POR isso, deixando os rudimentos da doutrina de Cristo, prossigamos até à perfeição, não lançando de novo o fundamento do arrependimento de obras mortas e de fé em Deus, e da doutrina dos batismos, e da imposição das mãos, e da ressurreição dos mortos, e do juízo eterno. E isto faremos, se Deus o permitir. (Hb 6.1-3)
Segundo o Dicionário Aurélio, a palavra "rudimentos" possui os seguintes sinônimos:"elemento inicial; princípio, começo; esboço; primeiras noções; conhecimento geral, e superficial ou elementar". Neste texto, o autor da epístola aos Hebreus conclama aos crentes a prosseguirem no crescimento do conhecimento e espiritualidade cristãs. Nas palavras do autor, o avanço em direção à perfeição de Cristo se faz necessário e, para tal, os primeiros conceitos, rudimentares - que já deveriam estar bem firmados e compreendidos - não deveriam ser o único tema a ser objeto de estudo por aqueles irmãos. Para o crescimento emocional e espiritual do crente, os rudimentos, chamados na Bíblia de "leite", deveriam ser substituídos por alimento mais sólido na vida daqueles que já eram crentes há algum tempo e que, portanto, já haviam tido a formação básica necessária para sua fé.
Obviamente, esse conselho pressupõe que os neo-convertidos eram ensinados (doutrinados) com relação à sua fé. Um neo-convertido deveria, deste modo, aprender os fundamentos da fé cristã, para só então prosseguir com ensinos mais elaborados. Que fique bem claro que os objetivos deste ensino não eram a formação acadêmica ou intelectual dos crentes, mas sim a formação teórico-prática, voltada para a sua vida cotidiana. Os crentes devem ser praticantes da Palavra de Deus e não apenas ouvintes (Tg 1.22) e essa prática envolve, dentre outras coisas, "responder com mansidão e temor a qualquer que vos pedir a razão da esperança que há em vós" (I Pe 3.15).
Hoje, infelizmente, há pouco ensino na Igreja. Com relação ao "pouco ensino", entenda-se "pouco/nenhum ensino efetivo, voltado para a formação do caráter e vida cristã de acordo com as Escrituras Sagradas". A Escola Bíblica Dominical (EBD), a qual foi usada durante décadas a fio pelas Igrejas com este propósito, já há muito se encontra esvaziada, tanto em termos de conteúdo, quanto de alunos e mestres interessados em aprender e ensinar. De fato, pouco material útil é encontrado à disposição das Igrejas para o ensino da EBD, uma das consequências da teologia do "aqui e agora", da "prosperidade egoísta e irresponsável", talvez a maior heresia e vento de doutrina já experimentados pela Igreja. Pela duração, intensidade e estrago feito até o momento, esse vento é, na prática, o "El Niño" da Igreja, provocando um rastro de morte e destruição por onde passa.
Por outro lado, há um verdadeiro "boom" de ordenação de pessoas ao ministério pastoral. Penso que nunca se ordenou tanta gente ao pastorado como em nossos dias. Ao contrário do que possa aparentar, esse "boom" trouxe mais prejuízo do que ganho para a causa do Evangelho, porque muitos ministros ordenados não possuíam as mínimas condições de sê-lo, nem ainda possuem, após ordenados. Esse fenômeno está, de certo modo, ligado ao surgimento explosivo de novas denominações (necessidade de mão-de-obra), criadas sem pouco ou nenhum critério (geralmente, fruto de divisão de outra denominação/igreja). Se a Igreja/denominação foi criada com pouco ou nenhum critério, ou se permitiu concessões às Verdades Eternas, relativizando e suavizando o texto bíblico em prol de um maior sucesso e aceitação, então seus ministros ordenados seguirão, inevitavelmente, o mesmo padrão.
Abre 1º parênteses: Os Concílios Ordenatórios, criados pelas Convenções das Igrejas Históricas (como CBN, CIBI, CBC, CBB, etc, só para citar as de confissão batista) foram, durante muito tempo, o fiel da balança, impedindo que pessoas despreparadas assumissem tão importante função que é o pastorado. Mesmo podendo ter se equivocado em alguns casos, os Concílios Ordenatórios merecem destaque pelo seu papel no zelo pela Igreja e pela denominação, mantendo a decência e a ordem na Casa de Deus. Fecha 1º parênteses.
Como há despreparo generalizado e desprezo pela formação cristã, hoje em dia é fácil encontrar pessoas que se dizem crentes sem nunca terem tido contado com os fundamentos da fé que dizem professar. Dizem ter "aceitado Jesus" sendo "batizadas nas águas", mas quando questionadas sobre o que essas coisas significam, as respostas são as mais estapafúrdias possíveis. Há, porém, um núcleo comum em todas as respostas: a solução imediata de problemas (físicos e temporais). Tratam-se de pessoas que um dia procuraram uma Igreja (ou por iniciativa própria ou por convite) e lá lhes foi dito que "se aceitassem Jesus, teriam a solução dos seus problemas". Ora, quem não quer ter os seus problemas resolvidos? E ainda mais: resolvidos de forma fácil, por outra pessoa, com pouco ou nenhum esforço ou compromisso pessoal! Logicamente, esse "apelo" para "aceitar Jesus" tem uma adesão quase total!
No entanto, os fundamentos da fé cristã revelam outra realidade em termos da conversão do homem a Deus, distinta da realidade em voga. Os fundamentos apontam para um B-A-BA, um "processo concertado", relativo a fé. Ser cristão é algo que acontece por meio de uma sucessão de etapas sequenciais, onde há uma formação contínua da consciência e realidade crista no interior do homem, partindo-se do básico para o intermediário e daí para o avançado. Estes fundamentos começam, justamente, pelo arrependimento das obras mortas e fé em Deus, pré-requisitos para que alguém se torne um cristão de verdade.
O que são obras mortas? E no que consiste o arrependimento de obras mortas? A definição mais básica possível é a substituição sinonímia: obras mortas são, deste modo, obras sem vida. Quando uma obra pode ser considerada "sem vida"? Quando ela é realizada por alguém "sem vida", ou seja, alguém que está morto. Obviamente, estamos nos referindo a uma pessoa no estado de morte espiritual, ou seja, uma pessoa que se encontra separada de Deus. Assim, uma pessoa num estado de morte espiritual produzirá, inevitavelmente, obras mortas do ponto de vista espiritual, por melhores que sejam suas intenções e por maior que seja o impacto dessas obras para o bem-estar de alguém ou de uma causa.
Segundo a Bíblia, morte espiritual é o estado em que toda a humanidade não-convertida ao Evangelho se encontra diante de Deus. É o justo e merecido pagamento por uma vida de pecado (Rm 6.23a). Quem pecou? Novamente, "todos pecaram", ou seja, toda humanidade (Rm 3.23 - Universalidade do Pecado):
"Não há um justo, nem um sequer. Não há ninguém que entenda; Não há ninguém que busque a Deus. Todos se extraviaram, e juntamente se fizeram inúteis. Não há quem faça o bem, não há nem um só. A sua garganta é um sepulcro aberto; com as suas línguas tratam enganosamente; peçonha de áspides está debaixo de seus lábios; cuja boca está cheia de maldição e amargura. Os seus pés são ligeiros para derramar sangue. Em seus caminhos há destruição e miséria; e não conheceram o caminho da paz. Não há temor de Deus diante de seus olhos." (Rm 3.10-18)
É exatamente assim que Deus vê toda a humanidade: como pecadores, mortos espiritualmente, separados de Deus por seus atos e por sua natureza pecaminosa (os atos são fruto da natureza). Por melhor que as pessoas sejam, por maiores que sejam seus esforços, por mais relevantes que sejam suas obras, diante de Deus o estado espiritual é o mesmo: morto. Por melhor chefe de família, por melhor pai/mãe, por nunca ter matado, roubado ou violentado ninguém (nem uma mosca), por mais caridades que sejam feitas, o estado espiritual diante de Deus é o mesmo: morto. Nenhuma obra humana serve para mudar o estado espiritual do homem diante de Deus. O homem, em seu estado de morte espiritual, nada pode fazer por si mesmo para alterar essa realidade. Independente dos atos, a natureza pecaminosa permanece em cada um, não sendo alterada por nenhuma boa obra ou caridade.
Quando compramos um quilo de feijão, o padrão utilizado para verificar a quantidade de feijão é o quilograma (não o litro, ou o ampère). Ninguém pede no mercado "um ampère de feijão", porque não é esse o padrão de medida aplicável a este produto. Assim, por analogia, não são as obras de alguém o padrão que Deus usa para averiguar o estado espiritual dessa pessoa. Daí, não adianta apresentar-Lhe as boas obras como critério válido para verificação da justiça; elas não servem como padrão para isso. Não passam de "obras mortas". Pelas obras, ninguém jamais, em tempo algum, será justificado ou salvo por Deus. Mais uma vez, a Bíblia declara: "não por obras, para que ninguem se glorie" (Ef 2.9); nossa justiça, para Deus, não passa de trapos de imundícia (Is 64.6). Para maior compreensão: trapos de imundícia são os panos utilizados antigamente para conter o fluxo menstrual.
Abre 2º parênteses: Para mudar a realidade espiritual do homem, nada adianta a prática do rito. O rito em si nada é, a menos que seja realmente compreendido e aceito em toda sua realidade. Daí o porquê muitas pessoas, ditas crentes, encontram-se possessas por espíritos demoníacos. Onde está o problema? Está na exigência de uma conversão genuína, o que passa inevitavelmente pelo real entendimento e aceitação de todos os pressupostos e condicionantes para que uma pessoa seja realmente convertida. O genuíno crente, que se converteu de verdade, jamais será possesso por demônios; porém, aquele que meramente segue o rito no afã de auferir benefícios pessoais, poderá sê-lo, mesmo tendo seguido todo rito: levantar a mão, vir à frente da Igreja, oração com o pastor, batismo, frequentar igreja, ler a Bíblia, etc. Enquanto não houver arrependimento verdadeiro das obras mortas, tudo isso é em vão do ponto de vista espiritual. E a realidade espiritual de alguém é conhecida tanto por Deus, quanto pelo diabo. Fecha 2º parênteses.
Abre 3º parênteses: Ainda que muitos pastores insistam em apresentar números para quantificar seu sucesso ministerial ("numa única noite foram mais de X pessoas convertidas!"), há que se questionar, diante de tudo o que foi e está sendo exposto nesta argumentação, a veracidade espiritual destas "conversões". Fecha 3º parênteses.
Assim, do que todo homem precisa ser salvo? Dos seus próprios pecados, tanto enquanto "estilo de vida" quanto natureza! Dos pecados que o condicionam ao estado de morte espiritual e que podem condicioná-lo ao estado de morte eterna. O que é morte eterna? É a eterna separação do homem de Deus, de forma definitiva e irreversível, quando tal homem, morto espiritual, passa do estado de condenação para a realidade da condenação. O que deve então fazer para ser salvo? Primeiramente, parar de justificar-se, reconhecendo a real natureza de suas obras. Enquanto houver justificativa, nada feito; enquanto houver qualquer sombra de dúvida sobre a real condição espiritual, não há conversão. O homem, diante de Deus, está morto em seus pecados e nada pode fazer por si mesmo para deixar de sê-lo, como já foi estabelecido anteriormente. Após reconhecer a real da natureza de suas obras e de si mesmo, o homem precisa se arrepender de suas obras mortas.
A palavra "arrependimento" vem do grego metanóia, e significa "mudança de mente, mudança de pensamento, meia volta volver". O arrependimento no Novo Testamento envolve a decisão mais do que a emoção. Muitos crêem que o arrependimento é algo meramente emocional. As emoções têm o seu lugar no arrependimento, mas o arrependimento é muito mais do que uma reação emocional. Por sua vez, outros pensam que arrependimento é um ritual, como uma espécie de penitência. Contudo, o arrependimento é uma firme decisão interior – é uma verdadeira mudança da mente. No genuíno arrependimento, a pessoa está em plena concordância com Deus sobre sua real natureza; toda justiça pessoal silencia-se, dando lugar a um sentimento de reprovação e inadequação diante de Deus, do estado miserável em que se encontra e da necessidade urgente de mudar de vida.
Como mudar de vida? Como resolver o problema do pecado? Como pode o homem ser salvo?
Na próxima argumentação, daremos prosseguimento ao tema, abordando a fé em Deus. Até lá! Lembre-se: Deus está te dando visão de águia!
segunda-feira, 15 de agosto de 2011
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1 comentários:
Hoje,o que mais vemos são homens alienados de Deus.Algumas igrejas tem colaborado para isso.Preferem iludir o povo com uma conversinha agradável a dizer a verdade.Sim,pois a verdade esvaziará a igreja.Os dízimos e ofertas diminuirão.E como consequência,não haverá mais desfile de carrões,de uso de jatinhos particulares e nem de horário pago na TV(a preços altíssimos).Isso nas igrejas grandes.Mas,há outras que almejando ocupar lugar de destaque nesse cenário,anda lendo na mesma cartilha.E aí tudo fazem para tal:Passam por cima de princípios bíblicos e nem se preocupam em atropelar tudo e todos.Junta-se a isso,um grande fastio pelo estudo,uma pressa por respostas,um desrespeito a Bíblia ,pois a usam como um grande oráculo,algo mágico,cabalístico.
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