reino e não conduziam ninguém para ele; na verdade estavam mais para um Caronte, barqueiro do Hades na mitologia grega, que carregava as almas dos recém-mortos sobre as águas dos rios Estige e Aqueronte, que dividiam o mundo dos vivos do mundo dos mortos,  sob preço de uma moeda. Eles jamais aceitaram a graça, a liberdade e a vida conferidas por Cristo, nem mesmo o Senhorio deste! Criticavam a Cristo abertamente; chegaram a dizer em certa ocasião que o Mestre expulsava demônios pelo maioral dos demônios, a fim de minar Seu ministério terreno e dispersar Suas ovelhas! (Mt 12.24)

É preciso muito cuidado para não incorrermos nos mesmos erros dos fariseus. É muito fácil errar na mesma coisa que eles erraram, e esse erro é muito difícil de ser percebido, sendo-o geralmente quando já é tarde demais. Combater aquilo que está claramente, nitidamente contrário as Escrituras é uma coisa; criticar aquilo que sua mente racional não alcança ou mesmo aqueles que propõem tais coisas, depreciando e apontando defeitos só porque você não entende (e nem quer entender) é outra (veja o artigo "FIDE ET RATIO: A UNÇÃO ESPIRITUAL", em: http://apenas-para-argumentar.blogspot.com.br/2010/10/fide-et-ratio-uncao-espiritual.html). Cuidado para que em seu zelo farisaico você não se veja lutando contra a Igreja, buscando causar confusão e dispersar o rebanho de Deus, porque essa será uma luta inglória para você. O farisaísmo é assim mesmo: tudo que não concorda, busca destruir, a fim de manter sua soberania ideológica. Conquanto que não o pensamento não seja antibíblico (antibíblico, não anti-teológico, porque muitas e muitas vezes os sistemas teológicos são antibíblicos - como o tal cessacionismo, é preciso comparar tudo com as Escrituras), respeite quem pensa diferente e o pensamento diferente, procure compreender as bases desse pensamento e, quem sabe, aprender mais um pouco. Lembre-se que "em parte conhecemos, em parte profetizamos" (I Co 13.9). Se é em parte, não é o todo, não é a totalidade do que se há para saber.  

Se você, leitor(a) viu seu comportamento refletido nesta argumentação, meu conselho é que você se arrependa e mude sua vida. Jesus ama você e quer transformar a sua vida, quer Ele te dar vida e vida em abundância! Vida livre, vida viva, vida pulsante, cheia de vida! A liberdade cristã sempre anda junto com responsabilidade cristã; mas sempre é preciso primar pela liberdade cristã! Não podemos - e nem devemos - voltar a nos colocarmos debaixo de jugo de fariseus legalistas, antes devemos estar firmes na liberdade com que Cristo nos libertou! Liberdade exercida de acordo com a Palavra, andando em Espírito e sendo por Ele guiados, de forma que o o fruto do Espírito seja gerado em nossa vida e não as obras da carne. Quanto ao primeiro, não há lei, mas contra o segundo a lei permanece! Farisaísmo ontem e hoje; que amanhã nunca mais! Sê livre, em Nome de Jesus!

Pense nisso. Deus está te dando visão (e vôo) de águia!

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

DISCERNINDO O VERDADEIRO MOVER DE DEUS NO MUNDO

"Portanto, vos quero fazer compreender que ninguém que fala pelo Espírito de Deus diz: Jesus é anátema, e ninguém pode dizer que Jesus é o Senhor, senão pelo Espírito Santo. Ora, há diversidade de dons, mas o Espírito é o mesmo.  E há diversidade de ministérios, mas o Senhor é o mesmo. E há diversidade de operações, mas é o mesmo Deus que opera tudo em todos." (I Co 12.3-6)

Quero fazer com que vocês compreendam... é assim que o apóstolo Paulo começa a desenvolver a sua explanação acerca dos dons espirituais. O termo usado em grego é "gnorizo", dar conhecimento, dar entendimento. Ele começa assim porque os crentes de Corinto eram ignorantes, desconhecedores, de um dos temas de grande importância nas Escrituras. Tinham todos os dons espirituais - um padrão para a igreja moderna, porém não tinham conhecimento de como operar esses dons e por isso havia muito desequilíbrio no uso dos dons.

A força desta expressão é: "Eu lhes dou esta regra para distinguir", ou pela qual vocês possam conhecer que influências e operações são de Deus. O plano da passagem é dar um guia geral e simples pelo qual os crentes poderiam ao mesmo tempo reconhecer as operações do Espírito de Deus, e determinar se eles, que alegavam estar sob tal operação,  realmente estavam. Essa regra era que todos os que foram realmente influenciado pelo Espírito Santo estariam dispostos a reconhecer e conhecer Jesus Cristo, e onde existisse essa disposição, era por si mesma uma demonstração clara de que tal operação era genuinamente do Espírito de Deus. Vemos substancialmente a mesma regra em I João 4:2,3 ("Nisto conhecereis o Espírito de Deus: Todo o espírito que confessa que Jesus Cristo veio em carne é de Deus; e todo o espírito que não confessa que Jesus Cristo veio em carne não é de Deus; mas este é o espírito do anticristo, do qual já ouvistes que há de vir, e eis que já está no mundo.")

Paulo segue dizendo: "quero que vocês entendam que ninguém que fala pelo Espírito de Deus diz: Jesus é anátema, e ninguém pode dizer que Jesus é o Senhor, senão pelo Espírito Santo". O princípio que há por detrás desse intróito é que o Espírito Santo em todas as instâncias deve honrar a Jesus Cristo, e todos que estivessem sob sua influência deveriam prontamente amar e reverenciar o nome e a pessoa de Jesus. O Senhor mesmo disse que o Espírito falaria dele, do Senhor Jesus: "Mas, quando vier aquele, o Espírito de verdade, ele vos guiará em toda a verdade; porque não falará de si mesmo, mas dirá tudo o que tiver ouvido, e vos anunciará o que há de vir. Ele me glorificará, porque há de receber do que é meu, e vo-lo há de anunciar." (Jo 16.13,14)

"Senão pelo Espírito Santo". Este é um versículo muito importante, não só no que diz respeito ao assunto em particular sob consideração no tempo de Paulo, mas também em sua relação prática no presente. Podemos aprender com ele várias coisas:

1. Qualquer pessoa sob a influência do Espírito Santo está disposta, de coração, a honrar o nome e obra de Jesus Cristo;

2. As formas e expressões religiosas, bem como suas opiniões e práticas, estarão de acordo com o Espírito de Deus à medida que elas honrarem e amarem o nome e a obra de Cristo;

3. É verdade que nenhum homem jamais vai valorizar o relacionamento com Jesus Cristo, nem amar o seu nome e sua obra, a menos que ele seja influenciado pelo Espírito Santo. Ninguém ama o nome e a obra do Redentor, seguindo simplesmente as inclinações de seu próprio coração corrupto. Em todos os casos, aqueles que foram levados a honrá-lo e amá-lo, foi pela atuação do Espírito Santo.

4. Se qualquer pessoa, não importando quem seja, de qualquer forma, menospreza a obra de Cristo, fala levianamente de sua pessoa ou seu nome, ou tem doutrinas que infringem a plenitude da verdade com respeito à sua dupla natureza (divina e humana), sua pureza, sua expiação, isso é a prova de que tal pessoa não está sob a influência do Espírito de Deus.

5. Toda verdadeira religião é a produção do Espírito Santo. Tal religião consiste essencialmente na vontade e na ação de honrar, amar e servir o Senhor Jesus Cristo: religiões, denominações, igrejas, etc. que honram mais a criatura (o homem) do que o Criador, que é bendito eternamente, não são geradas, mantidas ou potencializadas pelo Espírito Santo.

6. A influência do Espírito Santo deve ser valorizada, deixando de lado a frieza de coração, as trevas, a esterilidade, e a morte espiritual.

Note que, portanto, Paulo nos dá uma forma clara para distinguirmos as influências e operações, se são genuinamente de Deus ou não. Esse é um ponto pacífico aqui, sobre o qual não resta dúvida. Perceba o quão importante é essa regra bíblica, especialmente em nossos dias, onde vemos uma explosão de religiões e seitas, e onde vemos várias coisas acontecendo dentro de igrejas as quais reputamos, via de regra, como sendo genuinamente produzidas pelo Espírito Santo.  

Hoje, na Igreja, há coisas que são produzidas genuinamente pelo Espírito de Deus e coisas que não o são, mas são produto da mente humana. É preciso sabermos discernir, a fim de não acabarmos envolvidos com algo que não foi produzido por Deus. Mesmo aquilo que não tem, a princípio, conotação espiritual ou relação direta com o mundo espiritual, pode e deve ser julgado por nós e discernido. A Bíblia diz que se somos espirituais, então podemos e devemos discernir todas as coisas, comparando "coisas espirituais" com "coisas espirituais". Nós podemos - e devemos - buscar conhecer o que nos é dado gratuitamente por Deus. Não podemos, como cristãos, sermos ignorantes com relação àquilo que o Espírito de Deus fez e continua a fazer na Igreja. (I Co 2)

Nosso Deus age na história humana - essa é uma verdade insofismável. Ele mesmo deu início a história humana quando criou o homem no Éden. Desde então, o homem vem agindo nessa Terra e sendo agente da história. Porém Deus, que em Sua soberania permite o agir humano até certo ponto, faz com que Seu plano eterno seja cumprido na humanidade. E a Igreja é, sem sombra de dúvida, parte desse plano. Deus deseja agir no mundo a partir de Seu povo, essa é outra verdade bíblica inconteste: foi assim no Velho Testamento e é assim no Novo Testamento. Deus pode fazer sozinho? Sim! Ele precisa de nós? Não! Mas o plano de Deus é fazer em nós e a partir de nós, Seu povo; é envergonhar e derrotar Satanás com alguém mais fraco do que ele.  

Deus fez surgir no dia de Pentecoste a Igreja. Conforme lemos no livro de Atos, a Igreja surge num ambiente de poder espiritual, do derramar do Espírito Santo sobre a vida de cada um que cria no Senhor Jesus. Era uma igreja una, viva, forte, cheia do Espírito: "E perseveravam na doutrina dos apóstolos, e na comunhão, e no partir do pão, e nas orações. E em toda a alma havia temor, e muitas maravilhas e sinais se faziam pelos apóstolos. E todos os que criam estavam juntos, e tinham tudo em comum. E vendiam suas propriedades e bens, e repartiam com todos, segundo cada um havia de mister. E, perseverando unânimes todos os dias no templo, e partindo o pão em casa, comiam juntos com alegria e singeleza de coração, Louvando a Deus, e caindo na graça de todo o povo. E todos os dias acrescentava o Senhor à igreja aqueles que se haviam de salvar." (At 2.42-47) Note que a palavra-chave é perseverança
  • Eles não tinham uma pluralidade de fontes doutrinárias, nem oscilavam de uma fonte para outra. A única fonte doutrinária eram os apóstolos e nela permaneciam unidos.
  • Eles não iam a um lugar frequentar 2-4 horas de reunião egocêntrica, onde vamos para pedir, receber, ouvir, cantar, dar dinheiro e voltar para casa. Hoje, chamamos isso de comunhão. Mesmo o nosso "partir do pão" (Ceia do Senhor) é frequentemente egoísta. Precisamos ser sinceros conosco mesmo e com Deus: Nós não temos esse nível de comunhão que aqueles irmãos possuíam. Eles tinham tudo em comum; eles perseveravam em estar juntos. Sequer perseveramos em qualquer coisa que exija muito de nós (como a oração - imediatismo). Muito comumente, olhamos as necessidades dos outros e, se muito, oramos por elas! Eles comiam juntos, repartindo entre si de forma que não havia necessidade, com coração singelo (sem malícia) e alegre. Somos cheios de porfias, de disputas tolas, de partidarismos.   
  • Eles perseveravam unânimes todos os dias no templo.Unanimidade em pensamentos, em sentimentos, em valores, em tudo! Perseverantes na unidade, perseverantes em frequência no templo. Nota: Unanimidade (grego ὁμοθυμαδὸν, omothumadon, "com uma mente" é algo possível de existir entre crentes, como mostra a Bíblia, contrariando o senso comum! v.t. 1:14, 4:24, 5:12, etc).

Falemos a verdade uns com os outros, dileto(a) leitor(a): nós hoje somos assim, como eram aqueles irmãos??? Somos cheios de desculpas! Culpamos tudo e todos, mas não assumimos nossa responsabilidade em nossas misérias e falhas. Teologizamos em tudo, mas dificilmente somos bíblicos em essência, isto é, somos verdadeiros com Deus e conosco. Gostamos de uma "explicação" e somos mestres em criá-las. Sejamos sinceros: onde estão todas essas coisas? Onde estão os sinais e maravilhas? Será que você nunca parou para olhar um doente, um aleijado, um cego, um mudo e pensou consigo mesmo "poxa, eu gostaria de poder fazer como Pedro e João e mandar que em nome de Jesus essa pessoa seja curada, mas não faço isso porque tenho medo, porque sei que não vai acontecer nada"?  É tremendo isso, realmente! Deveríamos chorar muito aos pés do Senhor, pedir muito perdão ao Senhor por não serví-Lo e representá-Lo como devíamos hoje em dia! Mas ao invés disso, o que fazemos? (1) Nos preocupamos com nosso próprio umbigo e (2) arrumamos desculpas esfarrapadas! Nós inventamos aquilo que a Bíblia nunca disse para justificar a nossa situação miserável: nós dizemos que isso tudo foi "só para aquela época", que "os dons e maravilhas cessaram com a morte dos apóstolos", e blábláblá... Sabe porquê fazemos isso? Porque é muito melhor tranquilizarmos nossa consciência e nos encastelarmos em nossos raciocínios humanos, em nossas ciências, do que sermos confrontados pelo Espírito Santo e vermos que estamos muito, mas muito aquém da posição que deveríamos estar, reconhecendo nosso fracasso. Precisamos fazer como Josias, diante da verdade da Palavra: rasgar as nossas vestes! (II Cr 34.18,19)


Deus, amado(a) leitor(a), não está, contudo, de braços cruzados, olhando as coisas sem nada fazer. Ele tem um plano e esse plano será cumprido: Seu Nome será exaltado sobre a Terra! Seu povo será, novamente, um povo que fará proezas! Veremos novamente o caráter e o poder - e esse ainda maior - do que lemos no Livro de Atos. É um erro acharmos que a Igreja dos últimos dias deverá ser mais fraca do que a Igreja dos primeiros dias, não! Deus tem um padrão para tudo o que Ele faz. Para fazer o tabernáculo e seus utensílios, no Velho Testamento, Deus mostrou a Moisés no monte o modelo de tudo (Êx 25.40); porque acharíamos que com a Igreja não haveria Deus de ter um modelo também? Esse modelo está expresso no Livro de Atos! O que precisa acontecer, portanto, é que a Igreja seja restaurada ao padrão bíblico de Atos. E Deus está a agir na Sua Igreja, restaurando-a independentemente da crença, desejo, entendimento ou vontade humana paulatinamente. Deus terá para Si uma "igreja gloriosa, sem mácula, nem ruga, nem coisa semelhante, mas santa e irrepreensível." (Ef 5.27) A Igreja há de ter um testemunho irresistível ao mundo, pois faremos as obras do Senhor Jesus que Ele fez, e as faremos maiores do que aquelas! (Jo 14.12)

Foi assim com a Reforma Protestante: o padrão de Deus para a Igreja é que a Palavra de Deus esteja no centro, conforme vemos em Atos. E assim Deus levantou no momento certo os pré-reformadores e os reformadores para trazer essa realidade de volta a Igreja! Mas, o que aconteceu? A Igreja estava totalmente restaurada? Não! Um princípio é que todo movimento é incompleto, limitado. Precisava Deus restaurar o mover do Seu Espírito na Igreja e foi justamente o que Deus fez, na Rua Azusa, onde TODAS AS DENOMINAÇÕES experimentaram o mover do Espírito, o batismo no Espírito Santo e os dons espirituais novamente. E agora, a Igreja está totalmente restaurada? Ainda não! Há mais coisas que Deus precisa restaurar em nosso meio ainda. Uma delas é essa UNIDADE que os cristãos possuíam e que nós estamos patinando nisso. 

Talvez você diga: "Muito bem pastor. Mas onde está hoje essa restauração da Palavra e do Espírito, na prática?" Há um princípio na história da Igreja: tudo esfria com o tempo.  Hoje, deixamos de lado aquilo que Deus fez no passado e queremos inventar coisas. Nós não olhamos para o passado e não honramos o que Deus já fez. Por exemplo, em relação a reforma, hoje raramente vemos uma pregação biblicamente responsável como dizia Lutero que a pregação deveria ser (pregação expositiva, bíblica). Nós não meditamos nas Escrituras, nem honramos a Palavra de Deus, escrita. Lutero falava muito sobre o Salmo 119, onde vemos um profundo amor pela Palavra por Davi. Por outro lado, hoje não vemos uma pregação fácil de entender, por exemplo, nas igrejas reformadas, enquanto Lutero dizia que a pregação deveria ser fácil de entendimento para todos (princípio do ajustamento). Por outro lado, outro princípio que vemos na história da igreja é que todo avivamento uma hora vira um movimento que vira um monumento. Aliás, foi o esfriamento da reforma que acabou sendo o motivador do novo movimento de Deus (apostasia e frieza, época de liberalismo, formalidade, materialismo, profissionalismo ministerial, etc., em especial nos EUA). A formação de monumentos a partir de avivamentos também tomou conta do movimento pentecostal. Hoje, achamos que o mover do Espírito é somente para alegrar a nossa vida durante o momento do louvor da igreja, para falarmos noutras línguas e profetizarmos, ou para agirmos com "unções sem-noções". Cada vez mais e mais profecias, aliás, não passam de pura invenção e manipulação emocional (ainda que há manifestações genuínas, porém cada vez mais raras). Faltou e ainda falta a existência e pleno funcionamento dos 5 ministérios de Efésios.

O que precisa acontecer? O que devemos fazer? Primeiro, precisamos buscar aquilo que Deus já fez na história para nossa própria vida. Deus já restaurou a Palavra e precisamos buscar conhecê-la e vivê-la desesperadamente. Tudo começa com a Palavra, quando estudamos a mesma com sinceridade e a partir de Sua verdade buscamos a Deus para vermos essa verdade em nossa vida. Precisamos busca também o Espírito: o batismo no Espírito e os dons espirituais. Deus já fez isso na história, precisamos buscar isso para nossa vida pessoal. Segundo, precisamos nos colocar na presença de Deus, na brecha do muro, atentos, para discernirmos qual é o agir de Deus em nosso tempo. O que Deus está fazendo? O que Deus não está fazendo? Qual é o mover genuíno do Espírito? Qual não é? Como vimos, todas formas e expressões espirituais, bem como suas opiniões e práticas, serão geradas pelo Espírito de Deus se e somente se honrarem e amarem o nome e a obra de Cristo. O mover honra a Cristo? Glorifica Seu Santo Nome? Traz edificação para Sua Obra? Faz com que os homens amem e honrem ao Senhor Jesus e Sua Obra?


Pense nisso. Deus está te dando visão de águia!

Referências:
  • Barnes' Notes on the Bible.
  • Jamieson-Fausset-Brown Bible Commentary.
  • Matthew Henry's Concise Commentary.

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

DEIXEI O MEU MINISTÉRIO



Amados leitores e seguidores do blog "Ad Argumentandum Tantum", segue abaixo a publicação do artigo intitulado "DEIXEI O MEU MINISTÉRIO", elaborado pelo Pr. Wagner Antonio de Araújo, da Igreja Batista Boas Novas do Rodoanel em Carapicuíba, São Paulo, Brasil. Publicado aqui sob autorização do autor.

Trata-se de um artigo muito interessante e atual, sendo muito útil para edificação da nossa fé em Cristo. Eu sou testemunha ocular de que infelizmente há muita gente que age conforme o artigo relata. Em nosso ministério já sofremos muito com esse tipo de coisa: você acolhe a pessoa, geralmente cheia de problemas e dramas; cuida dela, aconselha, visita, ora, ensina, ama, suporta;  treina, dá seminário a custo irrisório; reconhece o dom da pessoa e coloca-a em posição de liderança ou de destaque. Daqui mais um pouco, a pessoa "surta" e rompe com você, abandonando-o e a Igreja e vai para outro lugar. Ainda diz para você sem o menor temor: "Há um monte de Igrejas boas, não é só essa aqui não!" Para um pastor, é uma verdadeira punhalada quando isso acontece, quando apesar das "juras de amor e fidelidade", o crente(?) age como se você, a Igreja e, pior, Deus não significassem coisa alguma.

Tenho amigos pastores que têm relato semelhante ou até pior do que o meu. Colegas que abriram até suas casas, que acolheram essas pessoas em suas residências e que quando menos esperaram foram traídas, "esfaqueadas pelas costas", pelas mesmas.. Sem medo nenhum de errar, afirmo que essas pessoas não tem a menor noção do que é ser cristão, do que é Bíblia ou do que é Igreja; não conhecem a Deus, ainda que o professem com seus lábios. São fariseus modernos, hipócritas, que fingem na sua frente amá-lo mas por detrás, no íntimo do coração, não lhe suporta! Como diz Paulo a Timóteo, são "amantes de si mesmos, avarentos, presunçosos, soberbos, blasfemos, desobedientes a pais e mães, ingratos, profanos, sem afeto natural, irreconciliáveis, caluniadores, incontinentes, cruéis, sem amor para com os bons, traidores, obstinados, orgulhosos, mais amigos dos deleites do que amigos de Deus, Tendo aparência de piedade, mas negando a eficácia dela" (II Tm 3.2-5). Homens dos últimos dias! (veja o artigo: "O CARÁTER DOS HOMENS EM DIAS TRABALHOSOS", em http://www.apenas-para-argumentar.blogspot.com.br/2010/08/o-carater-dos-homens-em-dias.html)

Assim, leiam o artigo e meditem no mesmo. Desejando comentar, fiquem à vontade para fazê-lo.

Boa leitura!

Pr. Ricardo Kropf.

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- "Por que você saiu?"
- "Porque Deus mandou!"

Essa frase é corrosiva para o meu coração. Em nome de Deus obreiros de várias ramificações nas igrejas ou crentes de várias congregações tomam decisões absurdas, impensadas, puramente emocionais, e, depois, colocam a fatura para Deus pagar:

- "Não pensei que iria ser assim!"
- "Deus está mostrando que o meu tempo aqui terminou!"
- "Oh, Deus, por que fizeste isso comigo?"

Carlos era membro da igreja. Sua participação era muito importante. A igreja era pequena mas muito unida. Cada pessoa era importante, cada oferta necessária. Havia espaço para trabalhar nos dons que Deus lhe concedera. Tinha esposa e 3 filhos. Um dia a igreja precisou reformar o templo e abrigaram-se num local de pouco espaço. Carlos não pensou duas vezes: disse que Deus estava falando ao seu coração para ir congregar noutra igreja, onde havia melhores condições para os seus filhos. Era uma época de extrema necessidade na igreja, mas Carlos não considerou nada disso. Saíram, abandonando-a. Nem carta de transferência solcitaram. Passaram-se 2 anos. Carlos não congrega mais. Disse que Deus mostrou não ser a outra igreja muito boa e agora estão "ciscando" aqui e ali, sem eira nem beira. E a vida financeira? Bem, essa seguiu o mesmo rumo: sem definição.

Astolfo era um músico no Rio Grande do Sul. Estava terminando seus estudos e foi encontrado por uma igreja do Mato Grosso. De formando em música sacra foi consagrado como Ministro de Música. Sua vida financeira deu uma guinada. Não que a igreja lhe desse riquezas; é que ele tinha tão pouco e agora via supridas todas as suas mais urgentes necessidades. Rapaz competente, Astolfo edificou um belíssimo ministério, dando sequência ao trabalho de ministros de música anteriores. Foi projetado nacionalmente. Um dia, sem nenhum constrangimento, Astolfo procura a diretoria e diz que está de saída. Perplexos, os irmãos querem saber o que houve. "Foi a vontade de Deus". O pastor pergunta: "Astolfo, Deus lhe chamou? Por que Ele não nos avisou? Quando fomos lhe buscar no Rio Grande Ele nos mostrou que era da vontade dEle a sua vinda. Como pode ser isso?" Astolfo não quis saber. Atendera ao convite do pastor de outra igreja (convite feito sem que o pastor atual soubesse) e foi embora. O tempo passou. Hoje Astolfo trabalha numa escola; é supervisor de pessoal. O ministério? Deu em nada; Talvez Deus não tenha dado sequência às orientações parciais que dera no início...

Um velho pastor capixaba desejava de toda maneira voltar ao ministério pastoral. Foi no norte do Paraná que encontrou uma pequena congregação. À princípio a igreja não queria nenhum pastor, pois sofrera com os cinco últimos. Mas, por causa de indicações preciosas, resolveram aceitar o capixaba. Ele era carismático e em pouco tempo conquistou todo o povo. Implantou séries de pregações bíblicas e fez boas visitas. Então, próximo à apresentação da Cantata de Páscoa, o pastor capixaba veio à diretoria com uma carta de exoneração. Disse que seu filho iria morar e estudar no Espírito Santo e que tinha que ir com ele. Detalhe: o filho tinha 45 anos. A igreja, revoltada, perguntou ao pastor desde quando ele sabia que isso poderia acontecer. A resposta não poderia ser mais desanimadora: "Eu já vim sabendo disso. Só esperava a confirmação. Como não queria ficar parado, decidi encarar o ministério. Mas já que em cinco meses ele conseguiu o necessário, não tenho mais o que fazer por aqui. Abraços e passar bem". Para a igreja, mais um elemento "non grato": sexto pastor a decepcionar o rebanho...

Que tristeza! Tudo o que eu escrevi é verdadeiro, apenas troquei nomes, localidades, tempos ou citações. Essas coisas infelizmente acontecem. Elas denigrem o bom nome de Deus! E por que?

1) Deus não é Deus de confusão. "Porque Deus não é Deus de confusão, senão de paz, como em todas as igrejas dos santos" (1Co 14:33). Deus não causa conflito de decisões, não veste um santo para desvestir outro, não cava uma cova para quem vai e outra para quem fica. A vontade de Deus não causa rancor ou priva uns para suprir os outros. Quando é Deus quem fala, ambos ficam felizes e ambos compreendem ser a melhor decisão a ser tomada.

2) Deus não é Deus de sim e não, volúvel, volátil, que não planeja."Antes, como Deus é fiel, a nossa palavra para convosco não foi sim e não." (2Co 1:18). O Senhor não confirma a Sua vontade com sinais, com evidências, com paz no meio da igreja, com fatos inequívocos e, quando tudo se estabelece, manda derrubar tudo e construir de novo. Isso seria loucura. Deus não é louco. Deus não permite um longo processo de esclarecimento para depois, com a obra inconclusa, estragar tudo e deixar uma comunidade ou um obreiro lesado. Isso não é atitude de um Deus sábio ou organizado.

3) Deus não usa pessoas ou igrejas como trampolim para outras vitórias ou ministérios. Uma igreja ou um ministério não podem servir para lançar ou projetar um obreiro de qualquer área para lesar um trabalho. Isso seria roubar de uma igreja para suprir a outra. Sobre isso diz-nos a Bíblia: "O ladrão não vem senão a roubar, a matar, e a destruir; eu vim para que tenham vida, e a tenham com abundância." (Jo 10:10). Igrejas são dEle. Quando Ele precisa de obreiros de um lugar para enviá-los a outro, usa do expediente apostólico: "E, servindo eles ao Senhor, e jejuando, disse o Espírito Santo: Apartai-me a Barnabé e a Saulo para a obra a que os tenho chamado" (At 13:2). Quando é da vontade de Deus TODOS compreendem e entendem, não apenas os agraciados. Podem ficar tristes com uma saída ou um final de trabalho, mas compreendem que é Deus quem está determinando. Saídas conflitivas em nome de uma suposta vontade de Deus são absurdas.

4) Deus não brinca com igrejas ou obreiros. Diz-nos a Escritura: "E não sede conformados com este mundo, mas sede transformados pela renovação do vosso entendimento, para que experimenteis qual seja a boa, agradável, e perfeita vontade de Deus (Rm 12:2)." A vontade de Deus é BOA, boa para todos. Ela é AGRADÁVEL, não causa estranheza ou revolta. E também é PERFEITA, vê além dos olhos humanos. Ela mostra quando é a hora de CONTINUAR e quando é a hora de PARAR, mas mostra PARA TODOS, não apenas para alguém. E isto pode ser a qualquer tempo, desde um dia a 80 anos, mas tem que ser algo claramente vindo do Senhor, não motivado por convites sedutores, desejo de galgar degraus maiores, encontrar mais conforto ou atalho para sair de provações.

5) Temos que ter AMOR PELA IGREJA. A igreja é a NOIVA do Cordeiro, não uma escrava sem valor ou uma estranha de Deus. Precisamos amá-las, respeitá-las, estimá-las, considerá-las, honrá-las. Elas podem ter os defeitos que tiverem, mas se forem igrejas do Senhor (biblicamente consideradas), terão que ser vistas como dignas da mais alta consideração. Algumas pessoas indigestas ou uma diretoria ruim não justificam a desconsideração pela congregação toda. Não podemos lesá-las, abandonando-as como se fossem meras empresas, agências, indústrias ou grupos humanos. Deus nos plantou ali e temos responsabilidades. Quando a questão é doutrinária e irreversível, temos que obedecer a Deus e abandoná-la sim, pois está em jogo uma obediência maior, obediência à Palavra de Deus. Mas quando os conflitos são administrativos ou humanos, precisamos considerar se o que vamos fazer é benéfico só para nós ou será bom para toda a igreja.

Eu poderia tecer outros comentários, mas estes já bastam.

Estou farto de ver igrejas a sofrer com famílias inteiras que as abandonam, levando consigo os dons, talentos e cooperação financeira para outras que não precisam disso, ou, se precisam, não necessitam desse expediente de lesar a outra em seu próprio benefício. Estou farto de ver pastores, professores de EBD, pregadores, evangelistas, líderes, músicos e ministros de música deixando seu trabalho incompleto em nome de uma suposta vontade de Deus, que é sempre boa para quem recebe e sempre ruim para quem perde, prova inconteste de que não está fundamentada na paz de Deus e na clara convicção de ser a plena vontade do Senhor. E, finalmente, estou farto de ouvir posteriormente a frase: "Deus está mostrando que aqui não é o meu lugar, por isso vou embora". Mostrou para ele mas não para os outros. Mostrou para ele 5 dias depois de chegar. Então que se confesse: "fiz isso da MINHA VONTADE, não segundo a orientação de Deus". Porque Deus não foi culpado pelas atitudes precipitadas que tomamos.

Que Deus perdoe os pecados de Seu povo. E que me perdoem os que se sentirem atingidos com o texto. Aborreçam-se comigo, mas reflitam melhor sobre seu trabalho, suas igrejas e suas decisões.