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terça-feira, 28 de setembro de 2010

A PERIGOSA "BRINCADEIRA" DO COPO E DO COMPASSO

No domingo passado, dia 26/09, o Jornal O Dia publicou uma matéria sobre a antiga, porém cada vez mais praticada, brincadeira do copo e do compasso. A brincadeira consiste numa folha de papel, onde os adolescentes desenham um círculo grande e nele as letras de A a Z, os números de 1 a 12, e as palavras ‘sim’ e ‘não’. Um dos jovens apoia o compasso como se fosse usá-lo e os demais fazem perguntas.

Segundo a reportagem, um grupo de adolescentes entrou em transe após brincadeira em colégio da Baixada Fluminense. "Há uma semana, dez estudantes do Instituto Politécnico Millennium entraram em transe depois de participar de um jogo de perguntas e respostas, com um compasso, uma variante da antiga brincadeira do copo, que se move em direção às letras do alfabeto escritas numa folha de papel e que é febre no YouTube e no Orkut", diz a matéria. 

Algumas crianças foram parar no hospital, sentindo-se mal após a "brincadeira": “Eu comecei a me sentir mal, com falta de ar, vontade de vomitar e chorava muito. Sentia angústia tão grande, e meu coração ficou acelerado”, contou D., 16 anos, que desmaiou, com outra amiga. Os garotos choravam descontroladamente e se debatiam. “Minha filha parecia que estava drogada quando chegou em casa. Fiquei assustada”, disse N., 48 anos, que prefere não se identificar. Estes e outros efeitos teriam sido produzidos após o contato com um espírito maligno autodenominado Lucas. "Eu trincava os dentes, com muita raiva e não deixava ninguém me tocar. Um colega tentou me abraçar e desmaiou também. Os meninos me olhavam e choravam. Nunca mais faço isso”, garantiu uma das adolescentes afetadas pela prática.

(Veja a matéria em:  http://odia.terra.com.br/portal/rio/html/2010/9/novo_jogo_do_compasso_leva_histeria_a_estudantes_112523.html. Acesso em 28/09/2010, às 9h30min)


Quando era adolescente, já havia esta "brincadeira" na escola onde estudava. Lembro-me que eu e mais uma amiga, ambos crentes em Cristo, fomos chamados por nossos colegas para brincar com eles, com o copo. Logo na primeira rodada, um colega perguntou ao espírito se havia alguém ali que deveria ir embora. O copo, movendo-se realmente, apontou para nós dois. 


Noutra ocasião, perdi uma prima num acidente de carro, onde o carro em que ela estava, com mais 4 pessoas, capotou. Somente ela faleceu, nenhum dos demais sequer sofreu um arranhão. Na antevéspera do acidente, ela estava envolvida nestas "brincadeiras" espirituais.  


Não há, em hipótese alguma, nenhum tipo de "brincadeira" quando se fala em contato com espíritos. Todo contato com espíritos sempre redundará, mais cedo ou mais tarde, em graves problemas para o praticante. Os espíritos contatados por quaisquer meios - copo ou mesa - não são "espíritos de luz", "almas desencarnadas", "espíritos em desenvolvimento" ou coisas do tipo. Não; estes espíritos são os mesmos que Jesus e os apóstolos se depararam e os crentes em Cristo se deparam, lutando contra o avanço do Reino de Deus. São conhecidos na Bíblia como demônios, espíritos malignos a serviço do diabo, para aprisionarem o homem e fazê-lo sofrer horrores. Neles não há luz alguma, desenvolvimento algum!


Assim, conhecedor desta terrível realidade, o Senhor proibiu veementemente qualquer tipo de contato com os espíritos malignos, não importando o motivo. Ele disse: "Entre ti não se achará quem faça passar pelo fogo a seu filho ou a sua filha, nem adivinhador, nem prognosticador, nem agoureiro, nem feiticeiro; nem encantador, nem quem consulte a um espírito adivinhador, nem mágico, nem quem consulte os mortos. Pois todo aquele que faz tal coisa é abominação ao SENHOR; e por estas abominações o SENHOR teu Deus os lança fora de diante de ti." (Dt 18.10-12) Estes espíritos são exatamente os mesmos de hoje - demônios não são criados, nem se reproduzem, por favor!


Estes demônios têm um único objetivo: matar, roubar e destruir, exatamente como o seu mestre. São cheios de falsidade, podendo apresentarem-se como "espíritos bons", "mestres ascensos", "guias da humanidade para uma nova era". Podem, facilmente, se auto-imporem nomes de cristãos que viveram no passado, ou de anjos, ou do próprio Jesus. O Apóstolo Paulo diz que o próprio diabo pode se transfigurar em anjo de luz (II Co 11.14). Podem também se apresentarem como parentes já que morreram (não há desejo maior do que rever um pai, uma mãe, um irmão, etc que já tenha falecido), explorando assim a fragilidade humana em seu propósito. Podem até mesmo realizarem curas físicas (chamadas "curas mediúnicas" ou "curas espirituais"), pois ao final a alma daquele que foi curado estará mais presa do que nunca, numa hiperbolização demoníaca do maquiavelismo. Não os subestimem: eles observam e agem na humanidade há milênios, sabendo exatamente como fazer para alcançarem seus propósitos!


E sim, eles podem usar pessoas, possuíndo-as ou apenas influenciando-as, de modo que façam conforme sua vontade infernal. Que pessoas podem ser possuídas? Todas aquelas que não possuem o Senhor Jesus morando continuamente em seu interior. E isso aplica-se tanto para descrentes quanto crentes, até mesmo evangélicos. Profisão de fé sem essência de fé não vale de coisa alguma; frequentar não quer dizer pertencer. Mas todas estas pessoas são possuídas? Não. Muitas são influenciadas por outras formas, mais sutis e inteligentes, mais difíceis de detectar e de combater. Vejamos o que diz a Bíblia: "Mas o Espírito expressamente diz que nos últimos tempos apostatarão alguns da fé, dando ouvidos a espíritos enganadores, e a doutrinas de demônios" (I Tm 4.1). 

Falsos ensinos, falsos mestres; seitas e heresias - essa sim é uma forma inteligente de se escravizar todo um povo, ou até mesmo toda uma nação. Junte a um falso ensino uma boa dose de elucubrações filosóficas e psicológicas, um pouco d´água e deixe ferver por 30 minutos na alma humana: pronto, mais uma seita foi criada e muitas almas serão por ela presas! Daí a rápida proliferação de todo tipo de ensino e de "alternativa espiritualista" encontradas em nossos dias. Vale tudo, desde puxão de cabelo e dedo no olho; desde usar ervas alucinógenas e paramentos até usar a Bíblia e Jesus. Os títulos dos "mestres humanos" ou "mestres espirituais" são também os mais portentosos possível: "emmanuel", "guia", "guru", "avatar", "lucius", "maytrea",  etc.

Brincar com o mundo espiritual, onde há uma guerra contínua pelo destino eterno do homem, não é, com toda certeza, algo a ser feito. Copo serve para beber água, compasso para desenho geométrico e demônios para infernizar o homem. Convém usarmos o copo e o compasso para o real objetivo para o qual foram criados. Convém também corrermos o mais rápido que pudermos para Nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo, entregando a Ele nosso corpo, alma e espírito de forma a nos tornarmos nascidos de Deus, pois só assim o maligno não nos tocará!

Pense nisso. Deus está te dando visão de águia!

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

FILHA DE PASTOR É...

Filha de pastor com suposto poder de cura atrai milhares no RJ

Alani, de seis anos, filha de um pastor pentecostal, atrai milhares de pessoas em busca de pretensas milagrosas. Ela participa dos cultos da Igreja Pentecostal dos Milagres em Alcântara, São Gonçalo, um bairro do Rio de Janeiro.

Na entrada da igreja os cartazes mostram fotos das curas de fiés que receberam a cura através da missionárinha Alani.

Antes de subir no palco a menina assiste ao culto com uma boneca no colo. O pai da menina Adauto Santos pastor da Igreja Pentecostal dos milagres escolhe pessoas da igreja que dizem que foram curados pela oração da menina.

Alani faz uma oração antes de começar a sessão de cura e algumas pessoas até caem. Ela canta, abençoa os fiéis e os toca, o que provoca neles transes, gemidos e contorções. Às vezes, grita palavras de ordem: “Ordeno que todo espírito maligno saia agora!!!”.

O pai de Alani conversa com as pessoas que foram tocadas para mostrar os milagres realizados durante a oração da menina.

Data: 21/9/2010 08:49:52

Fonte: Revista Época
http://www.creio.com.br/2008/noticias01.asp?noticia=10387
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COMENTÁRIOS:

Até quando Senhor, até quando... até quando Teu filhos usarão todos os meios possíveis e imaginários, independentemente da moral e ética envolvida, a fim de alcançarem seus objetivos!

"Ensina a teu filho no caminho em que deve andar": como ensinar no caminho, sem segui-lo primeiro? Como ensinar ao filho o valor da Bíblia, de Deus, da Salvação, da Igreja sem que os pais façam a sua parte, valorizando essas coisas?

Um pastor sério sempre desejará que sejam salvas o maior número de pessoas possível. Porém, sendo ele sério, buscará primeiro a salvação de sua casa - de sua esposa e de seus filhos. Ele governa bem seu próprio lar, e isso inclui o governo espiritual de sua família. Prover a Igreja e deixar a família com fome - física e espiritualmente falando, não é, definitivamente, o correto!

Deus pode usar crianças? Sim, é claro! Ele usa o que quiser e quem quiser, até mesmo uma mula. Mas sou contra expor uma criança de 6 anos a algo que ela pouco ou nada compreende, por sua imaturidade natural. Há coisas que são apropriadas para um adulto e coisas que são próprias de crianças!

Será que a cura realmente acontece, ou como na maioria das Igrejas é algo puramente psicossomático? Quero deixar claro que creio na cura divina. Mas cura divina nos moldes do paralítico junto a porta do templo em Jerusalém, chamada Formosa (Atos 3). Não em cura "meia sola", como tenho infelizmente visto na TV. É melhor não comer angu, do que comer e ter indigestão, levando o comedor de angu a dizer, em alto e bom som, que houve cura divina na vida de um rapaz com síndrome de Down só porque ele levantou de uma cadeira de rodas. Quem lê, entenda.  

Filho de peixe, peixinho é. Mas será que filha de pastor é pastorazinha? Ou será que é "ungidazinha"?

Pense nisso. Deus está te dando visão de águia!

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

RESGATANDO A NOSSA HISTÓRIA I - NEGRO SPIRITUALS

Para alguns irmãos mais novos na fé, a música gospel é algo recente. Porém, na verdade, suas origens são mais antigas, remontando ao final do séc. XIX início do séc. XX, nas Igrejas Evangélicas compostas em sua totalidade por irmãos negros nos Estados Unidos da América. Em inglês, a palavra "gospel" deriva-se do inglês antigo "God-spell" que significa "palavra de Deus", posteriormente derivando-se para "boas novas" em português, numa alusão ao Evangelho de boas novas ao mundo.

Talvez um dos velhos estilos da música negra que realmente se aproximou do Gospel foi o Negro Spirituals (em português, as canções harmoniosas dos "Negros Espirituais"). A história dos negro spirituals se confunde com a história dos africanos em continente americano, existindo 3 marcos principais:

1865: Abolição da escravatura, nos EUA.
1925: Renascença Negra.
1985: o Primeiro Dia do Dr. Martin Luther King.

As primeiras músicas negro spirituals foram inspiradas pela música africana. Algumas delas eram chamados de "shouts" (gritos, clamores) e acompanhavam danças típicas, incluindo bater palmas e o pés no chão. Após o culto, as congregações costumavam permanecer para um "clamor em círculo". Os homens e mulheres eram dispostos em círculo. A música começava, talvez com um cântico espiritual, e o círculo passava a se mover, primeiro lentamente, depois mais rápido com a aceleração do ritmo. A mesma frase musical era então repetida várias vezes durante horas.

A escravidão foi um tema importante para a Igreja americana. Muitos pastores foram contra essa prática, como J. D. Long e assim muitos escravos foram aceitos nos cultos da Igreja. Os escravos permaneciam após o culto, nas Igrejas ou mesmo nas "casas de adoração" nas plantações, para cantarem e dançarem. Nos encontros rurais, milhares de escravos foram agrupados e listados por pregadores itinerantes, e cantavam cânticos espirituais ("spirituals"), por horas. Assim, nas zonas rurais, os "spirituals" eram cantados, principalmente fora das igrejas. Nas cidades, por volta de 1850, o Movimento Protestante Reavimento da Cidade criou um novo gênero de música, que era popular, para reuniões de avivamento organizado por este movimento, tendo sido erguidas tendas temporárias nos estádios, onde os frequentadores podiam cantar.

Na igreja, hinos e salmos eram cantados durante os cultos. Alguns deles foram transformados em canções típicas do afro-americano: são eles conhecidos como "Dr. Watts". O Dr. Isaac Watts foi um ministro Inglês, que publicou vários livros: "Hymns e Spiritual Songs", em 1707, "Os Salmos de Davi", em 1717. Várias denominações protestantes aprovaram seus hinos, que foram incluídos em vários hinários, naquele momento.

As letras de "negro spirituals" eram intimamente ligadas com a vida dos seus autores: os escravos. Embora as canções de trabalho lidassem apenas com a sua vida diária, os spirituals foram inspirados pela mensagem de Jesus Cristo e sua Boa Nova (Evangelho) da Bíblia: "Você pode ser salvo". Eles são diferentes de hinos e salmos, porque eram uma maneira de compartilhar a condição difícil de ser escravo. Muitos escravos na cidade e nas plantações tentaram correr para um "país livre", que eles chamaram de "minha casa" ou "Doce Canaã, a Terra Prometida". Este país estava no lado norte do rio Ohio, que eles chamavam de "Jordão".

Entre 1865 e 1925
A escravidão foi abolida em 1865. Então, alguns afro-americanos foram autorizados a ir para a faculdade. No Fisk University, uma das primeiras universidades para afro-americanos, em Nashville (Tennessee), alguns educadores decidiram arrecadar fundos para apoiar a sua instituição. Assim, realizaram turnês no Novo Mundo e na Europa, cantando "negro spirituals" (Fisk Jubilee Singers). Depois de 1865, a maioria dos afro-americanos não queriam lembrar as músicas que cantavam nos dias difíceis da escravidão. Isso significa que, mesmo quando cantavam negro spirituals, eles não tinham orgulho de fazê-lo.

Na década de 1890, sugem as Igrejas Santas e Santificadas (Holiness and Sanctified Churches), dentre as quais a Igreja de Deus em Cristo. Nessas igrejas, a influência das tradições africanas eram evidentes. Essas igrejas eram herdeiras das canções com gritos, palmas, bater os pés e de jubileu, como se fossem as antigas "casas de adoração" nas plantações.

No início do século XIX, os afro-americanos estavam envolvidos no "Segundo Despertamento". Eles se conheciam em reuniões campais e cantavam músicas sem hinário. Assim, as músicas eram compostas de forma espontânea. Eles eram chamados de "cânticos espirituais" e o termo "sperichil" (espiritual) apareceu pela primeira vez no livro "Slave Songs of United States".

O Segundo Despertamento dava grande destaque ao potencial de escolha e decisão do ser humano. Essa característica, que combinava com os ideais de liberdade e iniciativa individual da jovem nação, encontrou sua expressão mais eloqüente no avivalista Charles G. Finney (1792-1875), que empregava técnicas de “apelos” insistentes, num clima de muita emoção, bem como acompanhamento aos que se “decidiram por Cristo” através de conselhos, instruções, técnicas essas que foram, em geral, incorporadas nas “Cruzadas evangelísticas” até o presente.

Entre 1925 e 1985

Na década de 1920, a Renascença Negra (Black Renaissance) foi um movimento artista sobre poesia e música. Surgida em bairros como o Harlem (considerado o palco do movimento), ela influenciou a maneira de cantar e interpretar "negro spirituals". Muitos nomes podem ser citados como representantes do movimento, tais como Langston Hughes, Claude McKay, Countee Cullen, dentre outros.

Durante os anos de Black Renaissance, diversos artistas, tais como Marian Anderson ("Deep River", etc) e Paul Robeson ("We Are Climbing Jacob's Ladder", etc), promoveram o negro spirituals. Algumas deles incluíam negro spirituals em seus shows. Assim, Jules Bledsoe cantou "Deep River" num repertório que incluia clássicos e peças de ópera. Eva Jessie e seu coro criaram um oratório "A Vida de Cristo em Negro Spirituals" (1931). Dorothy Maynor era uma concertista, que costumava cantar negro spirituals.

O movimento teve uma grande importância para o desenvolvimento do negro spirituals. Em primeiro lugar, o significado histórico dessas canções foram apresentadas. Em seguida, os cantores foram "forçados" a se tornarem mais educados. Por exemplo, no século XX, os meninos costumavam cantar negro spirituals nos pátios das escolas. Seu modo de cantar não era sofisticado. Mas os educadores entendiam negro spirituals como peças musicais, e que portanto deviam ser interpretadas como tal. Novos grupos foram então formados, como a Highway QC´s (QC: Quincy College).

Esta melhoria constante do negro spirituals deu origem a outro tipo de músicas cristãs. Estas eram inspiradas na Bíblia (principalmente o Evangelho) e relacionadas com a vida diária. Thomas A. Dorsey foi o primeiro a compôr essas novas músicas (como o sucesso "There Will Be Peace in the Valley", composta para Mahalia Jackson, sendo mais tarde gravada por Elvis Presley). Ele as chamou de músicas gospel, mas algumas pessoas as chamavam "Dorseys". Ele é considerado como sendo o pai da música Gospel. A Igreja inicialmente não gostou do estilo de Dorsey e não achou apropriado para o santuário, na época.

Muitos cantores surgiram nesta época, como Mahalia Jackson, uma das principais cantoras gospel dos Estados Unidos no século 20. Em 1963 ela cantou para 250 mil pessoas, na ocasião onde Martin Luther King Jr. fez seu famoso discurso "I Have a Dream" ("Eu tenho um sonho", discurso pelos direitos civis amplamente conhecido nos Estados Unidos). Também cantou "Take My Hand, Precious Lord" no funeral de Martin Luther King Jr.

Depois de 1985
O primeiro dia do Dr. Martin Luther King foi celebrado em 1985, tornou-se um feriado nacional em 1992. Este evento é um marco na história dos afro-americanos, mostrando que esta comunidade é uma parte da nação EUA.

[Traduzido e adaptado do website "Song Official Site of Negro Spirituals, antique Gospel Music", diponível em http://www.negrospirituals.com/.]

Abaixo, um vídeo onde é cantado uma música "negro spirituals": "In that Great Getting-up Morning", interpretada pelo grupo "The King´s Heralds" (vol. 5, 1962-1967) - uma de suas muitas versões, diga-se de passagem. Observe a semelhança com o movimento gospel brasileiro da segunda metade do séc. XX. Note também que o atual movimento gospel nacional muito se afastou de suas origens, produzindo músicas de pouca qualidade inspiracional!



Para aqueles que desejarem, segue abaixo a letra da música que está sendo cantada:

In that great getting-up morning,
Fare you well! Fare you well!
I'm a-going to tell you about the coming of the Saviour,
Fare you well! Fare you well!
I'm a-going to tell you about the coming of the Saviour,
Fare you well! Fare you well!
There's a better day a-coming,
Fare you well! Fare you well!
Then you see my Jesus coming
Fare you well! Fare you well!

In that great getting-up morning,
Fare you well! Fare you well!
In that great getting-up morning,
Fare you well! Fare you well!
Fare you well!

Blow your Trumpet Gabriel,
Fare you well! Fare you well!
Tell them to come to judgement;
Fare you well! Fare you well!
Lord, how loud shall I blow it?
Fare you well! Fare you well!
Loud as seven peals of thunder!
Fare you well! Fare you well!

In that great getting-up morning,
Fare you well! Fare you well!
In that great getting-up morning,
Fare you well! Fare you well!
Fare you well!

Then you'll see the world on fire;
Fare you well! Fare you well!
?????????????????????????
Fare you well! Fare you well!
See the elements a melting,
Fare you well! Fare you well!
And you hear the rumbling thunder;
Fare you well! Fare you well!

In that great getting-up morning,
Fare you well! Fare you well!
In that great getting-up morning,
Fare you well! Fare you well!
Fare you well!

Now is righteous rising to heaven;
Fare you well! Fare you well!
And you'll see the Christians rising;
Fare you well! Fare you well!
Then you'll see the righteous marching,
Fare you well! Fare you well!
They marching home to heaven.
Fare you well! Fare you well!

Particularmente, aprecio muito o gênero musical. São mais edificantes do que muitas músicas que estão sendo gravadas e vendidas em CDs modernamente. Não sei sobre os músicos, mas que muitos hoje precisam "comer muito arroz com feijão espiritual" para se equipararem a uma Mahalia Jackson isso precisam. Ainda mais um grupinho de músicos modernos - cantores gospi - que gostam de fazer careta enquanto cantam, para demonstrarem uma espiritualidade que nem de perto possuem!

A grande lição que podemos obter do início do movimento gospel é que só se canta, de fato e de direito, o que se vive. As músicas compostas precisam ser espirituais, precisam falar à alma, elevando-a à presença de Deus. Isso só é possível se a música for espiritual, e somente alguém espiritual pode compor algo espiritual. Quem não vive, não entende o que compõe e canta; não passa de mera música para diversão ou para enriquecimento. Por isso, ficam os músicos gospi modernos a fazerem toda sorte de caretas nos clipes promocionais de suas músicas, porque não há unção e daí procuram forjar algo que só Deus pode dar.

Daí o meu completo desprezo a uma enorme quantidade de músicas modernas, meramente comerciais, cujas letras não passam de baboseira sem sentido, na melhor das hipóteses. Não passam de mero produto comercial, para ser vendido, mas são incapazes de produzir o mínimo de enlevo espiritual. Músicas apelativas, de conteúdo duvidoso. Oxalá Deus nos permita, mais uma vez, retornarmos aos nossos humildes começos, quando a música cristã era conhecida como "spiritual".

Pense nisso. Deus está te dando visão de águia!

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

O CRISTÃO E A POLÍTICA III - A FORMAÇÃO DOS CANDIDATOS-PASTORES

Creio que nós, evangélicos, temos um papel importante a desempenhar no processo de transformação do Brasil no país mais igualitário. Não estou me referindo - de antemão afirmo - a nenhum tipo de utopia político-messiânica que grassa os púlpitos das Igrejas, mas sim numa participação ativa, cônscia, no processo, quer como eleitor, quer como candidato.

Quando o assunto é política, um dos temas recorrentes é sobre a candidatura de pastores a cargos eletivos: um pastor deveria ser candidato? As mais variadas propostas de resposta foram sugeridas, algumas mais polêmicas do que outras, algumas mais conservadoras, mais teológicas e outras nem tanto. Há aqueles que defendem a candidatura destes com base na vida de Daniel e José, forçando assim uma interpretação do texto bíblico contra os princípios da Hermenêutica e da Exegese.

Independentemente de toda esta polêmica bíblico-teológico-filosófica, que remete ao famoso paradoxo do "ovo e da galinha" (quem tem preeminência, o ente pastor ou o ente político?), os fatos são que primeiramente a Igreja Evangélica Brasileira encontra-se dividida (isso sim é um fato!) quanto a esta importante questão, não havendo via de regra um posicionamento dominante. Em segundo lugar, é que a cada ano mais e mais pastores se candidatam.  

Como eleitor preocupado com o destino da Nação, resolvi fazer uma pesquisa na base de dados do Tribunal Superior Eleitoral acerca do perfil dos candidatos a Deputado Federal e Deputado Estadual do Rio de Janeiro. Os dados para consulta estão disponíveis no site http://divulgacand2010.tse.jus.br/divulgacand2010/. No RJ, há um total de 16 candidatos cujo nome para urna eletrônica começam com a palavra "pastor": 2 para Deputado Federal e 14 para Deputado Estadual.

Ampliando a consulta para o Sudeste, encontrei os seguintes resultados:

Estado           Deputado Federal          Deputado Estadual
  RJ                        02                                      14
  SP                        06                                      17
 MG                       02                                      10
  ES                        01                                      02
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TOTAL:                  11                                     43

Outra informação interessante é o nível educacional dos pastores-candidatos. Na região, apenas 20,37% declararam possuir nível superior completo; já 35,09% declararam possuir nível médio completo e 16,67% nível fundamental completo. 27,87% dos candidatos não completaram os níveis educacionais iniciados (fundamental, médio e superior).

Com base nestes resultados, algumas ponderações podem ser feitas:

1) Quanto a formação educacional dos crentes que nós, Igreja, estamos indicando ao pastorado. Um pastor deveria ser uma pessoa que, no mínimo, possuísse ensino médio completo. Parece-me pouco provável que um crente, por mais fiel, seja capaz de estudar teologia (com direito a aulas de grego, hebraico, filosofia, psicologia, arqueologia, etc) sem os devidos conhecimentos de português e matemática do ensino médio. Daí, uma das causas (não é a única, por certo) da falência da ortodoxia teológica deve-se à precariedade na formação do Ministro. A multiplicação das heresias também se dá devido ao pouco ou nenhum conhecimento literário da Bíblia, das figuras de linguagem, etc. Como explicar as complexas relações psicológicas-afetivas? Obviamente se a formação é ruim, o exercício da função será do mesmo porte. Imagine um engenheiro diplomado que não sabe as 4 operações? Você confiaria a construção de sua casa à ele?

Por outro lado, se a Igreja identifica um irmão que tenha realmente vocação para o ministério, deve investir em sua formação secular (aliás, a Igreja deveria ser responsável por melhorar os indíces culturais de seus membros, não só por meio do incentivo, quanto por meio da educação direta). Não lançá-lo imediatamente num seminário ou mesmo ordená-lo sem a devida capacitação, o que acaba fazendo com que aquele irmão seja apenas um objeto de uso - visão utilitarista. 

2) Quanto a formação espiritual dos crentes que nós, Igreja, estamos indicando ao pastorado. Aqui, refiro-me ao pecado conhecido como procrastinação. Num país como o Brasil, cheio de assimetrias dos mais variados tipos, é frequente o abandono do estudo em prol do atendimento de necessidades mais imediatas. Porém, novamente, nós - Igreja - precisamos fazer a nossa parte quanto a esta importante questão. É preciso ensinar aos crentes em geral e aos candidatos ao pastorado mais especificamente que eles devem terminar tudo aquilo que um dia começaram; não é correto abandonar as coisas sem concluí-las. É preciso também incentivá-los neste quesito. Começou, vá em frente! Parou/foi obrigado a parar? Retorne já de onde deixou e conclua! 

Aquilo que foi adiado para depois, num tempo remoto onde um eventual conjunto de combinação de oportunidades, acaba invariavelmente abandonando o que iniciou. Quando não concluímos algo que começamos, isso mina a nossa força de vontade, fazendo com que sejamos mais facilmente desestimulados diante do menor sinal de problemas em qualquer nova tentativa. Isso resulta em stress, sensação de culpa, perda de produtividade e vergonha em relação aos outros, por não cumprir com suas responsabilidades e compromissos. As causas psicológicas da procrastinação variam muito, mas geralmente tendem a fatores como ansiedade, baixa auto-estima e uma mentalidade auto-destrutiva.

Esse é um dos motivos pelos quais muitos pastores vivem alternando estratégias ministeriais e nomes de Igreja. Começam algo mas diante do primeiro sinal de problema desistem e mudam de estratégia. Começam e terminam células/grupos familiares, começam/terminam seminários, começam/terminam campanhas de oração... começam e terminam com a mesma rapidez que começaram. No fundo, são pessoas feridas e frustradas. Desejam muito acertar, mas o seu desejo não consegue vencer o desânimo que surge; acabam então abrindo mão do sucesso por uma posição mais cômoda. Então lamuriam-se de não haver alcançado. Esquecem-se de que a "vida é luta renhida: Viver é lutar. A vida é combate, que os fracos abate, que os fortes, os bravos só pode exaltar!" 

O reformador Calvino tinha um alvo muito claro quanto à educação. Ele desejava que os alunos das escolas de Genebra fossem futuros cidadãos da cidade, bem preparados "na linguagem e nas humanidades", além de terem formação cristã e bíblica. O currículo que ele ajudou a elaborar tinha ênfase nas artes e nas ciências, além da ênfase nas Escrituras. Outro ponto das convicções religiosas de Calvino era o entendimento de que todo conhecimento vem de Deus, quer seja o conhecimento "sagrado", quer seja o "profano". Calvino tinha uma visão ampla da cultura, entendendo que Deus é Senhor de todas as coisas e que, por isso, toda verdade é verdade de Deus (http://apenas-para-argumentar.blogspot.com/2010/07/o-resultado-do-enem-2009-e-evasao-da.html).

Uma imensa maioria doas pastores americanos ostentam o título de "doutor". Na Idade Média isso era muito comum. Tomás de Aquino era conhecido como "Doctor Angelicus". Lutero era "doutor em Teologia".  Aqui, no Brasil, ficamos presos em falácias tupiniquins do tipo "fulano que aparecer", "comprou o título", "isso é soberba, coisa de homem", "coisa de gente religiosa", amplamente proferidas por alguns que se julgam a si mesmos "o parâmetro de seguidores do evangelho", que se acostumaram com a qualificação de "voz da Igreja Evangélica Brasileira", e coisas do tipo. Ora, é muito mais preferível que a Igreja esforce as mãos dos seus pastores, levando-os a alcançarem conhecimento acadêmico teológico e, se possível, secular também!

Por fim, considere o seguinte: Sempre que houve omissão por parte da Igreja, em qualquer área da sociedade, quando era necessário pronunciamento teórico-prático, isso redundou em prejuízo para a Igreja e para a própria sociedade. Até quando vamos contribuir para a perpetuação das injustiças e desigualdades sociais que o Brasil experimenta há muito tempo, mantendo um modelo de falido de Igreja? Até quando vamos ficar discutindo "O Ser e o Nada", num verdadeiro moto contínuo de justificativas ideológicas para a inatividade profética e sacerdotal da Igreja frente a uma sociedade cada vez mais distante de Deus? Até quando vamos passar ao largo daqueles que sofreram nas mãos dos salteadores deste mundo tenebroso, prostrados a beira do caminho?

A você, candidato, que é pastor, evangélico, ou que professa qualquer outra religião ou credo, e que lê este texto, pergunto: para quê você se candidatou? O que você pretende fazer para abençoar, como político, a vida dos desvalidos, dos pobres, dos andrajosos, das víuvas, dos órfãos? O que pretende fazer para garantir o acesso igualitário à educação, à saúde, ao lazer? Para construir uma sociedade mais livre, justa e solidária, promovendo o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação (CF, Art 2º)? Para manutenção da inviolabilidade da liberdade de consciência e de crença, assegurando o livre exercício dos cultos religiosos e garantindo, na forma da lei, a proteção aos locais de culto e a suas liturgias (CF Art. 5º)? O que você fará para efetivamente garantir os direitos e deveres individuais e coletivos?

Por favor, como brasileiro e eleitor eu te peço: não seja mais um a usar a máquina pública em benefício próprio. Não seja mais um a virar tema de piada em programas humorísticos, mais um a ser objeto do descrédito e ódio popular. Porém, como pastor, eu o exorto: pondere bem, com muito cuidado, as tuas reais intenções que te levaram a candidatar-se. Deus escuta o clamor do pobre, a voz deles sobe diante do Senhor pelas opressões e injustiças cometidas nesta Nação contra eles, desde a sua fundação. Um dia, você comparecerá diante do Juiz de Toda Terra e naquele dia dará contas a Ele; o que terás para apresentar? E aí você se não tiver nada que presta a mostrar, principalmente se você foi pastor e político ao mesmo tempo; afinal, a quem muito é dado, muito será cobrado!

Pense nisso. Deus está te dando visão de águia!

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

PASTOR, EM QUEM DEUS DISSE QUE DEVEMOS VOTAR?

Amados irmãos,

Reproduzo aqui o texto constante no blog "Púlpito Cristão", por considerá-lo útil à sua fé a ao correto entendimento do processo eleitoral pelos crentes em Cristo.

O link da postagem é: http://www.pulpitocristao.com/2010/09/pastor-quem-foi-que-deus-disse-que.html. Acesso em 06/09/2010, às 11h30min.

Veja mais sobre o assunto nas argumentações postadas aqui no "Ad Argumentandum Tantum".

Graça e Paz!
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Em tempo de eleição essa é uma das dúvidas ais comuns em nossas igrejas. Isto porque, irmãos em Cristo que temem ao Senhor e que desejam fazer o melhor para o seu país, acreditam que os seus pastores receberam de Deus orientações claras quanto àqueles que deverão governar a nação. Nesta perspectiva, buscam em seus líderes orientações em quem votar. No entanto, o que talvez muitos não saibam, é que do ponto de vista ético e cristão, o pastor não possui o direito de manipular o voto de ninguém. Todavia, em virtude de desejos escusos, alguns pastores inescrupulosos, imbuídos de messianismo politico fajuto, enganam o povo, determinando ao rebanho o nome daqueles que deverão ser votados.

Caro leitor, como disse anteriormente Não creio na manipulação religiosa em nome de Deus, não acredito num messianismo onde a utopia de um mundo perfeito se constrói a partir do momento em que crentes são eleitos, nem tampouco comercializo o rebanho de Cristo, vendendo-o por interesses escusos a políticos inescrupulosos.
Diante do exposto gostaria de reproduzir aqui o décalogo do voto ético que foi defendido na década de 90 pela Associação Evangélica Brasileira:

I. O voto é intransferível e inegociável. Com ele o cristão expressa sua consciência como cidadão. Por isso, o voto precisa refletir a compreensão que o cristão tem de seu País, Estado e Município;

II. O cristão não deve violar a sua consciência política. Ele não deve negar sua maneira de ver a realidade social, mesmo que um líder da igreja tente conduzir o voto da comunidade noutra direção;

III. Os pastores e líderes têm obrigação de orientar os fiéis sobre como votar com ética e com discernimento. No entanto, a bem de sua credibilidade, o pastor evitará transformar o processo de elucidação política num projeto de manipulação e indução político-partidário;

IV. Os líderes evangélicos devem ser lúcidos e democráticos. Portanto, melhor do que indicar em quem a comunidade deve votar é organizar debates multipartidários, nos quais, simultânea ou alternadamente, representantes das correntes partidárias possam ser ouvidos sem preconceitos;
V. A diversidade social, econômica e ideológica que caracteriza a igreja evangélica no Brasil impõe que não sejam conduzidos processos de apoio a candidatos ou partidos dentro da igreja, sob pena de constranger os eleitores (o que é criminoso) e de dividir a comunidade;

VI. Nenhum cristão deve se sentir obrigado a votar em um candidato pelo simples fato de ele se confessar cristão evangélico. Antes disso, os evangélicos devem discernir se os candidatos ditos cristãos são pessoas lúcidas e comprometidos com as causas de justiça e da verdade. E mais: é fundamental que o candidato evangélico queira se eleger para propósitos maiores do que apenas defender os interesses imediatos de um grupo religioso ou de uma denominação evangélica. É óbvio que a igreja tem interesses que passam também pela dimensão político-institucional. Todavia, é mesquinho e pequeno demais pretender eleger alguém apenas para defender interesses restritos às causas temporais da igreja. Um político de fé evangélica tem que ser, sobretudo, um evangélico na política e não apenas um "despachante" de igrejas. Ao defender os direitos universais do homem, a democracia, o estado leigo, entre outras conquistas, o cristão estará defendendo a Igreja.

VII. Os fins não justificam os meios. Portanto, o eleitor cristão não deve jamais aceitar a desculpa de que um evangélico político votou de determinada maneira porque obteve a promessa de que, em assim fazendo, conseguiria alguns benefícios para a igreja, sejam rádios, concessões de TV, terrenos para templos, linhas de crédito bancário, propriedades, tratamento especial perante a lei ou outros "trocos", ainda que menores. Conquanto todos assumamos que nos bastidores da política haja acordos e composições de interesse, não se pode, entretanto, admitir que tais "acertos" impliquem na prostituição da consciência cristã, mesmo que a "recompensa" seja, aparentemente, muito boa para a expansão da causa evangélica. Jesus Cristo não aceitou ganhar os "reinos deste mundo" por quaisquer meios, Ele preferiu o caminho da cruz.

VIII. Os votos para Presidente da República e para cargos majoritários devem, sobretudo, basear-se em programas de governo, e no conjunto das forças partidárias por detrás de tais candidaturas que, no Brasil, são, em extremo, determinantes; não em função de "boatos" do tipo: "O candidato tal é ateu"; ou: "O fulano vai fechar as igrejas"; ou: "O sicrano não vai dar nada para os evangélicos"; ou ainda: "O beltrano é bom porque dará muito para os evangélicos". É bom saber que a Constituição do país não dá a quem quer que seja o poder de limitar a liberdade religiosa de qualquer grupo. Além disso, é válido observar que aqueles que espalham tais boatos, quase sempre, têm a intenção de induzir os votos dos eleitores assustados e impressionados, na direção de um candidato com o qual estejam comprometidos.

IX. Sempre que um eleitor evangélico estiver diante de um impasse do tipo: "o candidato evangélico é ótimo, mas seu partido não é o que eu gosto", é compreensível que dê um "voto de confiança" a esse irmão na fé, desde que ele tenha as qualificações para o cargo. Entretanto, é de bom alvitre considerar que ninguém atua sozinho, por melhor que seja o irmão, em questão, ele dificilmente transcenderá a agremiação política de que é membro, ou as forças políticas que o apoiem.

X. Nenhum eleitor evangélico deve se sentir culpado por ter opinião política diferente da de seu pastor ou líder espiritual. O pastor deve ser obedecido em tudo aquilo que ensina sobre a Palavra de Deus, de acordo com ela. No entanto, no âmbito político-partidário, a opinião do pastor deve ser ouvida apenas como a palavra de um cidadão, e não como uma profecia divina.

Soli Deo Gloria!
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Renato Vargens é pastor, escritor e colunista do Púlpito Cristão

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

CONSELHEIROS E ACONSELHADOS: "EU TE DISSE, MAS EU TE DISSE, EU TE DISSE..."

Um dos pressupostos mais básicos no aconselhamento cristão é o desejo de uma pessoa em receber o conselho dado por outra. Aconselhar é uma das instruções de Paulo (Cl 3.16); o próprio Cristo aconselha a toda uma Igreja em Apocalipse (Ap 3.18). Mas o que é aconselhar? Aconselhar é dar "parecer, juízo, opinião; é advertir, exortar, avisar, admoestar". Na Bíblia, a palavra em grego que é traduzida como aconselhar é nouthesia, que literalmente significa “o ato de pôr em mente”, "inculcar".  Aconselhamento é uma das tarefas ligadas ao Ministério Pastoral, por sua característica e função, podendo e devendo também ser realizado por outros crentes que não tenham este dom.

No entanto o aconselhamento, assim como muitas atividades genuinamente cristãs, foi deturpado na Igreja. Há muita confusão no entendimento e consequentemente na prática do aconselhamento, tanto por conselheiros como por aconselhados. Tais confusões estão invariavelmente ligadas ao papel, ao comportamento, exercido por ambos.

A primeira confusão que surge é o entendimento, por parte ou do aconselhado, ou do conselheiro, ou ambos, de que o conselho emitido é equivalente a uma ordem sagrada, como se o próprio Deus estivesse falando. Ainda que Deus possa falar através do conselheiro, nada impede que o aconselhado pese o que está sendo-lhe dito à luz da Palavra de Deus e da razão e assim decida como deve agir ou não. No entanto, com a atual prática, pelos crentes, da "beatificação em vida" de pastores e de bispos e de apóstolos, elevados a uma classe de "santos homens inerrantes", o costume de se ponderar o conselho foi abandonado. Isso, por um lado, está também ligado ao comodismo do aconselhado, afinal é mais fácil alguém dizer o que eu devo fazer (e com isso assumir toda a responsabilidade) do que eu mesmo fazer minhas escolhas. Por outro lado, está ligado a dominação do rebanho de Deus: mentes passivas são muito mais fáceis de serem controladas, e assim acabarão agindo da forma que lhes é sugerida, sem questionar.

Quantos abusos são cometidos, deste modo, na atividade de aconselhamento! Quantas vidas são manipuladas, como marionetes, nas mãos de pessoas inescrupulosas transvestidas de guias do rebanho. Não é à-toa que surgem "patriarcas evangélicos", ovacionados por milhares de crentes, que surgem homens que exigem serem chamados de "pai" pelos crentes, os "paipóstolos"; que surgem cobradores de "trízimo", "comedores de angu do suor  com fartum ungido", e muitos e muitos concordam! Surtados - tal o povo, tal o sacerdócio! Padecem da Síndrome de Lúcifer, tomados pela Oni(pre)potência dos alucinados!

A segunda confusão, tão comum quanto a primeira, é o aconselhado procurar conselho apenas para confirmar aquilo que já premeditou. Assim, os aconselhados procuram apenas corroborar suas intenções e práticas - a maioria das vezes pecaminosa. Além de ocupar tempo desnecessariamente na agenda do conselheiro, tal prática cria um clima tenso e estressante, onde o servo de Deus vê-se impossibilitado de mudar o coração duro que está diante dele. Isso mesmo, coração duro, impenitente, arrogante! Daí, mesmo o Espírito Santo falando através do conselheiro, isso só redunda em canseira e enfado, porque o aconselhado está indisposto a ouvir qualquer coisa que choque-se com a sua concupiscência carnal, que mostre o quão errado é o que tenciona fazer ou que já está fazendo. Esquecem-se de que "há um caminho que ao homem parece direito, mas o fim dele são os caminhos da morte" (Pv 14.12) e que "não havendo sábios conselhos, o povo cai, mas na multidão de conselhos há segurança" (Pv 11.14). 

O que acontece, então? Por não ouvirem de Deus àquilo que poderia salvá-los, mudando-os de rumo, seguem o caminho que propuseram a si mesmos. Porém, quando o mal os encontra, voltando para eles como uma flecha veloz, como consequência por sua loucura, queixam-se por seu infortúnio diante de Deus. Perdem as bênçãos de Deus que possuíam, subsituindo-as por inúmeras aflições e transtornos. Alguns ainda conseguem se arrepender e retornar ao caminho correto; outros infelizmente se perdem e não conseguem achar o caminho de volta, ainda que com lágrimas o procurem. Outros ainda acabam pagando mais caro, com a própria vida.

Isso me faz lembrar de um desenho da minha infância chamado "Carangos e Motocas". Tinha uma motinha pequenininha que vivia repetindo... "Eu te disse, eu te disse! Mas eu te disse, eu te disse!" Ela falava assim ao final do desenho, sempre que o plano malvado das Motocas (Chapa, Avesso, Risada e Confuso) para pegar um carrinho, chamado Willie, não dava certo, apesar de seus conselhos e avisos prévios.

Existe um hino antigo, chamado "Cem Ovelhas", que retrata o pastor que possuía 100 ovelhas no redil e numa tarde, ao contá-las, verifica que lhe faltava uma. Assim, ele deixa as 99 no redil, com outros pastores auxiliares, e sai pelas montanhas a buscá-la. Acaba então encontrando-a, ferida e com frio; então ele cura suas feridas, toma-a em seu ombros, e ao redil retorna. Um hino muito bonito. Porém, ele retrata apenas uma faceta da realidade, na qual a ovelha desgarrada consegue ser achada e aceita retornar com o pastor amado. Infelizmente, há também outra faceta: muitas ovelhas desgarradas não conseguem mais serem encontradas. Quantas pessoas que hoje estão desviadas dos caminhos do Senhor? Destas, quantas estão neste estado por sua própria intransigência, por sua dureza de coração; nunca permitiram serem exortadas? E quantas terminarão os seus dias nesta terrível condição?

Sinceramente, quando o assunto é seríssimo, como a vida eterna, é preferível não arriscar. É preferível ser exortado, ainda que isso contradiga os interesses imediatos e mediatos - ainda que isso cause tristeza, e atentar para o conselho, do que terminar os dias longe dos caminhos do Senhor. Jesus nos exorta, todos nós, independente de denominação ou confissão teológica: "Sê fiel até à morte, e dar-te-ei a coroa da vida" (Ap 2.10). Quer teologizar, faça-o; quer contemporizar, esteja á vontade. É preferível seguir firme na fé, do que ouvir do diabo: "ele te disse, mas ele te disse, ele te disse... e você não quis ouvir"!

Pense nisso. Deus está te dando visão de águia!

STEPHEN HAWKING E O BIG BANG: O DEUS ABSCONDITUS

Deus não tem mais lugar nas teorias sobre a criação do universo, devido a uma série de avanços no campo da física, afirma o cientista britânico Stephen Hawking em seu novo livro, que teve trechos divulgados nesta quinta-feira.

"Por haver uma lei como a gravidade, o universo pode e irá criar a ele mesmo do nada. A criação espontânea é a razão pela qual algo existe ao invés de não existir nada, é a razão pela qual o universo existe, pela qual nós existimos", escreve o célebre cientista em "The grand design", que será publicado em série no jornal The Times. "Não é necessário que evoquemos Deus para iluminar as coisas e criar o universo", acrescenta.

fonte: http://br.noticias.yahoo.com/s/afp/100902/saude/ci__ncia_espa__o_religi__o_livro_hawking. Acesso 03/09/2010, às 9h40min)
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Meus Comentários:

A despeito da grande capacidade intelectual do brilhante cientista, Hawking comete o erro mais básico que qualquer principiante é capaz de fazer: por não compreender a Bíblia, ele tira conclusões sobre a veracidade do texto sagrado a partir de evidências científicas, e não com base na própria Bíblia. A Bíblia não é um livro científico, ela não contém teorias físicas, químicas ou mesmo biológicas. Ela é a Palavra de Deus, o relato escrito feito por aproximadamente 40 escritores em 16 séculos, dos eventos relacionados ao homem e a Deus, imprescindíveis para a relação entre ambos. Ela é a Palavra de Deus porque os seus escritores foram inspirados por Deus para escrever os Seus pensamentos (2 Tm 3.16; 1 Ts 2.13).

A Bíblia mostra a criação não sob a perspectiva científica (imagine Moisés explicando a Lei da Gravitação Universal a Josué e Calebe ou Eliseu explicando a flutuação do machado com base na Mecânica dos Fluidos ou Paulo discorrendo sobre a Lei da Conservação da Massa e Energia com Timóteo), mas sob a perspectiva da ação criativa de Deus: "No princípio criou Deus os céus e a Terra", é o relato do primeiro versículo da Bíblia Sagrada, no livro de Gênesis. É preciso entender que a revelação é progressiva; não apenas a revelação nas Escrituras, mas também a revelação nas ciências. Na primeira, Deus comunica aos homens os Seus desígnios eternos; na segunda, Deus revela aos homens todas as leis que governam o mundo físico, criadas por Ele no momento da criação da matéria.

Sim, as leis da física estão orgânica e funcionalmente ligadas à matéria. Não há sentido em se falar em leis físicas - ou mesmo o tempo - antes de existir matéria, isso é uma conclusão que qualquer livro de física mostra com clareza. O próprio Hawking mostra isso em seu livro "O Universo numa Casca de Noz" (vale a pena a leitura). A teoria da relatividade de Einstein implica que o tempo teve um começo, e isso deu-se com o começo da matéria. "Todavia, tanto o começo como o final do tempo seriam situações em que as equações da relatividade geral não estariam definidas assim, a teoria não poderia predizer a que conduziria a grande explosão [...] ainda não compreendemos por completo a origem do universo", cita o físico em sua obra.

Como (e para quem) Deus criou o Universo - os céus e a Terra? Novamente, a Bíblia traz a revelação sob a ótica da fé: "pela fé entendemos que os mundos pela palavra de Deus foram criados; de maneira que aquilo que se vê não foi feito do que é aparente" (Hb 11.3). "Porque nele foram criadas todas as coisas que há nos céus e na terra, visíveis e invisíveis, sejam tronos, sejam dominações, sejam principados, sejam potestades. Tudo foi criado por ele e para ele. E ele é antes de todas as coisas, e todas as coisas subsistem por ele" (Cl 1.16,17). Na revelação da criação, Deus criou pela Palavra (logos, o Verbo - Jesus, Jo 1.1) todas as coisas: todos os planetas, constelações, galáxias, buracos negros, buracos de minhoca ("wormholes", em inglês), etc. Para quem as criou? Para o homem? Não, o texto de Colossenses é claro: para Ele, o Cristo, o próprio criador e sustentador de toda a criação! Para Ele, que existe antes de toda a criação existir! Até mesmo as coisas invisíveis (espirituais) foram por Ele e para Ele criadas! Por isso mesmo é dito: "Eu sou o Alfa e o Ômega, o princípio e o fim, o primeiro e o derradeiro" (Ap 22.13).

Observe que nada do que é dito, na Bíblia, acerca da criação invalida a verdadeira ciência e suas leis. Do ponto de vista científico, Deus pode ter utilizado vários meios de criar todas as coisas materiais, como Big Bang (BB). Aliás, ao analisar esta teoria é fácil perceber que ela se encaixa em muitos aspectos com o relato bíblico da criação. Deus criou (do heb. "bara") toda criação a partir do nada ("bara" significar criar a partir do nada, sem auxílio de material preexistente); a teoria do BB diz que antes de sua ocorrência, não havia nada. “O big-bang deu origem a tudo, inclusive ao espaço e ao tempo. Quer dizer, antes disso existia algo que só podemos chamar de nada.” (João Steiner, físico e professor da USP). Esqueça, então, aquelas imagens que de vez em quando você vê em filmes, em que um vasto espaço escuro é preenchido por uma explosão. Não havia matéria, não havia espaço, não havia tempo, não havia nada.

A segunda lei da termodinâmica também é conhecida como lei da entropia, que nada mais é senão uma maneira simpática de dizer que a natureza tem a tendência de fazer as coisas se desordenarem. Em outras palavras, com o tempo, as coisas naturalmente se desfazem. Seu carro se acaba; sua casa se acaba; seu corpo se acaba. Mas se o Universo está ficando cada vez menos ordenado, então de onde veio a ordem original? Por outro lado, isto não aponta para o fim do Universo? A Bíblia mostra-nos a mesma coisa, só que com outra linguagem.

A verdadeira ciência jamais se chocará com a Bíblia, pois o mesmo Deus é o autor de ambas. A ciência provará a existência de Deus, como querem alguns? Não, a ciência restringe-se a matéria. Deus é espírito. A criação aponta para um Criador - "os céus declaram a glória de Deus e o firmamento anuncia a obra das suas mãos" (Sl 19.1), mas seu estudo e contemplação não são, em geral, suficientes para que o homem alcance o conhecimento de Deus. São úteis, todavia. Nosso Deus, segundo Blaise Pascal, é um Deus oculto: Vere tu es Deus absconditus. Porém, é também um Deus que se revela, que deixou marcas visíveis de forma que possa ser encontrado por todos aqueles que O procurarem com sinceridade. Mais ainda: deixou-nos O Caminho bem marcado até Ele: Seu Filho, Jesus! Que o ilustríssimo e inteligentíssimo Prof. Stephen Hawking, e outros tantos cientistas, possam encontrá-Lo!

Pense nisso. Deus está te dando visão de águia!

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

FIDES ET RATIO: EM PROL DE UMA FÉ EQUILIBRADA!

Fides et ratio: fé e razão, uma equilibrando a outra, uma temperando a outra. O que é um crente? Um ser intransigente, carrancudo, bitolado, incapaz de pensar fora das divisas poligonais fechadas de sua fé decoreba? Sim, porque a fé professada pela grande maioria dos crentes modernos não passa de decoreba, gravado por repetição exaustiva, sem o menor raciocínio. Na melhor das hipóteses, são repletos de teologismos, condenando rapidamente todo conceito (e o seu postulador) que não pareça-lhe minimamente conforme àquilo que decorou. Não é à-toa que sistemas e práticas como "teologia da prosperidade", "unções especiais", "coronelismo pastoral", dentre outros, nasçam, cresçam e reproduzam-se a taxas exponenciais no meio evangélico moderno.

Tenho uma proposta: voltemos à Idade Média. Sim, já que o livre pensar é proibido, já que o raciocínio é obra do demônio. Voltemos àqueles dias, tão perfeitamente registrados no filme "O Nome da Rosa": o riso é do diabo, o crente piedoso não sorri e não ri, apenas chora; quanto mais chorar, mais piedoso se tornará. Talvez o Venerável Georg estivesse certo, não é? Talvez devamos apenas "preservar o conhecimento, não perscrutá-lo,  porque não existe progresso na história do conhecimento, meramente uma contínua e sublime recapitulação". Tudo o que passar disso, é ardil do diabo!

Citando William de Baskerville,  “a única prova que vejo do demônio é o desejo de todos em vê-lo atuar”. A única prova para se considerar "obra do diabo" a perscrutação do conhecimento é o desejo insistente de algumas pessoas considerá-lo assim.

Será que o corpo humano deve ser encarado ainda como inviolável, já que "é templo do Espírito Santo" e, portanto, nenhum médico pode operá-lo? O sistema heliocêntrico é correto? É o átomo a menor divisão da matéria? Há um abismo no final dos confins dos mares, que tragarão todos os navegantes que ali chegarem? São os farmacêuticos agentes do inferno, bruxos manipuladores de saber demoníaco? São os químicos, engenheiros químicos e correlatos também discípulos deste mesmo ser maligno? E o avião: voa por causa de poderes mágicos? Como pode o navio, sendo mais pesado que a água, flutuar nela? Fusão é o nome de um time de futebol carioca escrito de forma errada?

Acaso não dotou Deus o homem de um cérebro? Não permitiu-lhe o conhecimento da filosofia e das ciências físicas, químicas e biológicas? Não permitiu que o homem saia da Terra para o espaço, pisando pela primeira vez na Lua no séc. XX? E o que dizer do Direito? Desconsideramos todos os avanços da sociedade quando emitimos posição religiosa obtusa naquilo que é meramente temporal. Imagine como seria a sociedade se a razão não tivesse equilibrado a fé: continuaríamos a viver uma fé cega do período anterior à Reforma Prostestante (a qual, diga-se de passagem, não teria acontecido). Odiosa bitolação!

Faço outra pergunta: como deve se posicionar um profissional liberal, servidor Estatal, quanto ao exercício de sua função pública? Por exemplo, como deve agir um policial (civil, militar, federal, não importa) que é crente: deve deixar sua arma em casa e combater o crime com a Bíblia na mão? Se os bandidos mandarem bala nele, não deve revidar, pois assim está escrito "não matarás", logo deve "dar a outra face" para o bandido? Como fica? A consequência é óbvia: se o policial assim agir, não estará exercendo a função que lhe foi atribuída. Será morto e o Estado se tornará um inferno na Terra, infinitamente pior do que aí está. O mesmo se aplica ao soldado do exército.

Isso significa que a Bíblia está errada e portanto deve ser descartada pelo ente público? Ou que não é pecado a criminalidade? Não, em hipótese alguma! Porém, significa que a fé deve ser exercida à luz da razão; o homem é ao mesmo tempo crente e ao mesmo tempo cidadão. Antes de ser crente, é cidadão, sujeito às Leis que regem sua Pátria. Há respaldo bíblico para isso? Sim, lógico, tanto no Antigo Testamento quanto no Novo Testamento: Veja:
  •  "E uns soldados o interrogaram também, dizendo: E nós que faremos? E ele lhes disse: A ninguém trateis mal nem defraudeis, e contentai-vos com o vosso soldo" (Lc 3.14).  Deveriam os soldados deixarem de ser soldados para serem aptos ao batismo, esta é a pergunta que fizeram. A resposta foi clara: ajam de acordo com a justiça e se contentem com o salário.  João indica seu dever aos soldados. As respostas declaram o dever presente dos que perguntavam e, de imediato, se constituíam em uma prova de sua sinceridade. O evangelho requer misericórdia, não sacrifício; e seu objetivo é comprometer-nos a todos a fazer todo o bem que pudermos, e a sermos justos com todos os homens.
  • "Nisto perdoe o SENHOR a teu servo; quando meu senhor entrar na casa de Rimom para ali adorar, e ele se encostar na minha mão, e eu também tenha de me encurvar na casa de Rimom; quando assim me encurvar na casa de Rimom, nisto perdoe o SENHOR a teu servo. E ele lhe disse: Vai em paz" (II Rs 5.18,19). Aqui, Naamã, o Sírio, após ser curado por Eliseu, explica a sua situação como capitão do exército do rei da Síria. Todas as vezes que o rei da Síria ia adorar o falso deus Rimom, se curvando diante dele, Naamã acabava obrigado a fazer o mesmo. Observe que o texto está no futuro: "quando meu senhor entrar", apontando assim para algo que viria a acontecer depois daquele encontro. Naamã tendo reconhecido o erro daquela prática, pede perdão ao Senhor por isso, antecipadamente, visto que ele não teria como evitá-la devido à sua posição. O que Eliseu lhe diz? Vai em paz!
  • "Vós, servos, sujeitai-vos com todo o temor aos Senhores, não somente aos bons e humanos, mas também aos maus" (I Pe 2.18). Aqui, o termo "senhores" é a trdução do grego "despotes", que deu origem ao termo déspotas, "que é senhor absoluto e arbitrário". Sujeitar é a tradução de "hupotasso", o mesmo termo usado para qualificar a relação entre o marido e a esposa, entre Cristo e a Igreja (Ef 5.22).  
Segundo Max Weber, em sua obra "A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo", com o desenvolvimento do conceito de sola fide, a vida monástica não era apenas desprovida de valor e de justificativa perante Deus, mas também encarava a renúncia aos deveres deste mundo como um produto do egoísmo, uma abstenção das obrigações temporais. Ao contrário, trabalhar dentro da vocação se lhe afigurou como a expressão externa do amor fraternal.

Ora, a vocação da pessoa religiosa enquanto membro de uma religião não é necessariamente a mesma vocação da pessoa enquanto membro do Estado, enquanto cidadão. Isto se deve, dentre outras, às particularidades da religião e do Estado, distintas entre si, a não ser na hipótese do Estado religioso, como é o caso de alguns países árabes. Nestes, o poder religioso e o poder Estatal concentram-se na mão de uma mesma figura; naquele ambos os poderes são exercidos por pessoas distintas.

Os Estados Absolutistas, o grande Leviatã - "aquele Deus Mortal, ao qual devemos, abaixo do Deus Imortal, nossa paz e defesa", deu lugar ao Estado democrático de Direito. De fato, a origem do Estado Moderno surge com o Absolutismo e a idéia de Estado Democrático aparece no século XVIII, através dos valores fundamentais da pessoa humana, a exigência de organização e funcionamento do Estado enquanto órgão protetivo daqueles valores. Três grandes movimentos político-sociais foram responsáveis pela condução ao Estado Democrático, quais seriam: a Revolução Inglesa, com influência de Locke e expressão mais significativa no Bill of Rights de 1689; a Revolução Americana com seus princípios expressos na Declaração de Independência das treze colônias americanas em 1776 e a Revolução Francesa, com influência de Rousseau, dando universalidade aos seus princípios, devidamente expressos na Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão de 1789.

As Instituições governamentais no Estado Moderno visam o bem comum da sociedade. É a Constituição Federal que incumbe ao Poder Público a prestação de serviço público. A atribuição primordial da administração pública é oferecer utilidades aos administrados, não se justificando sua presença, senão para prestar serviços à coletividade.  Este serviço público leva em consideração três elementos caracterizadores, quais sejam, o material (atividade de interesse coletivo), o subjetivo (presença do estado) e o formal (procedimento de direito público).

Serviço público é todo aquele prestado pela administração ou por seus delegados, sob normas e controles estatais, para satisfazer necessidades essenciais ou secundárias da coletividade ou simples conveniências do Estado. Fora dessa generalidade não se pode, em doutrina, indicar as atividades que constituem serviço público, porque variam segundo as exigências da cada povo e de cada época. Este serviço prestado se conforma a um determinado e específico regime: o regime de direito público, o regime jurídico administrativo.

Do Direito Administrativo, sabe-se que a Administração Pública baseia-se nos princípios da Legalidade (ninguém será obrigado a fazer ou deixar de fazer alguma coisa senão em virtude de lei  - art. 5.º, II, da CF), Publicidade (transparência a todos os atos), Impessoalidade (não discriminação, pessoa jurídica), Moralidade (contra a improbidade administrativa), Eficiência, Motivação Supremacia do Interesse Público sobre o Particular, dentre outros. Obviamente, a aplicação de tais princípios, obrigatórios ao ente público, exclui a possibilidade religiosa num Estado Laico, como o Brasil.

Aplicando o conceito distorcido e forçado do princípio religioso na esfera pública, facilmente concluir-se-á que o crente deve ser um eremita ou monástico. Afinal, sempre ocorrerão situações onde o fiel ver-se-á diante de ações e políticas que não necessariamente coadunam-se com a fé que professa. Este é o caso de profissionais liberais, cuja função é imprescindível para o bem-estar do Estado: policiais, médicos, químicos, professores, economistas, engenheiros, advogados, etc. Da mesma forma, tais profissionais deveriam, segundo tal tacanho e obtuso pensamento, abandonarem suas profissões para se tornarem crentes, já que estas seriam incompatíveis e irreconciliáveis com a fé cristã.

Será que isso é realmente verdade? David Koresh então estava certo em criar o "Monte Carmelo"? Ou Antonio Conselheiro, para o qual a República era o Anticristo, reunindo um grupo de milhares de sertanejos, entre camponeses, índios e escravos recém-libertos e fundando Canudos (rebatizado como "Bello Monte")? Se você pensa assim, seja ao menos coerente e não estude ou permita que seus filhos estudem ou prestem concurso público, pois para você isso tudo "é coisa do diaaaaabbbbooo"! (sic) Nem tampouco cantar o hino nacional, porque "a pátria amada, idolatrada, salve salve!" é idolatria, e isso não é coisa de crente! Se você pensa assim, lamento te dizer: você está lendo a Bíblia de cabeça para baixo!

A imensa maioria (99,9999999999%) das profissões são perfeitamente compatíveis com a fé cristã. Apenas uma ínfima parcela pode ser considerada incompatível; estas não seriam sequer profissões na acepção da palavra, mas apenas uma prática de um pequeno grupo da sociedade, como é o caso da prostituição. Geralmente sua prática deve-se a elementos de ordem social: miséria, desemprego e deficiências do meio familiar: pobreza; por serem abandonadas pelo marido; por serem expulsas do lar por causa de gra-videz indesejada; por terem filhos ilegítimos. "Uma situação econômica precária, marcada pela difícil colocação no mercado de trabalho por baixos rendimentos, e muitas vezes, pela condição de arrimo e chefe de família, é uma forte justificativa para o fato de a mulher se dedicar à prostituição... diante da sua própria situação de penúria e também da de sua família, é necessário que ela se sacrifique por ela e pelos seus. A prostituição surge então como um recurso quase legítimo para a falta de dinheiro” (http://www.scielo.br/pdf/rlae/v7n3/13471.pdf. Acesso 01/09/2010, às 14h40min)

Ainda sobre a prostituição e adicionando-se o elemento do sexo fora do casamento, segue a pergunta: o Estado deve distribuir preservativos gratuitamente? Esse assunto foi abordado pelo Pr. Antonio Carlos Costa, da Igreja Presbiteriana da Barra, no blog Genizah (http://www.genizahvirtual.com/2010/08/pergunte-ao-pastor-distribuicao-de.html. Acesso 01/09/2010, às 14h40min). A prática da prostituição, bem como do sexo fora dos limites do casamento é pecado? Sim, é claro! Sou eu, enquanto crente em Cristo e pastor evangélico, de alguma maneira favorável a estas práticas? Em hipótese alguma, combato-as ferrenhamente com as armas que disponho! Afirmo e reafirmo que os que tais coisas praticam não herdarão o reino de Deus!

Mas não estamos aqui discutindo o caso do ponto de vista do ente religioso, mas sim do Estatal. Deve o Estado Laico tratar do caso sob o viés religioso-dogmático ou sob o viés da saúde pública? Diante de tudo o que foi exposto acima, o Estado, enquanto laico, deve abordar a questão do ponto de vista da saúde pública. Na história da humanidade, quando o Estado tratou os problemas sociais sob a ótica da religião, e tal coisa se deu quando o Estado assumiu uma religião, isto redundou em caça às bruxas, apedrejamento de prostitutas, genocídio de judeus, etc. O que deve fazer o Estado? Prender todas as prostitutas em presídios? Prender todos aqueles que se relacionam sexualmente sem estarem casados, praticantes de relações sexuais ilícitas? Criar uma espécie de Alcatraz, ou Absolom, e mandar essas pessoas todas para lá? Qual é a solução? Não distribuir preservativos e ter que lidar depois com uma imensa epidemia de DSTs, caos da saúde pública; afinal que "morram os infiéis"?

Por isso, reafirmo o que já foi dito em argumentações anteriores. Será que nós, evangélicos, não estamos transferindo para o poder público a nossa responsabilidade quanto ao "bom combate da fé", quanto ao ensino bíblico-doutrinário (e sobre programas de saúde) sobre o assunto e suas consequências aos membros da sociedade e deixar que o poder público legisle sobre os aspectos de saúde, segurança e meio ambiente? Será que essa transferência de responsabilidade não aponta para a iminente falência ou redução de significância da Igreja Evangélica perante à sociedade? Deus ordenou que nós, crentes em Cristo, praticássemos a contra-cultura do Reino de Deus, não ao Poder Estatal.

Assim, qual é o papel da Igreja? Enquanto agência do Reino de Deus na Terra, mostrar ao homem como Deus vê suas práticas na Terra, contrárias à Sua Palavra - como pecado. Ensinar que, porém, Deus amou cada homem de tal maneira que deu Seu Único Filho, para que todo aquele que nele crer não morra, mas tenha a vida eterna. Ensinar, deste modo, que é necessário arrependimento, confissão e identificação com a morte, sepultamento e ressurreição de Nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo, que Ele veio para salvar o homem dos seus pecados. Batizar os novos crentes e ensiná-los a guardar todas as coisas que o Senhor nos ordenou, por meio do discipulado cristão. Enviar cada discípulo para que faça novos discípulos. Combater, por meio da oração, do jejum e da Palavra de Deus aliada à razão e conhecimento secular, toda e qualquer forma de opressão, de exploração e de injustiça na sociedade em que se encontra.

Enquanto membro da sociedade, cabe à Igreja aprender a orar por seus governantes. Aprender a votar, não trocando votos por benesses, não abrindo o púlpito para propaganda política, nem tampouco votando em alguém meramente por filiação religiosa e/ou partidária. Ensinar àqueles irmãos realmente vocacionados por Deus para o exercício da função pública que pesará sobre eles grande responsabilidade, diante de Deus e dos homens. Que não devem julgar com parcialidade, fazendo verdadeiro juízo entre homem e homem; não devem aceitar suborno de forma alguma, nem oprimir o pobre, a viúva ou o órfão. Que a autoridade que exercerão emana de Deus, e a Ele darão contas pelo exercício dela. Que devem criar políticas públicas que abençoem a vida dos membros da sociedade como um todo, não sendo ávaro ou mesquinho, mas contentando-se com o seu justo salário. Que andem na luz, como na luz Ele está.

A Igreja deve ser o catalisador de mudanças na sociedade onde se insere, tanto por meio de suas armas espirituais, como pelo uso da razão. Fora disso, é farisaísmo e/ou exercício religioso vazio, pura perda de tempo; instrumento de dominação e de opressão, cárcere da alma humana. Corremos o risco acabarmos destruindo o pecador, e nada fazer para impedir a proliferação do pecado. Acabemos com pecado, não com o pecador!

Pense nisso. Deus está te dando visão de águia!