Pesquisar Argumentações No "Ad Argumentandum Tantum"

segunda-feira, 17 de julho de 2017

O DEUS QUE SE OCULTA PARA SE REVELAR E SE REVELA PARA SE OCULTAR


"De noite, em minha cama, busquei aquele a quem ama a minha alma; busquei-o, e não o achei. Levantar-me-ei, pois, e rodearei a cidade; pelas ruas e pelas praças buscarei aquele a quem ama a minha alma; busquei-o, e não o achei. Acharam-me os guardas, que rondavam pela cidade; eu lhes perguntei: Vistes aquele a quem ama a minha alma? Apartando-me eu um pouco deles, logo achei aquele a quem ama a minha alma; agarrei-me a ele, e não o larguei, até que o introduzi em casa de minha mãe, na câmara daquela que me gerou." (Ct 3.1-4)

"Verdadeiramente tu és o Deus que te ocultas, o Deus de Israel, o Salvador." (Is 45.15)

Deus que se esconde ("'El mistatter"), o Deus absconditus. Uma das coisas mais desconcertantes que algumas vezes acontece com alguém é quando Deus esconde Seu rosto e se torna ausente. O teólogo Karl Barth descreveu como até mesmo um pastor ou estudante das Escrituras, mesmo possuindo todo tipo de conhecimento, pode "perde o cheiro" da presença de Deus fazendo com que toda a atividade de estudar Deus fique vazia e infrutífera. O mais precioso que temos ou podemos perder é a presença do próprio Deus.

Reconheço que esse conceito de um Deus que se esconde não é nem um pouco comum para a Igreja atual. Fala-se muito acerca do Deus que se revela, do Deus que se deu a conhecer ao mundo e que vem falando com os homens desde priscas eras. Temos, com isso, o entendimento de que Deus que está sempre disponível, que Ele é facilmente alcançável, como se Ele estivesse sempre à nossa disposição. Nós falamos e Ele prontamente se manifesta! Porém, esse conceito está muito longe do que a Bíblia ensina sobre o nosso Deus. O fato é que Deus não é superficial, facinho!

A verdade é que Deus pode esconder Sua face. Isso pode à primeira vista parecer meio contraditório, afinal há muitas passagens bíblicas que mostram Deus falando e interagindo com o homem. Davi disse que o Senhor está perto de todos os que o invocam (Sl 145.18). Então como podemos entender um Deus que se esconde? De um Deus que é acessível e inacessível ao mesmo tempo? Se Deus nos ama, porque então Ele se esconde de nós? Porque Ele muitas vezes se silencia diante dos nossos dramas existenciais? Porque às vezes Ele é tão difícil de ser encontrado por nós?

Os homens podem procurar Deus e não encontrá-Lo; podem clamar e Ele não responder. No entanto, Ele não está ausente, apenas em silêncio. Assim, a primeira coisa que precisamos entender sobre um Deus que se esconde é que o fato Dele esconder-se de nós não significa que Ele não nos ame ou esteja indiferente para nossa situação. Muitas vezes, diante dos problemas da vida, ficamos perplexos e sem respostas; daí buscamos essas respostas (e o livramento) em Deus mas parece que Ele não está nem aí para a nossa situação! Veja o caso do patriarca Jó: de uma vida de paz e prosperidade para uma vida de ruína. Ele ficou cheio de úlceras malignas desde a planta do pé até ao alto da cabeça e passou a se raspar com um caco (Jó 2:7,8). Sua dor era muito grande! (Jó 2:13) Jó então queixa-se do se estado, abrindo espaço para seus amigos o refutarem. Isso prossegue durante a grande maioria do livro - os amigos acusando Jó, Jó se defendendo e questionando Deus sem obter resposta -, até que na parte final Deus revela-se a Jó e não responde suas perguntas. Deus que estava até então escondido, ao falar com Jó não disse a ele os porquês daquilo tudo em sua vida! Somente ao final Deus vem e restaura a sorte de Jó, mostrando amor e bondade com o seu servo. O resultado para a vida de Jó é que ele passou a conhecer a Deus de uma forma mais profunda do que antes.

A experiência de Jó é emblemática: Deus, com seu silêncio, tencionava levar a Jó numa experiência mais profunda, mais real com Ele. Até então, na bonança, qual era o conhecimento de Deus que Jó possuía? Que tipo de relacionamento havia entre Jó e Deus? Era um relacionamento de causa-efeito! Jó ouvira falar que Deus recompensa o justo e castiga o injusto. Daí baseou a sua vida nisso. Jó fazia o bem, aquilo que segundo ele Deus esperava que fosse feito, então Deus recompensava Jó com bênçãos e prosperidade! Porém, quando Deus permitiu que Satanás tocasse na vida de Jó, Jó ficou confuso! Ele ficou a um passo de perder a sua fé: "Eu fiz tudo certo, tudo o que Deus gosta! Porque estou recebendo o mal em minha vida?!?"  Para Jó, o sofrimento era algo inadmissível em sua vida, porque o conhecimento que ele tinha de Deus excluía essa possibilidade! Jó achava que sabia tudo de Deus, e terminou reconhecendo que não sabia nada!

A verdade é que assim como Jó tem muitos hoje. Acham que sabem tudo que se há de saber sobre Deus! Eles dizem que se a pessoa for boazinha e fizer tudo o que se espera dela, então Deus obrigatoriamente tem que abençoar a vida dessa pessoa! Essas pessoas vivem constantemente numa profunda crise de fé, porque constatam, perplexas, que as coisas não funcionam assim! Deus pode permitir o mal mesmo sobre os bonzinhos e fiéis! Pode permitir o sofrimento mesmo na vida dos justos! E, para complicar ainda mais as coisas, a vida dos injustos e infiéis muitas vezes vai "de vento em popa", num "céu de brigadeiro". Deus não apenas permite o mal na vida dos justos, mas permite o bem na vida dos injustos! Esse é o paradoxo de Asafe, encontrado no Salmo73, onde os ímpios prosperam no mundo e aumentam em riquezas, enquanto o justo é afligido diariamente e castigado cada manhã (Sl 73.12,13). Somente em Deus Asafe alcançou a solução para seu paradoxo. Deus nos prova e a Sua prova é muito difícil!

Na prova que Deus deu a Jó, Jó saiu-se bem. Ele mostrou a Satanás que não era interesseiro, materialista, egoísta. Que não buscava a Deus só para ter bênçãos. Ele ficou na pior, ficou na pindaíba, ficou doente, mas não amaldiçoou Deus (o conselho de sua mulher). Jó até amaldiçoou o seu nascimento, mas a Deus? Jamais! Ele amava a Deus e vivia o relacionamento com Deus na base que até então que ele compreendia. Mas Deus é um Deus que se oculta e se revela! Se oculta para então revelar-se e se revela para então ocultar-se!

Deus está se ocultando da Igreja evangélica atual. Deus está em silêncio. Hoje há muitas denominações no Brasil e no mundo, mas pouca gente buscando a Deus de verdade. Pouca gente interessada verdadeiramente em Deus, interessada no relacionamento com Ele. O interesse quase total do homem em Deus está naquilo que Deus pode dar, não na Pessoa de Deus. Quando muito, estão interessadas em escapar do inferno, mas não na vida eterna bíblica: "E a vida eterna é esta: que te conheçam, a ti só, por único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, a quem enviaste." (Jo 17.3) Vida eterna é conhecer o Pai e o Filho! É ter um relacionamento sólido com Deus; relacionamento de fé e fidelidade! E esse relacionamento não é edificado numa base superficial, carnal e interesseira! Para que Deus possa se relacionar conosco, Ele precisa tocar em nós no fundo da nossa alma, lá na divisão da alma com espírito, naquilo que é "crítico" para nós, que muitas vezes não conhecemos, mas que impede o aprofundar desse relacionamento! Daí, vem a segunda verdade: esse relacionamento com Deus, ainda que envolva as nossas emoções, não se baseia nelas. Emoções são boas no relacionamento com Deus - até no culto a Deus - mas o emocionalismo não.

Infelizmente, há uma ação maligna em curso que visa reduzir a nossa fé sobrenatural em sinais exteriores, em “experiência”, em “arrepio”. Muitos crentes vão para o culto não para buscarem Deus, mas para sentirem alguma emoção, para experimentarem alguma coisa de Deus, para terem “sensações”. O problema disso é que emoções não são um caminho confiável no relacionamento com Deus. Emoções podem ser produzidas pelo contato do homem com Deus? Sim! Mas também podem ser produzidas por outros meios: um filme, um toque, uma técnica... Isso acaba trazendo confusão e engano! Por isso, Deus não quer que nossa relação com Ele dependa de sensações. Buscar a Deus para ter uma sensação não é buscar a Deus, e sim buscar conforto emocional. Ao se esconder, Deus fortalece a nossa fé. Aprendemos que sentir coisas não quer dizer necessariamente “presença de Deus”. Somos livres do engano do inimigo e da manipulação humana, e ao mesmo tempo passamos a valorizar mais a presença de Deus quando Ele se manifesta verdadeiramente!

Valorizar Deus e o relacionamento. Dar valor. Dar importância. Honrar. Considerar importante. Considerar caro e precioso. Jesus contou uma vez a parábola do tesouro escondido num campo. Ele disse que o reino de Deus "é semelhante a um tesouro escondido num campo, que um homem achou e escondeu; e, pelo gozo dele, vai, vende tudo quanto tem, e compra aquele campo" (Mt 13.44). Considerando que o reino de Deus só é bom e desejável porque Deus é o soberano desse reino, então Deus podemos derivar que Deus deve ser semelhante a esse tesouro escondido, só que não por um homem, mas pelo próprio Deus! Deus se escondeu para que os homens pudessem achá-Lo e valorizar esse achado! Achar Deus é o verdadeiro achado!       

Se Deus se escondeu, então devemos procurá-Lo com todas as nossas forças! Essa é a nossa busca, a busca da nossa vida! Antes de qualquer coisa, antes de casamento, de bens materiais, de prosperidade! Deus disse a Israel por meio do profeta Jeremias: “E buscar-me-eis, e me achareis, quando me buscardes com todo o vosso coração.” (Jr 29.13) Note a condição para achar Deus: buscá-lo "de todo o coração"! Deus promete ser achado pelo Seu povo, quando o Seu povo buscá-Lo com integridade de propósito e sinceridade de vida; quando se aproximarem Dele com um coração verdadeiro, invocando-O  em verdade e procuram por Ele com ansiedade e desejo real de encontrá-Lo! Buscar ao Deus que se esconde é algo que vai além da salvação dos pecados. A bem da verdade, somos salvos do pecado para aplicarmos a nossa vida na busca ao Senhor e para servirmos só a Ele segundo Sua vontade para nossas vidas.

Quanto mais próximo do fim estamos, mais e mais Deus está chamando Seu povo para buscá-Lo de todo coração. Porque? Porque no tempo do fim o amor inevitavelmente irá esfriar e a fé inevitavelmente vai apagar (Lc 18.8; Mt 24.12). Muita gente vai perder a sua fé, vai esfriar no seu amor por Deus (e pelo próximo), pois a medida que o fim se aproxima, as pessoas tornar-se-ão mais e mais "amantes de si mesmos, avarentos, presunçosos, soberbos, blasfemos, desobedientes a pais e mães, ingratos, profanos, sem afeto natural, irreconciliáveis, caluniadores, incontinentes, cruéis, sem amor para com os bons, traidores, obstinados, orgulhosos, mais amigos dos deleites do que amigos de Deus, tendo aparência de piedade, mas negando a eficácia dela" (I Tm 3.1-5). Haverá cada vez mais uma pressão descomunal do inimigo, de Satanás, para fazer com que as pessoas se afastem de Deus, deixando de buscá-Lo em prol de cuidarem de suas próprias vidas: "comendo, bebendo, casando e dando-se em casamento" (Mt 24.37-39). Nosso Senhor acrescenta que somente serão salvos "aqueles que perseverarem até o fim" (Mt 24.13). Perseverar em quê mais, a não ser na busca ao Senhor? Nossa parte é responder a esse chamado do Senhor, como fez Davi: “Quando tu disseste: Buscai o meu rosto; o meu coração disse a ti: O teu rosto, SENHOR, buscarei.” (Sl 27.8) A face do Senhor deve ser buscada continuamente (Sl 105.4).

O que significa buscar ao Senhor de todo o coração?

1. Significa buscar ao Senhor com todas as faculdades do nosso ser. Um homem deve procurar Deus em Cristo Jesus com toda a sua natureza. Se o coração estiver dividido, a busca será em vão (Tg 1.8). Porque o nosso coração é, muitas vezes, dividido para com Deus, nós não o encontramos! Ele permanece no oculto!

2. Significa buscar ao Senhor com toda perseverança. Os crentes atuais não sabem e nem tocam em perseverança, pois começam as coisas e não terminam. Não tem força de vontade, não tem foco no alvo a ser alcançado. Perseverar é insistir, mesmo que a princípio ou que num dia ou época pareça não dar fruto. É buscar a Deus, continuar buscando e seguir nessa busca. Buscar sem cessar! Buscar por meio da oração, da meditação na Palavra!

3. Significa buscar ao Senhor com energia. Rompa com essa indiferença, com a passividade. Estamos ocupados com mil coisas, mas lentos sobre nossas almas! Deus não será encontrado por busca desprezível, descuidada e despreocupada. Sobre isso, ouçamos o que diz Moisés: "Ouve, Israel, o SENHOR nosso Deus é o único SENHOR. Amarás, pois, o SENHOR teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todas as tuas forças." (Dt 6.4,5) Isso é mandamento de Deus! Isso é ordem, é cumpra-se! É "estou mandando que vocês façam assim!" (Mt 22.38-40). Ouve, Igreja, o Senhor Jesus nosso Deus é o único Senhor!

O que fazer quando encontrar o Senhor? Cantares nos dá uma pista: "agarrei-me a ele, e não o larguei, até que o introduzi em casa de minha mãe, na câmara daquela que me gerou" (Ct 3.4). A primeira verdade aqui é que quem emprega todo seu coração na busca pelo Senhor não vai larga-lo em hipótese alguma. Encontrar Jesus é a maior bênção da vida de alguém que o busca incessantemente e que O ama de todo o coração. Essa pessoa se agarra em Jesus e suplica-O insistentemente que jamais o deixe sozinho! Pode vir a cair? Sim, é claro! Porém essa pessoa rapidamente reconhecerá essa queda e voltar-se-á ao Senhor, o Amado de sua alma, arrependido da sua queda! Vai fazer isso porque para essa pessoa estar com o Senhor Jesus é o bem mais precioso de sua vida! Foi caro encontrá-Lo e ela não irá perdê-Lo custe o que custar! Tem que confessar publicamente para restaurar o relacionamento? É para agora! Tem que se humilhar? É já! Se é verdade que valorizamos muito pouco aquilo que é obtido muito barato, então o inverso também é verdadeiro!

A segunda verdade aqui é que quem encontra o Senhor leva-O até a sua casa. Jesus introduzido no lar é Jesus governando os mínimos detalhes da nossa vida. É submissão e obediência a Ele para tudo e em tudo, rompendo com o maligno costume da autossuficiência e independência. Se Ele é verdadeiramente Senhor, Ele tem todo o direito de determinar o meu curso de vida; por seu turno, eu tenho obrigação de obedecê-Lo. Ou isso é verdade, ou estou mentindo sobre minha fé e relacionamento com Cristo; nunca o aceitei de verdade em meu coração. Minha fé não passa de ilusão em minha vida. Agora, se Ele é meu Senhor eu vou obedecê-Lo custe o que custar e nas mínimas coisas que Ele me demandar. Para isso, Ele tem estar em tudo como Senhor - até e principalmente no lar! Participando da minha vida. Tendo comunhão comigo e eu com Ele. Sendo por mim honrado e respeitado.

Apesar de haver pouca gente buscando ao Senhor, do quadro de apostasia que estamos vivendo e de Deus estar oculto, isso não quer dizer que Deus nada está fazendo. Deus está oculto, não inerte. Deus está agindo de forma a cumprir Seu plano que foi estabelecido antes da fundação do mundo. Ele está permitindo um aumento das tensões sociais, políticas e econômicas no mundo inteiro. Deus está abalando todas as coisas. Deus vai destronar Mamom do coração dos crentes e levar muitas denominações a falência financeira a fim de reconquistar para Si o coração de Seu povo! Deus vai expor a mentira satânica da teologia da prosperidade! Vão é confiar nas riquezas! De nada aproveitam as riquezas no dia da ira (Pv 11.4), quem nelas confia cairá (Pv 11.28)! Do mesmo modo, hoje já não há mais nenhum lugar seguro na Terra, porque a segurança pública está sendo abalada por Deus, de forma que Seu povo volte a crer que Ele é a nossa segurança, o nosso Guarda que não Dorme nem Cochila (Sl 121.4-8)! Na política, Deus está abalando também, mostrando a podridão, a corrupção que há nos mais altos escalões de governo! Para a Igreja, o Senhor está dizendo "podre e inútil é a vara do poder político; Eu, o Senhor, Sou o poder do Meu povo"!

Escondido, mas agindo, Deus vai levando cada dia mais a Sua Igreja a buscá-Lo com toda intensidade, ansiedade e coração novamente! Se o povo de Deus precisa de angústia e aperto para voltar-se ao Seu Senhor, muito bem, assim será! Foi assim no passado com Israel e será assim com a Igreja. O povo de Deus é obstinado de coração; para quebrar isso, só com algo muito quente e muito forte! Foi preciso o cativeiro babilônico para Israel no passado reconhecer que o Senhor e será preciso que os exércitos do Anticristo se reunirão para destruir Israel, no vale do Armagedom para que Israel reconheça que Jesus é o Messias! A Igreja também precisa experimentar o seu quinhão de calor e força! E quando isso acontecer, Deus voltará a ser desejado e buscado por Seu povo, culminando na revelação do Deus até então escondido como o Anjo da Aliança (Ml 3.1), o qual se assentará (porque vai da trabalho, vai levar tempo) para purificar Sua Igreja, preparando-a para o fim! Vai doer no profundo da alma, vai ser terrível esse dia; mas será necessário a fim de espremer o carnegão de cada um dos Seus filhos!

O Deus de Israel às vezes é um Deus que se esconde, mas nunca um Deus que se ausenta. Às vezes no oculto, mas nunca à distância.

Pense nisso. Deus está te dando visão de águia!

quinta-feira, 6 de julho de 2017

GEAZI E A LÁPIDE DO MINISTÉRIO CRISTÃO

"E ele disse a Geazi: Cinge os teus lombos, toma o meu bordão na tua mão, e vai; se encontrares alguém não o saúdes, e se alguém te saudar, não lhe respondas; e põe o meu bordão sobre o rosto do menino. E Geazi passou adiante deles, e pôs o bordão sobre o rosto do menino; porém não havia nele voz nem sentido; e voltou a encontrar-se com ele, e lhe trouxe aviso, dizendo: O menino não despertou." (II Rs 4.29,31)

Na Bíblia, Geazi é discípulo ("o moço") do profeta Eliseu, o qual sucedera Elias como profeta de Israel no Antigo Testamento. O nome Geazi significa "vale da visão" ou "vale de um visionário", possivelmente denotando a ambição interior desse jovem obreiro com relação a ter um futuro promissor no ministério profético. No entanto, apesar de ser discípulo de um dos maiores profetas de Israel, a história bíblica registra o fracasso ministerial de Geazi. Os fatos registrados falam por si.

Em duas ocasiões distintas vemos a atuação ministerial de Geazi. A primeira vez que seu nome é citado é no episódio da Sunamita (II Rs 4.12,13), a qual proveu especial acomodação em sua casa para Eliseu. Por ordem de seu mestre, Geazi chamou a Sunamita para que ela pudesse ser recompensada pelo profeta por sua liberal hospitalidade; porém, ela não desejava recompensas por seu bondoso gesto. Eliseu então consulta o seu servo, cuja rápida percepção lhe permitiu indicar a seu mestre o presente que satisfaria o grande coração dessa mulher: um filho. Porém, por permissão de Deus, esse filho vem a falecer. Com isso, Sunamita buscou o homem de Deus no Carmelo e, na intensidade de sua dor, agarrou os pés do profeta. Geazi então tenta retirá-la (II Rs 4.27) e é repreendido por Eliseu. Assim que soube do falecimento da criança, Eliseu manda Geazi levar seu bordão e por no rosto do menino a fim de o ressuscitar. Geazi faz como Eliseu mandou, mas nada acontece; o menino continua jazendo morto em sua cama.  Somente por meio de Eliseu é que o menino de Sunamita retorna a vida.

A bem da verdade, nesse primeiro episódio, vemos a prontidão em obedecer por parte de Geazi. Tudo que Eliseu mandou Geazi fazer, isso ele fez. Infelizmente, ele não pôde realizar o milagre que Eliseu havia comissionado ele a fazer. Deus simplesmente não "assinou em baixo" dessa ordem de Eliseu para Geazi; afinal, Deus o conhecia de uma maneira que não era possível Eliseu conhecer. Ainda que nesse primeiro episódio a sua atitude de obedecer prontamente está correta e é algo a ser seguido, o problema com Geazi que não é mencionado aqui está em seu interior, no seu coração. É importante entendermos que Deus conhece o que vai no nosso interior, nossas reais motivações por detrás das nossas ações. Foi isso que O Senhor deixou claro para o profeta Samuel, quando o mesmo foi ungir um rei na casa de Jessé, o Beelemita, em substituição ao rei Saul: "Não atentes para a sua aparência, nem para a grandeza da sua estatura, porque o tenho rejeitado; porque o SENHOR não vê como vê o homem, pois o homem vê o que está diante dos olhos, porém o SENHOR olha para o coração." (I Sm 16.7) Deus estava olhando para o coração de Geazi - e não estava aprovando o que via!

O que Deus estava vendo, afinal, de ruim no coração de Geazi? Que pecado oculto havia ali, escondido nas profundezas da alma desse rapaz? Por certo, havia algo ali, fermentando, crescendo silenciosamente, de forma imperceptível aos olhos humanos. Eliseu não viu. Ele não podia ver, mesmo que quisesse. O coração humano é cheio de segredos, cheio de conflitos, cheio de mazelas. Há pecados e pecados. Há pecados que envolvem áreas de inviabilizam a aprovação, no exercício ministerial, por parte de Deus. Por favor, entenda o que eu quero dizer com isso: todos nós, seres humanos, somos pecadores; todos pecamos. O apóstolo João diz que "se dissermos que não temos pecado, enganamo-nos a nós mesmos, e não há verdade em nós" (I Jo 1.8), logo segue-se que todo e qualquer ser humano, por mais santificado e usado por Deus que seja, comete pecado. Vale dizer que apesar de cometermos pecado, nós não vivemos na prática do pecado - ou seja, o pecado não é nosso estilo de vida como crentes em Cristo. 

No entanto, há alguns pecados que inviabilizam o exercício do ministério cristão. Pecados que são capazes de destruir um ministério, de inutilizar um ministro de Cristo. Esses pecados aos quais me refiro envolvem as áreas do sexo, poder e dinheiro. A cada ano cresce o número de pastores que naufragam no ministério por causa da falta de vigilância e negligência com essas áreas. É fácil entender o porquê. Basta ver quantas das divisões e rachas que há na igreja evangélica foram (e são) motivadas pelo desejo de ter poder isolado e independente ("ministério independente")! Quantas mulheres, potencializadas pelo espírito de Jezabel, estão dominando, pelo uso do sexo, sobre igrejas inteiras sob a tolerância de pastores "Acabes"! Por amor ao dinheiro, quantos não estão mercadejando com a Palavra de Deus, com os padrões da retidão e os princípios do Reino de Deus, "flexibilizando-os" em prol de um crescimento quantitativo de membros e receitas, sujeitando vidas até mesmo a heresias destruidoras, a doutrinas de demônios! Sim, em muitos lugares o "ensino especial" é fornecido diretamente pelo inferno! Quantos obreiros caíram nesses pecados, se ensoberbecendo, com egos inflados e inflamados, sendo vítimas da própria vaidade ministerial, que tem levado muitos ao desprestígio e queda, diante de Deus, da  igreja e dos homens (Pv 16.18)! Caso se arrependam, Deus os perdoará; porém a consequência fica: nunca mais exercerão o ministério como fora antes da queda! Não é à toa que Paulo, exortando a Timóteo, disse-lhe: "conserva-te a ti mesmo puro" (I Tm 5.22b)!

Esse espírito de Jezabel é altamente manipulador, usando de malícia e sedução para fazer com que as pessoas (e igrejas) fiquem sob sua influência e controle. Em Apocalipse 2:20, Jesus reprova a Igreja de Tiatira por causa da tolerância com esse espírito: "Mas tenho contra ti que toleras Jezabel, mulher que se diz profetisa, ensinar e enganar os meus servos, para que se prostituam e comam dos sacrifícios da idolatria." Em  alguns  manuscritos gregos antigos aparece  a  palavra  grega  “SOU”  que significa “TUA”, antes da palavra “mulher” ficando assim o texto na sua íntegra: “Mas tenho contra ti (pastor) que toleras Jezabel, (tua mulher) que se diz profetisa”. O espírito de Jezabel atua por meio de manipulação, intimidação e domínio, fazendo uso de diversas estratégias para alcançar seus objetivos; dentre elas, o sexo. Por exemplo, no lar, o espírito de Jezabel controla o leito conjugal. A mulher influenciada por esse espírito manipula sexualmente o marido, concedendo sexo somente se ele fizer o que ela deseja sob ameaça de suspensão da intimidade sexual. Muitas vezes o espírito de Jezabel opera para destruir o sacerdócio, a auto-imagem, a alegria e o ministério do marido. Mulheres de temperamento forte ("mandonas") via de regra procuram se casar com homens de temperamento mais tranquilo ("bananas"). Na Igreja, é ela e não ele quem dá a direção. As “Jezabéis” sempre se casam com homens palermas como Acabe. Porém, esse espírito não opera apenas em mulheres casadas: é possível ser seduzido por ele independentemente do status conjugal!

Um ponto muito importante aqui, que é pouco explorado na bibliografia especializada, é que uma das formas mais comuns de manipulação usadas pelo espírito de Jezabel NÃO É O SEXO, mas sim A PROFECIA. E é aí que "o bicho pega": é muito mais fácil discernir um ataque satânico na área sexual do que na área espiritual! É possível alguém operar nos dons do Espírito Santo e não ter o caráter de Cristo, sendo influenciado pelo maligno espírito de Jezabel? SIM, É POSSÍVEL. Pessoas, dentro da Igreja, envolvidas com as obras da carne - em especial com aquelas que se referem a "separatismos e rachas", isto é, disputas, porfias, invejas, dissensões, facções e rebeliões - para subjugarem o pastor da igreja e alcançarem o "controle" buscam aparentar uma "espiritualidade superior à do pastor". E isso independentemente do sexo da pessoa: se é mulher ou homem, pouco importa! E, para isso, nada melhor do que "cultos avivados que ocorrem somente quando pastor não está presente", geralmente repletos de "profecias individualizadas" e "grande mover sobrenatural"! Some-se a isso a estratégia de ser "bonzinho com todos" (nunca corrigir ninguém, enquanto o pastor da Igreja é o "senhor malvadeza", "duro", "insensível"), "bom mocismo" com palavras/conselhos/pregações agradáveis ao coração dos ouvintes e pronto: Aí está estabelecido uma PORTA DO INFERNO, por onde entrará o espírito de Jezabel a fim de lutar contra a Igreja!

Toda a disputa de carisma é uma disputa satânica. Isso é um princípio satânico: o ex-querubim da guarda, achando-se maior do que Deus por ser muito belo (perfeito em formosura), muito inteligente e muito carismático (perfeito em sabedoria), semeou uma rebelião no lugar mais inacreditável possível - no céu! Conseguiu com isso arrastar com sua cauda a terça parte dos anjos consigo, condenando a si mesmo e a seus seguidores a uma existência de exclusão total da vida de Deus! De anjos de luz tornaram-se trevas totais, sem nenhuma fagulha de luz neles! Virou DIABO, SATANÁS, BELZEBU. Vou repetir: POR ACHAR-SE acima do que realmente era, TORNOU-SE quem é hoje! É uma tristeza quando um servo de Deus ACHA-SE alguma coisa, cheio de vaidades, porque quando isso acontece ele se põe debaixo desse princípio satânico! 


Deus, portanto, como disse, conhecia o coração de Geazi. E o que havia nesse coração, que inutilizava esse moço para o ministério profético? Na segunda aparição bíblica acerca da atuação ministerial de Geazi isso nos é revelado. No texto de II Reis 5:1-27 temos o relato de que um dia, um grupo de soldados e carruagens sírios apareceu na porta da casa de Eliseu. O líder dos soldados, Naamã, capitão do exército da Síria, estava doente de lepra. Ele estava ali, carregado de presentes (dez talentos de prata, seis mil siclos de ouro e dez mudas de roupas), para que Eliseu orasse a Deus e ele fosse curado. Depois que o Senhor provou a fé do capitão, o qual banhou-se num dos rios mais barrentos de Israel que é o Jordão por ordem de Eliseu, ele foi curado. Grato por sua cura, Naamã retorna a Eliseu e oferece a ele seus presentes. Eliseu, no entanto, recusa qualquer presente de Naamã. Ele diz: "Vive o SENHOR, em cuja presença estou, que não a aceitarei. E instou com ele para que a aceitasse, mas ele recusou." (v.16) Naamã, junto com sua comitiva, é despedido por Eliseu em paz, sem dele nada receber.

No entanto, a história bíblica prossegue. Na sua continuidade, lemos sobre o que fez Geazi: "Então Geazi, servo de Eliseu, homem de Deus, disse: Eis que meu senhor poupou a este sírio Naamã, não recebendo da sua mão alguma coisa do que trazia; porém, vive o SENHOR que hei de correr atrás dele, e receber dele alguma coisa. E foi Geazi a alcançar Naamã; e Naamã, vendo que corria atrás dele, desceu do carro a encontrá-lo, e disse-lhe: Vai tudo bem? E ele disse: Tudo vai bem; meu senhor me mandou dizer: Eis que agora mesmo vieram a mim dois jovens dos filhos dos profetas da montanha de Efraim; dá-lhes, pois, um talento de prata e duas mudas de roupas. E disse Naamã: Sê servido tomar dois talentos. E instou com ele, e amarrou dois talentos de prata em dois sacos, com duas mudas de roupas; e pô-los sobre dois dos seus servos, os quais os levaram diante dele. E, chegando ele a certa altura, tomou-os das suas mãos, e os depositou na casa; e despediu aqueles homens, e foram-se." (vv. 20-24)
 
Geazi seguiu os soldados e mentiu para eles dizendo que Eliseu tinha mudado de idéia na recusa dos presentes do capitão sírio. O capitão deu a Gehazi um pouco de prata e algumas roupas. Gehazi voltou para a casa e escondeu os presentes. Geazi MENTIU para o capitão, pois Eliseu não havia mudado de opinião com relação aos presentes nem mandado ele dizer coisa alguma e não havia vindo a ele nenhum filho de profeta da montanha de Efraim (nem de lugar algum). E porque Geazi mentiu? Porque ele COBIÇOU os presentes do sírio! Ele não concordou com a atitude de Eliseu em despedir o sírio em paz sem dele nada receber; ele queria algo para si. Geazi fez justamente aquilo que o apóstolo Paulo, escrevendo a Timóteo, diz que era costume de homens corruptos de entendimento: fazer da piedade fonte de lucro: "Contendas de homens corruptos de entendimento, e privados da verdade, cuidando que a piedade seja causa de ganho; aparta-te dos tais. Mas é grande ganho a piedade com contentamento. Porque nada trouxemos para este mundo, e manifesto é que nada podemos levar dele. Tendo, porém, sustento, e com que nos cobrirmos, estejamos com isso contentes." (I Tm 6.5-8) A piedade JAMAIS PODE SER USADA COMO FONTE DE LUCRO! A fé NÃO FOI "uma vez por todas entregue aos santos" para servir como fonte de lucro financeiro pessoal!

Isso é obra e doutrina de Balaão, que aceitou grana para usar seu dom a fim de amaldiçoar Israel. Balaão não tinha qualquer respeito por Israel, não estava nem aí para quem Israel era e o que representava para Deus. Ele só estava interessado na grana que iria ganhar de Balaque, filho de Zipor, rei dos moabitas, prometida em troca de seus "serviços espirituais". Nosso Senhor falou claramente à Igreja de Pérgamo, que habitava onde estava o trono de Satanás, que tinha contra ela que alguns ali eram seguidores da doutrina de Balaão (Ap 2.14). Era isso que Deus havia visto no coração de Geazi, que havia impossibilitado esse rapaz de curar o filho da Sunamita; que impediria ele de vir a ser, um dia, o substituto de Eliseu no ministério profético! DEUS NÃO ACEITA MINISTRO CORRUPTO! O MINISTÉRIO DE DEUS É COISA SERÍSSIMA, DE ALTÍSSIMA GRAVIDADE!

Hoje, há muita gente vivendo, ensinando e seguindo a doutrina de Balaão dentro da Igreja! Muita gente usando o dom e o ministério para fins corruptos, para alcançarem posses e posições nesse mundo! Gente que não respeita Deus, que não honra a Cristo e nem o chamado para o santo ministério! Gente que vende a fé, que vende a cura, que vende o dom, que vende a mensagem; GENTE VENDIDA! MERCENÁRIOS! Gente que tiraria até o último centavo de Naamã e ainda faria campanha para ele continuar vindo e trazendo mais grana! Gente que quer poder para ter grana e com isso ter mais poder e mais grana ainda! Enfiados até a cabeça na lama podre da política, mendigando uma indicação política para cargo público! Não vêem o mal que estão causando a si mesmos, aos outros e a Igreja? Não percebem o desserviço que estão prestando à causa de Cristo? William Perkins, puritano inglês do séc. XVI, afirmou que a pregação é “o principal dever de um ministro”, porque “a pregação é o chamariz da alma, pelo qual a mente dos homens é abrandada e transportada de uma vida ímpia para a fé e o arrependimento evangélicos. Portanto, se inquirirem qual é, de todos os dons, o mais excelente, sem dúvida a honra recai sobre a pregação”. Pregação, não sórdido lucro financeiro! Não poder político! Não vender a primogenitura por um prato de lentilhas! Perkins, comentando sobre a vocação ministerial com base no chamado de Isaías (6:9), disse:

“Todos os verdadeiros ministros, especialmente aqueles comissionados para pregar tão importantes palavras na sua igreja, devem, antes de qualquer coisa, ser marcados por um grande senso de temor, pela consciência da magnitude da sua função – um senso de assombro e espanto, cheio de admiração pela glória e grandeza de Deus. Eles O representam e trazem a mensagem dele. Quanto mais temerosos e relutantes estiverem diante da contemplação da majestade de Deus e da fraqueza deles, mais provável é que sejam verdadeiramente chamados por Deus e designados para propósitos elevados na sua igreja. Qualquer um que ingresse nessa função sem temor, a si mesmo se oferece, mas é duvidoso que seja chamado por Deus como o profeta Isaías claramente foi... Sempre que Deus chama quaisquer de seus servos para qualquer grande obra, ele primeiro os conduz a este senso de temor e assombro”. Por isso: “Ele mesmo [o ministro] deve primeiramente ser inclinado à santidade se quer estimular inclinações santas em outros homens”.
(Fonte: http://www.ministeriofiel.com.br/artigos/detalhes/151/William_Perkins_e_a_pregacao_no_movimento_puritano. Acesso: 06/07/2017).


O que aconteceu com Geazi? O texto bíblico mostra o fim da carreira ministerial dele: "Então ele entrou, e pôs-se diante de seu senhor. E disse-lhe Eliseu: Donde vens, Geazi? E disse: Teu servo não foi nem a uma nem a outra parte. Porém ele lhe disse: Porventura não foi contigo o meu coração, quando aquele homem voltou do seu carro a encontrar-te? Era a ocasião para receberes prata, e para tomares roupas, olivais e vinhas, ovelhas e bois, servos e servas? Portanto a lepra de Naamã se pegará a ti e à tua descendência para sempre. Então saiu de diante dele leproso, branco como a neve." (vv. 25-27) Geazi tornou-se LEPROSO e trouxe LEPRA para sua descendência para sempre! LEPROSO ATÉ O ÚLTIMO DIA DE SUA VIDA, SEM NENHUMA CHANCE DE CURA! Não havia nada que Eliseu pudesse fazer por ele agora, exceto deixá-lo experimentar o castigo pelo que ele havia feito. Os planos de Geazi para si mesmo - e talvez para a sua família -  foram arruinados por sua ganância. Agora, ele e sua família sempre conheceriam o castigo de Deus pela ganância. O ministério, para Geazi, se tornou inalcançável; não havia nenhuma chance desse rapaz poder ser usado na obra do ministério! Era o fim das expectativas de Geazi em um dia suceder Eliseu no ministério profético! Um profeta do Senhor jamais poderia ou pode ser leproso!

Gostaria de destacar isso: GEAZI TORNOU-SE INÚTIL PARA O SANTO MINISTÉRIO, ALGO SEM REMÉDIO, SEM ARREPENDIMENTO, SEM CONSERTO. Ministros, atenção! Atenção! Há pecados que podem tornar um ministro para sempre inútil para o ministério! Os inutilizados podem até continuar aparentemente exercendo o ministério; podem continuar pregando, batizando, orando por enfermos, etc. Os homens podem aprová-lo, porém a reprovação DA PARTE DE DEUS está dada! Uma vez que a primogenitura foi vendida, nem com lágrimas você a recupera de novo (Hb 12.16,17)! Esaú bem que tentou, mas não conseguiu; foi cortado da herança dos filhos de Israel, perdendo a bênção de ser da genealogia do Messias! O que Geazi fez chama-se PROFANAÇÃO! Chama-se SACRILÉGIO! Deus não aceita desvirtuamento do Ministério; não trate o Ministério como algo sem importância - isso é também profanação ! Uzias acabou incorrendo no mesmíssimo castigo de lepra até a morte porque profanou o ministério no templo (II Cr 26.16-21) oferecendo incenso diante de Deus o que não era lícito que ele fizesse. Diz o texto que Uzias foi "excluído da casa do SENHOR". Judas é outro exemplo emblemático das consequências de incorrer no pecado tratar o ministério sem o devido peso que lhe é próprio, a fazer da piedade fonte de lucro. Judas queria lucrar estando ao lado de Jesus; queria ganhar grana pesada quando, na concepção dele, Jesus assumisse a função de rei de Israel como descendente de Davi. Judas não enxergava nada além dos ganhos exponenciais que poderia ter com aquilo tudo. Por isso, Judas entrou para a história como o único apóstolo de Cristo que perdeu-se para sempre! Apóstolo suicida! Maldito para sempre! Traidor de Jesus! E infelizmente tem muita gente traindo Jesus e o ministério por aí...

Geazi, Esaú, Saul, Uzias, Acabe, Judas, Demas e muitos outros... todos, de um jeito ou outro, profanaram seus ministérios e acabaram cortados, para sempre, dos mesmos. Todos foram rejeitados por Deus. Inutilizados para sempre, ministerialmente falando; alguns, até mesmo perdidos eternamente como Judas. Sexo, poder, dinheiro, fama, política..., no fim, tudo inútil. Tudo vão. Somente destruição, somente perda, somente fracasso. Vidas perdidas, esperanças frustradas, ministérios destruídos, ministros inutilizados, igrejas apóstatas. Heresias destruidoras. Engano. Decepção. Tristeza. Morte.

Deus há de cobrar cada vida salva que se perdeu pelo mau exercício do ministério cristão. Jesus pagou um alto preço por elas e não vai ficar passivo, nem fazer vista grossa, diante da pouca vergonha e da ausência de temor do Seu Santo Nome e Pessoa pelos ditos ministros. O juízo vem, quer para a Igreja quer para o mundo. E ambos serão terríveis!   

Pense nisso. Deus está te dando visão de águia!

segunda-feira, 26 de junho de 2017

ILUMINAÇÃO DA VERDADE BÍBLICA: GERANDO CONHECIMENTO E COMPORTAMENTO DIGNOS DE UM VERDADEIRO CRISTÃO

"Para que o Deus de nosso Senhor Jesus Cristo, o Pai da glória, vos dê em seu conhecimento o espírito de sabedoria e de revelação." (Ef 1.17)

Conhecimento, do grego epignosis, está ligado a precisão e correção (acerto). O termo aparece 62 vezes no Novo Testamento. Referindo-se ao termo grego, o Vines' Expository Dictionary of New Testament Words, explica que o mesmo "denota conhecimento exato ou pleno, discernimento, reconhecimento e expressa um conhecimento completo, uma participação maior do conhecedor no objeto conhecido, influenciando-o mais fortemente". O autor da obra supra explica adicionalmente que o termo derivado, epignosko, "denota observar, perceber completamente, notar atentamente, discernir, reconhecer e sugere geralmente uma diretiva; também pode sugerir "conhecimento" avançado ou apreciação especial. Epiginosko enfatiza a participação na verdade conhecida". Assim, epignosis está relacionado com sabedoria, entendimento e percepção. Nas passagens do Novo Testamento onde aparece esse termo (Cl 1.9,10; 2.2; 3.10; Ef 4.23; Fl 6; Fp 1.9; , o objeto da epignose é Deus, a vontade de Deus, o mistério de Deus, o Filho de Deus, ou "todo bem em Cristo".

Quando examinamos as pastorais, no entanto, o termo epignosis está ligado tanto à verdade quanto à conversão. Em 1 Tm 2.4, Deus deseja que todos os homens sejam salvos e cheguem ao conhecimento da verdade. Em 2 Timóteo 2.25, Deus pode conceder o arrependimento no "conhecimento" da verdade;  em 3: 7, os falsos mestres já aprenderam, mas nunca chegam ao "conhecimento" da verdade. Em Tito 1.1, Paulo é um servo de acordo com a fé dos eleitos de Deus e o "conhecimento" da verdade. Portanto, o termo epignose, em todas as quatro ocorrências, tem "verdade" como o seu objeto e que as quatro passagens associam a palavra com o próprio evento de conversão. Por razões de conveniência, podemos colocar a única ocorrência em Hebreus (10: 26) neste mesmo grupo, já que também temos o "conhecimento" da verdade intimamente associada à conversão.  

Em 2 Pedro 1:2,  Pedro ora para que a graça e a paz se multipliquem aos seus leitores no "conhecimento" de Deus. Em 1:3, vemos que Cristo concedeu livremente todas as coisas necessárias para a vida espiritual e piedade através do "conhecimento" daquele que nos chamou; em 1:8, somos exortados a evitarmos ser estéreis ou infrutíferos em relação ao "conhecimento" de Cristo; e finalmente em 2:20, é feita referência aos que escaparam das impurezas do mundo por meio do "conhecimento" de Cristo. Todos os quatro usos têm Deus ou Cristo como o objeto deste conhecimento, e todos parecem - pelo menos à primeira vista - focar na experiência de conversão.

Ter "conhecimento" (epignosis) resulta em um comportamento e estilo de vida que agradam e honram o evangelho de Paulo (Cl 3.1-4: 6), ou seja, Cristo como Cabeça de Seu Corpo. Cada item que Paulo menciona neste texto está no contexto da epignose:
  • Evitar a fornicação, a impureza, etc. (v. 5,6) é uma conseqüência necessária da epignose.
  • Despojar-se da raiva, ira, malícia, etc. (vv. 8,9) é uma conseqüência necessária da epignose.
  • A mansidão, a humildade de mente, a tolerância com cada um, etc. (vv.12-14) são uma conseqüência necessária da epignose.
  • Ensinar e admoestar (a si mesmo e a outros) através de salmos, hinos e cânticos espirituais (vs.16) é uma consequência necessária da epignose.
  • Esposas que submetem-se aos seus maridos, maridos que amam suas esposas, filhos que obedecem aos seus pais, os servos que obedecem aos seus mestres, os mestres que tratam corretamente seus servos (v. 18-4: 1) são uma conseqüência necessária da epignose.
  • Pregar o evangelho de Paulo (o Mistério) é uma conseqüência necessária da epignose.
Note que, portanto, o "conhecimento" ao qual o Novo Testamento se refere gera, obrigatoriamente, uma transformação de comportamento, mudando e moldando a forma de agir conforme esse conhecimento. O fato de se adquirir este "conhecimento" que os apóstolos mencionam gera na vida pessoal uma mudança de ordem prática, ou seja, passamos a agir conforme o conhecimento recebido. Epignose é, portanto, infinitamente superior ao conhecimento puramente teórico, especulativo, esotérico, gnóstico que havia nos dias de Paulo. Epignose refere-se ao conhecimento exato, completo, exato e experimental, não apenas o conhecimento abstrato, intelectual, principal sobre Deus ou mesmo dos fatos sobre Ele. A epignose sempre descreve, no Novo Testamento, o conhecimento moral e ético ligado indissoluvelmente à fé e, em especial, àquele que se refere ao conhecimento completo e abrangente da vontade de Deus que se baseia no conhecimento de Deus e de Cristo encontrado em Sua Palavra.

Novamente, conhecimento ou epignose é conhecimento completo, perfeito e preciso em oposição ao conhecimento parcial, imperfeito e parcial. "Epígnōsis" envolve a apropriação completa de toda a verdade e a aquiescência sem reservas na vontade de Deus; esse é o objetivo e a coroa do crente. O conhecimento do Senhor Jesus que o crente possui, portanto, não é um mero conhecimento intelectual dos fatos relativos a Ele, adquirido por um estudo dos Evangelhos, por exemplo, mas uma experiência de coração do que e quem Ele é adquirido por esse estudo mais a associação pessoal com Ele através da Palavra e do ministério do Espírito Santo. É uma pessoa com conhecimento pessoal através de uma relação de intimidade e comunhão. 

Esta é a verdadeira razão pela qual cada crente em Cristo deve buscar conhecer o Seu Senhor, bem como a fé que professa: para cada vez poder vivê-la mais e mais segundo a Vontade de Cristo e para poder, cada vez mais, ter comunhão com o Senhor. Por isso é que Oséias, no Velho Testamento, diz que o povo era destruído porque lhe faltava o conhecimento. Não era uma mera deficiência intelectual, mas sim um problema muito sério de ignorar, na prática, a Vontade de Deus para eles! Não adianta termos muito conhecimento teórico sobre os fatos bíblicos; isso é, por certo importante, mas sem uma vida de comunhão com Deus que me leve a prática do que já aprendi todo conhecimento é inútil para mim. Noutras palavras, conhecimento no Novo Testamento nada tem a ver com academicismo filosófico-especulativo, mas sim com vida, com prática, com experiência real daquilo que se conhece!  É óbvio que, para quem pratica a Palavra que aprende e por meio dela (da Palavra) busca ter comunhão com o Senhor quererá aprender ainda mais! Quanto mais tenho de Deus e de Sua Palavra mais quero ter! 

O crente em Cristo Jesus tem, assim, duas grandes responsabilidades em termos do conhecimento e do comportamento cristãos. A primeira responsabilidade é a de se andar na luz que possui: "Mas, naquilo a que já chegamos, andemos segundo a mesma regra, e sintamos o mesmo." (Fp 3.16) Aquilo que eu já conheço, que eu já entendendo como sendo a Vontade de Deus, devo me submeter e obedecer. Nosso Senhor e Salvador nos disse que Seu Espírito Santo, o Espírito de Verdade, nos guiaria em toda a Verdade e nós, como crentes, devemos obrigatoriamente viver segundo a Verdade na qual o Espírito está nos conduzindo. Esse é o nosso padrão de vida, portanto; não é lícito viver abaixo desse padrão.

Porém, a nossa jornada com o Espírito de Verdade é uma jornada na luz e em direção à luz, sempre! Isso já fora dito no Antigo Testamento: "Mas a vereda dos justos é como a luz da aurora, que vai brilhando mais e mais até ser dia perfeito." (Pv 4.18) Há, portanto, um gradiente de intensidade luminosa que aumenta em direção à estatura de Cristo. No mundo, em trevas; em Cristo, na luz. A medida que vou me aproximando da estatura de varão perfeito, à medida da estatura completa de Cristo (Ef 4.13), mais luz eu tenho sobre a Verdade de Deus. Noutras palavras, a intensidade de luz na vida do crente é sempre algo crescente (nunca estacionário ou decrescente). Como a luz aumenta? Com o caminhar na Verdade que Espírito de Verdade ensina e orienta a viver. O próprio Espírito de Verdade se encarrega de aumentar a Verdade (luz) diante do nosso entendimento, por meio da iluminação bíblica. Iluminação é a capacidade que Deus nos dá, por meio do Espírito Santo, no entendimento das Escrituras (I Co 2.12). O Espírito ilumina as Escrituras e então (e só então) nós enxergamos a Verdade que Ele ilumina. O propósito do Espírito de Deus é, por assim dizer, duplo: Iluminar a Verdade e Guiar na Verdade Iluminada.  Ele faz isso utilizando-se dos dons e ministérios de ensino em Sua Igreja, dos Mestres.

Porque a jornada do cristão rumo a Cristo deve ser algo crescente, mais e mais luz vai sendo posta pelo Espírito Santo sobre as Escrituras, de forma que entendamos qual é a Vontade de Deus para nossas vidas como filhos da luz. Todo aquele que tem interesse em ser um cristão cada vez mais semelhante a Cristo precisa desejar e se submeter a esse processo, nunca se conformando passivamente com a quantidade de luz que possui mas sempre desejando crescer na graça e no conhecimento de nosso Senhor e Salvador, Jesus Cristo (II Pe 3.18). Onde se dá isso? No Corpo de Cristo, na Igreja do Deus Vivo, que é coluna e baluarte da Verdade (I Tm 3.15). Batismo no Corpo e vida de comunhão são essenciais ao correto crescimento na fé, porque é no Corpo onde podemos receber ensino dos Mestres, dons de Cristo instituídos para levar a Igreja cada vez mais ao Senhor. Crente fora da Igreja ou que faz da Igreja um simples programa dominical e não algo vital para sua fé, corre sério risco de cair em ventos de doutrina e de acabar seguindo doutrinas de demônios.

Por outro lado, Igreja que não prioriza o ensino da Palavra de Deus, não está cumprindo o seu papel na terra de fazer discípulos para Cristo. Shows da fé, entretenimento gospel ("boate cristã", baladas, funk gospel, marcha para Gizus, etc), terapia erótico-sexual ("sex-shop gospel", "revolução sexual cristã", "filme pornô consagrado", etc), culto da "santa moedinha número 1" ("prosperidade satanalógica", etc)... nada disso funciona efetivamente para gerar Cristo na vida do homem (e nem cristão isso pode se chamar, diga-se de passagem). Toda verdadeira Igreja de Cristo se submete ao Espírito Santo e é por Ele ensinada; é uma Igreja que ama a Palavra de Deus e a tem em máxima posição no culto/serviço cristão e a aplica para formação de vidas em Cristo. Igreja que não ama a Palavra de Deus deixou de ser (ou nunca foi) Igreja; é ajuntamento de gente para qualquer propósito, menos para a prática do verdadeiro cristianismo bíblico.

Concluindo: há uma obra espiritual sendo realizada pelo Espírito da Verdade - o Espírito Santo - levando todo genuíno cristão a crescer na graça e no conhecimento de Cristo Jesus. Essa Obra do Senhor encontra necessariamente eco em nosso coração - todo aquele que verdadeiramente nasceu de novo anseia crescer até ser adulto perfeito. Nenhuma criança quer ser criança para sempre, e a cura da meninice espiritual está justamente na ação do Espírito Santo em nossas vidas nos guiando a toda a Verdade de Deus, gerando passo-a-passo em nós a perfeita varonilidade de Cristo. "Pai, quero crescer na fé, quero ser como meu Senhor!" esse é o clamor do coração de todo verdadeiro filho e verdadeira filha de Deus. Quando mais crescemos na Verdade, menos carnais vamos nos tornando; mais separados do mundo e unidos ao Senhor (ou seja, mais santificados passamos a ser). Que a beleza de Cristo se veja em mim, como diz o antigo corinho:

Que a beleza de Cristo se veja em mim 
Toda sua admirável pureza e amor 
Ó Tu, Chama Divina 
Todo meu ser refina 
Té que a beleza de Cristo se veja em mim

Viver para Cristo, amado(a) leitor(a), é permitir que Cristo viva em mim. E, para isso, nós precisamos obrigatoriamente conhecermos e interiorizarmos Sua Verdade em nosso viver cotidiano. Desejemos mais do Senhor Jesus, mais de Sua Verdade em nós! Ele mesmo disse "eu Sou a Verdade", portanto, quanto mais a Verdade eu conhecer e viver, mas Dele terei em mim! O Senhor nos ama; sabedor da nossa realidade nos deu homens-dons, Mestres, para nos ensinar a Palavra de Deus; Pastores, para guiar-nos na jornada cristã; Evangelistas, para ensinar-nos a expressar a vida de Cristo que é gerada em nós a fim de fazer novos discípulos; Profetas, para nos edificar, exortar e consolar e Apóstolos, para fazer de nós edifícios-vivos, habitação de Deus. E isso tudo está em operação no Corpo de Cristo, na Igreja (nunca fora dela).

Pense nisso. Deus está te dando visão de águia!

quarta-feira, 26 de abril de 2017

DOMINANDO OU SENDO EXEMPLO? APASCENTANDO A HERANÇA DE DEUS SEGUNDO A VONTADE DE DEUS

"AOS presbíteros, que estão entre vós, admoesto eu, que sou também presbítero com eles, e testemunha das aflições de Cristo, e participante da glória que se há de revelar: Apascentai o rebanho de Deus, que está entre vós, tendo cuidado dele, não por força, mas voluntariamente; nem por torpe ganância, mas de ânimo pronto; Nem como tendo domínio sobre a herança de Deus, mas servindo de exemplo ao rebanho." (I Pe 5.2,3)

Apascentai o rebanho de Deus que está entre vós... tendo cuidado dele... não como tendo domínio sobre a herança de Deus... Domínio sobre a herança de Deus, dominadores da herança. Dominador, do grego katakurieuo, significa "controlar, subjugar - exercer domínio sobre (senhorio), ser senhor, vencer". katakurieuo significa exatamente ter domínio sobre alguém, ter alguém sujeito à sua autoridade máxima. Pelo significado do termo, fica muito claro o que Pedro está ensinando: nenhum presbítero pode subjugar a herança de Deus como se dela fosse senhor, porque só há um Senhor e Cristo. Ou seja, há um limite no exercício da autoridade espiritual, concedida por Deus aos homens que Ele escolhe, para governo do Seu povo. Esse limite é o próprio senhorio de Cristo, tanto sobre Seus presbíteros, como sobre Seu povo. Note o pronome possessivo: Do Senhor é unicamente a possessão do Seu povo; portanto nenhuma liderança deve ser exercida como se o outro fosse "propriedade pessoal".  O foco do exercício da autoridade é povo de Deus; isto é, a autoridade é delegada por Deus para benefício do povo de Deus. 

Vivemos uma época onde o exercício da autoridade como benefício de outrem tornou-se algo difícil de se encontrar, tanto no mundo, quanto na Igreja. O que se vê, hoje, é o exercício da autoridade para benefício próprio, segundo seus próprios interesses egoístas, o autoritarismo. No autoritarismo, também conhecido como autocracia, cesarismo, despotismo, ditadura, opressão, prepotência e tirania, o poder (ou autoridade) é exercido sem partilha com outros, sendo impondo de forma arbitrária e tiranicamente. No séc. XVII, vê-se o grande paradigma dessa forma de governo, com a monarquia absolutista de Luís XIV de França, que se considerava designado por Deus para governar os outros homens. Sobre esse rei, é dito que referiu-se ao seu chanceler, dizendo: “Senhor, eu lhe pedi que se reunisse com meus ministros e secretários de Estado para dizer que até agora eu deixei o falecido senhor cardeal conduzir os assuntos de Estado; já é hora que eu próprio governe. Vocês me auxiliarão com seus conselhos, quando eu lhes pedir.” 

No mundo, há um verdadeiro reavivamento da ditadura e tirania. Parcialmente devido à insatisfação com os resultados que a democracia e liberdade produziram - corrupção de entes públicos, malversação de erário, insuficiência e ineficiência nos serviços mais básicos (segurança, saúde, educação, saneamento básico, etc), as pessoas tem se voltado para lideranças radicais, tirânicas. É o caso dos Estados Unidos, com a eleição de Donald Trump, chamado pelo bilionário George Soros e pela mídia de "aprendiz de ditador" (http://alias.estadao.com.br/noticias/geral,o-lado-ainda-mais-sombrio-de-donald-trump-se-comporta-como-ditador-diz-biografo-do-magnata,10000076546. Acesso: 25/04/2017). A eleição de Trump justifica-se na insatisfação da população americana com a condução da política interna e externa do governo anterior, especialmente por parte das classes que se viram prejudicadas pelas mesmas. Por seu turno, a disputa presidencial na França envolve uma candidata com propostas radicais que defendem o patriotismo econômico francês. Na Coréia do Norte, o ditador Kim Jong-un ocupa o poder absoluto há décadas. Este sujeito desvairado delibera até sobre o corte de cabelo dos universitários: todos os universitários do país devem manter o mesmo corte e estilo de cabelo que o dele! (http://odia.ig.com.br/noticia/mundoeciencia/2015-05-13/conheca-10-fatos-bizarros-e-curiosos-sobre-o-ditador-kim-jong-un.html. Acesso: 26/04/2017)

No Brasil, não está sendo diferente. Após 13 anos de governo de candidatos eleitos filiados ao PT (Partido dos Trabalhadores), o que se vê hoje é um caos na esfera político-econômica: literalmente, não há uma esfera de governo que não possua a podridão da corrupção; o país foi saqueado por ladrões que hoje são alvo da operação de combate a corrupção e lavagem de dinheiro conhecida como "Lava-Jato", nome oriundo do uso de uma rede de postos de combustíveis e lava a jato de automóveis para movimentar recursos ilícitos pertencentes a uma das organizações criminosas inicialmente investigadas (http://lavajato.mpf.mp.br/lavajato/index.html), a maior operação que o Brasil - e talvez o mundo - já tenha visto. Dezenas de políticos envolvidos, dos mais diversos escalões, além de funcionários estatais.  Ressalte-se que os políticos envolvidos nessa operação representam quase a totalidade dos partidos políticos - esquerda, direita, alto, baixo, centro... dezenas de envolvidos, que parasitaram a Petrobrás, com seus apadrinhados ocupando cargos de direção e assim facilitando a ladroagem.

Infelizmente, nenhuma instituição pública, quer municipal, estadual ou federal, no Brasil, é ilesa ao apadrinhamento político, ao loteamento de cargos de chefia (DAS - cargos de Direção e Assessoramento Superior, cargos de confiança no setor público, a maioria ocupados por pessoas que não prestaram concurso para entrar no serviço público) para serem ocupados por ineptos, que nada entendem do métier, e/ou mal-intencionados, que só visam se locupletarem, o que tem resultado em inúmeros prejuízos os quais levarão décadas para serem reparados. Tribute-se a isso o fato de muitos órgãos públicos brasileiros não funcionarem ou não funcionarem como deveriam (respeitando os princípios da eficiência, eficácia e efetividade, da impessoalidade e moralidade, legalidade, publicidade, igualdade, etc). Essa "praga" de apadrinhamento político em cargos DAS, com seus favores recíprocos, precisa ter fim! 

No RJ, o assalto ao erário aliado a políticas públicas imbecis ou inexistentes resultou no não-pagamento de salários aos funcionários públicos estaduais por MESES A FIO (o mesmo ocorreu em outros estados brasileiros), constituindo-se num prejuízo irreparável (porque salários podem ser pagos, mas a dignidade dos servidores não tem preço). Isso sem mencionar a safadeza dessa quadrilha, liderada por gestores públicos (sic) fanfarrões que arrotavam austeridade, que desviou ao longo de 12 anos cerca de 300 milhões de reais de recursos públicos destinados a hospitais públicos, em compras internacionais de equipamentos médicos de alta complexidade, como macas elétricas, monitores transcutâneos, aparelhos cirúrgicos e unidade móveis de saúde. E a cifra pode ser ainda maior, dependendo dos achados da investigação em curso. Ao mesmo tempo, nas ruas e becos, os crimes e a violência só fazem aumentar, cobrando da sociedade o seu preço: dezenas de policiais mortos, centenas de vítimas entre a população civil de bem.

O fato é que por essas e outras, muitos brasileiros passaram a apoiar políticos brasileiros extremamente radicais para ocupar o cargo de presidente da república. Há, infelizmente, aqueles que ainda defendem esses picaretas. República e ditadura, antagônicos entre si. Ladrões ou ditadores no poder, dura escolha. "Volte a ditadura! Volte o governo militar!", é o grito - contido ou incontido, aberto ou silencioso, cada vez mais intenso, de muitos e muitos brasileiros, para que os militares voltem a ocupar a presidência do país como deu-se em 1964.

Tristemente, a Igreja não está imune a ter radicais e ditadores no poder. Surgiram vários homens e mulheres que foram elevados a liderança eclesiástica que entendem a igreja como sua propriedade particular.  Donos de Igreja! Mesmo líderes que anteriormente valorizavam a liberdade em Cristo, que discutiam suas idéias com seus pares em reuniões de liderança, hoje sucumbiram ao mandonismo e autoritarismo se isolando cada vez mais no poder. O que as leva a terem tendência para atitudes de controle de tudo e de todos, passando por cima de pessoas, de sentimentos dos outros, impacientes, facilmente irritáveis? Acredito que esses irmãos e irmãs não fazem isso por mal; creio que muitos o fazem pelo desejo de ver o avançar da obra de Deus. Outros, talvez, o façam por insegurança interior;  no fundo, se sentem frágeis e vulneráveis, dependentes, que tentam esconder sua fragilidade através desta maneira agressiva de agir, de falar, de se dirigir a outro ser humano. Outros, talvez, por opressão - espiritual, econômica, religiosa, política, familiar... Talvez seus sofrimentos no passado tenham produzido esta maneira agressiva de viver.  Para se defender, atacam. Ou, com medo de serem machucadas, reagem agressivamente. Seu comportamento parece ser ao mesmo tempo uma defesa e um ataque. É provável que todas as decepções que viveram, todos os fracassos pessoais e ministeriais, aliado à um ego imenso (que não consegue "digerir" o fracasso interiormente, especialmente diante do sucesso de outros aos quais julga menos capazes e inferiores a si mesmo), acabaram conformando-a como uma pessoa mandona. 

O primeiro problema dessa postura mandona e autoritária é que ela é centrada no eu. Uma atitude centrada no eu despreza aqueles que estão caminhando juntos da pessoa, às vezes até por anos a fio. Para aquele cuja atitude centra-se no eu, são irrelevantes os desejos, sonhos, aspirações, emoções e personalidade das outras pessoas, não importando se o outro que está ali na frente é sensível, frágil, simpático, bondoso, etc. Ele magoa, fere, machuca, humilha e destrata. 

Líderes "autocráticos" vivem criando "inimigos" para si: são os "rebeldes e insubmissos". De tempos em tempos, ela precisará eleger um novo inimigo; este geralmente é alguém que ela passa a enxergar como uma ameaça para si, alguém que tende a não aceitar tacitamente os mandonismos e decisões isoladas do líder como se fossem "direção de Deus", inerrantes e perfeitas. Sim, infelizmente esses líderes se vêem como inerrantes, incapazes de se enganarem, de discernirem errado. Uma espécie de Moisés do Novo Testamento, que fala com Deus face-a-face enquanto os demais não passam de carnais e insensíveis. O pior é que esses líderes tendem a verem-se exatamente assim! Daí, entendem que todo o "resto" só tem direito de obedecerem sem questionar "a voz do grande líder"; se assim fizerem, caem nas graças; se não o fizerem, são taxados como rebeldes e problemáticos, entraves ao crescimento da Obra, "Corés, Datãs e Abirãos" dos tempos modernos, “fora da visão do reino”. Nada que o líder faça ou fale é passível de discussão; não se planeja em conjunto, não se analisa coletivamente, mesmo quando há uma reunião coletiva para isso. Por quê? Porque esse tipo de líder, mandão e autoritário, gera medo nas pessoas. As pessoas passam a ter medo de falar, medo de se expressarem, medo de questionarem, medo de serem elas mesmas. Tem medo de ouvirem esporro do líder - porque o mesmo, infelizmente, só sabe lidar assim com os outros a quem considera "inferiores"; daí, preferem o silêncio e a omissão. Reprimem-se. Anulam-se. E assim, desagradando e violentando-se a si mesmas, "agradam" ao líder. Ora, afinal ele(a) é o(a) lider; o(a) ungido(a) do Senhor, uma espécie de papa evangélico inerrante e inquestionável!   

O segundo problema dessa postura autocrática é que ela está radicalmente contra o que ensina o Novo Testamento, em especial sobre as relações entre lideranças e igreja. Não vemos um único líder tomando decisões, de forma opressora ou dominadora, enquanto outros apenas acatam "de bico fechado". Vemos um colegiado de líderes que buscam orientar a igreja e exercer governo sobre ela sem no entanto serem kyrios, senhores, sobre ela.  Ao contrário: mesmo diante da mais complicada igreja do Novo Testamento - a Igreja de Corinto - o apóstolo Paulo procura ensiná-la sem oprimi-la (p.ex. I Co caps. 4, 9, etc).  Em Atos, lemos que os irmãos buscavam sempre o consenso naquilo que tencionavam fazer - entre si e com Deus (Atos 15). Ora, a lógica é simples: se a Congregação escolheu eleger mais de um presbítero, então esses presbíteros, aos quais cabe o governo e instrução da igreja, devem poder se pronunciar sobre estas questões de interesse da igreja sem medo ou opressões. A decisão para todos deve ser tomada por consenso - pois se destina a ser aplicada por todos - especialmente em casos que envolvem a direção ou tomada de postura daquela igreja. Não pode haver receio de debater idéias, direções ou posicionamentos para toda a coletividade; a omissão não pode ser uma opção. Mas, para isso, é preciso haver espaço, é preciso haver todo um clima de confiança e respeito, num ambiente que inspire segurança para cada presbítero emitir seu parecer. O processo que parece ser mais bíblico é: (1) buscar consenso entre os presbíteros; (2) presbíteros em consenso buscarem consenso com Deus e (3) levar Assembléia, para implementação. É obrigatório buscar confirmação de Deus, especialmente para as grandes decisões.

A igreja primitiva tinha governo; não tinha uma única figura humana com o direito de dar a palavra final. Encontramos pluralidade em todos os níveis de governo da igreja, pois o único “cabeça” ou autoridade final era Jesus. As igrejas dos apóstolos, como por exemplo, a de Éfeso, foram originalmente lideradas por um colégio de presbíteros, ou anciãos. Embora os membros desse colégio diferissem em sua maturidade e autoridade, e em suas habilidades para servir, não se fazia entre eles nenhuma distinção oficial. Havia uma relação de igualdade fraternal. Conforme o padrão bíblico, os presbíteros são supervisores-servos.  O ministério de presbítero é sempre colegial. Nunca se é presbítero sozinho, mas num presbitério. O ministério ordenado tem uma radical forma comunitária e pode apenas ser assumida como obra coletiva.  Constata-se cada vez mais que não se pode agir isoladamente, pois os desafios são imensos e seria pretensão querer agir sozinho. 

Este colégio de presbíteros pode e deve ter uma liderança, um presbítero sênior, a quem caberá orientar os demais presbíteros nos interesses da Obra de Deus a fim de que não percam o foco naquilo que é principal. Porém, ressalte-se que este presbítero sênior não é inerrante, infalível, secretário de Deus ou coisa que o valha; muito menos é dominador da herança de Deus.  Segundo o Pr. Geremias do Couto, presbíteros "não são pequenos deuses para ser glorificados pelos homens. São modelos, inclusive na fraqueza, para que possam pelo exemplo mostrar aos que lideram, no mesmo nível, que só pela graça - unicamente e apenas pela graça - sem qualquer outro privilégio, podem superar as falhas e buscar a santificação, sem a qual ninguém verá o Senhor. E aí todos saberão que ninguém é melhor do que ninguém ou ocupa lugar especial à direita ou a esquerda do trono de Deus." (http://geremiasdocouto.blogspot.com.br/2010/11/lideres-nao-sao-maiores-do-que-graca-de.html. Acesso: 26/04/17) É bom que fique claro que todos os presbíteros são chamados a amadurecerem seu ministério em todas as suas dimensões – humano-afetiva, cultural, intelectual, espiritual, pastoral e outras, e esse amadurecimento é coletivo. Portanto, ninguém é suficiente ou se basta, nem alcançará nada sozinho, mas sempre no conjunto, na coletividade, na comunhão e paz com todos os demais.  

Líderes autocráticos são desperdiçadores de recursos humanos do Reino de Deus. Pessoas importantes, com dons e talentos, que poderiam ter um desempenho superior no ministério são apagadas e esquecidas, tidas pelo ditador como relapsas e desinteressadas. Há inúmeras pessoas frustradas nas igrejas justamente por isso. Por fim, após tanto magoar, após ter produzido tanta dor e afastamento nas pessoas, esse tipo de líder acabará ficando sozinho. Muitas vezes, ele assistirá aquele a quem desprezou dar frutos em outro lugar. Aí questionará Deus: "Deus, porque não está dando certo? O Senhor é injusto comigo! Eu faço de um tudo, mas nada acontece!" Há aqueles que chegam a ponto de querer afrontar até Deus! Gente que vive brigada com Deus, amargurada, com a fé quase transformada em conformismo! E tudo porque não ouve, não escuta ninguém - nem a Deus! 

C.S. Lewis disse: “De todas as tiranias, aquelas exercidas sinceramente para “o bem” de suas vítimas podem ser as mais opressivas. Seria melhor viver sob barões ladrões do que sob “onipotentes” metidos à moralidade. A crueldade do barão pode, por vezes, adormecer, e a sua cobiça pode em algum momento ser saciada; mas aqueles que atormentam-nos para “o nosso próprio bem” vão nos atormentar sem fim, pois fazem isso com a aprovação da própria consciência.” Nem toda a ditadura nasce de boas intenções, mas algumas sim. Todo líder totalitário é salvador, libertador e transformador. Líderes ditadores buscam manipular pessoas oferecendo e negando cargos de liderança e confiança, manipulando a consciência, as expectativas, as necessidades. Segundo o Pr. Marcelo Miranda, líderes autocráticos são homens querendo se fazer como Deus, ao exigir obediência absoluta, perseguindo os "rebeldes" com propósito psicológico e pragmático (http://nadadeheresias.blogspot.com.br/2013/04/pastores-tiranos-tiranos-do-bem.html. Acesso: 26/04/2017).

Concluindo: infelizmente, há muitos líderes ditadores no meio cristão. Se você está debaixo de líder ditador, meu conselho é que você ore a Deus por ele e, dependendo do nível de opressão, para ter direção para onde ir. Os estragos em sua alma serão contabilizados mais tarde, caso você insista em ficar debaixo da opressão de homens e mulheres assim. E se você é um líder autocrático, aconselho você a rever sua posição imediatamente. Seu estilo de liderança não agrada ao Senhor, que colocou você nessa posição e lhe confiou o Seu povo para que você cuide dele como exemplo do mesmo, sempre "de ânimo pronto". Exerça sua autoridade sim, mas saiba que a mesma tem um limite muito bem definido: as pessoas que estão sob sua liderança não lhe pertencem, mas ao Senhor. Olhe para essas pessoas como cooperadoras na Obra que o Senhor lhe confiou, sabendo que o propósito de toda a Obra de Deus na terra é um só, ou seja, as vidas das dessas mesmas pessoas - incluindo a sua própria. Seja sábio(a), aprenda a lidar com o contraditório, a ouvir e ponderar, a buscar consenso, pois "na multidão de conselhos há segurança" (Pv 11.14). Quer ver seus planos darem certo? "Quando não há conselhos os planos se dispersam, mas havendo muitos conselheiros eles se firmam." (Pv 15.22) Mesmo se você estiver enfrentando "uma guerra", entenda: "Com conselhos prudentes tu farás a guerra; e há vitória na multidão dos conselheiros" (Pv 24.6).

Pense nisso. Deus está renovando seu entendimento! (Rm 12.2)

sexta-feira, 7 de abril de 2017

BOATO, A MALDIÇÃO DAS REDES SOCIAIS

"NÃO admitirás falso boato, e não porás a tua mão com o ímpio, para seres testemunha falsa. Não seguirás a multidão para fazeres o mal; nem numa demanda falarás, tomando parte com a maioria para torcer o direito. Nem ao pobre favorecerás na sua demanda." (Êx 23.1-3)

Um boato é, segundo o dicionário Aurélio, uma "notícia anônima que corre publicamente sem confirmação". A LXX e a Vulgata traduzem Êx 23.1 como "Não receberá um relatório falso" - ou seja, dará crédito, nem irá aceitá-lo como verdadeiro, e tomar alguma ação com base nele. Não é possível deixar de ouvir um boato, mas é possível não dar crédito a ele, verificando sempre se o que está sendo dito corresponde a verdade dos fatos. O ensino aqui é que nenhum filho de Deus deve, em hipótese alguma, dar ouvidos e multiplicar boatos infundados, contra um vizinho ou contra qualquer homem, quer secretamente por calúnias privadas, sussurros, insinuações, prejudicando seu bom nome e crédito, sugerindo coisas falsas e perversas em relação a ele; ou quer publicamente, acusando-o falsamente e dando falso testemunho contra qualquer pessoa. Aquele que ouvisse um boato não deveriam mantê-lo como se fosse verdadeiro, como a palavra também significa, mas desencorajá-lo, e até mesmo punir os malignos boateiros. A veracidade e a imparcialidade deveria ser parte da vida moral e santa do povo de Deus.

O boato é uma notícia de teor duvidoso, pois normalmente é baseado em informações incompletas e que possuem pouca ou nenhuma verdade. Uma vez que a sua comprovação é difícil e, não raramente, impossível, opiniões ou argumentos inconsistentes podem ser adicionados à notícia conforme esta se espalha em uma tentativa de validá-la, gerando mais especulação. Infelizmente, muitos não compreendem o poder destruidor que um boato possui. Boatos tem o poder de destruir a reputação de uma pessoa, construída ao longo de toda uma vida. Tem o poder de separar amigos e irmãos, de separar marido e mulher, de destruir amizades e relacionamentos com extrema facilidade e rapidez. E, dependendo do boato, causar até prisão e morte.

No Brasil, não é incomum aparecerem casos que culminaram com morte de pessoas, graças a boatos que se iniciaram na Internet. Um boato pode difamar, caluniar, denegrir ou prejudicam a imagem de alguém, ofendendo a sua honra. Um boato pode comprometer a reputação de empresas que fechará suas portas. Um boato pode passar orientações incorretas e causar danos às pessoas, como por exemplo dicas de saúde sem comprovação científica. Um boato pode causar terror, pânico ou alarme na população, causando danos irreparáveis. O poder que um boato possui foi assim evidenciado recentemente, quando em Araruama, na região dos lagos do RJ, um casal foi espancado e teve o carro incendiado após um homem tirar uma foto deles e do veículo em que estavam. Pelo whatssap, disse que os dois eram sequestradores. Moradores, então, cercaram o carro. Só não lincharam o casal porque a Polícia chegou a tempo, senão eles teriam sido mortos pelos moradores ensandecidos. E tudo por causa de um boato. (matéria em: http://odia.ig.com.br/rio-de-janeiro/2017-04-07/o-perigo-do-caozap.html. Acesso: 07/04/17)

Assim como esse caso, muitas pessoas tiveram a vida transtornada, perdendo paz, sossego, privacidade, reputação, etc. por conta de um boato:

1. Suposto Estuprador. Um serralheiro passou a ter medo de sair de casa, ao receber ameaças depois que uma foto sua viralizou na internet com a informação de que ele seria estuprador e sequestrador de crianças. Histórias semelhantes à essa ocorreram em abril deste ano, em Pernambuco, em abril do ano passado, em Manaus, e em janeiro de 2014, em Lagarto. Nos três casos, homens tiveram suas fotos compartilhadas sob a acusação de estupro. (site: http://www.reportermaceio.com.br/vitima-de-boato-em-redes-sociais-homem-tem-medo-de-sair-de-casa/. Acesso: 07/04/17)

2. Suposta praticante de Magia Negra. Em maio de 2014, uma dona de casa foi espancada e morta depois de ser confundida com uma suposta sequestradora de crianças que praticava rituais de magia negra em Guarujá, no litoral de São Paulo. O caso dessa dona de casa foi tão emblemático que acabou tornando-se dissertação de Mestrado em Comunicação Social na PUCRS - "O boato na era das redes sociais digitais: uma análise do caso Guarujá" (disponível em: http://repositorio.pucrs.br/dspace/handle/10923/9863). O seguinte trecho da dissertação merece destaque: "As publicações sobre a suposta sequestradora feitas pela página, que então contava com 55 mil seguidores, mudaram a rotina de um dos bairros mais pobres da cidade do litoral paulista. “Disseram que ela tinha arrancado o olho de um bebê de dois meses”, disse uma jovem de 14 anos em entrevista. O ajudante geral Lucas Rogério Fabrício Lopes, 19 anos, que foi preso e admitiu ter golpeado a cabeça de Fabiane duas vezes, disse que “a acusação era de que ela (a suposta sequestradora) arrancava o coração e os olhos de criança para rituais”. No dia 25 de abril, a página publicou uma postagem informando que um uma mulher estaria raptando crianças para realizar magia negra. “Se é boato ou não devemos ficar alerta”, finaliza o texto. A essa mensagem, que posteriormente foi apagada, seguiram-se 139 comentários e 765 compartilhamentos" (pag. 80) DISSERAM, FALARAM, COMPARTILHARAM, COMENTARAM...MARCAS DE UM BOATO.  

3. Própolis para combater o Aedes. Circulou nas redes sociais uma nota equivocada sobre a indicação de uma suposta farmacêutica da Fiocruz do uso de própolis para o combate ao mosquito transmissor da dengue, zika e chikungunya. A Fundação Oswaldo Cruz esclarece que essa informação não tem fundamentação científica e que nenhum pesquisador da instituição fez afirmações sobre o uso de substâncias naturais para afastar mosquitos. (disponível em: https://portal.fiocruz.br/pt-br/content/fiocruz-esclarece-boato-nas-redes-sociais-sobre-o-uso-de-propolis-para-o-combate-ao-aede. Acesso: 07/04/17)

4. Ciclone no RJ. Um furacão ou ciclone de dimensões catastróficas atingiriam o Rio de Janeiro no próximo domingo com previsões de ressaca e tempestades arrasadoras. O boato tem tomado as redes sociais nos últimos dias e está sendo compartilhado por milhares de pessoas em grupos. (disponível em: https://www.marinha.mil.br/content/boato-de-que-ciclone-atingir%C3%A1-o-rio-se-espalha-nas-redes-sociais. Acesso: 07/04/17) Do mesmo modo, um boato sobre um tsunami que destruiria o RJ "por causa dos pecados dos moradores do Estado".

5. Sexo na Praia. Uma história bem bizarra surgiu na África e chegou no Brasil por meio de sites angolanos. Segundo ela, um pastor evangélico estaria beijando (e lambendo) o ânus de suas fiéis para que elas consigam arrumar um marido. Sim, você leu certo. O boato ainda veio ilustrado com uma imagem de muitas mulheres nuas na praia em fila. Claro, era tudo invenção. A suposta imagem veio de um filme pornô de 2014, e a história foi criada e espalhada por aqui como folhas ao vento.

E assim, do Facebook ao Whatssap, há várias "estórias" circulando nas redes sociais contando mentiras sobre fatos e pessoas, causando com isso danos por vezes irreparáveis às pessoas atingidas. É bom lembrar que um boato pode ofender, denegrir, causar constrangimento ou comprometer a reputação de alguém. Pior: quem espalha o boato, depois, não se desculpa em público, o que faz com que permaneça, no imaginário dos que viram e compartilharam o boato, que o mesmo era verdade, agravando assim a situação. Nesse caso, a melhor coisa é agir tanto preventivamente como proativamente: reativamente, tentando a todo custo desmentir o boato irresponsavelmente espalhado; proativamente, evitando novos episódios (porque todo boateiro, espalhador de boatos, invariavelmente espalhará mais boatos se houver oportunidade para isso. É como uma ziquizira). De forma prática: avise ao boateiro que ele está espalhando boatos inverídicos e, se possível, corte a fonte "notícias" do boateiro - se for pessoal, no Facebook, bloqueie ou até exclua o boateiro da sua página. Aliás, bloquear a visualização da pagina no Facebook, diante de um boato pessoal, é importante para evitar que o boato seja espalhado e cause ainda mais estragos à sua reputação. Creia-me: na hora da fofoca, do boato, até gente próxima a você, que lhe conhece há "anos e canos", preferirá dar crédito ao boato (e ao boateiro) do que considerar os (muitos) anos de convivência contigo. Ninguém sairá em sua defesa, ninguém dirá "êpa, eu conheço o fulano, isso não é verdade!",  mas a imensa maioria - senão todos - ficará insegura a seu respeito - tudo gerado pelo boato. A fofoca, a calúnia... o boato, tem mais força na mente (e nos corações) do que a verdade. Infelizmente é assim que funciona. 

Porque as pessoas se prestam a criar e espalhar boatos nas redes sociais? Os motivos são variados: Há algumas que fazem isso no afã de se tornarem famosas (mais curtidas e compartilhamentos); outras, por inveja pessoal amargurada (de sua vida, de seu ministério, de sua profissão, de seu casamento, etc); outras ainda por desafeto (especialmente contra pastores e lideranças cristãs em geral, quando estas tem uma postura combativa contra o pecado). Outras por acharem que "estão fazendo a coisa certa, prevenindo as pessoas", achando que estão prestando um "serviço de utilidade pública" (quando, na verdade, é justamente o contrário). Outras, por pura ignorância, acreditando em tudo que ouve e lê sem julgar a fonte e a informação.

A bem da verdade, o Facebook, aliado ao Whatssap, são grandes centrais de boatos que se espalham em e-mails e redes sociais, devido à grande facilidade de compartilhá-los na rede. Boatos e ofensas pessoais, diga-se de passagem: o que se vê de troca de ofensas, farpas, indiretas, etc. no Facebook não está no gibi! Isso sem falar em postagens de "demonstração de sabedoria", quando alguém cita outrem tido como referência em matéria de alguma coisa, mas não interpreta e nem acrescenta nada! Mas isso é para outras argumentações...

Para o sr. José Antonio Milagre, advogado especialista em Direito Digital e mestre em Ciência da Informação pela UNESP, presidente da Comissão de Direito Digital da OAB/SP Regional Lapa e autor do livro "Manual de Crimes Informáticos", 2016, pela Editora Saraiva (disponível em: http://www.migalhas.com.br/dePeso/16,MI253266,71043-Os+riscos+dos+boatos+e+falsas+noticias+nas+redes+sociais+e+o. Acesso: 07/04/17) a minimização da onda de boatos passa, inicialmente, por jamais presumir ou deduzir um fato sem ter a comprovação de sua ocorrência. Segundo ele, é preciso termos consciência do dano que causamos ao apertarmos o botão compartilhar ou passamos a frente uma inverdade na internet/whatssap. Devemos sempre ter a consciência de não levar adiante o que não é confirmado e principalmente, avaliar se aquele conteúdo, se compartilhado, poderá ou não causar transtornos a alguém.

Nunca crie e/ou espalhe boatos infundados, mesmo que esses boatos sirvam para um propósito maior. Os fins não justificam os meios; jamais. Se você não viu com os seus próprios olhos, nem ouviu com seus próprios ouvidos, não deixe sua mente inventar coisas para sua boca (ou teclado) espalhar. Não seja mexeriqueiro. Fale a verdade, compartilhe a verdade e curta a verdade. Procure checar a veracidade de todas as informações ouvidas, vistas, recebidas, compartilhadas, curtidas, etc. No âmbito da Igreja, especialmente não aceite acusação contra presbíteros (anciãos - pastores, etc), senão com duas ou três testemunhas (I Tm 5.19). Lembre-se: amanhã, você pode ser a vítima do boato, pois ninguém está imune a essa maldição nas redes sociais da internet.

Conforme descrito em Provérbios, os boatos ou mexericos são tão prejudiciais e duradouros como ferimentos físicos: “Malho, e espada, e flecha aguda é o homem que levanta falso testemunho contra o seu próximo” (Provérbios 25:18). Os boatos arruínam amizades: “O homem perverso espalha contendas; e o difamador separa amigos íntimos” (Provérbios 16:28). Os boatos baseiam-se em rumores: “O que anda mexericando revela segredos; mas o fiel de espírito encobre o negócio” (Provérbios 11:13). Quem ama e pratica a mentira - o que envolve criar e espalhar boatos na internet - ficará de fora da cidade santa (Ap 22.15).

Diga NÃO aos boatos! Pense nisso e viva isso, em nome de Jesus!

terça-feira, 21 de março de 2017

PECADORES NAS MÃOS DE UM DEUS IRADO

"Pecadores nas Mãos de um Deus Irado" foi um sermão pregado por Jonathan Edwards em 8 de julho de 1741, em Enfield, Connecticut. Edwards não era bom orador, mas, enquanto ele pregava, houve pessoas que choravam e clamavam por arrependimento, enquanto que outros se agarravam às colunas da igrejas, como se estivessem sentindo sendo engolidos pelo inferno.

Edwards nunca terminou o sermão em Enfield. O tumulto se tornou muito grande quando a audiência foi tomada por gritos, lamentos e clamores: “O que farei para ser salvo? Oh! estou indo para o inferno! Oh! o que farei por Cristo?” Um dos ministros registrou que “os gritos agudos e clamores eram comoventes e admiráveis”. Várias “pessoas foram esperançosamente mudadas naquela noite. Oh! que prazer e alegria havia em seus semblantes!” Edwards e outros oraram com muitos dos consternados e levaram alguns a “diferentes graus de paz e alegria, alguns a enlevo, tudo exaltando o Senhor Jesus Cristo”, e exortaram outros a se achegarem ao Redentor.

No sermão "Pecadores nas Mãos de um Deus Irado", Edwards nos traz uma importante exortação bíblica: que a punição eterna para quem não possui a Cristo é algo muito real. Neste sermão, ele admitiu o fogo do inferno como algo real e colocou a ênfase na solene tensão entre o julgamento de Deus e a misericórdia de Deus. Edwards apresentou Deus como o juiz perfeitamente justo que estava corretamente indignado em face da rebelião dos seres humanos contra seu amor. Ao mesmo tempo, Deus havia se restringido misericordiosamente, por um tempo, na execução de seus juízos, para dar aos pecadores uma oportunidade de receberem o amor redentor de Cristo e serem salvos da condenação horrível, justa e certa.  

Em tempos modernos, onde cada vez mais as pessoas buscam restringir a pregação bíblica, substituindo-a por auto-ajuda, psicologia e positivismo, este sermão é um "brado veemente e impetuoso" do Espírito Santo, lembrando-nos que Deus não se deixa escarnecer.  Aqueles que fazem "cara feia" e "lançam muxoxos" e "queixumes" diante da pregação genuína da Palavra de Deus, que enganosamente vêem Deus como bonachão, deveriam atentar com muito cuidado para as verdades expostas nesse sermão. 



________________________________________________________________

PECADORES NAS MÃOS DE UM DEUS IRADO
Por: Rev. Jonathan Edwards
8 de julho de 1741 - Enfield, Connecticut


“Ao tempo que resvalar o seu pé.” (Deuteronômio 32:35)

Nesse versículo, a vingança de Deus é ameaçada sobre os israelitas ímpios e incrédulos que, embora fossem o povo visível de Deus e vivessem debaixo dos meios de graça, e apesar de todas as obras maravilhosas de Deus em benefício deles, permaneciam (conforme o versículo 28) sem juízo e entendimento. Com todo o cultivo do céu, nada produziram senão fruto venenoso e amargo, conforme afirmam os dois versículos que precedem o texto. A expressão que escolhi para minha exposição, “a seu tempo, quando resvalar o seu pé”, parece implicar o seguinte, relacionado à punição e destruição a que aqueles ímpios israelitas estavam expostos:


1. Que estavam sempre expostos à destruição, da mesma maneira que alguém que permanece ou anda em lugares escorregadios está sempre exposto à queda. Isso está implícito na maneira em que a destruição vem sobre eles, sendo representada pelos seus pés escorregando. O mesmo é expresso no Salmo 73.18: “Certamente tu os puseste em lugares escorregadios; tu os lanças em destruição.”


2. Implica que estavam sempre expostos à súbita e inesperada destruição. À semelhança do que anda em lugares escorregadios e está, a todo instante, sujeito a cair, não podendo prever em momento algum se, a seguir, estará de pé ou no chão; e, quando cai, cai imediatamente e sem aviso. Isso também está expresso no Salmo 7318-19: “Certamente tu os puseste em lugares escorregadios; tu os lanças em destruição. Como caem na desolação, quase num momento! Ficam totalmente consumidos de terrores”.


3. Outra coisa implícita é que estão sujeitos a cair por si mesmos, sem serem derrubados pela mão de outrem. Da mesma maneira que o que permanece ou anda em terreno escorregadio de nada precisa além do próprio peso para derrubá-lo.


4. Que a razão de ainda não haverem caído, e de não caírem agora, é apenas que o tempo apontado por Deus não é chegado. Pois está dito que quando esse tempo devido ou designado chegar, seu pé resvalará. Então, serão abandonados à queda, para o que já estão inclinados por seu próprio peso. Deus não mais os sustentará nestes lugares escorregadios, mas os abandonará. E então, neste exato instante, cairão na destruição, à semelhança do que permanece em ladeiras escorregadias, sobre a beira de um precipício, não pode permanecer sozinho e, quando é abandonado, imediatamente cai e está perdido.


A observação a partir destas palavras que agora insistirei é:

Doutrina: “Não há nada que mantenha os ímpios um só momento fora do inferno, senão a mera boa vontade de Deus.”


Por “mera boa vontade” de Deus, refiro-me à Sua boa vontade soberana, Sua vontade livre, imune a obrigações, não sujeita a impedimento algum, nem qualquer outra coisa, como se nada, a não ser a boa vontade de Deus, tivesse qualquer papel na preservação dos ímpios a todo instante. A verdade desta observação será evidenciada pelas seguintes considerações.


1. Não falta poder a Deus para lançar os ímpios, a qualquer momento, no inferno. Quando Ele se levanta, as mãos humanas não podem ser fortes. Os mais fortes não têm poder algum para Lhe resistir, nem podem se libertar de Suas mãos. Ele não apenas é capaz de lançar os ímpios no inferno, mas pode fazê-lo com a maior facilidade. Às vezes, um príncipe terreno encontra grande dificuldade em subjugar um rebelde que encontrou meios de se fortificar, e se fortaleceu pelo número de seus seguidores. Mas isso não ocorre com Deus. Não há fortaleza que seja defendida contra o Seu poder. Ainda que as mãos se juntem, e vastas multidões de inimigos de Deus se combinem e se associem, são facilmente esmiuçados em pedaços. São como grandes montes de palha seca e leve diante do furacão; ou grandes quantidades de restolho seco diante de chamas devoradoras. Achamos fácil pisar e esmagar um verme que vemos rastejar no chão, da mesma forma é fácil cortar ou queimar um fio fino que sustenta algo. Assim também é fácil para Deus, quando lhe agrada, lançar Seus inimigos nas profundezas do inferno. Quem somos nós, para que pensemos permanecer perante dEle, diante de cuja repreensão a terra treme e diante de quem as rochas são subjugadas?

2. Eles merecem ser lançados no inferno, de modo que a justiça Divina jamais se interpõe, e não é um impedimento para que Deus use Seu poder a qualquer momento para destruí-los. Sim, ao contrário, a justiça clama alto por punição infinita pelos seus pecados. A justiça Divina fala acerca da árvore que produz uvas como as de Sodoma, Lucas 13:7: “Corta-a; por que ocupa ainda a terra inutilmente”. A espada da justiça Divina está a todo momento se revolvendo sobre suas cabeças, e não é nada, senão a mão da misericórdia livre de Deus e a Sua mera vontade, que a segura.

3. Eles já estão sob uma sentença de condenação ao inferno. Não apenas merecem, com justiça, ser lançados lá, mas a sentença da Lei de Deus, essa eterna e imutável regra da justiça que Deus fixou entre Si e a humanidade, é posta contra eles, e permanece em oposição a eles de modo que já estão destinados ao inferno. João 3:18: “quem não crê já está condenado”. Desse modo, todo homem não-convertido pertence propriamente ao inferno. Lá é o seu lugar, de lá ele procede (João 8:23: “Vós sois de baixo”) e para lá está destinado, é o lugar ao qual a justiça, e a palavra de Deus, e a sentença de Sua Lei imutável o destinam.

4. Eles são agora os objetos do mesmo furor e ira de Deus, que são expressos nos tormentos do inferno. E a razão pela qual não descem para lá a qualquer instante não é porque Deus, em cujo poder se encontram, não esteja muito irado com eles, como está com as muitas miseráveis criaturas agora atormentadas no inferno, que lá sentem e suportam a fúria de Sua ira. Sim, Deus está muito mais irado com muitos que estão agora na terra; sim, sem dúvidas, com muitos que estão agora nesta congregação, que podem estar tranquilos, do que com muitos que estão nas chamas do inferno. Portanto, não é porque Deus ignora suas impiedades, e não se ressinta delas, que não afrouxa suas mãos e os elimina. Deus não é de forma alguma como eles, embora possam o imaginar assim. A Sua ira arde contra eles, sua condenação não dorme; o abismo está preparado, o fogo está pronto, o forno já está quente, pronto para recebê-los; as chamas ora rugem e brilham. A espada reluzente está afiada e suspensa sobre eles, o abismo abriu sua boca debaixo deles.

5. O diabo está pronto para cair sobre eles e abatê-los como sua possessão no momento em que Deus o permitir. Eles lhe pertencem, tem suas almas em sua posse e sob seu domínio. A Escritura os representa como seus bens (Lucas 11:12). Os demônios os espreitam, estão sempre a sua mão direita, permanecem aguardando por eles como leões famintos que veem a presa e esperam tê-la, mas, no momento, são contidos. Se Deus retirasse Sua mão, pela qual são restringidos, num momento voariam sobre suas pobres almas. A velha serpente os espreita, o inferno escancara sua boca para recebê-los. Se Deus o permitisse, seriam rapidamente engolidos e estariam perdidos.


6. Reinam nas almas dos ímpios aqueles princípios infernais, que agora mesmo os inflamariam e incendiariam no fogo do inferno, se Deus não os restringisse. Há posto na própria natureza do homem carnal um fundamento para os tormentos do inferno. Há aqueles princípios corruptos, com poder reinante e em plena posse deles, que são as sementes do fogo do inferno. Estes são princípios ativos e poderosos, extremamente violentos em sua natureza, e não fosse pela mão restringente de Deus sobre tais princípios, logo explodiriam, se inflamariam à semelhança do que as mesmas corrupções e a mesma inimizade fazem nos corações das almas condenadas, e gerariam os mesmos tormentos que geram naquelas. As almas dos ímpios são comparadas na Escritura ao mar bravo (Isaías 57:20). No momento, Deus restringe a impiedade deles pelo Seu imenso poder, assim como faz às ondas raivosas do mar enfurecido, dizendo: “Até aqui virás, e não mais adiante” (Jó 38:11). Mas se Deus retirasse esse poder restringente, logo a impiedade carregaria tudo diante de si. O pecado é a ruína e a miséria da alma. É destrutivo em sua natureza, e se Deus o deixasse sem restrição, nada mais seria necessário para tornar a alma perfeitamente miserável. A corrupção do coração humano é ilimitada e desmedida em sua fúria. Enquanto os ímpios vivem aqui, é como o fogo preso pelas restrições de Deus, de outro modo, se fosse deixada livre, poria em chamas o curso da natureza. E assim como o coração agora é um poço de pecado, se este não fosse restringido, imediatamente tornaria a alma em um forno ardente, em uma fornalha de fogo e enxofre.

7. Não representa segurança para os ímpios, nem sequer por um instante, que não haja meios visíveis de morte às vistas. Não representa segurança para um homem natural que esteja agora com saúde, e que não veja por que modo poderia partir de imediato do mundo por um acidente, e que não haja nenhum perigo visível em suas circunstâncias. A manifesta e contínua experiência do mundo, em todas as eras, mostra que isso tudo não é evidência de que um homem não esteja agora mesmo às margens da eternidade, e que seu próximo passo não será no outro mundo. Os meios invisíveis e impensáveis das pessoas repentinamente saírem do mundo são inumeráveis e inconcebíveis. Os não convertidos andam sobre o abismo do inferno em uma superfície podre, e há inúmeros lugares nela que são frágeis e não suportarão seus pesos, e estes lugares não são percebidos. As flechas da morte vo-am invisíveis ao meio dia, a vista mais acurada não as vê. Deus tem tão diferentes e insondáveis meios de tirar os ímpios do mundo e mandá-los ao inferno, que não há nada que faça crer que necessite de um milagre, ou que precise sair do curso ordinário de Sua providência para destruir um ímpio no momento em que desejar. Todos os meios de arrancar os ímpios do mundo estão de tal modo nas Suas mãos e tão completa e absolutamente sujeitos ao Seu poder e determinação, que se Ele nunca fizesse uso de meios, e estes estivessem excluídos desta consideração, isto de modo algum faria com que a ida repentina dos ímpios ao inferno dependesse menos da mera vontade de Deus.

8. A prudência dos homens naturais e seu cuidado para preservar a própria vida, ou o cuidado de outros para preservá-las, não os assegura nem por um instante. A isto também a providência Divina e a experiência universal prestam abundante testemunho. Há clara evidência de que a própria sabedoria dos homens não os livra da morte, pois se assim o fosse veríamos alguma diferença entre os sábios e prudentes do mundo e os demais, com relação à susceptibilidade para uma morte repentina e inesperada. Mas, como é de fato? Eclesiastes 2:16: “E como morre o sábio, assim morre o tolo!”.


9. Todos os esforços e esquemas que os ímpios usam para escapar do inferno, ao mesmo tempo em que insistem em rejeitar a Cristo e permanecem, portanto, na impiedade, não os livra um só instante do inferno. Quase todo homem natural que ouve acerca do inferno, se gaba de que escapará dele. Ele depende de si próprio para a sua segurança e se exalta naquilo que faz, no que está fazendo, ou no que pretende fazer. Cada um esquematiza as coisas em sua mente sobre como evitará a condenação, e se exalta de que planejou muito bem para si mesmo, e que seu esquema não falhará. Ouvem, na verdade, que poucos são salvos e que a maior parte dos que já morreram foram para o inferno. Contudo, cada um imagina que ajustou melhor as coisas para o seu escape do que os outros. Ele não pretende vir a esse lugar de tormento e diz consigo mesmo que pretende ter um cuidado efetivo e ordenar as coisas de modo que não haja falha.

Mas os tolos filhos dos homens iludem-se miseravelmente em seus próprios esquemas e na confiança em sua própria força e sabedoria. Eles não confiam senão numa sombra. A maior parte dos que viveram até aqui, sob os mesmos meios de graça, e agora estão mortos, sem dúvidas foram para o inferno. E isto não aconteceu porque não fossem tão sábios quanto os que estão vivos: não foi porque não tenham ordenado bem as coisas para assegurar seu escape. Se pudéssemos falar com eles e questioná-los um por um quanto a se esperavam, quando vivos, e quando ouviam sobre o inferno, serem eles próprios objetos dessa miséria, sem dúvidas ouviríamos todos replicarem: “Não, jamais pretendi chegar aqui. Eu tinha ajeitado as coisas de outra forma em minha mente. Pensei que tinha planejado bem, que meu esquema era bom. Desejava tomar cuidado de verdade; mas tudo aconteceu inesperadamente. Não esperava por aquilo então, nem daquele modo. Veio como ladrão. A morte me surpreendeu: a ira de Deus foi rápida demais para mim. Ó, minha maldita tolice! Estava me gabando e me agradando com vãos sonhos sobre o que faria no futuro, e quando dizia: Paz e segurança, veio sobre mim repentina destruição”. 

10. Deus não se impôs nenhuma obrigação, por nenhuma promessa, de manter os não convertidos fora do inferno sequer por um momento. Ele certamente não fez promessas, seja de vida eterna, ou libertação e preservação da morte eterna, a não ser aos que estão dentro do Pacto da Graça, nas promessas que são dadas em Cristo, em quem todas as promessas são o sim e o amém. Mas certamente aqueles que não são filhos do pacto, não têm interesse nas promessas do pacto da graça, estes que não creem nelas e nem têm interesse no Mediador do pacto.

De modo que, ainda que alguns tenham imaginado e pretendido muitas coisas sobre as promessas feitas aos homens naturais que sinceramente buscam e batem [à porta], está claro e manifesto que, por maiores que sejam os esforços que o homem natural tome na religião, sejam quais forem suas preces, até que creiam em Cristo, Deus não tem obrigação alguma de salvá-los da destruição eterna.
Portanto, o fato é que os não-convertidos estão seguros pela mão de Deus sobre o abismo do inferno. Eles merecem o lago de fogo, e já estão sentenciados a ele. Deus está terrivelmente provocado, Sua ira contra eles é tão grande quanto para com os que já estão sofrendo agora a execução da fúria de Sua ira no inferno, e eles nada fazem nem ao menos para dirimir ou aplacar essa ira. Nem Deus está minimamente preso por qualquer promessa de sustentá-los sequer por um instante. O diabo espera por eles, o inferno escancara sua boca por eles, as chamas se ajuntam e queimam ardentemente à sua espera, para engoli-los. O fogo latente em seus corações está lutando para explodir, e eles continuam sem interesse em qualquer Mediador. Não há, portanto, meio algum às vistas para livrá-los. Em suma, eles não têm refúgio, nada em que possam se segurar. Tudo o que os preserva a cada momento é a mera vontade livre e a clemência desobrigada e desimpedida de um Deus irado.


Aplicação

Este assunto terrível pode ser útil para despertar as pessoas não-convertidas desta congregação. Isso que vocês ouviram é a situação de todos que estiverem fora de Cristo. Esse mundo de miséria, esse lago de enxofre incandescente está estendido amplamente debaixo de vocês. Há o terrível abismo das brilhantes chamas da ira de Deus. A boca do inferno encontra-se escancaradamente aberta, e vocês não tem nada para se apoiar, nem coisa alguma em que possam se segurar. Não há nada entre vocês e o inferno senão o ar, e é apenas o poder e a mera boa vontade de Deus que os sustenta.


É provável que não estejam cientes destas coisas, pois descobrem que estão fora do inferno, mas não veem a mão de Deus nisso. Vocês olham para as outras coisas, como o bom estado dos seus corpos físicos, o cuidado com suas vidas e os meios que usam para a própria preservação. Mas essas coisas, na verdade, nada são, pois se Deus retirasse Sua mão, elas teriam tanto valor para impedir as suas quedas quanto tem o ar rarefeito para sustentar uma pessoa que está suspensa nele.


Suas iniquidades os tornam tão pesados quanto o chumbo e os empurram para baixo com grande peso e pressão em direção ao inferno. Se Deus permitisse, imediatamente afundariam e rapidamente desceriam e mergulhariam no mar sem fundo. A boa saúde e o cuidado e prudência que mantêm, e os melhores esquemas, e toda a justiça, teriam tanta influência para preservá-los e mantê-los fora do inferno quanto uma teia de aranha é capaz de deter uma avalanche de pedras. Não fosse pela boa vontade soberana de Deus, a terra não os suportaria por um só momento, pois vocês são um fardo para ela. A criação geme por causa de vocês. Ela está sujeita ao cativeiro da corrupção involuntariamente. Não é de boa vontade que o sol brilha sobre suas cabeças, para que tenham luz para servir ao pecado e a Satanás. A terra não dá voluntariamente seus frutos para satisfazer suas luxúrias, nem é de boa vontade que serve de palco para que cometam iniquidades. Não é de bom grado que o ar serve para manter a chama da vida em suas narinas, enquanto vocês gastam suas vidas no serviço dos inimigos de Deus. A criação de Deus é boa e foi feita para que o homem servisse a Ele por meio dela, e não é de bom grado que serve a outros propósitos, e geme quando é abusada com propósitos tão diretamente contrários à sua natureza e fim. O mundo os vomitaria, não fosse a mão soberana dAquele que o sujeitou na esperança [da redenção].

Eis as nuvens negras da ira de Deus pairando agora sobre suas cabeças, carregadas de terrível tempestade, e cheias de trovões, e não fosse a mão restringente de Deus, elas imediatamente arrebentariam sobre vocês. A graça soberana de Deus, no momento, refreia es-se vento impetuoso, pois, de outro modo, ele viria com fúria, e sua destruição viria como um redemoinho, e vocês seriam como a palha que o vento dispersa.

A ira de Deus é como grandes águas que estão represadas agora. Ela aumenta mais e mais, e fica mais e mais elevada, até que chega ao limite; e quanto mais é impedida, mais rápido e poderoso é seu curso quando é liberada. É verdade que o julgamento contra suas más obras não foi executado ainda, o ímpeto da vingança de Deus tem sido segurado. Mas, enquanto isso, as suas culpas constantemente aumentam, e a cada dia vocês entesouram mais ira. As águas estão constantemente crescendo e aumentam diariamente com mais força, e não há nada, senão a mera boa vontade de Deus, capaz de deter o que não quer ser detido e se esforça para continuar. Se Deus apenas retirasse Sua mão das comportas do dilúvio, elas imediatamente se abririam, e as ígneas ondas da fúria e ira de Deus se derramariam com fúria inconcebível e viriam sobre vocês com poder onipotente. E se suas forças fossem dez mil vezes maiores, sim, ainda que fossem dez mil vezes mais fortes que o mais resistente e tenaz demônio no inferno, isto nada representaria e nem poderiam suportá-las.


O arco da ira de Deus está curvado, e a flecha ajustada no cordel. A justiça mira a flecha nos seus corações, e estica o arco, e nada, a não ser a mera boa vontade de Deus, de um Deus irado, sem qualquer promessa ou obrigação alguma, é que impede a flecha de a qualquer instante beber o sangue de vocês. Assim, todos vocês que jamais passaram por uma grande mudança de coração, pelo poderoso poder do Espírito de Deus sobre suas almas; todos que nunca nasceram de novo, nem foram feitos novas criaturas, e nunca foram ressuscitados da morte no pecado para um novo estado, nem antes experimentaram uma nova luz e vida, estão nas mãos de um Deus irado. Ainda que tenham reformado suas vidas em muitos aspectos, e experimentado afeições religiosas, e possivelmente mantido uma forma de religião entre suas famílias e parentes e na casa de Deus, não é nada senão sua mera boa vontade que impede que sejam agora mesmo consumidos na destruição eterna. Ainda que estejam pouco convencidos agora da verdade que ouvem, a seu tempo serão plenamente convencidos dela. Vejam que ocorreu o mesmo com aqueles que partiram nas mesmas condições que vocês estão agora; pois a destruição veio repentinamente sobre a maior parte deles, quando não a esperavam e enquanto diziam: “Paz e segurança”. Agora veem que aquelas coisas de que dependiam para sua paz e segurança, nada mais eram do que ar rarefeito e sombras vazias.

O Deus que os sustenta sobre o abismo do inferno, à semelhança de alguém que segura uma aranha ou qualquer inseto asqueroso sobre o fogo, os aborrece e está terrivelmente provocado. Sua ira contra vocês arde como fogo, Ele os vê como dignos de nada mais, se-não de serem lançados no fogo. Ele é tão puro de olhos que não pode encará-los de frente, vocês são aos seus olhos mais abomináveis que a serpente mais odiosa é aos nossos. Vocês O ofenderam infinitamente mais que um rebelde obstinado ofende a seu príncipe; contudo, não é nada, senão a Sua mão, que os impede de cair no fogo a qualquer momento. Não pode ser atribuído a nada mais o fato de vocês não terem ido ao inferno na noite passada; que tenham sido permitidos acordar novamente neste mundo, depois que fecharam os olhos para dormir. E não há outra razão para explicar o porquê de não terem caído no inferno desde o momento que acordaram esta manhã, senão que a mão de Deus os tenha sustentado. Não há outra razão a ser dada para explicar o porquê de não terem ido ao inferno, desde o momento em que sentaram aqui, na casa de Deus, provocando Seus olhos puros com o modo ímpio e pecaminoso de atenderem ao culto solene. Sim, nada mais pode ser dado como razão do porque vocês não são agora mesmo lançados no inferno.

Ó pecador! Considere o temível perigo em que você se encontra: é sobre uma grande fornalha de ira, um abismo largo e sem fundo, cheio do fogo da ira, que você está seguro pela mão de Deus, cuja ira está tão provocada e acendida contra você quanto está contra os condenados do inferno. Você está suspenso por uma linha fina, com as chamas da ira Divina lampejando em volta, e prontas a todo momento para queimá-lo e consumi-lo por completo; e você ainda não tem qualquer interesse em um Mediador, e nada para se agarrar que possa salvá-lo, nada que retire de você as chamas de ira, nada de si mesmo, nada que tenha feito, nem que possa fazer para induzir Deus a poupá-lo um só instante. E considere aqui mais particularmente:

1. De quem é essa ira: é a ira do Deus infinito. Se fosse apenas ira de homem, ainda que do mais poderoso governante, seria comparativamente pequena para ser temida. A ira dos reis é muito mais temida, especialmente dos monarcas absolutistas, que têm as posses e vidas de seus súditos completamente em seus domínios, a serem dispostas conforme desejarem; Provérbios 20:2: “Como o rugido do leão é o terror do rei; o que o provoca à ira peca contra a sua própria alma.” O súdito que levar à ira um príncipe arbitrário, está sujeito a sofrer os mais extremos tormentos que a arte humana possa inventar, ou o poder humano seja capaz de infligir. Mas o maior dos poderes terrenos, em toda sua majestade e poder, e quando vestidos com os maiores terrores, não são senão frágeis e desprezíveis vermes de pó, em comparação com o grande e poderoso Criador e Rei do céu e da terra. O que eles fazem na sua ira e quando estão revestidos pelo seu furor é pouco. Todos os reis da terra, diante de Deus, são como gafanhotos, são nada e menos do que nada: tanto o seu ódio quanto o seu amor são desprezíveis. A ira do grande Rei dos reis é tão superior a deles quanto é a Sua majestade: Lucas 12:4-5: “E digo-vos, amigos meus: Não temais os que matam o corpo e, depois, não têm mais que fazer. Mas eu vos mostrarei a quem deveis temer; temei aquele que, depois de matar, tem poder para lançar no inferno; sim, vos digo, a esse temei.”

2. É à ferocidade de Sua ira que você está exposto. Lemos com frequência acerca da ira de Deus; Isaías 59:18: Conforme forem as obras deles, assim será a sua retribuição, furor aos seus adversários. Assim, Isaías 66:15: “Porque, eis que o Senhor virá com fogo; e os seus carros como um torvelinho; para tornar a sua ira em furor, e a sua repreensão em chamas de fogo”. Também em muitos outros lugares. Assim, lemos sobre o lagar do vinho do furor e da ira do Deus Todo-Poderoso (Apocalipse 19:15). As palavras são deveras terríveis. Se houvesse sido apenas dito: “a ira de Deus,” as palavras já implicariam algo que é infinitamente terrível. Mas é “a fúria e ira de Deus.” A fúria de Deus! A cólera de Jeová! Ó, como deve ser terrível! Quem pode proferir ou conceber o que tais expressões trazem em si? Mas também se diz com frequência: “a fúria e ira do Deus Todo-Poderoso!” Como se fosse haver uma enorme manifestação de Seu grande poder sobre os objetos de Sua ira, como se a onipotência pudesse, por assim dizer, encolerizar-se, e ser exercida do mesmo modo que os homens costumam mostrar suas forças quando estão no máximo de sua ira. Então, qual será a consequência? O que será do pobre verme que a sofrerá? Que mãos serão fortes? E que corações suportarão? A que terrível, inexprimível e inconcebível profundidade de miséria as pobres criaturas, objetos dela, serão afundadas!

Considerem isso, vocês, que aqui estão hoje e ainda permanecem em um estado não regenerado. Que Deus na execução do rigor de Sua ira implica que a executará sem piedade. Quando Ele contemplar o extremo inexprimível do seu caso, e ver os seus tormentos como sendo tão vastamente desproporcionais às suas forças, e ver como suas pobres almas estão esmagadas, e afundadas, por assim dizer, em um mar infinito; então, não terá compaixão de vocês, não impedirá a execução de Sua ira, nem ao menos afrouxará Suas mãos. Não haverá moderação nem misericórdia de Sua parte, nem Deus, então, impedirá seu vento impetuoso. Não se preocupará com o bem-estar de vocês, nem de forma alguma será cuidadoso de que não sofram muito de alguma outra maneira. Nada será aliviado, porque seja duro demais para vocês suportarem. Ezequiel 8:18: “Por isso também eu os tratarei com furor; o meu olho não poupará, nem terei piedade; ainda que me gritem aos ouvidos com grande voz, contudo não os ouvirei”. Agora, Deus está pronto a ter compaixão de vocês. Este é um dia de misericórdia, ainda podem clamar agora com algum encorajamento de que obterão misericórdia. Porém, uma vez que o dia da misericórdia tenha passado, seus mais lamentosos e dolorosos clamores e gritos serão em vão, pois estarão completamente perdidos e afastados de Deus, quanto a qualquer preocupação com o bem estar de vocês. Deus não lhes terá outro uso, a não ser fazer com que sofram a miséria. Continuarão a existir sem nenhum outro propósito; pois serão um vaso de ira preparado para a destruição; e não haverá outro uso para esse vaso, senão ser cheio de ira. Deus estará tão longe de apiedar-se de vocês quando clamarem a Ele, que apenas “rirá e zombará” (Provérbios 1:25-26).

Como são terríveis estas palavras, que são palavras do grande Deus, Isaías 63:3 “Eu sozinho pisei no lagar, e dos povos ninguém houve comigo; e os pisei na minha ira, e os esmaguei no meu furor; e o seu sangue salpicou as minhas vestes, e manchei toda a minha vestidura”. Talvez seja impossível conceber palavras que tragam em si maiores manifestações destas três coisas, isto é, desprezo, ódio e ira de indignação. Se vocês clamarem a Deus por compaixão, Ele estará tão longe de se compadecer da sua dolorosa situação, ou mostrar-lhes a mínima preocupação ou favor que, ao contrário, apenas lhes esmagará com os pés. E embora saiba que não podem suportar o peso de Sua onipotência esmagando vocês, contudo não se importará com isso, mas os esmagará sem piedade, até que sejam esmagados, e o sangue será salpicado sobre Suas vestes a ponto de manchá-las por completo. Ele não apenas os odiará, mas os terá no maior desprezo: não será pensado lugar algum apto para vocês, senão debaixo de Seus pés, para serem pisados como a lama das ruas.

3. A miséria a que vocês estão expostos é a que Deus infligirá com o propósito de mostrar qual é a ira de Jeová. Deus dispôs em Seu próprio coração mostrar a anjos e homens tanto a excelência de Seu amor quanto o horror de Sua ira. Às vezes, os reis terrenos se inclinam a mostrar como é terrível a ira deles, por meio de extremos castigos que executam naqueles que os provocam. Nabucodosor, aquele poderoso e soberbo monarca do império caldeu, se dispôs a mostrar sua ira quando se enfureceu contra Sadraque, Mesaque e Abednego; e deu ordens para que a fornalha de fogo ardente fosse aquecida sete vezes mais do que antes. Sem dúvidas, as chamas foram levadas ao máximo da fúria que a arte humana poderia induzi-las. Mas o grande Deus também está disposto a mostrar Sua ira, e magnificar Sua terrível majestade e grande poder nos sofrimentos extremos de Seus inimigos. Romanos 9:22: “E que direis se Deus, querendo mostrar a sua ira, e dar a conhecer o seu poder, suportou com muita paciência os vasos da ira, preparados para a perdição”.

E, visto que este é seu desígnio, o que já determinou, isto é, mostrar como é terrível Sua ira não restringida, a fúria e a cólera de Jeová, Ele o fará e levará a cabo. Haverá algo a ser realizado e feito que será terrível para quem o testemunhar. Quando o grande e irado Deus houver se levantado e executado Sua terrível vingança contra os pobres pecadores, e os miseráveis estiverem de fato sofrendo o peso e poder infinitos de Sua indignação, então Ele chamará o universo inteiro para contemplar essa terrível majestade e grande poder que deve ser visto então. Isaías 32:12-14: “Baterão nos peitos, pelos campos desejáveis, e pelas vinhas frutíferas. Sobre a terra do meu povo virão espinheiros e sarças, como também sobre todas as casas onde há alegria, na cidade jubilosa. Porque os palácios serão abandonados, a multidão da cidade cessará; e as fortificações e as torres servirão de cavernas para sempre, para alegria dos jumentos monteses, e para pasto dos rebanhos”.

Assim ocorrerá a vocês, que estão nesse estado de não convertidos, se nele persistirem; o poder infinito, a majestade e terror do Deus onipotente será magnificado sobre vocês, na força inefável de Seus tormentos. Serão atormentados na presença dos santos anjos, e na presença do Cordeiro; e quando estiverem nesse estado de sofrimento, os gloriosos habitantes do céu se adiantarão e contemplarão o terrível espetáculo, para que vejam em que consiste a ira e fúria do Todo-Poderoso; e quando tiverem visto, se prostrarão e adorarão essa grande majestade e poder, Isaías 66:23-24: “E será que desde uma lua nova até à outra, e desde um sábado até ao outro, virá toda a carne a adorar perante mim, diz o Senhor. E sairão, e verão os cadáveres dos homens que prevaricaram contra mim; porque o seu verme nunca morrerá, nem o seu fogo se apagará; e serão um horror a toda a carne”.

4. É uma ira eterna. Será terrível sofrer esta ira e fúria do Deus todo-poderoso por um momento, mas vocês devem sofrê-la eternamente. Não haverá fim para esta miséria horrível e extrema. Quando olharem adiante, verão uma longa eternidade, uma jornada infindável adiante de vocês, que engolirá seus pensamentos e confundirá suas almas; e se desesperarão de qualquer espécie de libertação, fim, ou de qualquer mitigação ou alívio. Saberão que deverão suportar longas eras, milhões de milhões de eras, em luta e conflito com esta poderosa vingança impiedosa; e então, quando isso acontecer, quando muitas eras realmente passarem desse modo, saberão que isso tudo não representa senão um ponto em relação ao que resta. De modo que o castigo de vocês será de fato infinito. Ó, quem pode expressar qual será o estado de uma alma em tais circunstâncias! Tudo o que podemos dizer a esse respeito não dá senão um vislumbre fraco e imperfeito daquilo que é inexprimível e inconcebível: pois “quem conhece o poder da ira de Deus?”

Como é terrível o estado dos que estão diariamente e a toda hora em perigo desta grande ira e infinita miséria! Mas este é o desastroso caso de cada alma nesta congregação que ainda não nasceu de novo, ainda que seja moral e rigorosa, sóbria e religiosa. Ó, considere isso, quer seja jovem ou velho! Há razão para pensar que há muitos agora, nesta congregação, ouvindo este discurso, que serão objetos desta mesma miséria por toda a eternidade. Não sabemos quem são, ou os bancos onde estão assentados, ou que pensamentos agora têm. Pode ser que estejam agora relaxados, e ouçam tudo isso sem muita preocupação, e se gabem que não sejam essas pessoas, prometendo a si mesmos que escaparão. Se soubéssemos que há uma pessoa, apenas uma, em toda a congregação, que deve ser objeto dessa miséria, como seria terrível pensar nisso! Se soubéssemos quem era, que visão terrível seria para tal pessoa! Como seria poderoso o clamor lamentável e amargo que o resto da congregação lançaria por ela! Mas, em vez de um, não é provável que muitos se lembrem deste discurso no inferno? E seria por demais maravilhoso se alguns dos que aqui se encontram agora devam estar no inferno em pouco tempo, talvez antes que o ano se acabe? E não seria incrível se algumas pessoas, que agora estão assentadas em alguns dos bancos desta igreja, saudáveis, tranquilas e seguras, estejam lá amanhã de manhã. Aqueles de vocês que persistirem até o fim em um estado natural, que se mantiveram por muito tempo fora do inferno, lá estarão em pouco tempo! A sua condenação não dorme; virá rapidamente, e provavelmente, muito repentinamente, sobre muitos de vocês. Há razão para se maravilharem que não estejam agora mesmo no inferno. Esse certamente é o caso de alguns a quem conheceram e viram, que nunca mereceram o inferno mais do que vocês, e que até aqui pareciam ter tanta chance de estar vivos como vocês. A esperança deles se foi; estão chorando em extrema miséria e perfeito desespero. Mas aqui estão vocês, na terra dos vivos e na casa de Deus, e com oportunidade de obter a salvação. O que não dariam essas pobres e desesperadas almas condenadas por uma oportunidade de um dia como agora vocês têm?

E agora têm uma oportunidade extraordinária, um dia em que Cristo abriu largamente a porta da misericórdia, e de pé chama e clama em alta voz aos pobres pecadores. Um dia em que muitos se reúnem a Ele, e se esforçam pelo reino de Deus. Muitos vêm diariamente do oriente, ocidente, norte e sul; muitos que outrora estiveram nas mesmas condições miseráveis em que vocês se encontram, agora estão em um feliz estado, com seus corações cheios de amor por Aquele que os amou, e os lavou dos seus pecados em Seu próprio san-gue, e regozijam-se na esperança da glória de Deus. Como é terrível ser deixado para trás em tal dia! Ver tantos festejando, enquanto vocês sofrem e perecem! Ver tantos se regozijando e cantando alegres cantos cordiais, enquanto vocês têm razão para prantear pela tristeza do coração, e ulular pela tristeza de espírito! Como podem descansar um só momento em tal condição? As suas almas não são tão preciosas quanto às dos cidadãos de Suffield, que estão dia após dia se reunindo a Cristo?


Não há muitos aqui que viveram por muito tempo no mundo, e até hoje não nasceram de novo? E estão por esse motivo alienados da comunidade de Israel, e nada fizeram enquan-to viveram senão entesourar ira para o dia da ira? Ó, senhores, a situação de vocês é, de modo especial, extremamente perigosa. A sua culpa e dureza de coração é grande em extremo. Não veem vocês como a maior parte dos de sua idade já faleceram e partiram, na atual dispensação notável e maravilhosa da misericórdia de Deus? Vocês precisam considerar o seu caso, e despertar completamente do sono. Vocês não podem suportar a fúria e ira do Deus infinito.


E vocês, rapazes e moças, negligenciarão este precioso tempo que agora desfrutam, quando tantos de sua idade estão renunciando às vaidades juvenis e ajuntando-se a Cristo? Vocês, em especial, agora têm uma oportunidade extraordinária; mas se a negligenciarem, logo acontecerá com vocês o mesmo que com aquelas pessoas que gastaram os preciosos dias de sua juventude no pecado, e agora vieram a dar um terrível passo na cegueira e endurecimento.
E vocês, crianças, que ainda não são convertidas, não sabem que estão indo para o inferno, suportar a terrível ira desse Deus, que agora está irado com vocês noite e dia? Vocês se contentarão em serem filhos do diabo, quando tantas outras crianças na nossa terra estão sendo convertidas, e tornando-se os santos e felizes filhos do Rei dos reis?


E que todos os que ainda se encontram fora de Cristo, pendurados sobre o abismo do inferno, quer sejam velhos e velhas, de meia idade, ou jovens, ou crianças, agora ouçam os altos chamados da palavra e da providência de Deus. Este ano aceitável do Senhor, um dia de tão grande favor para alguns, sem dúvidas será dia de vingança igualmente notável para outros. O coração dos homens endurece e suas culpas aumentam rapidamente em dias como estes, se negligenciarem suas almas; e jamais houve época de tão grande perigo de tais pessoas serem entregues à dureza de coração e cegueira de mente. Deus parece agora estar ajuntando rapidamente Seus eleitos em todas as partes da nação; e é provável que a maior parte dos adultos que alguma vez serão salvos, sejam atraídos em pouco tempo, e que será como foi no grande derramamento do Espírito sobre os judeus nos dias dos apóstolos. Os eleitos serão salvos e os demais serão cegados. Se isso ocorrer a vocês, amaldiçoarão eternamente este dia, e o dia em que nasceram, por terem visto o tempo de derramamento do Espírito de Deus, e desejarão ter morrido e ido ao inferno sem tê-lo visto. Agora, sem dúvidas, ocorre o mesmo que nos dias de João Batista; o machado se encontra de modo extraordinário posto na raiz das árvores, e toda árvore que não produz bons frutos, será cortada e lançada no fogo.

Portanto, que todos os que estão fora de Cristo, agora acordem e fujam da ira vindoura. A ira do Deus Todo-Poderoso agora, sem dúvidas, está suspensa sobre grande parte desta congregação. Que todos fujam de Sodoma: “apressem-se e fujam por suas vidas, não o-lhem para trás, escapem para a montanha, para que não sejam consumidos.”

____________________________________________

Pense nisso. Deus está trazendo despertamento sobre tua vida!