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quarta-feira, 23 de junho de 2010

ZAQUEU E O PRINCÍPIO DA RESTITUIÇÃO

Esta argumentação é fruto de um debate que tive com um irmão em Cristo numa lista de e-mails na qual ambos participamos. Estou reproduzindo-a aqui, porque entendo que o mesmo será útil para edificação.

Vamos considerar o seguinte caso hipotético, mas que deve acontecer com bastante freqüência nas igrejas: Um certo homem (que chamaremos de "sr. Guilty") passou a vida roubando (um funcionário público corrupto, assaltante, estelionatário, traficante de drogas, etc). Mas um dia este homem aceita a Jesus, se converte e muda de vida completamente, nunca mais praticando qualquer ato ilícito. Porém, este homem é muito rico, fruto de roubos e falcatruas na vida pregressa, de tal forma que nada do que ele possui foi adquirido honestamente. A pergunta é: Este homem precisa se desfazer de tudo que tem após a conversão ou pode continuar com sua riqueza porque ele aceitou a Jesus e já está salvo?

Eis aí uma questão pouquíssimo abordada atualmente, em dias em que o sucesso da música gospel envolve letras como "restitui, eu quero de volta o que é meu" e "porque o Senhor é o meu bem maior". Vejamos o que a Bíblia tem a dizer:

Lucas 19

2 E eis que havia ali um homem chamado Zaqueu; e era este um chefe dos publicanos, e era rico.
3 E procurava ver quem era Jesus, e não podia, por causa da multidão, pois era de pequena estatura.
4 E, correndo adiante, subiu a um sicômoro para o ver; porque havia de passar por ali.
5 E quando Jesus chegou àquele lugar, olhando para cima, viu-o e disse-lhe: Zaqueu, desce depressa, porque hoje me convém pousar em tua casa.
6 E, apressando-se, desceu, e recebeu-o alegremente.
7 E, vendo todos isto, murmuravam, dizendo que entrara para ser hóspede de um homem pecador.
8 E, levantando-se Zaqueu, disse ao Senhor: Senhor, eis que eu dou aos pobres metade dos meus bens; e, se nalguma coisa tenho defraudado alguém, o restituo quadruplicado.
9 E disse-lhe Jesus: Hoje veio a salvação a esta casa, pois também este é filho de Abraão.
 
Zaqueu acumulou muitos bens por toda a sua vida - ele era rico -, bens adquiridos das mais diversas formas - legais e ilegais. É muito provável que ele praticasse extorsão em suas atividades, pois assim agiam muitos cobradores de impostos. Afinal, os publicanos eram uma classe imposta aos judeus pelos dominadores romanos com a missão de lhes coletarem os impostos. Funcionários romanos, eram odiados e escorraçados. Muitos judeus se tornaram publicanos devido à rentabilidade da profissão: o chefe dos publicanos, em Roma, impunha uma taxa e distribuía aos seus subordinados que, por sua vez, quadruplicavam e repassavam as taxas, e assim sucessivamente.

É interessante notar que o sinal externo da conversão de Zaqueu (conversão é mudança radical de vida após o arrependimento), que levou o Senhor a ratificar seu estado de salvo (v.9), não foi o fato de subir numa árvore, ou receber o Senhor em sua casa. Não, foi algo mais profundo; algo que motivou Zaqueu a uma mudança radical de sua vida pregressa. Foi a confissão pública de que a partir daquele momento não mais viveria para locupletar-se, como fora até então sua vida; não mais seria servo de Mamom, mas estaria desapegado de tal forma que doaria espontaneamente boa parte (50%) de sua riqueza aos pobres, evidenciando deste modo sua fé no Salvador.

Além disso, evidenciou mais: agora, ele restituiria àqueles a quem teria defraudado 4 vezes mais. Com isso, não apenas reconhecia a ilicitude de muitas de suas ações pregressas, mas também reconhecia que era necessário repará-las. Zaqueu aplicou o chamado "princípio da restituição", um princípio amplamente abordado ao longo das Escrituras (Êx 22.4-9; Lv 6.5; Ez 33.14,15; etc).  Aquele que furtou ou defraudou outrem tem a obrigação de devolver o que tomou como parte dos frutos do arrependimento. Nos tempos de Zaqueu, este princípio era de conhecimento de todos. Havia ensino farto sobre ele e sobre toda a Palavra de Deus, independentemente de agradar os ouvintes ou não.

A fé deve, inevitavelmente, ser acompanhada de boas obras. A fé sem obras é morta, conforme afirma Tiago 2:26. Se operou a fé para salvação do personagem fictício do texto proposto (o sr. Guilty), conclui-se que a fé levou-o ao arrependimento. Sem arrependimento não há como falar de salvação. Agora, o arrependimento conduz não somente ao sentimento de tristeza pelo pecado, mas ao reconhecimento prévio de que as atitudes pregressas são, no todo ou em sua essência, pecado. Não há como se arrepender dos pecados cometidos sem entender que o que foi cometido se constitui em pecado aos olhos de Deus.

Assim, o neo-convertido reconhece suas transgressões e sente-se culpado diante de Deus por elas. Sente necessidade de um salvador pessoal. Isso o leva a tomar uma atitude - escolher (ou aceitar) a Cristo como seu único e suficiente Senhor e Salvador. Observe: a fé que operou para a salvação leva a pessoa a uma ação. Fé sempre gera ação, dado que estamos falando de uma fé bíblica, não estóica. Porque obramos para Deus? Por causa da fé Nele e nas Suas Promessas (por gratidão também, mas a gratidão a Deus está ligada invariavelmente à fé num Deus pessoal).

Portanto, a fé possui uma evidência exterior - as obras feitas por meio da fé. O que operou na vida de Zaqueu? Obras para salvação? Não, obras não salvam ninguém; mas sim a fé salvadora (Ef 2.8,9). Mas como a fé foi comprovada exteriormente pelo Senhor? Por um obra de fé. Quem se arrepende, não apenas abandona o pecado, mas sendo possível procura reparar os erros cometidos antes da luz divina entrar em seu coração.

No caso hipotético citado, o correto seria ensinar ao neo-convertido (sr. Guilty) que ele tem uma responsabilidade diante de Deus e daqueles a quem defraudou, e que essa responsabilidade não cessa com a conversão. A restituição é parte integrante de sua nova vida e isso não é somente de Deus para ele, como preferem enfatizar alguns cantores e pregadores, mas principalmente dele para com o próximo. Assumir esta responsabilidade é fruto de uma genuína conversão.

Se ele realmente se converteu, aceitará a verdade em seu coração. Caso contrário, olhará o lucro ganho, as riquezas adquiridas e colocará o seu coração nelas, não atendendo ao Senhor da Palavra. Esse tal ainda não se converteu, de fato e de direito; e assim muito provavelmente se "desviará", por ter abraçado apenas o lado emocional da fé. Ou se instado com mais ênfase, acabará abandonando a Igreja, saindo a procura de uma "mais liberal" neste sentido, o que se constituirá em mais uma testemunha de uma fé sem vida e, portanto, não da fé salvadora, que sempre gera vida. Assim, cumpre-se o que está escrito - a fé sem obras é morta.

Se, por razões que fogem o controle, é impossível restituir o defraudado - ou porque já morreu/foi morto, ou porque é uma pessoa jurídica de direito público, ou qualquer que seja o motivo, pelo menos que demonstre conversão doando 50% da sua riqueza aos pobres. Isso demonstra desapego às riquezas obtidas - algo que só um convertido pode fazer.

Pense nisso. Deus está te dando visão de águia!

2 comentários:

  1. Muito interessante o seu post. Concordo plenamente com sua argumentação. Temos que acabar com a omissão em falar a verdade em prol de uma falsa unidade e comunhão. LETRAS DE CANÇÕES QUE NÃO ESTÃO ALINHADAS COM A REVELAÇÃO BÍBLICAS DEVEM SER DESCARTADAS DE NOSSO CONTEXTO EVANGÉLICO.
    Um gde abraço e fique com Deus.

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  2. Como afirmar meu amor a Deus se não consigo sequer
    amar ao meu próximo?Amar tb significa não defrau
    dá-lo,ficando com algo que pertence a ele e não a
    mim.Converter só o coração e não o bolso é lorota.
    É fácil ter fama cantando o que o povo cego quer ouvir,mas será que o povão gostaria de ouvir a ver
    dade?Não .Creio que não,pois fogem das igrejas de portas estreitas...

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