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terça-feira, 22 de agosto de 2017

O QUE É O SHEKINÁ? A BÍBLIA FALA SOBRE ISSO?

Logo de início, devemos estar cientes de que as pessoas adoram uma polêmica, especialmente sobre assuntos cujo conhecimento demande uma pesquisa mais extensa do que ler meia página de um livro. Isso demonstra, no mínimo, uma ausência de seriedade intelectual. São feitas afirmações sobre algo que esteja - ou não esteja - na Bíblia, que ela ensine (ou não)? Então recorramos a Bíblia! Recorramos à pesquisa e leitura, conferindo nas Escrituras como os crentes de Beréia faziam (At 17.11). Se necessário, recorramos a outras fontes, sempre comparando, analisando, refletindo e julgando toda informação e conhecimento à luz da Revelação. Afinal, a fé em Cristo é a fé que tem base nos registros históricos e proféticos compreendidos na coleção de Livros Inspirados por Deus chamado Bíblia Sagrada, o cânon, a medida de comparação daquilo que é espiritual.

Eu particularmente gosto muito de conferir todas as coisas, todos os ensinos ditos bíblicos ou derivados da Bíblia. Tenho por hábito fazer assim, não aceitando nada sem conferir. Ler, estudar, esmiuçar o assunto até me dar por satisfeito, até ter a confirmação de que aquilo que está sendo propalado como "bíblico" ou "não-bíblico" é de fato assim (ou não). Esse é o papel de todo Mestre na Palavra de Deus - filtrar todos os ensinos ditos "de Deus" - até os seus mesmos! - de forma a ensinar à Igreja apenas a boa, perfeita e agradável vontade de Deus. A função do Mestre é, por assim dizer, de "destilar a doutrina" (Dt 32.2), removendo dela as impurezas humanas e não raro as impurezas demoníacas para só então ministrá-las ao Corpo de Cristo.

Assim, nessa argumentação, meu objetivo é abordar uma recente polêmica acerca do termo "shekiná", levantado no site http://www.previnasedamarca.com/arquivo.php?recebe=materia/judaismo/37/37.html e que vem sendo compartilhada em redes sociais. Segundo o website, o termo shekiná seria o nome de uma "demônia" (?!?), derivado da cabala judaica, sendo "a grande rainha do céu", "Lilith" e similitudes. Toda a linha de raciocínio utilizada para chegar a esta conclusão tem como base a própria cabala, textos rosacrucianos, textos maçônicos, etc.. Aqui, vamos preencher esta lacuna, ou seja, fazer uma análise à luz da Bíblia e de suas ferramentas (comentários, dicionários, etc).

Shekiná é comumente compreendido nos círculos evangélicos como sendo a "manifestação visível da glória de Deus", "a presença da glória de Deus"

1. O Termo Shekiná:

Este termo não aparece com essa grafia na Bíblia. Não existe na Bíblia a palavra "shekiná" (ou shechiná). O termo que aparece na Bíblia, do qual deriva-se esse termo, é "shachan" (aparece em Êx 40.35, traduzido para o português como "permanecer" - outros sinônimos são "residir ou ficar permanentemente - permanecer, continuar, morar, ter habitação, habitar, estabelecer, colocar (manter), descansar, definir"), do original שָׁכַ֥ן (sh-k-n). Muitas são as formas e transliterações desse termo.  Como "estabelecer, permanecer", o termo aparece ligado a pessoas (p.ex. Nm 24.2; Sl 102.29; I Cr 17.9; Jr 23.6, etc.), a animais (p.ex. Dt 33.20; Is 34.11; Ez 17.23, 31.13; Sl 55.7, etc), a coisas (p.ex. nuvem - Jó 3.5; Êx 24.16, 40.35; Nm 9.17; etc),  de homens (Sl 37.27; Is 65.9; Jó 18.15, 30.6; Jr 14.28; etc), dos mortos (p.ex. Is 26.19; Jó 4.19; etc), de Deus (p.ex.  I Rs 8.12; II Cr 6.1; Is 33.5, 57.15; Dt 33.16; etc). Como "fazer estabelecer, estabelecer", o termo aparece em  Dt 12.11; 14.23; 16.2,6,11; 26.2, etc.
Há um total de 128 ocorrências de sh-k-n (e suas variantes, como os termos shaChanta, shaChanti, shaChen, shacheNah, shacheNu, sheChon, shikKanti, shikKen, shochanT, shoChen, shocheNei, shocheNi, dentre muitos outros) na Bíblia.

Como visto, apesar de ser hebraica, a palavra "Shekinah" ocorre com maior freqüência nas versões aramaicas, uma vez que foram destinadas ao povo e foram realmente lidas para eles, e como precauções que deveriam ser tomadas contra possíveis mal-entendidos em relação à concepção de Deus. A palavra "habitação" no texto hebraico é, portanto, processada no Targumim pela frase "deixe o Shekinah descansar" (p.ex. Êx 25.8; 29.45,46; Nm 5.3; etc).

2. Análise de passagens selecionadas, usadas para embasar o shekiná como manifestação visível da glória de Deus vindo sobre os homens:

a) Êxodo 40:35 - "De maneira que Moisés não podia entrar na tenda da congregação, porquanto a nuvem permanecia sobre ela, e a glória do Senhor enchia o tabernáculo". (ACF) Note que o termo sh-k-n não é traduzido por glória (heb. kabowd). Em Êxodo 40:35 lemos que a "a nuvem permanecia (shakan) sobre a tenda do tabernáculo" e "a glória (kabowd) do Senhor enchia o tabernáculo". Se adotarmos uma interpretação causa-efeito, podemos afirmar que a glória enchia o tabernáculo como consequência da nuvem do Senhor permanecer sobre ele. Episódio semelhante é relatado em Números 16:42, mostrando a mesma sequência lógica. Por isso, é fácil ver o termo "shekiná" confundido com o termo "glória". Diria que trata-se de desconhecimento (em muitos casos) ou de relação metonímica (para aqueles que compreendem o significado do termo shekiná).   

b) II Crônicas 7:1,2 - "E acabando Salomão de orar, desceu o fogo do céu, e consumiu o holocausto e os sacrifícios; e a glória do SENHOR encheu a casa. E os sacerdotes não podiam entrar na casa do Senhor, porque a glória do Senhor tinha enchido a casa do Senhor." (ACF) (ver também I Reis 8:11; II Cr 5.14). Nessas passagens sequer há menção do termo sh-k-n. Esse termo simplesmente não aparece nesses textos. O que aparece aqui é o termo glória (kabowd). A mesma análise pode ser obtida a partir dos textos de Êxodo 16:10, 24.17, 33.22, etc. 

c) Êxodo 24:15,16 - "E, subindo Moisés ao monte, a nuvem cobriu o monte. E a glória do Senhor repousou sobre o monte Sinai, e a nuvem o cobriu por seis dias; e ao sétimo dia chamou a Moisés do meio da nuvem." (ACF) Aqui, a glória (kabowd) do Senhor repousou (shakan) sobre o monte. Novamente, a glória associa-se com a nuvem como em Êx 40.35. Vale dizer que a nuvem podia ser vista, mas nada pode-se concluir a esse respeito da glória. John Gill, em seu comentário "Gill's Exposition of the Entire Bible", explica que houve nesse episódio a manifestação da "shekiná ou majestade de Deus" (com isso, dando o significado de majestade ao termo shekiná). 

3. De onde surgiu o termo Shekiná?

She-ki'-na (shekhinah, "o que habita", do verbo shakhen, ou shakhan, "morar", "residir") aparece originalmente apenas nos Targuns (cf. "International Standard Bible Encyclopedia", 1915).  Conforme explica o Pr. Matt Slick no site CARM (Christian Apologetics & Research Ministry), "a glória Shekinah de Deus se refere à presença pessoal de Deus. A palavra Shekinah não ocorre no Antigo ou no Novo Testamento nas línguas originais. No entanto, ele entrou na teologia cristã como um termo dos targuns e literatura rabínica depois que o Antigo Testamento foi concluído e antes do início do período do Novo Testamento. Foi usado para descrever a própria presença de Deus". Portanto, foi usado pelos rabinos em referência à presença do Senhor entre o seu povo (Êxodo 19: 16-18; 25: 8; 40: 34-38; 1 Reis 6:13). Os rabinos usaram o termo em referência à glória de Deus que enche o templo (2 Crônicas 7:1), a sua presença na nuvem (Êxodo 14:19; 1 Reis 8: 10-13), e a sua habitação no monte (Salmo 68:16-18; 74: 2; Isaías 8:18; Joel 3:17). Outra maneira de descrevê-lo seria usar o termo "glória de Deus", uma vez que a frase é usada para descrever sua presença (Salmo 19:1; Ezequiel 43:2; Lucas 2:9; Atos 7:55).

Uma lista de correspondências entre os Targuns Onkelos / Jonathan Ben Uziel e NKJV onde aparece o termo Shekiná pode ser vista em http://aramaicpeshittant.com/shekinah-targum-list/. Exemplo: 
  • Tagum - Êx 33.14: And He said, My Shekinah shall go, and I will give thee rest. (tradução: E disse, Minha Shekinah irá, e eu vou te dar descanso).
  • NKJV - Êx 33.14:  And He said, “My Presence will go with you, and I will give you rest.” (tradução: E disse, Minha Presença irá com você, e eu vou dar-lhe o descanso).
A obra intitulada "The Targum of Zephaniah: Manuscripts and Commentary" relata que a ideia do "Shekhinah" foi desenvolvida na época do Segundo Templo e é inerentemente a Presença Divina acompanhada dos atributos de misericórdia, santidade e luz. Ela é a Divina afirmação da proteção sobre Israel em Sua (isto é, de Deus) terra. Enquanto Deus "habitar" dentro do Templo e Israel, nenhum dano pode acontecer com eles a menos que se rebelem contra o Senhor. Na literatura rabínica, a Shekhina está associada a vários outros termos religiosos e teológicos (como o termo "Memra", "a Palavra", no sentido da palavra ou fala criativa ou diretiva de Deus que manifesta o Seu poder no mundo da matéria ou da mente; um termo usado especialmente no Targum como um substituto do "Senhor" quando uma expressão antropomórfica deve ser evitada). Conforme a Enciclopédia Britância, "a Shekhina desceu no tabernáculo e no Templo de Salomão, embora também seja dito que era uma das cinco coisas que faltavam no Segundo Templo. A glória de Deus que encheu o tabernáculo (Êxodo 40:34) foi pensada como um resplendor brilhante, e a Shekhina às vezes é concebida de forma semelhante". Para registro, as "5 coisas que faltavam no Segundo Templo" eram: (1) o fogo (que foi aceso do céu); (2) a arca; (3) o oráculo do sacerdote (urim e tumim); (4) o óleo da unção e (5) o Espírito Santo (o Espírito da profecia). 


Resumidamente, shekiná seria a junção da glória de Deus e de Sua presença. Quando o Senhor está presente, Sua glória é manifesta. Isso seria o que chamamos shekiná. Um termo teológico, portanto, que descreve a presença imanente no mundo do Deus transcendente. (Elwell, Walter A., and Philip Wesley Comfort. Tyndale Bible Dictionary. Tyndale Reference Library. Wheaton, IL: Tyndale House Publishers, 2001).  O termo foi usado pelos rabinos no lugar de "Deus", onde as expressões antropomórficas da Bíblia já não eram consideradas adequadas (cf. Jewish Encyclopedia, http://www.jewishencyclopedia.com/articles/13537-shekinah); em alguns casos, foi usado em substituição ao nome de Deus (cf. Carol A. Dray. Studies on Translation and Interpretation in the Targum to the Books of Kings). Justamente por ser um termo teológico, Shekiná não é encontrado na Bíblia, do mesmo modo que se dá com outros termos teológicos (como trindade, imanência, ser teantrópico, união hipostática, etc). Porém isso não significa que ele seja antibíblico.

Na literatura judaica, "o Espírito Santo" surge em conexões onde "a Presença" é empregada em outros lugares, sem qualquer aparente diferença de significado.  Assim, é dito no Tanhuma que até o templo ser destruído, a shekinah foi colocada no templo ("O Senhor está em seu templo sagrado", Salmo 11.4); após a destruição do templo, o shekinah ascendeu ao céu ("O Senhor, no céu é o seu trono", ibid.). Compare com Koheleth Rabbah na Eccl. 192,7: "Quando Jeremias viu que Jerusalém foi destruída, e o templo queimou, e Israel foi para o exílio, e o Espírito Santo retomou", etc. A interação é especialmente freqüente em referência às pessoas a quem o Espírito ou a Presença vem, ou sobre quem repousa. Um bom exemplo é o Tos. Sotah 13, 3 em comparação com Bab. Sotah 48b; Sanhedrin Ila. No primeiro, a voz do céu declara que uma das empresas é digna de ter o Espírito Santo sobre ele; o Talmud tem 'o shekinah'. (cf.
MOORE, George Foot. Intermediaries in Jewish Theology: Memra, Shekinah, Metatron. Harvard Theological Review, v. 15, n. 1, p. 41-85, 1922.)
4. Conclusões.
 
Conforme as referências consultadas, o termo Shekiná foi cunhado nos Targums (constando ainda no Midrash, no Mishnah e no Talmude)  para explicar as ações de Deus no Tempo e espaço através de um agente manifesto. Eles tinham por objetivo explicar as Escrituras para pessoas "leigas", de forma que pudessem compreendê-las. Assim, os Targuns tinham a mesma função dos nossos comentários bíblicos modernos. É bom relembrar que essa tarefa não era simples. Como explicar a transcendência e imanência de Deus à luz do monoteísmo bíblico? Como explicar que "Deus habita com o Seu povo" sendo Ele transcendente, de forma a não confundir imanência com animismo? Para isso foi cunhado o termo Shekiná, trazendo em si a idéia do antropomorfismo - por exemplo, no verso "Senhor Deus de Israel, não há Deus como tu, em cima nos céus nem em baixo na terra" (versão de Almeida) para "Senhor Deus de Israel, não há Deus como tu, cuja Shekiná está em cima nos céus e que governa a terra em baixo" (Targum). Vale dizer que a Bíblia está repleta de linguagens antropomórficas acerca de Deus. Portanto, os Targums usaram esse termo (e outros) para se referir à auto-revelação de Deus. Obviamente, o termo Shekiná traz em si fortes implicações cristológicas.

No Novo Testamento, Jesus Cristo é a morada da glória de Deus. Colossenses 2: 9 nos diz que "em Cristo toda a plenitude da Divindade vive na forma corporal", fazendo com que Jesus exclamasse a Filipe: "Quem viu-me viu o Pai" (João 14: 9). Em Cristo, vemos a manifestação visível de Deus mesmo na segunda pessoa da Trindade. Embora Sua glória também tenha sido velada, Jesus é, no entanto, a presença de Deus na Terra. Assim como a Presença divina morava em uma tenda relativamente plana chamada "tabernáculo" antes que o Templo em Jerusalém fosse construído, a Presença também habitava no homem relativamente simples que era Jesus. "Ele não tinha beleza ou majestade para nos atrair para ele, nada em sua aparência que devemos desejá-lo" (Isaías 53: 2). Mas quando chegarmos ao céu, veremos tanto o Filho como o Pai em toda a sua glória (1 João 3: 2). No Novo Testamento, Jesus é o Shekiná de Deus.
Qualquer correspondência entre o fato do termo Shekiná ser feminino com um suposto demônio do sexo feminino, como postulou o(a) autor(a) do artigo no site da internet se realmente existir deve-se tão somente ao esoterismo cabalístico ou a outras fontes igualmente esotéricas, fato este citado pelo(a) próprio(a) autor(a) desse texto. Isso facilmente pode ser constatado já na afirmação sobre "demônias". É preciso perguntar: espíritos tem sexo? O fato de um termo não estar na Bíblia faz dele um termo antibíblico só porque uma fonte esotérica faz uso do mesmo? 

Estudar, ler, conferir, pensar... ver e rever, até ter clareza suficiente sobre o assunto. Assim deve proceder todo aquele que estuda algum assunto, especialmente aqueles assuntos que são milenares, como o cristianismo, o judaísmo, etc.  Sempre pode haver mais de um uso para um determinado conceito, mais de uma aplicação, dependendo do autor.

Pense nisso. Deus está te dando visão de águia!

segunda-feira, 17 de julho de 2017

O DEUS QUE SE OCULTA PARA SE REVELAR E SE REVELA PARA SE OCULTAR


"De noite, em minha cama, busquei aquele a quem ama a minha alma; busquei-o, e não o achei. Levantar-me-ei, pois, e rodearei a cidade; pelas ruas e pelas praças buscarei aquele a quem ama a minha alma; busquei-o, e não o achei. Acharam-me os guardas, que rondavam pela cidade; eu lhes perguntei: Vistes aquele a quem ama a minha alma? Apartando-me eu um pouco deles, logo achei aquele a quem ama a minha alma; agarrei-me a ele, e não o larguei, até que o introduzi em casa de minha mãe, na câmara daquela que me gerou." (Ct 3.1-4)

"Verdadeiramente tu és o Deus que te ocultas, o Deus de Israel, o Salvador." (Is 45.15)

Deus que se esconde ("'El mistatter"), o Deus absconditus. Uma das coisas mais desconcertantes que algumas vezes acontece com alguém é quando Deus esconde Seu rosto e se torna ausente. O teólogo Karl Barth descreveu como até mesmo um pastor ou estudante das Escrituras, mesmo possuindo todo tipo de conhecimento, pode "perde o cheiro" da presença de Deus fazendo com que toda a atividade de estudar Deus fique vazia e infrutífera. O mais precioso que temos ou podemos perder é a presença do próprio Deus.

Reconheço que esse conceito de um Deus que se esconde não é nem um pouco comum para a Igreja atual. Fala-se muito acerca do Deus que se revela, do Deus que se deu a conhecer ao mundo e que vem falando com os homens desde priscas eras. Temos, com isso, o entendimento de que Deus que está sempre disponível, que Ele é facilmente alcançável, como se Ele estivesse sempre à nossa disposição. Nós falamos e Ele prontamente se manifesta! Porém, esse conceito está muito longe do que a Bíblia ensina sobre o nosso Deus. O fato é que Deus não é superficial, facinho!

A verdade é que Deus pode esconder Sua face. Isso pode à primeira vista parecer meio contraditório, afinal há muitas passagens bíblicas que mostram Deus falando e interagindo com o homem. Davi disse que o Senhor está perto de todos os que o invocam (Sl 145.18). Então como podemos entender um Deus que se esconde? De um Deus que é acessível e inacessível ao mesmo tempo? Se Deus nos ama, porque então Ele se esconde de nós? Porque Ele muitas vezes se silencia diante dos nossos dramas existenciais? Porque às vezes Ele é tão difícil de ser encontrado por nós?

Os homens podem procurar Deus e não encontrá-Lo; podem clamar e Ele não responder. No entanto, Ele não está ausente, apenas em silêncio. Assim, a primeira coisa que precisamos entender sobre um Deus que se esconde é que o fato Dele esconder-se de nós não significa que Ele não nos ame ou esteja indiferente para nossa situação. Muitas vezes, diante dos problemas da vida, ficamos perplexos e sem respostas; daí buscamos essas respostas (e o livramento) em Deus mas parece que Ele não está nem aí para a nossa situação! Veja o caso do patriarca Jó: de uma vida de paz e prosperidade para uma vida de ruína. Ele ficou cheio de úlceras malignas desde a planta do pé até ao alto da cabeça e passou a se raspar com um caco (Jó 2:7,8). Sua dor era muito grande! (Jó 2:13) Jó então queixa-se do se estado, abrindo espaço para seus amigos o refutarem. Isso prossegue durante a grande maioria do livro - os amigos acusando Jó, Jó se defendendo e questionando Deus sem obter resposta -, até que na parte final Deus revela-se a Jó e não responde suas perguntas. Deus que estava até então escondido, ao falar com Jó não disse a ele os porquês daquilo tudo em sua vida! Somente ao final Deus vem e restaura a sorte de Jó, mostrando amor e bondade com o seu servo. O resultado para a vida de Jó é que ele passou a conhecer a Deus de uma forma mais profunda do que antes.

A experiência de Jó é emblemática: Deus, com seu silêncio, tencionava levar a Jó numa experiência mais profunda, mais real com Ele. Até então, na bonança, qual era o conhecimento de Deus que Jó possuía? Que tipo de relacionamento havia entre Jó e Deus? Era um relacionamento de causa-efeito! Jó ouvira falar que Deus recompensa o justo e castiga o injusto. Daí baseou a sua vida nisso. Jó fazia o bem, aquilo que segundo ele Deus esperava que fosse feito, então Deus recompensava Jó com bênçãos e prosperidade! Porém, quando Deus permitiu que Satanás tocasse na vida de Jó, Jó ficou confuso! Ele ficou a um passo de perder a sua fé: "Eu fiz tudo certo, tudo o que Deus gosta! Porque estou recebendo o mal em minha vida?!?"  Para Jó, o sofrimento era algo inadmissível em sua vida, porque o conhecimento que ele tinha de Deus excluía essa possibilidade! Jó achava que sabia tudo de Deus, e terminou reconhecendo que não sabia nada!

A verdade é que assim como Jó tem muitos hoje. Acham que sabem tudo que se há de saber sobre Deus! Eles dizem que se a pessoa for boazinha e fizer tudo o que se espera dela, então Deus obrigatoriamente tem que abençoar a vida dessa pessoa! Essas pessoas vivem constantemente numa profunda crise de fé, porque constatam, perplexas, que as coisas não funcionam assim! Deus pode permitir o mal mesmo sobre os bonzinhos e fiéis! Pode permitir o sofrimento mesmo na vida dos justos! E, para complicar ainda mais as coisas, a vida dos injustos e infiéis muitas vezes vai "de vento em popa", num "céu de brigadeiro". Deus não apenas permite o mal na vida dos justos, mas permite o bem na vida dos injustos! Esse é o paradoxo de Asafe, encontrado no Salmo73, onde os ímpios prosperam no mundo e aumentam em riquezas, enquanto o justo é afligido diariamente e castigado cada manhã (Sl 73.12,13). Somente em Deus Asafe alcançou a solução para seu paradoxo. Deus nos prova e a Sua prova é muito difícil!

Na prova que Deus deu a Jó, Jó saiu-se bem. Ele mostrou a Satanás que não era interesseiro, materialista, egoísta. Que não buscava a Deus só para ter bênçãos. Ele ficou na pior, ficou na pindaíba, ficou doente, mas não amaldiçoou Deus (o conselho de sua mulher). Jó até amaldiçoou o seu nascimento, mas a Deus? Jamais! Ele amava a Deus e vivia o relacionamento com Deus na base que até então que ele compreendia. Mas Deus é um Deus que se oculta e se revela! Se oculta para então revelar-se e se revela para então ocultar-se!

Deus está se ocultando da Igreja evangélica atual. Deus está em silêncio. Hoje há muitas denominações no Brasil e no mundo, mas pouca gente buscando a Deus de verdade. Pouca gente interessada verdadeiramente em Deus, interessada no relacionamento com Ele. O interesse quase total do homem em Deus está naquilo que Deus pode dar, não na Pessoa de Deus. Quando muito, estão interessadas em escapar do inferno, mas não na vida eterna bíblica: "E a vida eterna é esta: que te conheçam, a ti só, por único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, a quem enviaste." (Jo 17.3) Vida eterna é conhecer o Pai e o Filho! É ter um relacionamento sólido com Deus; relacionamento de fé e fidelidade! E esse relacionamento não é edificado numa base superficial, carnal e interesseira! Para que Deus possa se relacionar conosco, Ele precisa tocar em nós no fundo da nossa alma, lá na divisão da alma com espírito, naquilo que é "crítico" para nós, que muitas vezes não conhecemos, mas que impede o aprofundar desse relacionamento! Daí, vem a segunda verdade: esse relacionamento com Deus, ainda que envolva as nossas emoções, não se baseia nelas. Emoções são boas no relacionamento com Deus - até no culto a Deus - mas o emocionalismo não.

Infelizmente, há uma ação maligna em curso que visa reduzir a nossa fé sobrenatural em sinais exteriores, em “experiência”, em “arrepio”. Muitos crentes vão para o culto não para buscarem Deus, mas para sentirem alguma emoção, para experimentarem alguma coisa de Deus, para terem “sensações”. O problema disso é que emoções não são um caminho confiável no relacionamento com Deus. Emoções podem ser produzidas pelo contato do homem com Deus? Sim! Mas também podem ser produzidas por outros meios: um filme, um toque, uma técnica... Isso acaba trazendo confusão e engano! Por isso, Deus não quer que nossa relação com Ele dependa de sensações. Buscar a Deus para ter uma sensação não é buscar a Deus, e sim buscar conforto emocional. Ao se esconder, Deus fortalece a nossa fé. Aprendemos que sentir coisas não quer dizer necessariamente “presença de Deus”. Somos livres do engano do inimigo e da manipulação humana, e ao mesmo tempo passamos a valorizar mais a presença de Deus quando Ele se manifesta verdadeiramente!

Valorizar Deus e o relacionamento. Dar valor. Dar importância. Honrar. Considerar importante. Considerar caro e precioso. Jesus contou uma vez a parábola do tesouro escondido num campo. Ele disse que o reino de Deus "é semelhante a um tesouro escondido num campo, que um homem achou e escondeu; e, pelo gozo dele, vai, vende tudo quanto tem, e compra aquele campo" (Mt 13.44). Considerando que o reino de Deus só é bom e desejável porque Deus é o soberano desse reino, então Deus podemos derivar que Deus deve ser semelhante a esse tesouro escondido, só que não por um homem, mas pelo próprio Deus! Deus se escondeu para que os homens pudessem achá-Lo e valorizar esse achado! Achar Deus é o verdadeiro achado!       

Se Deus se escondeu, então devemos procurá-Lo com todas as nossas forças! Essa é a nossa busca, a busca da nossa vida! Antes de qualquer coisa, antes de casamento, de bens materiais, de prosperidade! Deus disse a Israel por meio do profeta Jeremias: “E buscar-me-eis, e me achareis, quando me buscardes com todo o vosso coração.” (Jr 29.13) Note a condição para achar Deus: buscá-lo "de todo o coração"! Deus promete ser achado pelo Seu povo, quando o Seu povo buscá-Lo com integridade de propósito e sinceridade de vida; quando se aproximarem Dele com um coração verdadeiro, invocando-O  em verdade e procuram por Ele com ansiedade e desejo real de encontrá-Lo! Buscar ao Deus que se esconde é algo que vai além da salvação dos pecados. A bem da verdade, somos salvos do pecado para aplicarmos a nossa vida na busca ao Senhor e para servirmos só a Ele segundo Sua vontade para nossas vidas.

Quanto mais próximo do fim estamos, mais e mais Deus está chamando Seu povo para buscá-Lo de todo coração. Porque? Porque no tempo do fim o amor inevitavelmente irá esfriar e a fé inevitavelmente vai apagar (Lc 18.8; Mt 24.12). Muita gente vai perder a sua fé, vai esfriar no seu amor por Deus (e pelo próximo), pois a medida que o fim se aproxima, as pessoas tornar-se-ão mais e mais "amantes de si mesmos, avarentos, presunçosos, soberbos, blasfemos, desobedientes a pais e mães, ingratos, profanos, sem afeto natural, irreconciliáveis, caluniadores, incontinentes, cruéis, sem amor para com os bons, traidores, obstinados, orgulhosos, mais amigos dos deleites do que amigos de Deus, tendo aparência de piedade, mas negando a eficácia dela" (I Tm 3.1-5). Haverá cada vez mais uma pressão descomunal do inimigo, de Satanás, para fazer com que as pessoas se afastem de Deus, deixando de buscá-Lo em prol de cuidarem de suas próprias vidas: "comendo, bebendo, casando e dando-se em casamento" (Mt 24.37-39). Nosso Senhor acrescenta que somente serão salvos "aqueles que perseverarem até o fim" (Mt 24.13). Perseverar em quê mais, a não ser na busca ao Senhor? Nossa parte é responder a esse chamado do Senhor, como fez Davi: “Quando tu disseste: Buscai o meu rosto; o meu coração disse a ti: O teu rosto, SENHOR, buscarei.” (Sl 27.8) A face do Senhor deve ser buscada continuamente (Sl 105.4).

O que significa buscar ao Senhor de todo o coração?

1. Significa buscar ao Senhor com todas as faculdades do nosso ser. Um homem deve procurar Deus em Cristo Jesus com toda a sua natureza. Se o coração estiver dividido, a busca será em vão (Tg 1.8). Porque o nosso coração é, muitas vezes, dividido para com Deus, nós não o encontramos! Ele permanece no oculto!

2. Significa buscar ao Senhor com toda perseverança. Os crentes atuais não sabem e nem tocam em perseverança, pois começam as coisas e não terminam. Não tem força de vontade, não tem foco no alvo a ser alcançado. Perseverar é insistir, mesmo que a princípio ou que num dia ou época pareça não dar fruto. É buscar a Deus, continuar buscando e seguir nessa busca. Buscar sem cessar! Buscar por meio da oração, da meditação na Palavra!

3. Significa buscar ao Senhor com energia. Rompa com essa indiferença, com a passividade. Estamos ocupados com mil coisas, mas lentos sobre nossas almas! Deus não será encontrado por busca desprezível, descuidada e despreocupada. Sobre isso, ouçamos o que diz Moisés: "Ouve, Israel, o SENHOR nosso Deus é o único SENHOR. Amarás, pois, o SENHOR teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todas as tuas forças." (Dt 6.4,5) Isso é mandamento de Deus! Isso é ordem, é cumpra-se! É "estou mandando que vocês façam assim!" (Mt 22.38-40). Ouve, Igreja, o Senhor Jesus nosso Deus é o único Senhor!

O que fazer quando encontrar o Senhor? Cantares nos dá uma pista: "agarrei-me a ele, e não o larguei, até que o introduzi em casa de minha mãe, na câmara daquela que me gerou" (Ct 3.4). A primeira verdade aqui é que quem emprega todo seu coração na busca pelo Senhor não vai larga-lo em hipótese alguma. Encontrar Jesus é a maior bênção da vida de alguém que o busca incessantemente e que O ama de todo o coração. Essa pessoa se agarra em Jesus e suplica-O insistentemente que jamais o deixe sozinho! Pode vir a cair? Sim, é claro! Porém essa pessoa rapidamente reconhecerá essa queda e voltar-se-á ao Senhor, o Amado de sua alma, arrependido da sua queda! Vai fazer isso porque para essa pessoa estar com o Senhor Jesus é o bem mais precioso de sua vida! Foi caro encontrá-Lo e ela não irá perdê-Lo custe o que custar! Tem que confessar publicamente para restaurar o relacionamento? É para agora! Tem que se humilhar? É já! Se é verdade que valorizamos muito pouco aquilo que é obtido muito barato, então o inverso também é verdadeiro!

A segunda verdade aqui é que quem encontra o Senhor leva-O até a sua casa. Jesus introduzido no lar é Jesus governando os mínimos detalhes da nossa vida. É submissão e obediência a Ele para tudo e em tudo, rompendo com o maligno costume da autossuficiência e independência. Se Ele é verdadeiramente Senhor, Ele tem todo o direito de determinar o meu curso de vida; por seu turno, eu tenho obrigação de obedecê-Lo. Ou isso é verdade, ou estou mentindo sobre minha fé e relacionamento com Cristo; nunca o aceitei de verdade em meu coração. Minha fé não passa de ilusão em minha vida. Agora, se Ele é meu Senhor eu vou obedecê-Lo custe o que custar e nas mínimas coisas que Ele me demandar. Para isso, Ele tem estar em tudo como Senhor - até e principalmente no lar! Participando da minha vida. Tendo comunhão comigo e eu com Ele. Sendo por mim honrado e respeitado.

Apesar de haver pouca gente buscando ao Senhor, do quadro de apostasia que estamos vivendo e de Deus estar oculto, isso não quer dizer que Deus nada está fazendo. Deus está oculto, não inerte. Deus está agindo de forma a cumprir Seu plano que foi estabelecido antes da fundação do mundo. Ele está permitindo um aumento das tensões sociais, políticas e econômicas no mundo inteiro. Deus está abalando todas as coisas. Deus vai destronar Mamom do coração dos crentes e levar muitas denominações a falência financeira a fim de reconquistar para Si o coração de Seu povo! Deus vai expor a mentira satânica da teologia da prosperidade! Vão é confiar nas riquezas! De nada aproveitam as riquezas no dia da ira (Pv 11.4), quem nelas confia cairá (Pv 11.28)! Do mesmo modo, hoje já não há mais nenhum lugar seguro na Terra, porque a segurança pública está sendo abalada por Deus, de forma que Seu povo volte a crer que Ele é a nossa segurança, o nosso Guarda que não Dorme nem Cochila (Sl 121.4-8)! Na política, Deus está abalando também, mostrando a podridão, a corrupção que há nos mais altos escalões de governo! Para a Igreja, o Senhor está dizendo "podre e inútil é a vara do poder político; Eu, o Senhor, Sou o poder do Meu povo"!

Escondido, mas agindo, Deus vai levando cada dia mais a Sua Igreja a buscá-Lo com toda intensidade, ansiedade e coração novamente! Se o povo de Deus precisa de angústia e aperto para voltar-se ao Seu Senhor, muito bem, assim será! Foi assim no passado com Israel e será assim com a Igreja. O povo de Deus é obstinado de coração; para quebrar isso, só com algo muito quente e muito forte! Foi preciso o cativeiro babilônico para Israel no passado reconhecer que o Senhor e será preciso que os exércitos do Anticristo se reunirão para destruir Israel, no vale do Armagedom para que Israel reconheça que Jesus é o Messias! A Igreja também precisa experimentar o seu quinhão de calor e força! E quando isso acontecer, Deus voltará a ser desejado e buscado por Seu povo, culminando na revelação do Deus até então escondido como o Anjo da Aliança (Ml 3.1), o qual se assentará (porque vai da trabalho, vai levar tempo) para purificar Sua Igreja, preparando-a para o fim! Vai doer no profundo da alma, vai ser terrível esse dia; mas será necessário a fim de espremer o carnegão de cada um dos Seus filhos!

O Deus de Israel às vezes é um Deus que se esconde, mas nunca um Deus que se ausenta. Às vezes no oculto, mas nunca à distância.

Pense nisso. Deus está te dando visão de águia!

quinta-feira, 6 de julho de 2017

GEAZI E A LÁPIDE DO MINISTÉRIO CRISTÃO

"E ele disse a Geazi: Cinge os teus lombos, toma o meu bordão na tua mão, e vai; se encontrares alguém não o saúdes, e se alguém te saudar, não lhe respondas; e põe o meu bordão sobre o rosto do menino. E Geazi passou adiante deles, e pôs o bordão sobre o rosto do menino; porém não havia nele voz nem sentido; e voltou a encontrar-se com ele, e lhe trouxe aviso, dizendo: O menino não despertou." (II Rs 4.29,31)

Na Bíblia, Geazi é discípulo ("o moço") do profeta Eliseu, o qual sucedera Elias como profeta de Israel no Antigo Testamento. O nome Geazi significa "vale da visão" ou "vale de um visionário", possivelmente denotando a ambição interior desse jovem obreiro com relação a ter um futuro promissor no ministério profético. No entanto, apesar de ser discípulo de um dos maiores profetas de Israel, a história bíblica registra o fracasso ministerial de Geazi. Os fatos registrados falam por si.

Em duas ocasiões distintas vemos a atuação ministerial de Geazi. A primeira vez que seu nome é citado é no episódio da Sunamita (II Rs 4.12,13), a qual proveu especial acomodação em sua casa para Eliseu. Por ordem de seu mestre, Geazi chamou a Sunamita para que ela pudesse ser recompensada pelo profeta por sua liberal hospitalidade; porém, ela não desejava recompensas por seu bondoso gesto. Eliseu então consulta o seu servo, cuja rápida percepção lhe permitiu indicar a seu mestre o presente que satisfaria o grande coração dessa mulher: um filho. Porém, por permissão de Deus, esse filho vem a falecer. Com isso, Sunamita buscou o homem de Deus no Carmelo e, na intensidade de sua dor, agarrou os pés do profeta. Geazi então tenta retirá-la (II Rs 4.27) e é repreendido por Eliseu. Assim que soube do falecimento da criança, Eliseu manda Geazi levar seu bordão e por no rosto do menino a fim de o ressuscitar. Geazi faz como Eliseu mandou, mas nada acontece; o menino continua jazendo morto em sua cama.  Somente por meio de Eliseu é que o menino de Sunamita retorna a vida.

A bem da verdade, nesse primeiro episódio, vemos a prontidão em obedecer por parte de Geazi. Tudo que Eliseu mandou Geazi fazer, isso ele fez. Infelizmente, ele não pôde realizar o milagre que Eliseu havia comissionado ele a fazer. Deus simplesmente não "assinou em baixo" dessa ordem de Eliseu para Geazi; afinal, Deus o conhecia de uma maneira que não era possível Eliseu conhecer. Ainda que nesse primeiro episódio a sua atitude de obedecer prontamente está correta e é algo a ser seguido, o problema com Geazi que não é mencionado aqui está em seu interior, no seu coração. É importante entendermos que Deus conhece o que vai no nosso interior, nossas reais motivações por detrás das nossas ações. Foi isso que O Senhor deixou claro para o profeta Samuel, quando o mesmo foi ungir um rei na casa de Jessé, o Beelemita, em substituição ao rei Saul: "Não atentes para a sua aparência, nem para a grandeza da sua estatura, porque o tenho rejeitado; porque o SENHOR não vê como vê o homem, pois o homem vê o que está diante dos olhos, porém o SENHOR olha para o coração." (I Sm 16.7) Deus estava olhando para o coração de Geazi - e não estava aprovando o que via!

O que Deus estava vendo, afinal, de ruim no coração de Geazi? Que pecado oculto havia ali, escondido nas profundezas da alma desse rapaz? Por certo, havia algo ali, fermentando, crescendo silenciosamente, de forma imperceptível aos olhos humanos. Eliseu não viu. Ele não podia ver, mesmo que quisesse. O coração humano é cheio de segredos, cheio de conflitos, cheio de mazelas. Há pecados e pecados. Há pecados que envolvem áreas de inviabilizam a aprovação, no exercício ministerial, por parte de Deus. Por favor, entenda o que eu quero dizer com isso: todos nós, seres humanos, somos pecadores; todos pecamos. O apóstolo João diz que "se dissermos que não temos pecado, enganamo-nos a nós mesmos, e não há verdade em nós" (I Jo 1.8), logo segue-se que todo e qualquer ser humano, por mais santificado e usado por Deus que seja, comete pecado. Vale dizer que apesar de cometermos pecado, nós não vivemos na prática do pecado - ou seja, o pecado não é nosso estilo de vida como crentes em Cristo. 

No entanto, há alguns pecados que inviabilizam o exercício do ministério cristão. Pecados que são capazes de destruir um ministério, de inutilizar um ministro de Cristo. Esses pecados aos quais me refiro envolvem as áreas do sexo, poder e dinheiro. A cada ano cresce o número de pastores que naufragam no ministério por causa da falta de vigilância e negligência com essas áreas. É fácil entender o porquê. Basta ver quantas das divisões e rachas que há na igreja evangélica foram (e são) motivadas pelo desejo de ter poder isolado e independente ("ministério independente")! Quantas mulheres, potencializadas pelo espírito de Jezabel, estão dominando, pelo uso do sexo, sobre igrejas inteiras sob a tolerância de pastores "Acabes"! Por amor ao dinheiro, quantos não estão mercadejando com a Palavra de Deus, com os padrões da retidão e os princípios do Reino de Deus, "flexibilizando-os" em prol de um crescimento quantitativo de membros e receitas, sujeitando vidas até mesmo a heresias destruidoras, a doutrinas de demônios! Sim, em muitos lugares o "ensino especial" é fornecido diretamente pelo inferno! Quantos obreiros caíram nesses pecados, se ensoberbecendo, com egos inflados e inflamados, sendo vítimas da própria vaidade ministerial, que tem levado muitos ao desprestígio e queda, diante de Deus, da  igreja e dos homens (Pv 16.18)! Caso se arrependam, Deus os perdoará; porém a consequência fica: nunca mais exercerão o ministério como fora antes da queda! Não é à toa que Paulo, exortando a Timóteo, disse-lhe: "conserva-te a ti mesmo puro" (I Tm 5.22b)!

Esse espírito de Jezabel é altamente manipulador, usando de malícia e sedução para fazer com que as pessoas (e igrejas) fiquem sob sua influência e controle. Em Apocalipse 2:20, Jesus reprova a Igreja de Tiatira por causa da tolerância com esse espírito: "Mas tenho contra ti que toleras Jezabel, mulher que se diz profetisa, ensinar e enganar os meus servos, para que se prostituam e comam dos sacrifícios da idolatria." Em  alguns  manuscritos gregos antigos aparece  a  palavra  grega  “SOU”  que significa “TUA”, antes da palavra “mulher” ficando assim o texto na sua íntegra: “Mas tenho contra ti (pastor) que toleras Jezabel, (tua mulher) que se diz profetisa”. O espírito de Jezabel atua por meio de manipulação, intimidação e domínio, fazendo uso de diversas estratégias para alcançar seus objetivos; dentre elas, o sexo. Por exemplo, no lar, o espírito de Jezabel controla o leito conjugal. A mulher influenciada por esse espírito manipula sexualmente o marido, concedendo sexo somente se ele fizer o que ela deseja sob ameaça de suspensão da intimidade sexual. Muitas vezes o espírito de Jezabel opera para destruir o sacerdócio, a auto-imagem, a alegria e o ministério do marido. Mulheres de temperamento forte ("mandonas") via de regra procuram se casar com homens de temperamento mais tranquilo ("bananas"). Na Igreja, é ela e não ele quem dá a direção. As “Jezabéis” sempre se casam com homens palermas como Acabe. Porém, esse espírito não opera apenas em mulheres casadas: é possível ser seduzido por ele independentemente do status conjugal!

Um ponto muito importante aqui, que é pouco explorado na bibliografia especializada, é que uma das formas mais comuns de manipulação usadas pelo espírito de Jezabel NÃO É O SEXO, mas sim A PROFECIA. E é aí que "o bicho pega": é muito mais fácil discernir um ataque satânico na área sexual do que na área espiritual! É possível alguém operar nos dons do Espírito Santo e não ter o caráter de Cristo, sendo influenciado pelo maligno espírito de Jezabel? SIM, É POSSÍVEL. Pessoas, dentro da Igreja, envolvidas com as obras da carne - em especial com aquelas que se referem a "separatismos e rachas", isto é, disputas, porfias, invejas, dissensões, facções e rebeliões - para subjugarem o pastor da igreja e alcançarem o "controle" buscam aparentar uma "espiritualidade superior à do pastor". E isso independentemente do sexo da pessoa: se é mulher ou homem, pouco importa! E, para isso, nada melhor do que "cultos avivados que ocorrem somente quando pastor não está presente", geralmente repletos de "profecias individualizadas" e "grande mover sobrenatural"! Some-se a isso a estratégia de ser "bonzinho com todos" (nunca corrigir ninguém, enquanto o pastor da Igreja é o "senhor malvadeza", "duro", "insensível"), "bom mocismo" com palavras/conselhos/pregações agradáveis ao coração dos ouvintes e pronto: Aí está estabelecido uma PORTA DO INFERNO, por onde entrará o espírito de Jezabel a fim de lutar contra a Igreja!

Toda a disputa de carisma é uma disputa satânica. Isso é um princípio satânico: o ex-querubim da guarda, achando-se maior do que Deus por ser muito belo (perfeito em formosura), muito inteligente e muito carismático (perfeito em sabedoria), semeou uma rebelião no lugar mais inacreditável possível - no céu! Conseguiu com isso arrastar com sua cauda a terça parte dos anjos consigo, condenando a si mesmo e a seus seguidores a uma existência de exclusão total da vida de Deus! De anjos de luz tornaram-se trevas totais, sem nenhuma fagulha de luz neles! Virou DIABO, SATANÁS, BELZEBU. Vou repetir: POR ACHAR-SE acima do que realmente era, TORNOU-SE quem é hoje! É uma tristeza quando um servo de Deus ACHA-SE alguma coisa, cheio de vaidades, porque quando isso acontece ele se põe debaixo desse princípio satânico! 


Deus, portanto, como disse, conhecia o coração de Geazi. E o que havia nesse coração, que inutilizava esse moço para o ministério profético? Na segunda aparição bíblica acerca da atuação ministerial de Geazi isso nos é revelado. No texto de II Reis 5:1-27 temos o relato de que um dia, um grupo de soldados e carruagens sírios apareceu na porta da casa de Eliseu. O líder dos soldados, Naamã, capitão do exército da Síria, estava doente de lepra. Ele estava ali, carregado de presentes (dez talentos de prata, seis mil siclos de ouro e dez mudas de roupas), para que Eliseu orasse a Deus e ele fosse curado. Depois que o Senhor provou a fé do capitão, o qual banhou-se num dos rios mais barrentos de Israel que é o Jordão por ordem de Eliseu, ele foi curado. Grato por sua cura, Naamã retorna a Eliseu e oferece a ele seus presentes. Eliseu, no entanto, recusa qualquer presente de Naamã. Ele diz: "Vive o SENHOR, em cuja presença estou, que não a aceitarei. E instou com ele para que a aceitasse, mas ele recusou." (v.16) Naamã, junto com sua comitiva, é despedido por Eliseu em paz, sem dele nada receber.

No entanto, a história bíblica prossegue. Na sua continuidade, lemos sobre o que fez Geazi: "Então Geazi, servo de Eliseu, homem de Deus, disse: Eis que meu senhor poupou a este sírio Naamã, não recebendo da sua mão alguma coisa do que trazia; porém, vive o SENHOR que hei de correr atrás dele, e receber dele alguma coisa. E foi Geazi a alcançar Naamã; e Naamã, vendo que corria atrás dele, desceu do carro a encontrá-lo, e disse-lhe: Vai tudo bem? E ele disse: Tudo vai bem; meu senhor me mandou dizer: Eis que agora mesmo vieram a mim dois jovens dos filhos dos profetas da montanha de Efraim; dá-lhes, pois, um talento de prata e duas mudas de roupas. E disse Naamã: Sê servido tomar dois talentos. E instou com ele, e amarrou dois talentos de prata em dois sacos, com duas mudas de roupas; e pô-los sobre dois dos seus servos, os quais os levaram diante dele. E, chegando ele a certa altura, tomou-os das suas mãos, e os depositou na casa; e despediu aqueles homens, e foram-se." (vv. 20-24)
 
Geazi seguiu os soldados e mentiu para eles dizendo que Eliseu tinha mudado de idéia na recusa dos presentes do capitão sírio. O capitão deu a Gehazi um pouco de prata e algumas roupas. Gehazi voltou para a casa e escondeu os presentes. Geazi MENTIU para o capitão, pois Eliseu não havia mudado de opinião com relação aos presentes nem mandado ele dizer coisa alguma e não havia vindo a ele nenhum filho de profeta da montanha de Efraim (nem de lugar algum). E porque Geazi mentiu? Porque ele COBIÇOU os presentes do sírio! Ele não concordou com a atitude de Eliseu em despedir o sírio em paz sem dele nada receber; ele queria algo para si. Geazi fez justamente aquilo que o apóstolo Paulo, escrevendo a Timóteo, diz que era costume de homens corruptos de entendimento: fazer da piedade fonte de lucro: "Contendas de homens corruptos de entendimento, e privados da verdade, cuidando que a piedade seja causa de ganho; aparta-te dos tais. Mas é grande ganho a piedade com contentamento. Porque nada trouxemos para este mundo, e manifesto é que nada podemos levar dele. Tendo, porém, sustento, e com que nos cobrirmos, estejamos com isso contentes." (I Tm 6.5-8) A piedade JAMAIS PODE SER USADA COMO FONTE DE LUCRO! A fé NÃO FOI "uma vez por todas entregue aos santos" para servir como fonte de lucro financeiro pessoal!

Isso é obra e doutrina de Balaão, que aceitou grana para usar seu dom a fim de amaldiçoar Israel. Balaão não tinha qualquer respeito por Israel, não estava nem aí para quem Israel era e o que representava para Deus. Ele só estava interessado na grana que iria ganhar de Balaque, filho de Zipor, rei dos moabitas, prometida em troca de seus "serviços espirituais". Nosso Senhor falou claramente à Igreja de Pérgamo, que habitava onde estava o trono de Satanás, que tinha contra ela que alguns ali eram seguidores da doutrina de Balaão (Ap 2.14). Era isso que Deus havia visto no coração de Geazi, que havia impossibilitado esse rapaz de curar o filho da Sunamita; que impediria ele de vir a ser, um dia, o substituto de Eliseu no ministério profético! DEUS NÃO ACEITA MINISTRO CORRUPTO! O MINISTÉRIO DE DEUS É COISA SERÍSSIMA, DE ALTÍSSIMA GRAVIDADE!

Hoje, há muita gente vivendo, ensinando e seguindo a doutrina de Balaão dentro da Igreja! Muita gente usando o dom e o ministério para fins corruptos, para alcançarem posses e posições nesse mundo! Gente que não respeita Deus, que não honra a Cristo e nem o chamado para o santo ministério! Gente que vende a fé, que vende a cura, que vende o dom, que vende a mensagem; GENTE VENDIDA! MERCENÁRIOS! Gente que tiraria até o último centavo de Naamã e ainda faria campanha para ele continuar vindo e trazendo mais grana! Gente que quer poder para ter grana e com isso ter mais poder e mais grana ainda! Enfiados até a cabeça na lama podre da política, mendigando uma indicação política para cargo público! Não vêem o mal que estão causando a si mesmos, aos outros e a Igreja? Não percebem o desserviço que estão prestando à causa de Cristo? William Perkins, puritano inglês do séc. XVI, afirmou que a pregação é “o principal dever de um ministro”, porque “a pregação é o chamariz da alma, pelo qual a mente dos homens é abrandada e transportada de uma vida ímpia para a fé e o arrependimento evangélicos. Portanto, se inquirirem qual é, de todos os dons, o mais excelente, sem dúvida a honra recai sobre a pregação”. Pregação, não sórdido lucro financeiro! Não poder político! Não vender a primogenitura por um prato de lentilhas! Perkins, comentando sobre a vocação ministerial com base no chamado de Isaías (6:9), disse:

“Todos os verdadeiros ministros, especialmente aqueles comissionados para pregar tão importantes palavras na sua igreja, devem, antes de qualquer coisa, ser marcados por um grande senso de temor, pela consciência da magnitude da sua função – um senso de assombro e espanto, cheio de admiração pela glória e grandeza de Deus. Eles O representam e trazem a mensagem dele. Quanto mais temerosos e relutantes estiverem diante da contemplação da majestade de Deus e da fraqueza deles, mais provável é que sejam verdadeiramente chamados por Deus e designados para propósitos elevados na sua igreja. Qualquer um que ingresse nessa função sem temor, a si mesmo se oferece, mas é duvidoso que seja chamado por Deus como o profeta Isaías claramente foi... Sempre que Deus chama quaisquer de seus servos para qualquer grande obra, ele primeiro os conduz a este senso de temor e assombro”. Por isso: “Ele mesmo [o ministro] deve primeiramente ser inclinado à santidade se quer estimular inclinações santas em outros homens”.
(Fonte: http://www.ministeriofiel.com.br/artigos/detalhes/151/William_Perkins_e_a_pregacao_no_movimento_puritano. Acesso: 06/07/2017).


O que aconteceu com Geazi? O texto bíblico mostra o fim da carreira ministerial dele: "Então ele entrou, e pôs-se diante de seu senhor. E disse-lhe Eliseu: Donde vens, Geazi? E disse: Teu servo não foi nem a uma nem a outra parte. Porém ele lhe disse: Porventura não foi contigo o meu coração, quando aquele homem voltou do seu carro a encontrar-te? Era a ocasião para receberes prata, e para tomares roupas, olivais e vinhas, ovelhas e bois, servos e servas? Portanto a lepra de Naamã se pegará a ti e à tua descendência para sempre. Então saiu de diante dele leproso, branco como a neve." (vv. 25-27) Geazi tornou-se LEPROSO e trouxe LEPRA para sua descendência para sempre! LEPROSO ATÉ O ÚLTIMO DIA DE SUA VIDA, SEM NENHUMA CHANCE DE CURA! Não havia nada que Eliseu pudesse fazer por ele agora, exceto deixá-lo experimentar o castigo pelo que ele havia feito. Os planos de Geazi para si mesmo - e talvez para a sua família -  foram arruinados por sua ganância. Agora, ele e sua família sempre conheceriam o castigo de Deus pela ganância. O ministério, para Geazi, se tornou inalcançável; não havia nenhuma chance desse rapaz poder ser usado na obra do ministério! Era o fim das expectativas de Geazi em um dia suceder Eliseu no ministério profético! Um profeta do Senhor jamais poderia ou pode ser leproso!

Gostaria de destacar isso: GEAZI TORNOU-SE INÚTIL PARA O SANTO MINISTÉRIO, ALGO SEM REMÉDIO, SEM ARREPENDIMENTO, SEM CONSERTO. Ministros, atenção! Atenção! Há pecados que podem tornar um ministro para sempre inútil para o ministério! Os inutilizados podem até continuar aparentemente exercendo o ministério; podem continuar pregando, batizando, orando por enfermos, etc. Os homens podem aprová-lo, porém a reprovação DA PARTE DE DEUS está dada! Uma vez que a primogenitura foi vendida, nem com lágrimas você a recupera de novo (Hb 12.16,17)! Esaú bem que tentou, mas não conseguiu; foi cortado da herança dos filhos de Israel, perdendo a bênção de ser da genealogia do Messias! O que Geazi fez chama-se PROFANAÇÃO! Chama-se SACRILÉGIO! Deus não aceita desvirtuamento do Ministério; não trate o Ministério como algo sem importância - isso é também profanação ! Uzias acabou incorrendo no mesmíssimo castigo de lepra até a morte porque profanou o ministério no templo (II Cr 26.16-21) oferecendo incenso diante de Deus o que não era lícito que ele fizesse. Diz o texto que Uzias foi "excluído da casa do SENHOR". Judas é outro exemplo emblemático das consequências de incorrer no pecado tratar o ministério sem o devido peso que lhe é próprio, a fazer da piedade fonte de lucro. Judas queria lucrar estando ao lado de Jesus; queria ganhar grana pesada quando, na concepção dele, Jesus assumisse a função de rei de Israel como descendente de Davi. Judas não enxergava nada além dos ganhos exponenciais que poderia ter com aquilo tudo. Por isso, Judas entrou para a história como o único apóstolo de Cristo que perdeu-se para sempre! Apóstolo suicida! Maldito para sempre! Traidor de Jesus! E infelizmente tem muita gente traindo Jesus e o ministério por aí...

Geazi, Esaú, Saul, Uzias, Acabe, Judas, Demas e muitos outros... todos, de um jeito ou outro, profanaram seus ministérios e acabaram cortados, para sempre, dos mesmos. Todos foram rejeitados por Deus. Inutilizados para sempre, ministerialmente falando; alguns, até mesmo perdidos eternamente como Judas. Sexo, poder, dinheiro, fama, política..., no fim, tudo inútil. Tudo vão. Somente destruição, somente perda, somente fracasso. Vidas perdidas, esperanças frustradas, ministérios destruídos, ministros inutilizados, igrejas apóstatas. Heresias destruidoras. Engano. Decepção. Tristeza. Morte.

Deus há de cobrar cada vida salva que se perdeu pelo mau exercício do ministério cristão. Jesus pagou um alto preço por elas e não vai ficar passivo, nem fazer vista grossa, diante da pouca vergonha e da ausência de temor do Seu Santo Nome e Pessoa pelos ditos ministros. O juízo vem, quer para a Igreja quer para o mundo. E ambos serão terríveis!   

Pense nisso. Deus está te dando visão de águia!

segunda-feira, 26 de junho de 2017

ILUMINAÇÃO DA VERDADE BÍBLICA: GERANDO CONHECIMENTO E COMPORTAMENTO DIGNOS DE UM VERDADEIRO CRISTÃO

"Para que o Deus de nosso Senhor Jesus Cristo, o Pai da glória, vos dê em seu conhecimento o espírito de sabedoria e de revelação." (Ef 1.17)

Conhecimento, do grego epignosis, está ligado a precisão e correção (acerto). O termo aparece 62 vezes no Novo Testamento. Referindo-se ao termo grego, o Vines' Expository Dictionary of New Testament Words, explica que o mesmo "denota conhecimento exato ou pleno, discernimento, reconhecimento e expressa um conhecimento completo, uma participação maior do conhecedor no objeto conhecido, influenciando-o mais fortemente". O autor da obra supra explica adicionalmente que o termo derivado, epignosko, "denota observar, perceber completamente, notar atentamente, discernir, reconhecer e sugere geralmente uma diretiva; também pode sugerir "conhecimento" avançado ou apreciação especial. Epiginosko enfatiza a participação na verdade conhecida". Assim, epignosis está relacionado com sabedoria, entendimento e percepção. Nas passagens do Novo Testamento onde aparece esse termo (Cl 1.9,10; 2.2; 3.10; Ef 4.23; Fl 6; Fp 1.9; , o objeto da epignose é Deus, a vontade de Deus, o mistério de Deus, o Filho de Deus, ou "todo bem em Cristo".

Quando examinamos as pastorais, no entanto, o termo epignosis está ligado tanto à verdade quanto à conversão. Em 1 Tm 2.4, Deus deseja que todos os homens sejam salvos e cheguem ao conhecimento da verdade. Em 2 Timóteo 2.25, Deus pode conceder o arrependimento no "conhecimento" da verdade;  em 3: 7, os falsos mestres já aprenderam, mas nunca chegam ao "conhecimento" da verdade. Em Tito 1.1, Paulo é um servo de acordo com a fé dos eleitos de Deus e o "conhecimento" da verdade. Portanto, o termo epignose, em todas as quatro ocorrências, tem "verdade" como o seu objeto e que as quatro passagens associam a palavra com o próprio evento de conversão. Por razões de conveniência, podemos colocar a única ocorrência em Hebreus (10: 26) neste mesmo grupo, já que também temos o "conhecimento" da verdade intimamente associada à conversão.  

Em 2 Pedro 1:2,  Pedro ora para que a graça e a paz se multipliquem aos seus leitores no "conhecimento" de Deus. Em 1:3, vemos que Cristo concedeu livremente todas as coisas necessárias para a vida espiritual e piedade através do "conhecimento" daquele que nos chamou; em 1:8, somos exortados a evitarmos ser estéreis ou infrutíferos em relação ao "conhecimento" de Cristo; e finalmente em 2:20, é feita referência aos que escaparam das impurezas do mundo por meio do "conhecimento" de Cristo. Todos os quatro usos têm Deus ou Cristo como o objeto deste conhecimento, e todos parecem - pelo menos à primeira vista - focar na experiência de conversão.

Ter "conhecimento" (epignosis) resulta em um comportamento e estilo de vida que agradam e honram o evangelho de Paulo (Cl 3.1-4: 6), ou seja, Cristo como Cabeça de Seu Corpo. Cada item que Paulo menciona neste texto está no contexto da epignose:
  • Evitar a fornicação, a impureza, etc. (v. 5,6) é uma conseqüência necessária da epignose.
  • Despojar-se da raiva, ira, malícia, etc. (vv. 8,9) é uma conseqüência necessária da epignose.
  • A mansidão, a humildade de mente, a tolerância com cada um, etc. (vv.12-14) são uma conseqüência necessária da epignose.
  • Ensinar e admoestar (a si mesmo e a outros) através de salmos, hinos e cânticos espirituais (vs.16) é uma consequência necessária da epignose.
  • Esposas que submetem-se aos seus maridos, maridos que amam suas esposas, filhos que obedecem aos seus pais, os servos que obedecem aos seus mestres, os mestres que tratam corretamente seus servos (v. 18-4: 1) são uma conseqüência necessária da epignose.
  • Pregar o evangelho de Paulo (o Mistério) é uma conseqüência necessária da epignose.
Note que, portanto, o "conhecimento" ao qual o Novo Testamento se refere gera, obrigatoriamente, uma transformação de comportamento, mudando e moldando a forma de agir conforme esse conhecimento. O fato de se adquirir este "conhecimento" que os apóstolos mencionam gera na vida pessoal uma mudança de ordem prática, ou seja, passamos a agir conforme o conhecimento recebido. Epignose é, portanto, infinitamente superior ao conhecimento puramente teórico, especulativo, esotérico, gnóstico que havia nos dias de Paulo. Epignose refere-se ao conhecimento exato, completo, exato e experimental, não apenas o conhecimento abstrato, intelectual, principal sobre Deus ou mesmo dos fatos sobre Ele. A epignose sempre descreve, no Novo Testamento, o conhecimento moral e ético ligado indissoluvelmente à fé e, em especial, àquele que se refere ao conhecimento completo e abrangente da vontade de Deus que se baseia no conhecimento de Deus e de Cristo encontrado em Sua Palavra.

Novamente, conhecimento ou epignose é conhecimento completo, perfeito e preciso em oposição ao conhecimento parcial, imperfeito e parcial. "Epígnōsis" envolve a apropriação completa de toda a verdade e a aquiescência sem reservas na vontade de Deus; esse é o objetivo e a coroa do crente. O conhecimento do Senhor Jesus que o crente possui, portanto, não é um mero conhecimento intelectual dos fatos relativos a Ele, adquirido por um estudo dos Evangelhos, por exemplo, mas uma experiência de coração do que e quem Ele é adquirido por esse estudo mais a associação pessoal com Ele através da Palavra e do ministério do Espírito Santo. É uma pessoa com conhecimento pessoal através de uma relação de intimidade e comunhão. 

Esta é a verdadeira razão pela qual cada crente em Cristo deve buscar conhecer o Seu Senhor, bem como a fé que professa: para cada vez poder vivê-la mais e mais segundo a Vontade de Cristo e para poder, cada vez mais, ter comunhão com o Senhor. Por isso é que Oséias, no Velho Testamento, diz que o povo era destruído porque lhe faltava o conhecimento. Não era uma mera deficiência intelectual, mas sim um problema muito sério de ignorar, na prática, a Vontade de Deus para eles! Não adianta termos muito conhecimento teórico sobre os fatos bíblicos; isso é, por certo importante, mas sem uma vida de comunhão com Deus que me leve a prática do que já aprendi todo conhecimento é inútil para mim. Noutras palavras, conhecimento no Novo Testamento nada tem a ver com academicismo filosófico-especulativo, mas sim com vida, com prática, com experiência real daquilo que se conhece!  É óbvio que, para quem pratica a Palavra que aprende e por meio dela (da Palavra) busca ter comunhão com o Senhor quererá aprender ainda mais! Quanto mais tenho de Deus e de Sua Palavra mais quero ter! 

O crente em Cristo Jesus tem, assim, duas grandes responsabilidades em termos do conhecimento e do comportamento cristãos. A primeira responsabilidade é a de se andar na luz que possui: "Mas, naquilo a que já chegamos, andemos segundo a mesma regra, e sintamos o mesmo." (Fp 3.16) Aquilo que eu já conheço, que eu já entendendo como sendo a Vontade de Deus, devo me submeter e obedecer. Nosso Senhor e Salvador nos disse que Seu Espírito Santo, o Espírito de Verdade, nos guiaria em toda a Verdade e nós, como crentes, devemos obrigatoriamente viver segundo a Verdade na qual o Espírito está nos conduzindo. Esse é o nosso padrão de vida, portanto; não é lícito viver abaixo desse padrão.

Porém, a nossa jornada com o Espírito de Verdade é uma jornada na luz e em direção à luz, sempre! Isso já fora dito no Antigo Testamento: "Mas a vereda dos justos é como a luz da aurora, que vai brilhando mais e mais até ser dia perfeito." (Pv 4.18) Há, portanto, um gradiente de intensidade luminosa que aumenta em direção à estatura de Cristo. No mundo, em trevas; em Cristo, na luz. A medida que vou me aproximando da estatura de varão perfeito, à medida da estatura completa de Cristo (Ef 4.13), mais luz eu tenho sobre a Verdade de Deus. Noutras palavras, a intensidade de luz na vida do crente é sempre algo crescente (nunca estacionário ou decrescente). Como a luz aumenta? Com o caminhar na Verdade que Espírito de Verdade ensina e orienta a viver. O próprio Espírito de Verdade se encarrega de aumentar a Verdade (luz) diante do nosso entendimento, por meio da iluminação bíblica. Iluminação é a capacidade que Deus nos dá, por meio do Espírito Santo, no entendimento das Escrituras (I Co 2.12). O Espírito ilumina as Escrituras e então (e só então) nós enxergamos a Verdade que Ele ilumina. O propósito do Espírito de Deus é, por assim dizer, duplo: Iluminar a Verdade e Guiar na Verdade Iluminada.  Ele faz isso utilizando-se dos dons e ministérios de ensino em Sua Igreja, dos Mestres.

Porque a jornada do cristão rumo a Cristo deve ser algo crescente, mais e mais luz vai sendo posta pelo Espírito Santo sobre as Escrituras, de forma que entendamos qual é a Vontade de Deus para nossas vidas como filhos da luz. Todo aquele que tem interesse em ser um cristão cada vez mais semelhante a Cristo precisa desejar e se submeter a esse processo, nunca se conformando passivamente com a quantidade de luz que possui mas sempre desejando crescer na graça e no conhecimento de nosso Senhor e Salvador, Jesus Cristo (II Pe 3.18). Onde se dá isso? No Corpo de Cristo, na Igreja do Deus Vivo, que é coluna e baluarte da Verdade (I Tm 3.15). Batismo no Corpo e vida de comunhão são essenciais ao correto crescimento na fé, porque é no Corpo onde podemos receber ensino dos Mestres, dons de Cristo instituídos para levar a Igreja cada vez mais ao Senhor. Crente fora da Igreja ou que faz da Igreja um simples programa dominical e não algo vital para sua fé, corre sério risco de cair em ventos de doutrina e de acabar seguindo doutrinas de demônios.

Por outro lado, Igreja que não prioriza o ensino da Palavra de Deus, não está cumprindo o seu papel na terra de fazer discípulos para Cristo. Shows da fé, entretenimento gospel ("boate cristã", baladas, funk gospel, marcha para Gizus, etc), terapia erótico-sexual ("sex-shop gospel", "revolução sexual cristã", "filme pornô consagrado", etc), culto da "santa moedinha número 1" ("prosperidade satanalógica", etc)... nada disso funciona efetivamente para gerar Cristo na vida do homem (e nem cristão isso pode se chamar, diga-se de passagem). Toda verdadeira Igreja de Cristo se submete ao Espírito Santo e é por Ele ensinada; é uma Igreja que ama a Palavra de Deus e a tem em máxima posição no culto/serviço cristão e a aplica para formação de vidas em Cristo. Igreja que não ama a Palavra de Deus deixou de ser (ou nunca foi) Igreja; é ajuntamento de gente para qualquer propósito, menos para a prática do verdadeiro cristianismo bíblico.

Concluindo: há uma obra espiritual sendo realizada pelo Espírito da Verdade - o Espírito Santo - levando todo genuíno cristão a crescer na graça e no conhecimento de Cristo Jesus. Essa Obra do Senhor encontra necessariamente eco em nosso coração - todo aquele que verdadeiramente nasceu de novo anseia crescer até ser adulto perfeito. Nenhuma criança quer ser criança para sempre, e a cura da meninice espiritual está justamente na ação do Espírito Santo em nossas vidas nos guiando a toda a Verdade de Deus, gerando passo-a-passo em nós a perfeita varonilidade de Cristo. "Pai, quero crescer na fé, quero ser como meu Senhor!" esse é o clamor do coração de todo verdadeiro filho e verdadeira filha de Deus. Quando mais crescemos na Verdade, menos carnais vamos nos tornando; mais separados do mundo e unidos ao Senhor (ou seja, mais santificados passamos a ser). Que a beleza de Cristo se veja em mim, como diz o antigo corinho:

Que a beleza de Cristo se veja em mim 
Toda sua admirável pureza e amor 
Ó Tu, Chama Divina 
Todo meu ser refina 
Té que a beleza de Cristo se veja em mim

Viver para Cristo, amado(a) leitor(a), é permitir que Cristo viva em mim. E, para isso, nós precisamos obrigatoriamente conhecermos e interiorizarmos Sua Verdade em nosso viver cotidiano. Desejemos mais do Senhor Jesus, mais de Sua Verdade em nós! Ele mesmo disse "eu Sou a Verdade", portanto, quanto mais a Verdade eu conhecer e viver, mas Dele terei em mim! O Senhor nos ama; sabedor da nossa realidade nos deu homens-dons, Mestres, para nos ensinar a Palavra de Deus; Pastores, para guiar-nos na jornada cristã; Evangelistas, para ensinar-nos a expressar a vida de Cristo que é gerada em nós a fim de fazer novos discípulos; Profetas, para nos edificar, exortar e consolar e Apóstolos, para fazer de nós edifícios-vivos, habitação de Deus. E isso tudo está em operação no Corpo de Cristo, na Igreja (nunca fora dela).

Pense nisso. Deus está te dando visão de águia!

quarta-feira, 26 de abril de 2017

DOMINANDO OU SENDO EXEMPLO? APASCENTANDO A HERANÇA DE DEUS SEGUNDO A VONTADE DE DEUS

"AOS presbíteros, que estão entre vós, admoesto eu, que sou também presbítero com eles, e testemunha das aflições de Cristo, e participante da glória que se há de revelar: Apascentai o rebanho de Deus, que está entre vós, tendo cuidado dele, não por força, mas voluntariamente; nem por torpe ganância, mas de ânimo pronto; Nem como tendo domínio sobre a herança de Deus, mas servindo de exemplo ao rebanho." (I Pe 5.2,3)

Apascentai o rebanho de Deus que está entre vós... tendo cuidado dele... não como tendo domínio sobre a herança de Deus... Domínio sobre a herança de Deus, dominadores da herança. Dominador, do grego katakurieuo, significa "controlar, subjugar - exercer domínio sobre (senhorio), ser senhor, vencer". katakurieuo significa exatamente ter domínio sobre alguém, ter alguém sujeito à sua autoridade máxima. Pelo significado do termo, fica muito claro o que Pedro está ensinando: nenhum presbítero pode subjugar a herança de Deus como se dela fosse senhor, porque só há um Senhor e Cristo. Ou seja, há um limite no exercício da autoridade espiritual, concedida por Deus aos homens que Ele escolhe, para governo do Seu povo. Esse limite é o próprio senhorio de Cristo, tanto sobre Seus presbíteros, como sobre Seu povo. Note o pronome possessivo: Do Senhor é unicamente a possessão do Seu povo; portanto nenhuma liderança deve ser exercida como se o outro fosse "propriedade pessoal".  O foco do exercício da autoridade é povo de Deus; isto é, a autoridade é delegada por Deus para benefício do povo de Deus. 

Vivemos uma época onde o exercício da autoridade como benefício de outrem tornou-se algo difícil de se encontrar, tanto no mundo, quanto na Igreja. O que se vê, hoje, é o exercício da autoridade para benefício próprio, segundo seus próprios interesses egoístas, o autoritarismo. No autoritarismo, também conhecido como autocracia, cesarismo, despotismo, ditadura, opressão, prepotência e tirania, o poder (ou autoridade) é exercido sem partilha com outros, sendo impondo de forma arbitrária e tiranicamente. No séc. XVII, vê-se o grande paradigma dessa forma de governo, com a monarquia absolutista de Luís XIV de França, que se considerava designado por Deus para governar os outros homens. Sobre esse rei, é dito que referiu-se ao seu chanceler, dizendo: “Senhor, eu lhe pedi que se reunisse com meus ministros e secretários de Estado para dizer que até agora eu deixei o falecido senhor cardeal conduzir os assuntos de Estado; já é hora que eu próprio governe. Vocês me auxiliarão com seus conselhos, quando eu lhes pedir.” 

No mundo, há um verdadeiro reavivamento da ditadura e tirania. Parcialmente devido à insatisfação com os resultados que a democracia e liberdade produziram - corrupção de entes públicos, malversação de erário, insuficiência e ineficiência nos serviços mais básicos (segurança, saúde, educação, saneamento básico, etc), as pessoas tem se voltado para lideranças radicais, tirânicas. É o caso dos Estados Unidos, com a eleição de Donald Trump, chamado pelo bilionário George Soros e pela mídia de "aprendiz de ditador" (http://alias.estadao.com.br/noticias/geral,o-lado-ainda-mais-sombrio-de-donald-trump-se-comporta-como-ditador-diz-biografo-do-magnata,10000076546. Acesso: 25/04/2017). A eleição de Trump justifica-se na insatisfação da população americana com a condução da política interna e externa do governo anterior, especialmente por parte das classes que se viram prejudicadas pelas mesmas. Por seu turno, a disputa presidencial na França envolve uma candidata com propostas radicais que defendem o patriotismo econômico francês. Na Coréia do Norte, o ditador Kim Jong-un ocupa o poder absoluto há décadas. Este sujeito desvairado delibera até sobre o corte de cabelo dos universitários: todos os universitários do país devem manter o mesmo corte e estilo de cabelo que o dele! (http://odia.ig.com.br/noticia/mundoeciencia/2015-05-13/conheca-10-fatos-bizarros-e-curiosos-sobre-o-ditador-kim-jong-un.html. Acesso: 26/04/2017)

No Brasil, não está sendo diferente. Após 13 anos de governo de candidatos eleitos filiados ao PT (Partido dos Trabalhadores), o que se vê hoje é um caos na esfera político-econômica: literalmente, não há uma esfera de governo que não possua a podridão da corrupção; o país foi saqueado por ladrões que hoje são alvo da operação de combate a corrupção e lavagem de dinheiro conhecida como "Lava-Jato", nome oriundo do uso de uma rede de postos de combustíveis e lava a jato de automóveis para movimentar recursos ilícitos pertencentes a uma das organizações criminosas inicialmente investigadas (http://lavajato.mpf.mp.br/lavajato/index.html), a maior operação que o Brasil - e talvez o mundo - já tenha visto. Dezenas de políticos envolvidos, dos mais diversos escalões, além de funcionários estatais.  Ressalte-se que os políticos envolvidos nessa operação representam quase a totalidade dos partidos políticos - esquerda, direita, alto, baixo, centro... dezenas de envolvidos, que parasitaram a Petrobrás, com seus apadrinhados ocupando cargos de direção e assim facilitando a ladroagem.

Infelizmente, nenhuma instituição pública, quer municipal, estadual ou federal, no Brasil, é ilesa ao apadrinhamento político, ao loteamento de cargos de chefia (DAS - cargos de Direção e Assessoramento Superior, cargos de confiança no setor público, a maioria ocupados por pessoas que não prestaram concurso para entrar no serviço público) para serem ocupados por ineptos, que nada entendem do métier, e/ou mal-intencionados, que só visam se locupletarem, o que tem resultado em inúmeros prejuízos os quais levarão décadas para serem reparados. Tribute-se a isso o fato de muitos órgãos públicos brasileiros não funcionarem ou não funcionarem como deveriam (respeitando os princípios da eficiência, eficácia e efetividade, da impessoalidade e moralidade, legalidade, publicidade, igualdade, etc). Essa "praga" de apadrinhamento político em cargos DAS, com seus favores recíprocos, precisa ter fim! 

No RJ, o assalto ao erário aliado a políticas públicas imbecis ou inexistentes resultou no não-pagamento de salários aos funcionários públicos estaduais por MESES A FIO (o mesmo ocorreu em outros estados brasileiros), constituindo-se num prejuízo irreparável (porque salários podem ser pagos, mas a dignidade dos servidores não tem preço). Isso sem mencionar a safadeza dessa quadrilha, liderada por gestores públicos (sic) fanfarrões que arrotavam austeridade, que desviou ao longo de 12 anos cerca de 300 milhões de reais de recursos públicos destinados a hospitais públicos, em compras internacionais de equipamentos médicos de alta complexidade, como macas elétricas, monitores transcutâneos, aparelhos cirúrgicos e unidade móveis de saúde. E a cifra pode ser ainda maior, dependendo dos achados da investigação em curso. Ao mesmo tempo, nas ruas e becos, os crimes e a violência só fazem aumentar, cobrando da sociedade o seu preço: dezenas de policiais mortos, centenas de vítimas entre a população civil de bem.

O fato é que por essas e outras, muitos brasileiros passaram a apoiar políticos brasileiros extremamente radicais para ocupar o cargo de presidente da república. Há, infelizmente, aqueles que ainda defendem esses picaretas. República e ditadura, antagônicos entre si. Ladrões ou ditadores no poder, dura escolha. "Volte a ditadura! Volte o governo militar!", é o grito - contido ou incontido, aberto ou silencioso, cada vez mais intenso, de muitos e muitos brasileiros, para que os militares voltem a ocupar a presidência do país como deu-se em 1964.

Tristemente, a Igreja não está imune a ter radicais e ditadores no poder. Surgiram vários homens e mulheres que foram elevados a liderança eclesiástica que entendem a igreja como sua propriedade particular.  Donos de Igreja! Mesmo líderes que anteriormente valorizavam a liberdade em Cristo, que discutiam suas idéias com seus pares em reuniões de liderança, hoje sucumbiram ao mandonismo e autoritarismo se isolando cada vez mais no poder. O que as leva a terem tendência para atitudes de controle de tudo e de todos, passando por cima de pessoas, de sentimentos dos outros, impacientes, facilmente irritáveis? Acredito que esses irmãos e irmãs não fazem isso por mal; creio que muitos o fazem pelo desejo de ver o avançar da obra de Deus. Outros, talvez, o façam por insegurança interior;  no fundo, se sentem frágeis e vulneráveis, dependentes, que tentam esconder sua fragilidade através desta maneira agressiva de agir, de falar, de se dirigir a outro ser humano. Outros, talvez, por opressão - espiritual, econômica, religiosa, política, familiar... Talvez seus sofrimentos no passado tenham produzido esta maneira agressiva de viver.  Para se defender, atacam. Ou, com medo de serem machucadas, reagem agressivamente. Seu comportamento parece ser ao mesmo tempo uma defesa e um ataque. É provável que todas as decepções que viveram, todos os fracassos pessoais e ministeriais, aliado à um ego imenso (que não consegue "digerir" o fracasso interiormente, especialmente diante do sucesso de outros aos quais julga menos capazes e inferiores a si mesmo), acabaram conformando-a como uma pessoa mandona. 

O primeiro problema dessa postura mandona e autoritária é que ela é centrada no eu. Uma atitude centrada no eu despreza aqueles que estão caminhando juntos da pessoa, às vezes até por anos a fio. Para aquele cuja atitude centra-se no eu, são irrelevantes os desejos, sonhos, aspirações, emoções e personalidade das outras pessoas, não importando se o outro que está ali na frente é sensível, frágil, simpático, bondoso, etc. Ele magoa, fere, machuca, humilha e destrata. 

Líderes "autocráticos" vivem criando "inimigos" para si: são os "rebeldes e insubmissos". De tempos em tempos, ela precisará eleger um novo inimigo; este geralmente é alguém que ela passa a enxergar como uma ameaça para si, alguém que tende a não aceitar tacitamente os mandonismos e decisões isoladas do líder como se fossem "direção de Deus", inerrantes e perfeitas. Sim, infelizmente esses líderes se vêem como inerrantes, incapazes de se enganarem, de discernirem errado. Uma espécie de Moisés do Novo Testamento, que fala com Deus face-a-face enquanto os demais não passam de carnais e insensíveis. O pior é que esses líderes tendem a verem-se exatamente assim! Daí, entendem que todo o "resto" só tem direito de obedecerem sem questionar "a voz do grande líder"; se assim fizerem, caem nas graças; se não o fizerem, são taxados como rebeldes e problemáticos, entraves ao crescimento da Obra, "Corés, Datãs e Abirãos" dos tempos modernos, “fora da visão do reino”. Nada que o líder faça ou fale é passível de discussão; não se planeja em conjunto, não se analisa coletivamente, mesmo quando há uma reunião coletiva para isso. Por quê? Porque esse tipo de líder, mandão e autoritário, gera medo nas pessoas. As pessoas passam a ter medo de falar, medo de se expressarem, medo de questionarem, medo de serem elas mesmas. Tem medo de ouvirem esporro do líder - porque o mesmo, infelizmente, só sabe lidar assim com os outros a quem considera "inferiores"; daí, preferem o silêncio e a omissão. Reprimem-se. Anulam-se. E assim, desagradando e violentando-se a si mesmas, "agradam" ao líder. Ora, afinal ele(a) é o(a) lider; o(a) ungido(a) do Senhor, uma espécie de papa evangélico inerrante e inquestionável!   

O segundo problema dessa postura autocrática é que ela está radicalmente contra o que ensina o Novo Testamento, em especial sobre as relações entre lideranças e igreja. Não vemos um único líder tomando decisões, de forma opressora ou dominadora, enquanto outros apenas acatam "de bico fechado". Vemos um colegiado de líderes que buscam orientar a igreja e exercer governo sobre ela sem no entanto serem kyrios, senhores, sobre ela.  Ao contrário: mesmo diante da mais complicada igreja do Novo Testamento - a Igreja de Corinto - o apóstolo Paulo procura ensiná-la sem oprimi-la (p.ex. I Co caps. 4, 9, etc).  Em Atos, lemos que os irmãos buscavam sempre o consenso naquilo que tencionavam fazer - entre si e com Deus (Atos 15). Ora, a lógica é simples: se a Congregação escolheu eleger mais de um presbítero, então esses presbíteros, aos quais cabe o governo e instrução da igreja, devem poder se pronunciar sobre estas questões de interesse da igreja sem medo ou opressões. A decisão para todos deve ser tomada por consenso - pois se destina a ser aplicada por todos - especialmente em casos que envolvem a direção ou tomada de postura daquela igreja. Não pode haver receio de debater idéias, direções ou posicionamentos para toda a coletividade; a omissão não pode ser uma opção. Mas, para isso, é preciso haver espaço, é preciso haver todo um clima de confiança e respeito, num ambiente que inspire segurança para cada presbítero emitir seu parecer. O processo que parece ser mais bíblico é: (1) buscar consenso entre os presbíteros; (2) presbíteros em consenso buscarem consenso com Deus e (3) levar Assembléia, para implementação. É obrigatório buscar confirmação de Deus, especialmente para as grandes decisões.

A igreja primitiva tinha governo; não tinha uma única figura humana com o direito de dar a palavra final. Encontramos pluralidade em todos os níveis de governo da igreja, pois o único “cabeça” ou autoridade final era Jesus. As igrejas dos apóstolos, como por exemplo, a de Éfeso, foram originalmente lideradas por um colégio de presbíteros, ou anciãos. Embora os membros desse colégio diferissem em sua maturidade e autoridade, e em suas habilidades para servir, não se fazia entre eles nenhuma distinção oficial. Havia uma relação de igualdade fraternal. Conforme o padrão bíblico, os presbíteros são supervisores-servos.  O ministério de presbítero é sempre colegial. Nunca se é presbítero sozinho, mas num presbitério. O ministério ordenado tem uma radical forma comunitária e pode apenas ser assumida como obra coletiva.  Constata-se cada vez mais que não se pode agir isoladamente, pois os desafios são imensos e seria pretensão querer agir sozinho. 

Este colégio de presbíteros pode e deve ter uma liderança, um presbítero sênior, a quem caberá orientar os demais presbíteros nos interesses da Obra de Deus a fim de que não percam o foco naquilo que é principal. Porém, ressalte-se que este presbítero sênior não é inerrante, infalível, secretário de Deus ou coisa que o valha; muito menos é dominador da herança de Deus.  Segundo o Pr. Geremias do Couto, presbíteros "não são pequenos deuses para ser glorificados pelos homens. São modelos, inclusive na fraqueza, para que possam pelo exemplo mostrar aos que lideram, no mesmo nível, que só pela graça - unicamente e apenas pela graça - sem qualquer outro privilégio, podem superar as falhas e buscar a santificação, sem a qual ninguém verá o Senhor. E aí todos saberão que ninguém é melhor do que ninguém ou ocupa lugar especial à direita ou a esquerda do trono de Deus." (http://geremiasdocouto.blogspot.com.br/2010/11/lideres-nao-sao-maiores-do-que-graca-de.html. Acesso: 26/04/17) É bom que fique claro que todos os presbíteros são chamados a amadurecerem seu ministério em todas as suas dimensões – humano-afetiva, cultural, intelectual, espiritual, pastoral e outras, e esse amadurecimento é coletivo. Portanto, ninguém é suficiente ou se basta, nem alcançará nada sozinho, mas sempre no conjunto, na coletividade, na comunhão e paz com todos os demais.  

Líderes autocráticos são desperdiçadores de recursos humanos do Reino de Deus. Pessoas importantes, com dons e talentos, que poderiam ter um desempenho superior no ministério são apagadas e esquecidas, tidas pelo ditador como relapsas e desinteressadas. Há inúmeras pessoas frustradas nas igrejas justamente por isso. Por fim, após tanto magoar, após ter produzido tanta dor e afastamento nas pessoas, esse tipo de líder acabará ficando sozinho. Muitas vezes, ele assistirá aquele a quem desprezou dar frutos em outro lugar. Aí questionará Deus: "Deus, porque não está dando certo? O Senhor é injusto comigo! Eu faço de um tudo, mas nada acontece!" Há aqueles que chegam a ponto de querer afrontar até Deus! Gente que vive brigada com Deus, amargurada, com a fé quase transformada em conformismo! E tudo porque não ouve, não escuta ninguém - nem a Deus! 

C.S. Lewis disse: “De todas as tiranias, aquelas exercidas sinceramente para “o bem” de suas vítimas podem ser as mais opressivas. Seria melhor viver sob barões ladrões do que sob “onipotentes” metidos à moralidade. A crueldade do barão pode, por vezes, adormecer, e a sua cobiça pode em algum momento ser saciada; mas aqueles que atormentam-nos para “o nosso próprio bem” vão nos atormentar sem fim, pois fazem isso com a aprovação da própria consciência.” Nem toda a ditadura nasce de boas intenções, mas algumas sim. Todo líder totalitário é salvador, libertador e transformador. Líderes ditadores buscam manipular pessoas oferecendo e negando cargos de liderança e confiança, manipulando a consciência, as expectativas, as necessidades. Segundo o Pr. Marcelo Miranda, líderes autocráticos são homens querendo se fazer como Deus, ao exigir obediência absoluta, perseguindo os "rebeldes" com propósito psicológico e pragmático (http://nadadeheresias.blogspot.com.br/2013/04/pastores-tiranos-tiranos-do-bem.html. Acesso: 26/04/2017).

Concluindo: infelizmente, há muitos líderes ditadores no meio cristão. Se você está debaixo de líder ditador, meu conselho é que você ore a Deus por ele e, dependendo do nível de opressão, para ter direção para onde ir. Os estragos em sua alma serão contabilizados mais tarde, caso você insista em ficar debaixo da opressão de homens e mulheres assim. E se você é um líder autocrático, aconselho você a rever sua posição imediatamente. Seu estilo de liderança não agrada ao Senhor, que colocou você nessa posição e lhe confiou o Seu povo para que você cuide dele como exemplo do mesmo, sempre "de ânimo pronto". Exerça sua autoridade sim, mas saiba que a mesma tem um limite muito bem definido: as pessoas que estão sob sua liderança não lhe pertencem, mas ao Senhor. Olhe para essas pessoas como cooperadoras na Obra que o Senhor lhe confiou, sabendo que o propósito de toda a Obra de Deus na terra é um só, ou seja, as vidas das dessas mesmas pessoas - incluindo a sua própria. Seja sábio(a), aprenda a lidar com o contraditório, a ouvir e ponderar, a buscar consenso, pois "na multidão de conselhos há segurança" (Pv 11.14). Quer ver seus planos darem certo? "Quando não há conselhos os planos se dispersam, mas havendo muitos conselheiros eles se firmam." (Pv 15.22) Mesmo se você estiver enfrentando "uma guerra", entenda: "Com conselhos prudentes tu farás a guerra; e há vitória na multidão dos conselheiros" (Pv 24.6).

Pense nisso. Deus está renovando seu entendimento! (Rm 12.2)

sexta-feira, 7 de abril de 2017

BOATO, A MALDIÇÃO DAS REDES SOCIAIS

"NÃO admitirás falso boato, e não porás a tua mão com o ímpio, para seres testemunha falsa. Não seguirás a multidão para fazeres o mal; nem numa demanda falarás, tomando parte com a maioria para torcer o direito. Nem ao pobre favorecerás na sua demanda." (Êx 23.1-3)

Um boato é, segundo o dicionário Aurélio, uma "notícia anônima que corre publicamente sem confirmação". A LXX e a Vulgata traduzem Êx 23.1 como "Não receberá um relatório falso" - ou seja, dará crédito, nem irá aceitá-lo como verdadeiro, e tomar alguma ação com base nele. Não é possível deixar de ouvir um boato, mas é possível não dar crédito a ele, verificando sempre se o que está sendo dito corresponde a verdade dos fatos. O ensino aqui é que nenhum filho de Deus deve, em hipótese alguma, dar ouvidos e multiplicar boatos infundados, contra um vizinho ou contra qualquer homem, quer secretamente por calúnias privadas, sussurros, insinuações, prejudicando seu bom nome e crédito, sugerindo coisas falsas e perversas em relação a ele; ou quer publicamente, acusando-o falsamente e dando falso testemunho contra qualquer pessoa. Aquele que ouvisse um boato não deveriam mantê-lo como se fosse verdadeiro, como a palavra também significa, mas desencorajá-lo, e até mesmo punir os malignos boateiros. A veracidade e a imparcialidade deveria ser parte da vida moral e santa do povo de Deus.

O boato é uma notícia de teor duvidoso, pois normalmente é baseado em informações incompletas e que possuem pouca ou nenhuma verdade. Uma vez que a sua comprovação é difícil e, não raramente, impossível, opiniões ou argumentos inconsistentes podem ser adicionados à notícia conforme esta se espalha em uma tentativa de validá-la, gerando mais especulação. Infelizmente, muitos não compreendem o poder destruidor que um boato possui. Boatos tem o poder de destruir a reputação de uma pessoa, construída ao longo de toda uma vida. Tem o poder de separar amigos e irmãos, de separar marido e mulher, de destruir amizades e relacionamentos com extrema facilidade e rapidez. E, dependendo do boato, causar até prisão e morte.

No Brasil, não é incomum aparecerem casos que culminaram com morte de pessoas, graças a boatos que se iniciaram na Internet. Um boato pode difamar, caluniar, denegrir ou prejudicam a imagem de alguém, ofendendo a sua honra. Um boato pode comprometer a reputação de empresas que fechará suas portas. Um boato pode passar orientações incorretas e causar danos às pessoas, como por exemplo dicas de saúde sem comprovação científica. Um boato pode causar terror, pânico ou alarme na população, causando danos irreparáveis. O poder que um boato possui foi assim evidenciado recentemente, quando em Araruama, na região dos lagos do RJ, um casal foi espancado e teve o carro incendiado após um homem tirar uma foto deles e do veículo em que estavam. Pelo whatssap, disse que os dois eram sequestradores. Moradores, então, cercaram o carro. Só não lincharam o casal porque a Polícia chegou a tempo, senão eles teriam sido mortos pelos moradores ensandecidos. E tudo por causa de um boato. (matéria em: http://odia.ig.com.br/rio-de-janeiro/2017-04-07/o-perigo-do-caozap.html. Acesso: 07/04/17)

Assim como esse caso, muitas pessoas tiveram a vida transtornada, perdendo paz, sossego, privacidade, reputação, etc. por conta de um boato:

1. Suposto Estuprador. Um serralheiro passou a ter medo de sair de casa, ao receber ameaças depois que uma foto sua viralizou na internet com a informação de que ele seria estuprador e sequestrador de crianças. Histórias semelhantes à essa ocorreram em abril deste ano, em Pernambuco, em abril do ano passado, em Manaus, e em janeiro de 2014, em Lagarto. Nos três casos, homens tiveram suas fotos compartilhadas sob a acusação de estupro. (site: http://www.reportermaceio.com.br/vitima-de-boato-em-redes-sociais-homem-tem-medo-de-sair-de-casa/. Acesso: 07/04/17)

2. Suposta praticante de Magia Negra. Em maio de 2014, uma dona de casa foi espancada e morta depois de ser confundida com uma suposta sequestradora de crianças que praticava rituais de magia negra em Guarujá, no litoral de São Paulo. O caso dessa dona de casa foi tão emblemático que acabou tornando-se dissertação de Mestrado em Comunicação Social na PUCRS - "O boato na era das redes sociais digitais: uma análise do caso Guarujá" (disponível em: http://repositorio.pucrs.br/dspace/handle/10923/9863). O seguinte trecho da dissertação merece destaque: "As publicações sobre a suposta sequestradora feitas pela página, que então contava com 55 mil seguidores, mudaram a rotina de um dos bairros mais pobres da cidade do litoral paulista. “Disseram que ela tinha arrancado o olho de um bebê de dois meses”, disse uma jovem de 14 anos em entrevista. O ajudante geral Lucas Rogério Fabrício Lopes, 19 anos, que foi preso e admitiu ter golpeado a cabeça de Fabiane duas vezes, disse que “a acusação era de que ela (a suposta sequestradora) arrancava o coração e os olhos de criança para rituais”. No dia 25 de abril, a página publicou uma postagem informando que um uma mulher estaria raptando crianças para realizar magia negra. “Se é boato ou não devemos ficar alerta”, finaliza o texto. A essa mensagem, que posteriormente foi apagada, seguiram-se 139 comentários e 765 compartilhamentos" (pag. 80) DISSERAM, FALARAM, COMPARTILHARAM, COMENTARAM...MARCAS DE UM BOATO.  

3. Própolis para combater o Aedes. Circulou nas redes sociais uma nota equivocada sobre a indicação de uma suposta farmacêutica da Fiocruz do uso de própolis para o combate ao mosquito transmissor da dengue, zika e chikungunya. A Fundação Oswaldo Cruz esclarece que essa informação não tem fundamentação científica e que nenhum pesquisador da instituição fez afirmações sobre o uso de substâncias naturais para afastar mosquitos. (disponível em: https://portal.fiocruz.br/pt-br/content/fiocruz-esclarece-boato-nas-redes-sociais-sobre-o-uso-de-propolis-para-o-combate-ao-aede. Acesso: 07/04/17)

4. Ciclone no RJ. Um furacão ou ciclone de dimensões catastróficas atingiriam o Rio de Janeiro no próximo domingo com previsões de ressaca e tempestades arrasadoras. O boato tem tomado as redes sociais nos últimos dias e está sendo compartilhado por milhares de pessoas em grupos. (disponível em: https://www.marinha.mil.br/content/boato-de-que-ciclone-atingir%C3%A1-o-rio-se-espalha-nas-redes-sociais. Acesso: 07/04/17) Do mesmo modo, um boato sobre um tsunami que destruiria o RJ "por causa dos pecados dos moradores do Estado".

5. Sexo na Praia. Uma história bem bizarra surgiu na África e chegou no Brasil por meio de sites angolanos. Segundo ela, um pastor evangélico estaria beijando (e lambendo) o ânus de suas fiéis para que elas consigam arrumar um marido. Sim, você leu certo. O boato ainda veio ilustrado com uma imagem de muitas mulheres nuas na praia em fila. Claro, era tudo invenção. A suposta imagem veio de um filme pornô de 2014, e a história foi criada e espalhada por aqui como folhas ao vento.

E assim, do Facebook ao Whatssap, há várias "estórias" circulando nas redes sociais contando mentiras sobre fatos e pessoas, causando com isso danos por vezes irreparáveis às pessoas atingidas. É bom lembrar que um boato pode ofender, denegrir, causar constrangimento ou comprometer a reputação de alguém. Pior: quem espalha o boato, depois, não se desculpa em público, o que faz com que permaneça, no imaginário dos que viram e compartilharam o boato, que o mesmo era verdade, agravando assim a situação. Nesse caso, a melhor coisa é agir tanto preventivamente como proativamente: reativamente, tentando a todo custo desmentir o boato irresponsavelmente espalhado; proativamente, evitando novos episódios (porque todo boateiro, espalhador de boatos, invariavelmente espalhará mais boatos se houver oportunidade para isso. É como uma ziquizira). De forma prática: avise ao boateiro que ele está espalhando boatos inverídicos e, se possível, corte a fonte "notícias" do boateiro - se for pessoal, no Facebook, bloqueie ou até exclua o boateiro da sua página. Aliás, bloquear a visualização da pagina no Facebook, diante de um boato pessoal, é importante para evitar que o boato seja espalhado e cause ainda mais estragos à sua reputação. Creia-me: na hora da fofoca, do boato, até gente próxima a você, que lhe conhece há "anos e canos", preferirá dar crédito ao boato (e ao boateiro) do que considerar os (muitos) anos de convivência contigo. Ninguém sairá em sua defesa, ninguém dirá "êpa, eu conheço o fulano, isso não é verdade!",  mas a imensa maioria - senão todos - ficará insegura a seu respeito - tudo gerado pelo boato. A fofoca, a calúnia... o boato, tem mais força na mente (e nos corações) do que a verdade. Infelizmente é assim que funciona. 

Porque as pessoas se prestam a criar e espalhar boatos nas redes sociais? Os motivos são variados: Há algumas que fazem isso no afã de se tornarem famosas (mais curtidas e compartilhamentos); outras, por inveja pessoal amargurada (de sua vida, de seu ministério, de sua profissão, de seu casamento, etc); outras ainda por desafeto (especialmente contra pastores e lideranças cristãs em geral, quando estas tem uma postura combativa contra o pecado). Outras por acharem que "estão fazendo a coisa certa, prevenindo as pessoas", achando que estão prestando um "serviço de utilidade pública" (quando, na verdade, é justamente o contrário). Outras, por pura ignorância, acreditando em tudo que ouve e lê sem julgar a fonte e a informação.

A bem da verdade, o Facebook, aliado ao Whatssap, são grandes centrais de boatos que se espalham em e-mails e redes sociais, devido à grande facilidade de compartilhá-los na rede. Boatos e ofensas pessoais, diga-se de passagem: o que se vê de troca de ofensas, farpas, indiretas, etc. no Facebook não está no gibi! Isso sem falar em postagens de "demonstração de sabedoria", quando alguém cita outrem tido como referência em matéria de alguma coisa, mas não interpreta e nem acrescenta nada! Mas isso é para outras argumentações...

Para o sr. José Antonio Milagre, advogado especialista em Direito Digital e mestre em Ciência da Informação pela UNESP, presidente da Comissão de Direito Digital da OAB/SP Regional Lapa e autor do livro "Manual de Crimes Informáticos", 2016, pela Editora Saraiva (disponível em: http://www.migalhas.com.br/dePeso/16,MI253266,71043-Os+riscos+dos+boatos+e+falsas+noticias+nas+redes+sociais+e+o. Acesso: 07/04/17) a minimização da onda de boatos passa, inicialmente, por jamais presumir ou deduzir um fato sem ter a comprovação de sua ocorrência. Segundo ele, é preciso termos consciência do dano que causamos ao apertarmos o botão compartilhar ou passamos a frente uma inverdade na internet/whatssap. Devemos sempre ter a consciência de não levar adiante o que não é confirmado e principalmente, avaliar se aquele conteúdo, se compartilhado, poderá ou não causar transtornos a alguém.

Nunca crie e/ou espalhe boatos infundados, mesmo que esses boatos sirvam para um propósito maior. Os fins não justificam os meios; jamais. Se você não viu com os seus próprios olhos, nem ouviu com seus próprios ouvidos, não deixe sua mente inventar coisas para sua boca (ou teclado) espalhar. Não seja mexeriqueiro. Fale a verdade, compartilhe a verdade e curta a verdade. Procure checar a veracidade de todas as informações ouvidas, vistas, recebidas, compartilhadas, curtidas, etc. No âmbito da Igreja, especialmente não aceite acusação contra presbíteros (anciãos - pastores, etc), senão com duas ou três testemunhas (I Tm 5.19). Lembre-se: amanhã, você pode ser a vítima do boato, pois ninguém está imune a essa maldição nas redes sociais da internet.

Conforme descrito em Provérbios, os boatos ou mexericos são tão prejudiciais e duradouros como ferimentos físicos: “Malho, e espada, e flecha aguda é o homem que levanta falso testemunho contra o seu próximo” (Provérbios 25:18). Os boatos arruínam amizades: “O homem perverso espalha contendas; e o difamador separa amigos íntimos” (Provérbios 16:28). Os boatos baseiam-se em rumores: “O que anda mexericando revela segredos; mas o fiel de espírito encobre o negócio” (Provérbios 11:13). Quem ama e pratica a mentira - o que envolve criar e espalhar boatos na internet - ficará de fora da cidade santa (Ap 22.15).

Diga NÃO aos boatos! Pense nisso e viva isso, em nome de Jesus!