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quinta-feira, 10 de novembro de 2016

DÍZIMOS E OFERTAS: DO ANTIGO PARA O NOVO TESTAMENTO

Dízimo: referente à décima parte de um todo (um décimo). Pode se referir, portanto, a décima parte de qualquer coisa, desde alimentos, tempo, dinheiro, etc. Em termos religiosos, refere-se a doação da décima parte do fruto do trabalho afim de ser dedicado a causa religiosa, tanto no que se refere à sua manutenção quanto a propagação (expansão). Por sua vez, as ofertas não possuem estipulação de percentual sobre o total, podendo ser maior, igual ou menor que a décima parte. Quando igual, a oferta recebe o nome especial de dízimo.

De saída, é importante afirmar que o tema sobre dízimos e ofertas é bíblico. Ambos os Testamentos - Antigo e Novo - abordam o assunto. Portanto, não se trata de invenção humana para "ganhar dinheiro fácil", como afirmam muitos atualmente. Infelizmente, essa conotação pejorativa acerca dos dízimos e ofertas deve-se a malversação (má administração, apropriação indébita) desses recursos por parte de alguns líderes religiosos, os quais buscam somente enriquecerem às custas da fé alheia. Com a banalização das regras e princípios bíblicos, a Igreja permitiu que surgissem muitos aproveitadores, lobos disfarçados de pastores, mercenários da fé em suas fileiras, os quais passaram a ocupar posições de liderança sem sequer nunca terem se convertido. Desnecessário dizer que isso tanto foi predito na Bíblia quanto é abominação diante de Deus; sobre estes, sem dúvida, não tarda a condenação eterna, tal como mostra a Epístola canônica de Judas, no Novo Testamento.

Portanto, é importante compreender o que a Bíblia ensina sobre o tema. Qual deve ser a postura do crente em Cristo com relação aos dízimos e ofertas? Deve ser ele um ofertante?

1) NO ANTIGO TESTAMENTO:

A primeira menção bíblica sobre dizimar - entregar o dízimo - encontra-se no livro de Gênesis: "E Melquisedeque, rei de Salém, trouxe pão e vinho; e era este sacerdote do Deus Altíssimo. E abençoou-o, e disse: Bendito seja Abrão pelo Deus Altíssimo, o Possuidor dos céus e da terra; E bendito seja o Deus Altíssimo, que entregou os teus inimigos nas tuas mãos. E Abrão deu-lhe o dízimo de tudo." (Gn 14.18-20)

Melquisedeque era um rei-sacerdote (Salmos 110), provavelmente de uma raça semítica que ocupava Salém naquela época. O valor típico do sacerdócio de Melquisedeque não reside apenas em ser "rei da justiça e rei da paz", mas ainda mais no fato de que seu sacerdócio era universal, não sendo limitado por nenhuma ordenança externa e não estando ligado a nenhuma raça ou povo em particular. Ele abençoa a Abrão e recebe dele dízimos, tornando-se o representante de um sacerdócio mais elevado do que qualquer outro que pudesse brotar dos lombos de Abrão. Ao dar os dízimos dos despojos da guerra contra os reis que haviam saqueado Sodoma e Gomorra, Abrão consagra sua vitória ao Senhor. Ao dar o dízimo, Abrão também reconhece o sacerdócio de Melquisedeque e que o Deus a quem Melquisedeque servia era o verdadeiro Deus. Trata-se, portanto, de um reconhecimento prático da absoluta e exclusiva supremacia do Deus que Melquisedeque adorou, e da autoridade e validade do sacerdócio que ele exerceu.

Veja: Melquisedeque como um sacerdote primeiro apela a Deus em favor de Abrão, e então se dirige a Abrão em nome de Deus. Assim, ele executa a função de mediador. Daí Abrão reconhece que por meio desta mediação ele teve a vitória e então entrega a Melquisedeque o dízimo do espólio da guerra (não de suas propriedades). Note que Abrão não deu o dízimo como uma obrigação, mas como uma oferta de gratidão e de honra. Nasceu, portanto, a prática de dizimar como o ato voluntário de um coração generoso e agradecido ao Senhor pela vitória concedida.

A segunda menção do dízimo no Antigo Testamento é no episódio de Jacó em Betel: "E Jacó fez um voto, dizendo: Se Deus for comigo, e me guardar nesta viagem que faço, e me der pão para comer, e vestes para vestir; E eu em paz tornar à casa de meu pai, o SENHOR me será por Deus; E esta pedra que tenho posto por coluna será casa de Deus; e de tudo quanto me deres, certamente te darei o dízimo." (Gn 28.20-22)

Nessa passagem, Jacó faz um voto a Deus. Esse voto consistia de duas partes, a Deus e a de Jacó: se Deus fosse com Jacó e o guardasse na viagem, se Deus lhe desse pão e vestes, e se Jacó voltasse em paz à casa de seu pai Isaque - se Deus lhe concedesse vitória em sua empreitada, portanto - Jacó (1) tomaria o Senhor como seu Deus pessoal; (2) a pedra posta como coluna seria a casa de Deus e (3) Jacó daria o dízimo de tudo quanto o Senhor lhe desse. Obviamente, esses dízimos dados a Deus por parte de Jacó seriam entregues a um sacerdote de Deus, o que denota que haviam sacerdotes de Deus em atuação naquela época mesmo sem a oficialização do sacerdócio (que veio somente com Moisés). Novamente, como no no primeiro caso, vemos o princípio mantido, isto é, o dízimo como sendo um  ato voluntário de um coração generoso e agradecido ao Senhor pela vitória concedida.

Observe que em ambos os casos o dízimo será dado ao sacerdote "do Deus Altíssimo". Esse dízimo, portanto, tem uma função adicional: servir como instrumento de adoração a Deus e um presente gracioso dado ao sacerdote de Deus que mediou a vitória (como no caso de Melquisedeque e Abrão) ou um presente gracioso para o sacerdote de Deus estabeleceu (como no caso Jacó). Nos dois casos, ninguém pode desempenhar a função sacerdotal sem o reconhecimento de Deus e se Deus reconheceu alguém para desempenhar esta função o adorador deve reconhecer isto de forma prática em seu gesto de gratidão a Deus. Assim, entregando voluntariamente o dízimo ao sacerdote de Deus, estou adorando a Deus e sendo-Lhe grato por sua vitória em minha vida.

As menções posteriores sobre o dízimo no Antigo Testamento referir-se-ão ao período após a entrega da Lei de Deus, por Moisés, ao povo no Sinai, até o livro de Malaquias, o último profeta do Antigo Testamento. O dízimo, nesse período, servia para manutenção do sacerdócio levítico em Israel, porque na repartição da herança da terra de Canaã os filhos de Levi não tiveram direito a mesma. O dízimo tinha caráter compulsório. Os dízimos eram trazidos pelos israelitas das demais tribos ao sacerdote como ofertas de adoração e este então recebia-os e deles usufruía conforme estabelecido na Lei, conforme estabelecido no livro de Números, cap. 18:

21 E eis que aos filhos de Levi tenho dado todos os dízimos em Israel por herança, pelo ministério que executam, o ministério da tenda da congregação.
22 E nunca mais os filhos de Israel se chegarão à tenda da congregação, para que não levem sobre si o pecado e morram.
23 Mas os levitas executarão o ministério da tenda da congregação, e eles levarão sobre si a sua iniqüidade; pelas vossas gerações estatuto perpétuo será; e no meio dos filhos de Israel nenhuma herança terão,
24 Porque os dízimos dos filhos de Israel, que oferecerem ao SENHOR em oferta alçada, tenho dado por herança aos levitas; porquanto eu lhes disse: No meio dos filhos de Israel nenhuma herança terão.
25 E falou o SENHOR a Moisés, dizendo:
26 Também falarás aos levitas, e dir-lhes-ás: Quando receberdes os dízimos dos filhos de Israel, que eu deles vos tenho dado por vossa herança, deles oferecereis uma oferta alçada ao SENHOR, os dízimos dos dízimos.
27 E contar-se-vos-á a vossa oferta alçada, como grão da eira, e como plenitude do lagar.
28 Assim também oferecereis ao SENHOR uma oferta alçada de todos os vossos dízimos, que receberdes dos filhos de Israel, e deles dareis a oferta alçada do SENHOR a Arão, o sacerdote.
29 De todas as vossas dádivas oferecereis toda a oferta alçada do SENHOR; de tudo o melhor deles, a sua santa parte.
30 Dir-lhes-ás pois: Quando oferecerdes o melhor deles, como novidade da eira, e como novidade do lagar, se contará aos levitas.
31 E o comereis em todo o lugar, vós e as vossas famílias, porque vosso galardão é pelo vosso ministério na tenda da congregação.
32 Assim, não levareis sobre vós o pecado, quando deles oferecerdes o melhor; e não profanareis as coisas santas dos filhos de Israel, para que não morrais.

Note que os dízimos eram dados pelo Senhor como herança para os filhos de Levi pelo ministério que executavam em favor dos filhos de Israel. Que ministério era esse? De abençoar o povo, oferecendo pelo povo sacrifícios pacíficos ao Senhor; oferecendo também sacrifícios pelo pecado, de forma que o Senhor perdoasse o pecado; cuidando da manutenção do tabernáculo e das coisas santas (como a mesa dos pães da proposição), desarmando-o e carregando-o nos tempos de peregrinação e armando-o quando era necessário. Além disso, deveriam ensinar a Lei de Deus ao povo. O dízimo era, deste modo, uma espécie de pagamento - recompensa que Deus supriu para os levitas, pelos seus serviços sacerdotais ("galardão é pelo vosso ministério", v.31). Isto é similar ao sustento que os funcionários do governo recebem hoje no nosso país, através dos impostos e taxas pagos pelo trabalhador comum. Por sua vez, os levitas deveriam oferecer ao Senhor o dízimo dos dízimos, os quais deveriam ser dados ao Sumo-Sacerdote Arão.

Observe que esse dízimo deveria ser "comido" (v.31). Portanto, refere-se ao dízimo derivado da atividade agro-pastoril. O dízimo é descrito como sendo parte do produto da terra, da semente do campo, do fruto das árvores, do gado, e do rebanho, conforme lemos no Livro de Levítico: "Também todas as dízimas do campo, da semente do campo, do fruto das árvores, são do SENHOR; santas são ao SENHOR. Porém, se alguém das suas dízimas resgatar alguma coisa, acrescentará a sua quinta parte sobre ela. No tocante a todas as dízimas do gado e do rebanho, tudo o que passar debaixo da vara, o dízimo será santo ao SENHOR. Não se investigará entre o bom e o mau, nem o trocará; mas, se de alguma maneira o trocar, tanto um como o outro será santo; não serão resgatados." (Lv 27.30-33) O dízimo era provavelmente dado, portanto, em uma base anual. Cada ano, depois que a terra tinha sido colhida, as pessoas traziam para os sacerdotes as décimas partes de suas colheitas e do aumento na manada e no rebanho. Sem os dízimos, os sacerdotes passariam fome ou teriam que deixar seu sacerdócio para desempenharem outra atividade que lhes trouxesse condições de sobrevivência. Portanto, com a ordenança do dízimo, Deus indicava para Seu povo a importância do sacerdócio para a teocracia de Israel: "Guarda-te, que não desampares ao levita todos os teus dias na terra" (Dt 12.19).

Há, ainda no Antigo Testamento, duas outras menções importantes sobre o dízimo. A primeira está em Deuteronômio 14:22-27. O Talmude e os intérpretes judeus em geral concordam que o dízimo mencionado nesta passagem e também o dízimo descrito em Deuteronômio 26:12-15, são "o segundo Dízimo" (ou dízimo festival), sendo inteiramente distintos do dízimo ordinário atribuído aos levitas para sua subsistência em Números 18:21 e por eles novamente para os sacerdotes (Números 18:26). O povo de Israel devia usar este dízimo para comer na presença do Senhor, em Jerusalém (o local que Ele escolheu para estabelecer seu nome). Se fosse demasiadamente incômodo para as pessoas de longe trazerem seus dízimos todo o caminho até Jerusalém, seria permitido que elas o vendessem  e trouxessem o dinheiro apurado até Jerusalém, onde poderiam comprar aquilo de necessidade para os festivais. Deus expressamente encoraja as pessoas a gastarem o dinheiro deles em "tudo o que deseja a tua alma," incluindo bebida forte! 

A segunda menção, por sua vez, encontra-se em Dt 14.28,29. Trata-se do "dízimo dos pobres" (Ma’aser ‘Âni). Os judeus o consideram idêntico ao segundo dízimo, que era comido pelos proprietários em Jerusalém; mas em cada terceiro e sexto ano o mesmo era concedido aos pobres (Ellicott's Commentary for English Readers). No terceiro ano e sexto ano do ciclo septenal as festas seriam substituídas pela hospitalidade privada. Note que, até aqui, o povo judeu tinha sido ordenado a dar pelo menos 20% das suas colheitas e rebanhos. É bom que se diga que o Senhor sempre teve um cuidado especial com os pobres, órfãos, viúvas e estrangeiros em Israel.

No retorno do cativeiro, uma das coisas que foi restaurada por Neemias é o dízimo conforme a Lei: "Também no mesmo dia se nomearam homens sobre as câmaras, dos tesouros, das ofertas alçadas, das primícias, dos dízimos, para ajuntarem nelas, dos campos das cidades, as partes da lei para os sacerdotes e para os levitas; porque Judá estava alegre por causa dos sacerdotes e dos levitas que assistiam ali." (Ne 12.44) Note que o texto diz que os dízimos eram exigências "da Lei". Estes dízimos não eram voluntários como o foi nos dias de Abrão e Jacó. Similarmente, lemos em Hebreus 7:5 "E os que dentre os filhos de Levi recebem o sacerdócio têm ordem, segundo a lei, de tomar o dízimo do povo, isto é, de seus irmãos, ainda que tenham saído dos lombos de Abraão." O dízimo nunca foi voluntário sob a Lei de Moisés. Note, aqui, que, nos dias de Neemias, homens eram indicados para ajuntarem as ofertas e os dízimos em câmaras designadas para aquele propósito particular. Estas câmaras eram para os bens armazenados, e depois se tornaram conhecidas como "casas do tesouro".  Acerca da "casa do tesouro", precisamos agora examinar uma passagem muito importante. Ela se encontra no Livro de Malaquias: "Roubará o homem a Deus? Todavia vós me roubais, e dizeis: Em que te roubamos? Nos dízimos e nas ofertas. Com maldição sois amaldiçoados, porque a mim me roubais, sim, toda esta nação. Trazei todos os dízimos à casa do tesouro, para que haja mantimento na minha casa, e depois fazei prova de mim nisto, diz o SENHOR dos Exércitos, se eu não vos abrir as janelas do céu, e não derramar sobre vós uma bênção tal até que não haja lugar suficiente para a recolherdes. E por causa de vós repreenderei o devorador, e ele não destruirá os frutos da vossa terra; e a vossa vide no campo não será estéril, diz o SENHOR dos Exércitos. E todas as nações vos chamarão bem-aventurados; porque vós sereis uma terra deleitosa, diz o SENHOR dos Exércitos." (Ml 3.8-12)

Esse texto é muito usado - e mal usado - nos tempos atuais para coagir pessoas a darem seus dízimos nas igrejas. Quem usa esse texto com essa finalidade, chama de ladrão e maldito aquele que por qualquer razão não dá mensalmente os 10% do seu salário para a igreja. De início, é muito bom que fique claro que esse tipo de uso do texto bíblico é, no mínimo, falta de conhecimento sobre exegese bíblica, para sermos condescendentes e misericordiosos com os que assim procedem. Vamos buscar compreender, então, o real contexto de Malaquias. Primeiro, é bom notar que o texto diz que maldição aqui devia-se a Israel (e não a toda a humanidade), portanto não é um mandamento moral que transcenda o Antigo Testamento (como é o "não matarás", que se aplica à humanidade independente do Testamento, Antigo ou Novo); esta maldição se devia à desobediência da Lei na questão da obrigatoriedade dos dízimos e ofertas (Dt 28.18,23-24,38-40,45).  Segundo, conforme a passagem, quando um homem retém seus dízimos ele está roubando, na realidade, a Deus. Isto porque ele está retendo algo que não lhe pertence, antes é propriedade de Deus. Sob o Velho Pacto, o dízimo era mandatório, portanto retê-lo era se tornar um ladrão. Terceiro, a razão pela qual Israel devia trazer todos os dízimos para dentro da casa do tesouro era que houvesse bastante alimento na casa de Deus. Deus estava interessado em que os levitas tivessem comida para comer e não estava sobrando nada para eles; estavam passando à míngua. Este era o propósito daqueles dízimos que eram trazidos para o Templo de Deus. Somos ditos, também, que se o povo de Deus fosse fiel em trazer seus dízimos para a casa do tesouro, Deus abriria as janelas do céu e derramaria para eles uma bênção até que transbordasse. Isto sem dúvidas refere-se à promessa de Deus de trazer abundantes chuvas para produzir a bênção de uma transbordante ceifa. Quarto e último, o contexto de Malaquias é o contexto do segundo templo, reconstruído por Neemias; é o mesmo contexto da profecia de Ageu, de Zacarias, etc. Assim sendo, o contexto de Malaquias 3 é dirigido mais aos sacerdotes infiéis e relapsos, mas também ao povo de Israel, falando dos dízimos, com os quais se alimentava a tribo de Levi, os órfãos e as viúvas, contexto no qual o dízimo estava sendo tratado com displicência. Cada um cuidava apenas da sua vida enquanto o Templo permanecia em ruínas.

2) NO NOVO TESTAMENTO:

No Novo Testamento há, com exceção de uma passagem no Evangelho de Mateus (que se repete no Evangelho de Lucas), um silêncio sobre o dízimo. Não há nenhuma recomendação, mínima que seja, nas Epístolas, sobre a continuidade da obrigatoriedade do dízimo para a Igreja cristã. E por mais que isso possa vir a chocar alguns, a despeito da seriedade da profecia de Malaquias, não há NENHUMA REPETIÇÃO da mesma no Novo Testamento. Assim, a "casa do tesouro" de Malaquias não tornou-se o Templo da Igreja no Novo Testamento (tampouco - e pior ainda - da denominação religiosa da Igreja); nem tampouco as maldições em Malaquias se aplicam aos crentes em Jesus. Vou repetir: NÃO HÁ NENHUMA CONDENAÇÃO E/OU MALDIÇÃO PARA QUEM ESTÁ EM CRISTO JESUS! Malaquias fala de um contexto de maldição por quebra da Lei; no entanto, "Cristo nos resgatou da maldição da lei, fazendo-se maldição por nós; porque está escrito: Maldito todo aquele que for pendurado no madeiro; Para que a bênção de Abraão chegasse aos gentios por Jesus Cristo, e para que pela fé nós recebamos a promessa do Espírito" (Gl 3.13,14).

O único texto que fala sobre o ato de dizimar (dar o dízimo) se encontra em Mateus 23:23: "Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! pois que dizimais a hortelã, o endro e o cominho, e desprezais o mais importante da lei, o juízo, a misericórdia e a fé; deveis, porém, fazer estas coisas, e não omitir aquelas". Observe que Jesus está se dirigindo aos fariseus sobre um tema pertencente a Lei enquanto a Lei estava em vigor. Dizer que, uma vez que Jesus falou a estes fariseus que deviam dizimar, isto força que também nós devemos dizimar, ignora o fato que aqueles fariseus viviam sob pacto e leis diferentes daqueles de um salvo do Novo Testamento. Obviamente, esse dízimo aqui ao qual o Senhor se refere é compulsório. Jesus lhes diz que "deveis" (tendes o dever de) dizimar. O dízimo era mandamento, ordem para todos os judeus e, assim, era obrigatório.

O Novo Testamento fala um pouco mais sobre ofertas, as quais sempre são mencionadas num contexto de generosidade e voluntariedade, exatamente como era na época de Abrão e Jacó. Esse é o contexto que os crentes no Novo Testamento precisam se apegar, ou seja, um contexto onde a oferta, independente do valor, nasça como ato de adoração e ação de graças, de um coração generoso e voluntário, com liberalidade e cheio da graça de Deus: "Cada um contribua segundo propôs no seu coração; não com tristeza, ou por necessidade; porque Deus ama ao que dá com alegria" (II Co 9.7). Não é uma contribuição por coação, por medo de ser taxado como ladrão e amaldiçoado, percebe? Mas é uma contribuição alegre, com o valor que o Senhor propôs em seu coração contribuir. Ele propôs 1%? 5%? 10%? 50%? 100%? É conforme o Espírito Santo colocou no seu interior, querido(a) leitor(a), não segundo uma taxa compulsória pré-fixada. Em Atos 2, lemos que os crentes voluntariamente "vendiam suas propriedades e bens, e repartiam com todos, segundo cada um havia de mister. E era um o coração e a alma da multidão dos que criam, e ninguém dizia que coisa alguma do que possuía era sua própria, mas todas as coisas lhes eram comuns. Não havia, pois, entre eles necessitado algum; porque todos os que possuíam herdades ou casas, vendendo-as, traziam o preço do que fora vendido, e o depositavam aos pés dos apóstolos. E repartia-se a cada um, segundo a necessidade que cada um tinha." (At 2.45; 4.32-35). Quem tinha, ajudava com o que havia proposto; quem não tinha, era ajudado generosamente com aquilo que lhe era necessário! Ninguém considerava "seu" coisa alguma, ou seja, não havia usura, não havia ganância, não havia materialismo e nem egoísmo por parte dos crentes; porém tudo o que um possuía era repartido. Resultado: não havia necessitado algum entre aqueles irmãos! As possessões que aqueles irmãos vendiam eram coisas que eles tinham acima e além de suas necessidades, coisas não essenciais à sua sobrevivência. Em alguns casos, elas provavelmente tinham se tornado como fortalezas dentro do coração dos proprietários. Então os bens foram vendidos, transformados em dinheiro, e doados para sustentar as viúvas, os órfãos e os desamparados da igreja.

É nesse contexto que vemos o trágico destino do casal Ananias e Safira, que resolveram mentir ao Espírito Santo: "Mas um certo homem chamado Ananias, com Safira, sua mulher, vendeu uma propriedade, E reteve parte do preço, sabendo-o também sua mulher; e, levando uma parte, a depositou aos pés dos apóstolos. Disse então Pedro: Ananias, por que encheu Satanás o teu coração, para que mentisses ao Espírito Santo, e retivesses parte do preço da herdade? Guardando-a não ficava para ti? E, vendida, não estava em teu poder? Por que formaste este desígnio em teu coração? Não mentiste aos homens, mas a Deus. E Ananias, ouvindo estas palavras, caiu e expirou. E um grande temor veio sobre todos os que isto ouviram." (At 5.1-5) Observe: qual foi o problema aqui? Foi dar só uma parte como se estivesse dando o todo. Foi a mentira. Ananias, se assim quisesse, poderia ter vendido e ficado com o valor da venda para si, não haveria nenhum problema nisso. Do mesmo modo, poderia não vender tal propriedade, era dele para decidir assim. Ananias morreu (e Safira 3 horas depois) porque resolveu mentir a Deus. Mentiram sobre algo que era destinado aos pobres. Quanto a isso, comenta o pr. David Wilkerson: "No Dia do Juízo muitas pessoas serão cobradas por malversação daquilo que foi designado à caridade. Penso em organizações que coletaram centenas de milhões de dólares para as vítimas da tragédia de 11 de setembro, mas se apropriaram de muito disso para si. Eu também penso nos ministros que levantaram dinheiro para as mesmas viúvas e órfãos, mas que usaram mal isso. Quero dizer o seguinte - eles não precisam temer o Imposto de Renda - eles precisam temer o Deus Todo-poderoso, que registra nos livros até o último centavo." (fonte: http://www.tscpulpitseries.org/portuguese/ts020527.html)

O ensino do Novo Testamento sobre o contribuir ressalta o seu caráter voluntário "Porque, segundo o seu poder (o que eu mesmo testifico) e ainda acima do seu poder, deram voluntariamente." (II Co 8.3). Esta contribuição voluntária é exatamente o que Abraão e Jacó estavam praticando antes da instituição da Lei, e é o que todos os cristãos devem praticar hoje. Os crentes de hoje têm a liberdade de dadivar tanto quanto decidam. Se quiserem dar 10% como Abraão e Jacó o fizeram, eles estão perfeitamente livres para tal. No entanto, se decidirem dar 9% ou 11% ou 20% ou 50% ou até 100%, então podem muito bem fazê-lo. Cada pessoa deve buscar a Deus sobre o quanto e o como ela deve dadivar. Por sua vez, aqueles que são pobres ou que estejam passando alguma situação negativa financeiramente falando não devem se sentir culpados se não forem capazes de dar 10% de seus rendimentos, nem mesmo se não puder doar coisa alguma. Deus vê o coração do ofertante, para só então ponderar sua oferta - esse é o ensino da viúva pobre (Mc 12.41-44).

Não faça nada por obrigação, mas tudo o que fizer seja algo agradável. Se você tem para dar, dê; se não tem para dar, o Senhor recebe o teu desejo de dar. Se o desejo for sincero, a oferta está feita e é recebida pelo Senhor! Quero apresentar agora alguns conselhos práticos sobre as ofertas.

QUANDO OFERTAROferte com alegria aquilo que Deus lhe propôs no coração...

1. Para sustentar o seu pastor, que ministra-lhe a Palavra de Deus e lhe guia no caminho: "Os presbíteros que governam bem sejam estimados por dignos de duplicada honra, principalmente os que trabalham na palavra e na doutrina; Porque diz a Escritura: Não ligarás a boca ao boi que debulha. E: Digno é o obreiro do seu salário." (I Tm 5.17,18) Note: não é sustento de mercenário, que só vê dinheiro na frente e que coage e instila medo, que vende promessas (de prosperidade, de cura, etc), para obter dinheiro. Seu pastor é um servo de Deus honesto e íntegro? Você considera importante o serviço que ele lhe presta, como seu pastor? Então você deve ofertar para que ele tenha como sustentar sua vida com dignidade. Aqui, estamos nos referindo aqueles que cuidam ativamente - que mantém interesse, que se preocupam, que ensinam diretamente, etc - isto é, o seu pastor pessoal (não uma imagem numa parede). Quem é que preside sobre ti - o presbítero que governa diretamente? A este você deve honrar.

2. Para sustentar os missionários cristãos: Há muitos irmãos e irmãs que estão nos campos missionários por amor a Cristo. Devemos sustentá-los no campo com nossas ofertas. Você pode até mesmo assumir integral ou parcialmente o sustento de missionários sérios, e responsáveis que estão dando as suas vidas para o avanço do Reino de Deus entre todos os povos, línguas e nações. Você pode adotá-los. Converse com os seus líderes, pois juntos é possível, juntos, nós podemos ampliar a visão missionária pessoal e coletiva, e através dela estabelecer metas de apoio e sustento para o missionário. Fiquem certo disso, os missionários existem e estão na linha de fogo intenso onde os inimigos são mais ferozes.  Note que estamos falando aqui de missionários sérios - que prestam contas regularmente de suas atividades.

3. Para sustento dos pobres: Você deve contribuir para ajudar no sustento dos pobres. Esteja certo: ajudar os pobres é sempre a vontade do Senhor. Se sua Igreja tiver um departamento especial ou alguma ação destinada a ajuda dos pobres, quer sejam eles da Igreja ou não, contribua; se não tiver, procure ajudar você mesmo asilos, orfanatos, etc (Ef 4.28; Lc 12.33,34; Tg 1.27, etc).

4. Para pagamento das obrigações do templo onde a Igreja se reúne (e para reformas): Nada mais que justo contribuirmos para o pagamento de luz, água, telefone, aluguel, compra de papel higiênico, desinfetante, etc. de forma a suprir estas necessidades do local onde a Igreja se reúne. Você pode tanto contribuir financeiramente quanto com o próprio material, por exemplo; verifique a necessidade com sua liderança e auxilie. Às vezes, o templo precisa de reforma (pintura, reparos elétricos, etc). Novamente, você pode ajudar, contribuindo com sua oferta (financeira ou material) e/ou voluntariando-se para ajudar.

QUANDO NÃO OFERTAR: Não oferte...

1. Para ter destaque especial, alcançar posições na Igreja, agradar pastor ou receber aplausos (Mt 6.1-4): Não seja hipócrita.

2. Para receber bênçãos em troca: Deus não é banco, nem aceita barganha da sua parte. Nunca oferte se sua intenção é investir no "banco de Deus". Oferte por graça, por gratidão, por alegria, pelo reconhecimento do amor e da providência, pelo desejo de contribuir para ajudar outros, e, sobretudo, como manifestação de culto a Deus, no qual a alegria grata oferece como culto aquilo que é um “deus” na terra: o dinheiro! O que passar disso é "negócio" feito em nome de Deus e que se alimenta da culpa que se põe sobre os ombros ignorantes de quem não sabe que em Cristo tudo já está Consumado!

3. Para sustentar mercenários: Quem são os mercenários? São bajuladores, são egocêntricos, são perdulários, que usam a fé para se locupletarem. Quem cobra trízimo dos desempregados, pede o dinheiro do aluguel, das compras do mês, da luz e da água usando o nome de Deus não é servo Dele, é servo do diabo! Quem promete bençãos espirituais em troca de dinheiro é discípulo de Simão Mago! É a pior classe de cobrador de impostos - que usa o nome de Deus e a fé alheia para enriquecimento pessoal, para comprar suas mansões e jatinhos, suas limousines e carrões do ano, seus ternos caros e anéis de ouro, suas fazendas e cabeças de gado; para manterem uma vida nababesca. O deus deles é o ventre! É um deus inseguro, invejoso e arrogante, que quer ser o grande banqueiro da Terra. "O meu programa vai sair do ar; a Igreja vai fechar, blábláblá" - se o programa sair do ar, melhor do que ficar no ar iludindo pessoas; se a Igreja fechar, é porque tornou-se apóstata. Tem Igreja para tudo que é lado; o Evangelho no Brasil não precisa de tele-evangelistas com seus projetos megalomaníacos, discípulos de Constantino.

4. Para sustentar injustiças: Se há injustiça na administração dos recursos financeiros, você não deve contribuir. Essa injustiça pode se manifestar de diversas maneiras, como por exemplo no não retorno das ofertas (pelo menos em parte) como benefício para a própria pessoa. Se, por exemplo, você é chamado para ofertar para comprar um teclado novo e seu líder compra um usado e guarda o restante do dinheiro, mesmo que sob boa justificativa, ele está administrando injustamente os recursos que não são dele. Se os recursos foram solicitados para fazer alguma atividade, é esta atividade que deve ser feita - caso contrário, apresente-se as causas da não-realização e peça autorização para usar os recursos noutra coisa - se não for autorizado, devolvam-se as ofertas. Aquele que trata as pessoas como se fossem tolas, acabará mais dia menos dia perdendo a credibilidade diante delas. Há líderes que não entendem isso. Outra coisa: se há mais de uma Igreja ligada com outras (no caso de ministérios eclasiásticos), lembre-se que a gestão das ofertas deve ser justa - não se oprime financeiramente uma Igreja mais fraca financeiramente falando em prol de uma mais forte.  

Pense nisso. Deus está te dando visão de águia!