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sexta-feira, 3 de setembro de 2010

CONSELHEIROS E ACONSELHADOS: "EU TE DISSE, MAS EU TE DISSE, EU TE DISSE..."

Um dos pressupostos mais básicos no aconselhamento cristão é o desejo de uma pessoa em receber o conselho dado por outra. Aconselhar é uma das instruções de Paulo (Cl 3.16); o próprio Cristo aconselha a toda uma Igreja em Apocalipse (Ap 3.18). Mas o que é aconselhar? Aconselhar é dar "parecer, juízo, opinião; é advertir, exortar, avisar, admoestar". Na Bíblia, a palavra em grego que é traduzida como aconselhar é nouthesia, que literalmente significa “o ato de pôr em mente”, "inculcar".  Aconselhamento é uma das tarefas ligadas ao Ministério Pastoral, por sua característica e função, podendo e devendo também ser realizado por outros crentes que não tenham este dom.

No entanto o aconselhamento, assim como muitas atividades genuinamente cristãs, foi deturpado na Igreja. Há muita confusão no entendimento e consequentemente na prática do aconselhamento, tanto por conselheiros como por aconselhados. Tais confusões estão invariavelmente ligadas ao papel, ao comportamento, exercido por ambos.

A primeira confusão que surge é o entendimento, por parte ou do aconselhado, ou do conselheiro, ou ambos, de que o conselho emitido é equivalente a uma ordem sagrada, como se o próprio Deus estivesse falando. Ainda que Deus possa falar através do conselheiro, nada impede que o aconselhado pese o que está sendo-lhe dito à luz da Palavra de Deus e da razão e assim decida como deve agir ou não. No entanto, com a atual prática, pelos crentes, da "beatificação em vida" de pastores e de bispos e de apóstolos, elevados a uma classe de "santos homens inerrantes", o costume de se ponderar o conselho foi abandonado. Isso, por um lado, está também ligado ao comodismo do aconselhado, afinal é mais fácil alguém dizer o que eu devo fazer (e com isso assumir toda a responsabilidade) do que eu mesmo fazer minhas escolhas. Por outro lado, está ligado a dominação do rebanho de Deus: mentes passivas são muito mais fáceis de serem controladas, e assim acabarão agindo da forma que lhes é sugerida, sem questionar.

Quantos abusos são cometidos, deste modo, na atividade de aconselhamento! Quantas vidas são manipuladas, como marionetes, nas mãos de pessoas inescrupulosas transvestidas de guias do rebanho. Não é à-toa que surgem "patriarcas evangélicos", ovacionados por milhares de crentes, que surgem homens que exigem serem chamados de "pai" pelos crentes, os "paipóstolos"; que surgem cobradores de "trízimo", "comedores de angu do suor  com fartum ungido", e muitos e muitos concordam! Surtados - tal o povo, tal o sacerdócio! Padecem da Síndrome de Lúcifer, tomados pela Oni(pre)potência dos alucinados!

A segunda confusão, tão comum quanto a primeira, é o aconselhado procurar conselho apenas para confirmar aquilo que já premeditou. Assim, os aconselhados procuram apenas corroborar suas intenções e práticas - a maioria das vezes pecaminosa. Além de ocupar tempo desnecessariamente na agenda do conselheiro, tal prática cria um clima tenso e estressante, onde o servo de Deus vê-se impossibilitado de mudar o coração duro que está diante dele. Isso mesmo, coração duro, impenitente, arrogante! Daí, mesmo o Espírito Santo falando através do conselheiro, isso só redunda em canseira e enfado, porque o aconselhado está indisposto a ouvir qualquer coisa que choque-se com a sua concupiscência carnal, que mostre o quão errado é o que tenciona fazer ou que já está fazendo. Esquecem-se de que "há um caminho que ao homem parece direito, mas o fim dele são os caminhos da morte" (Pv 14.12) e que "não havendo sábios conselhos, o povo cai, mas na multidão de conselhos há segurança" (Pv 11.14). 

O que acontece, então? Por não ouvirem de Deus àquilo que poderia salvá-los, mudando-os de rumo, seguem o caminho que propuseram a si mesmos. Porém, quando o mal os encontra, voltando para eles como uma flecha veloz, como consequência por sua loucura, queixam-se por seu infortúnio diante de Deus. Perdem as bênçãos de Deus que possuíam, subsituindo-as por inúmeras aflições e transtornos. Alguns ainda conseguem se arrepender e retornar ao caminho correto; outros infelizmente se perdem e não conseguem achar o caminho de volta, ainda que com lágrimas o procurem. Outros ainda acabam pagando mais caro, com a própria vida.

Isso me faz lembrar de um desenho da minha infância chamado "Carangos e Motocas". Tinha uma motinha pequenininha que vivia repetindo... "Eu te disse, eu te disse! Mas eu te disse, eu te disse!" Ela falava assim ao final do desenho, sempre que o plano malvado das Motocas (Chapa, Avesso, Risada e Confuso) para pegar um carrinho, chamado Willie, não dava certo, apesar de seus conselhos e avisos prévios.

Existe um hino antigo, chamado "Cem Ovelhas", que retrata o pastor que possuía 100 ovelhas no redil e numa tarde, ao contá-las, verifica que lhe faltava uma. Assim, ele deixa as 99 no redil, com outros pastores auxiliares, e sai pelas montanhas a buscá-la. Acaba então encontrando-a, ferida e com frio; então ele cura suas feridas, toma-a em seu ombros, e ao redil retorna. Um hino muito bonito. Porém, ele retrata apenas uma faceta da realidade, na qual a ovelha desgarrada consegue ser achada e aceita retornar com o pastor amado. Infelizmente, há também outra faceta: muitas ovelhas desgarradas não conseguem mais serem encontradas. Quantas pessoas que hoje estão desviadas dos caminhos do Senhor? Destas, quantas estão neste estado por sua própria intransigência, por sua dureza de coração; nunca permitiram serem exortadas? E quantas terminarão os seus dias nesta terrível condição?

Sinceramente, quando o assunto é seríssimo, como a vida eterna, é preferível não arriscar. É preferível ser exortado, ainda que isso contradiga os interesses imediatos e mediatos - ainda que isso cause tristeza, e atentar para o conselho, do que terminar os dias longe dos caminhos do Senhor. Jesus nos exorta, todos nós, independente de denominação ou confissão teológica: "Sê fiel até à morte, e dar-te-ei a coroa da vida" (Ap 2.10). Quer teologizar, faça-o; quer contemporizar, esteja á vontade. É preferível seguir firme na fé, do que ouvir do diabo: "ele te disse, mas ele te disse, ele te disse... e você não quis ouvir"!

Pense nisso. Deus está te dando visão de águia!

2 comentários:

  1. Há certos crentes que andam insistemente atrás dos pastores,com o intuito eles dizem de ouvir um conselho.Só que na verdade,o que querem é somente participar do que estão fazendo ou para fazer.Agindo assim,quando as coisas derem errado será muito fácil se justificarem,dizendo terem ouvido o pastor.Depois,quando derem com os burros n'água,correm para o pastor pedindo oração.Se não querem seguir o conselho,porque ocupar o pastor?

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  2. É meu amigo, aí está uma grande responsabilidade pra nós pastores.
    Há muitos irresponsáveis que aconselham pessoas segundo as suas opiniões pessoais pautados em conceitos humanos e muitas vezes sem ter a menor idéia das consequências desta atitude para a vida das pessoas que aconselha. Um conselho vindo de um(a) pastor(a) deveria sempre ser regado a oração, temor a Deus, conhecimento bíblico e unção.
    Os que entendem isso, sabem que quando aconselhamos pastoralmente alguém, a responsabilidade que é imputada sobre nós é grande, porque, como bem disse, muitos entendem o pastor como um homem perfeito (é o equívoco da infalibilidade pastoral) e seguem os conselhos à risca. Outros, não estão nem um pouco desejosos de um conselho mas apenas de desabafar e "por pra fora" o que os angustia.
    Como podemos exercer então este ministério de aconselhamento com a firme certeza de que Deus nos aprova e apóia? Penso que mesmo sendo pecadores e falhos, o que aconselhamos ou os conselhos que damos a alguém devem estar perfeitamente e coerentemente alinhados e respaldados pela Palavra de Deus. Sendo assim, podemos descansar em Deus cientes de que os conselhos dados não foram nossa opinião mas a do Deus da Bíblia sobre aquela questão.
    Se o aconselhado vai seguir as orientações ou se sua intenção não era de ouvir... bem, quanto a isso não podemos nos responsabilizar.
    Certamente se não o fizerem, o Espírito Santo lhes dirá no momento propício: Eu te disse, mas eu te disse, eu te disse...
    Bela postagem.
    Em Cristo,
    Pr. Magdiel G Anselmo.

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