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quarta-feira, 15 de setembro de 2010

RESGATANDO A NOSSA HISTÓRIA I - NEGRO SPIRITUALS

Para alguns irmãos mais novos na fé, a música gospel é algo recente. Porém, na verdade, suas origens são mais antigas, remontando ao final do séc. XIX início do séc. XX, nas Igrejas Evangélicas compostas em sua totalidade por irmãos negros nos Estados Unidos da América. Em inglês, a palavra "gospel" deriva-se do inglês antigo "God-spell" que significa "palavra de Deus", posteriormente derivando-se para "boas novas" em português, numa alusão ao Evangelho de boas novas ao mundo.

Talvez um dos velhos estilos da música negra que realmente se aproximou do Gospel foi o Negro Spirituals (em português, as canções harmoniosas dos "Negros Espirituais"). A história dos negro spirituals se confunde com a história dos africanos em continente americano, existindo 3 marcos principais:

1865: Abolição da escravatura, nos EUA.
1925: Renascença Negra.
1985: o Primeiro Dia do Dr. Martin Luther King.

As primeiras músicas negro spirituals foram inspiradas pela música africana. Algumas delas eram chamados de "shouts" (gritos, clamores) e acompanhavam danças típicas, incluindo bater palmas e o pés no chão. Após o culto, as congregações costumavam permanecer para um "clamor em círculo". Os homens e mulheres eram dispostos em círculo. A música começava, talvez com um cântico espiritual, e o círculo passava a se mover, primeiro lentamente, depois mais rápido com a aceleração do ritmo. A mesma frase musical era então repetida várias vezes durante horas.

A escravidão foi um tema importante para a Igreja americana. Muitos pastores foram contra essa prática, como J. D. Long e assim muitos escravos foram aceitos nos cultos da Igreja. Os escravos permaneciam após o culto, nas Igrejas ou mesmo nas "casas de adoração" nas plantações, para cantarem e dançarem. Nos encontros rurais, milhares de escravos foram agrupados e listados por pregadores itinerantes, e cantavam cânticos espirituais ("spirituals"), por horas. Assim, nas zonas rurais, os "spirituals" eram cantados, principalmente fora das igrejas. Nas cidades, por volta de 1850, o Movimento Protestante Reavimento da Cidade criou um novo gênero de música, que era popular, para reuniões de avivamento organizado por este movimento, tendo sido erguidas tendas temporárias nos estádios, onde os frequentadores podiam cantar.

Na igreja, hinos e salmos eram cantados durante os cultos. Alguns deles foram transformados em canções típicas do afro-americano: são eles conhecidos como "Dr. Watts". O Dr. Isaac Watts foi um ministro Inglês, que publicou vários livros: "Hymns e Spiritual Songs", em 1707, "Os Salmos de Davi", em 1717. Várias denominações protestantes aprovaram seus hinos, que foram incluídos em vários hinários, naquele momento.

As letras de "negro spirituals" eram intimamente ligadas com a vida dos seus autores: os escravos. Embora as canções de trabalho lidassem apenas com a sua vida diária, os spirituals foram inspirados pela mensagem de Jesus Cristo e sua Boa Nova (Evangelho) da Bíblia: "Você pode ser salvo". Eles são diferentes de hinos e salmos, porque eram uma maneira de compartilhar a condição difícil de ser escravo. Muitos escravos na cidade e nas plantações tentaram correr para um "país livre", que eles chamaram de "minha casa" ou "Doce Canaã, a Terra Prometida". Este país estava no lado norte do rio Ohio, que eles chamavam de "Jordão".

Entre 1865 e 1925
A escravidão foi abolida em 1865. Então, alguns afro-americanos foram autorizados a ir para a faculdade. No Fisk University, uma das primeiras universidades para afro-americanos, em Nashville (Tennessee), alguns educadores decidiram arrecadar fundos para apoiar a sua instituição. Assim, realizaram turnês no Novo Mundo e na Europa, cantando "negro spirituals" (Fisk Jubilee Singers). Depois de 1865, a maioria dos afro-americanos não queriam lembrar as músicas que cantavam nos dias difíceis da escravidão. Isso significa que, mesmo quando cantavam negro spirituals, eles não tinham orgulho de fazê-lo.

Na década de 1890, sugem as Igrejas Santas e Santificadas (Holiness and Sanctified Churches), dentre as quais a Igreja de Deus em Cristo. Nessas igrejas, a influência das tradições africanas eram evidentes. Essas igrejas eram herdeiras das canções com gritos, palmas, bater os pés e de jubileu, como se fossem as antigas "casas de adoração" nas plantações.

No início do século XIX, os afro-americanos estavam envolvidos no "Segundo Despertamento". Eles se conheciam em reuniões campais e cantavam músicas sem hinário. Assim, as músicas eram compostas de forma espontânea. Eles eram chamados de "cânticos espirituais" e o termo "sperichil" (espiritual) apareceu pela primeira vez no livro "Slave Songs of United States".

O Segundo Despertamento dava grande destaque ao potencial de escolha e decisão do ser humano. Essa característica, que combinava com os ideais de liberdade e iniciativa individual da jovem nação, encontrou sua expressão mais eloqüente no avivalista Charles G. Finney (1792-1875), que empregava técnicas de “apelos” insistentes, num clima de muita emoção, bem como acompanhamento aos que se “decidiram por Cristo” através de conselhos, instruções, técnicas essas que foram, em geral, incorporadas nas “Cruzadas evangelísticas” até o presente.

Entre 1925 e 1985

Na década de 1920, a Renascença Negra (Black Renaissance) foi um movimento artista sobre poesia e música. Surgida em bairros como o Harlem (considerado o palco do movimento), ela influenciou a maneira de cantar e interpretar "negro spirituals". Muitos nomes podem ser citados como representantes do movimento, tais como Langston Hughes, Claude McKay, Countee Cullen, dentre outros.

Durante os anos de Black Renaissance, diversos artistas, tais como Marian Anderson ("Deep River", etc) e Paul Robeson ("We Are Climbing Jacob's Ladder", etc), promoveram o negro spirituals. Algumas deles incluíam negro spirituals em seus shows. Assim, Jules Bledsoe cantou "Deep River" num repertório que incluia clássicos e peças de ópera. Eva Jessie e seu coro criaram um oratório "A Vida de Cristo em Negro Spirituals" (1931). Dorothy Maynor era uma concertista, que costumava cantar negro spirituals.

O movimento teve uma grande importância para o desenvolvimento do negro spirituals. Em primeiro lugar, o significado histórico dessas canções foram apresentadas. Em seguida, os cantores foram "forçados" a se tornarem mais educados. Por exemplo, no século XX, os meninos costumavam cantar negro spirituals nos pátios das escolas. Seu modo de cantar não era sofisticado. Mas os educadores entendiam negro spirituals como peças musicais, e que portanto deviam ser interpretadas como tal. Novos grupos foram então formados, como a Highway QC´s (QC: Quincy College).

Esta melhoria constante do negro spirituals deu origem a outro tipo de músicas cristãs. Estas eram inspiradas na Bíblia (principalmente o Evangelho) e relacionadas com a vida diária. Thomas A. Dorsey foi o primeiro a compôr essas novas músicas (como o sucesso "There Will Be Peace in the Valley", composta para Mahalia Jackson, sendo mais tarde gravada por Elvis Presley). Ele as chamou de músicas gospel, mas algumas pessoas as chamavam "Dorseys". Ele é considerado como sendo o pai da música Gospel. A Igreja inicialmente não gostou do estilo de Dorsey e não achou apropriado para o santuário, na época.

Muitos cantores surgiram nesta época, como Mahalia Jackson, uma das principais cantoras gospel dos Estados Unidos no século 20. Em 1963 ela cantou para 250 mil pessoas, na ocasião onde Martin Luther King Jr. fez seu famoso discurso "I Have a Dream" ("Eu tenho um sonho", discurso pelos direitos civis amplamente conhecido nos Estados Unidos). Também cantou "Take My Hand, Precious Lord" no funeral de Martin Luther King Jr.

Depois de 1985
O primeiro dia do Dr. Martin Luther King foi celebrado em 1985, tornou-se um feriado nacional em 1992. Este evento é um marco na história dos afro-americanos, mostrando que esta comunidade é uma parte da nação EUA.

[Traduzido e adaptado do website "Song Official Site of Negro Spirituals, antique Gospel Music", diponível em http://www.negrospirituals.com/.]

Abaixo, um vídeo onde é cantado uma música "negro spirituals": "In that Great Getting-up Morning", interpretada pelo grupo "The King´s Heralds" (vol. 5, 1962-1967) - uma de suas muitas versões, diga-se de passagem. Observe a semelhança com o movimento gospel brasileiro da segunda metade do séc. XX. Note também que o atual movimento gospel nacional muito se afastou de suas origens, produzindo músicas de pouca qualidade inspiracional!



Para aqueles que desejarem, segue abaixo a letra da música que está sendo cantada:

In that great getting-up morning,
Fare you well! Fare you well!
I'm a-going to tell you about the coming of the Saviour,
Fare you well! Fare you well!
I'm a-going to tell you about the coming of the Saviour,
Fare you well! Fare you well!
There's a better day a-coming,
Fare you well! Fare you well!
Then you see my Jesus coming
Fare you well! Fare you well!

In that great getting-up morning,
Fare you well! Fare you well!
In that great getting-up morning,
Fare you well! Fare you well!
Fare you well!

Blow your Trumpet Gabriel,
Fare you well! Fare you well!
Tell them to come to judgement;
Fare you well! Fare you well!
Lord, how loud shall I blow it?
Fare you well! Fare you well!
Loud as seven peals of thunder!
Fare you well! Fare you well!

In that great getting-up morning,
Fare you well! Fare you well!
In that great getting-up morning,
Fare you well! Fare you well!
Fare you well!

Then you'll see the world on fire;
Fare you well! Fare you well!
?????????????????????????
Fare you well! Fare you well!
See the elements a melting,
Fare you well! Fare you well!
And you hear the rumbling thunder;
Fare you well! Fare you well!

In that great getting-up morning,
Fare you well! Fare you well!
In that great getting-up morning,
Fare you well! Fare you well!
Fare you well!

Now is righteous rising to heaven;
Fare you well! Fare you well!
And you'll see the Christians rising;
Fare you well! Fare you well!
Then you'll see the righteous marching,
Fare you well! Fare you well!
They marching home to heaven.
Fare you well! Fare you well!

Particularmente, aprecio muito o gênero musical. São mais edificantes do que muitas músicas que estão sendo gravadas e vendidas em CDs modernamente. Não sei sobre os músicos, mas que muitos hoje precisam "comer muito arroz com feijão espiritual" para se equipararem a uma Mahalia Jackson isso precisam. Ainda mais um grupinho de músicos modernos - cantores gospi - que gostam de fazer careta enquanto cantam, para demonstrarem uma espiritualidade que nem de perto possuem!

A grande lição que podemos obter do início do movimento gospel é que só se canta, de fato e de direito, o que se vive. As músicas compostas precisam ser espirituais, precisam falar à alma, elevando-a à presença de Deus. Isso só é possível se a música for espiritual, e somente alguém espiritual pode compor algo espiritual. Quem não vive, não entende o que compõe e canta; não passa de mera música para diversão ou para enriquecimento. Por isso, ficam os músicos gospi modernos a fazerem toda sorte de caretas nos clipes promocionais de suas músicas, porque não há unção e daí procuram forjar algo que só Deus pode dar.

Daí o meu completo desprezo a uma enorme quantidade de músicas modernas, meramente comerciais, cujas letras não passam de baboseira sem sentido, na melhor das hipóteses. Não passam de mero produto comercial, para ser vendido, mas são incapazes de produzir o mínimo de enlevo espiritual. Músicas apelativas, de conteúdo duvidoso. Oxalá Deus nos permita, mais uma vez, retornarmos aos nossos humildes começos, quando a música cristã era conhecida como "spiritual".

Pense nisso. Deus está te dando visão de águia!

5 comentários:

  1. P. Ricardo, muito interessante esta narrativa da história da música cristã que postou. Pessoalmente não conhecia-a em detalhes. Realmente, a qualidade da música gospel ou evangélica encontrada hoje nem de perto lembra as músicas que antes eram compostas, fruto de uma vida de comunhão e adoração a Deus. Mesmo com toda tecnologia que aperfeiçoou e melhorou os sons e as melodias, não se encontra facilmente um bom cd pra se ouvir com tranquilidade, devido a tantos erros e esquisitices.
    Que saudade de ouvir canções como as de Feliciano Amaral, Luiz de Carvalho e outros...
    Ah, que saudade...
    Ainda bem que ainda os encontramos. Mas, e os outros ???
    Uma postagem com sua marca. Parabéns.
    Forte abraço,
    Em Cristo,
    Pr. Magdiel G Anselmo.

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  2. Concordo plenamente.Os cantores de hoje,só visam o lucro material.As músicas ,se podemos chamá-las assim,não nos dizem nada,não edificam a ninguém.Paupérrimas são suas letras.Isso porque,muitos deles estão ferindo princípios bíblicos e por isso não tem um pingo de unção.Deus não compactua com aqueles que passam por cima da Sua Vontade sem nenhum temor ou tremor.Triste coisa é querer fazer sucesso agindo dessa forma.Dura coisa estão fazendo:desagradando o Todo-Poderoso.Cantar por cantar ,cantar sem vida é melhor cantar música fúnebre.

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  3. Gostei de mais do artigo, realmente muito bom. Afinal vivemos dias em que nós cristãos desconhecemos nossa verdadeira identidade ou história. Hoje, se perguntarmos a algum "evangélico": Por que você é protestante? - Por exemplo. Tenho certeza que a grande maioria nem entenderá o por quê da pergunta. O tempo tem como característica nos afastar de nossas raízes. É claro que naquela época também houveram aqueles que se apostataram do verdadeiro sentido do movimento, o que não é muito diferente de hoje. O grande problema nos nossos dias é que; "músico gospel" hoje é artista e não levita. Quer ser artista, tudo bem, afinal cada um escolhe a profissão que deseja seguir, só não é possível aceitar a inversão dos valores reais entre a diferença abissal de ser um artista e um levita. Levita não precisa caçar a Deus, não espera que Deus lhe seja como um "cartão de crédito" para resolver seus problemas e patrocinar seus sonhos, então assim serei realmente feliz, vencedor,..., quanta bobagem.

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  4. Gostei da matéria. Penso e digo isso para alguns que divulgam a atual música a qual chamam de gospel e não tem nada dos evangelhos, antes são letras de desabafo próprio e de auto-ajuda, com mensagens totalmente anti-bíblicas.

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  5. Muitas das músicas gospel, são sem qualidade espiritual, sem qualidade musical (Há excelências também): sem sequência melódica e por isso o povo não sabe cantá-las a não ser se forem direcionadas. Água com açúcar...
    O legado teológico-doutrinário-musical da grande maioria dos hinos, é totalmente (com raras e honrosas exceções) desprezada. É necessário e bem vindo o cântico novo, porém, que os apresentem quem for para isso chamado e qualificado para algo de tanta importância no Reino!

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