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segunda-feira, 29 de abril de 2013

DETURPANDO A PALAVRA DE DEUS: A VERSÃO FREE STYLE


"Porque eu testifico a todo aquele que ouvir as palavras da profecia deste livro que, se alguém lhes acrescentar alguma coisa, Deus fará vir sobre ele as pragas que estão escritas neste livro; e, se alguém tirar quaisquer palavras do livro desta profecia, Deus tirará a sua parte do livro da vida, e da cidade santa, e das coisas que estão escritas neste livro." (Ap 22.18,19)

Uma das estratégias modernas por parte do diabo no afã de destruir a credibilidade da fé cristã é a adulteração do texto bíblico. Para ser mais preciso, esta estratégia não é tão nova: já nos tempos bíblicos do Novo Testamento, circularam diversos textos espúrios, elaborados pelos adeptos do gnosticismo, contendo supostas "versões" e/ou "paráfrases" dos textos inspirados e genuínos. Assim, surgiu por exemplo o "Evangelho da Infância", o "Evangelho dos Ebionitas", o "Apocalipse Gnóstico de Pedro" e muitos outros. São conhecidos como apócrifos, espúrios, falsos.

Essas adulterações da Palavra de Deus, gravíssimas pois modificam radicalmente o sentido do texto bíblico inspirado, vem se multiplicando cada vez mais. Sou da opinião que ainda veremos muitas e muitas adulterações tão malignas o piores até do que as disponíveis atualmente, a medida que o fim se aproxima. Talvez chegue o dia em que a posse e uso de uma Bíblia séria e honesta (ACF, ARA, ARC, e umas poucas outras) seja até considerado crime contra o Estado. É possível que a Bíblia verdadeira venha a constar de uma espécie de Index Librorum Prohibitorum da modernidade, elaborado pelas "autoridades religiosas e políticas", a fim de conter o avanço do Reino de Deus. Quem quiser, que se contente com uma falsificação grosseira, repleta de termos chulos e expurgada de toda a verdade, a fim de corroborar com os pecados da humanidade.  Quem sabe até o falso profeta crie uma "versão especial" da "bíblia", sendo a mesma tornada "única e oficial" pelo anticristo... tudo que há hoje leva a crer há grande chance disso acontecer!

Tendo tomado conhecimento da existência de uma suposta versão livre da Bíblia, denominada pelo seu autor[1] de Bíblia Free Style, divulgada na internet[2],  por meio de uma lista de e-mails que faço parte (yahoo), solicitei a permissão do autor do conteúdo da exposição que ora passo a apresentar acerca do tema em tela, para reproduzi-lo aqui no Ad Argumentandum Tantum, por concordar com o mesmo e por considerar tal conteúdo importantíssimo para a fé cristã, como pastor evangélico. 

Antes de tudo necessário se faz um esclarecimento. Doravante iremos nos referir a “Bíblia Free Style” como “Versão Free Style”, pois não a consideramos uma Bíblia; na verdade ela não é nem tradução, nem versão, nem paráfrase. Portanto se todas essas designações são impróprias a ela, obviamente ela é muito mais indigna de ser chamada de Bíblia.


I. A PALAVRA DE DEUS É VIVA

"Porque a palavra de Deus é viva e eficaz...” (Hb 4.12). Sendo viva ela é eficaz, portanto não necessita de artefatos da sabedoria humana, nem depende de técnicas linguísticas, para se tornar compreensível.

Se o objetivo pretendido pelo autor da “Versão Free Style” é tornar a Bíblia compreensível pelo uso de vocábulos populares, deve ser dito, em claro e bom som, ser impossível o entendimento das Escrituras desassociado da iluminação do Espírito Santo, ainda que se usem vocábulos passivos[3]e vocábulos ativos[4], ou linguagem popular, porque a eficácia da Palavra está nela mesma, e não nas suas traduções.

Quando o Espírito Santo ilumina os olhos do entendimento[5] a Palavra é revelada tanto para o leitor de alto nível intelectual quanto para o mais humilde. Se dessa forma não fosse, seria impossível a conversão de um analfabeto. Cremos que a Palavra de Deus é eficaz para revelar-se ao indouto, ao iletrado e ao analfabeto, e isto comprova a inutilidade dessas versões. Portanto o argumento que se usa para justificar a existência da “Versão Free Style”, como de outras traduções de linguagem popular, é inaceitável.

É possível até que uma linguagem menos erudita e menos clássica, possibilite uma compreensão literária ou da gramática do texto, mas em nada há de cooperar no entendimento espiritual da Bíblia, pois a interpretação correta da Bíblia, necessariamente exige que se faça uma interpretação espiritual.

Por interpretação espiritual não estamos nos referindo a uma espiritualização da Bíblia, ou a uma interpretação alegórica do texto bíblico, mas ao “espírito e vida” [6] que há na Palavra Viva de Deus. Esse “espírito e vida” encontra-se oculto além da mera letra[7], e a mente humana só pode atingir o Espírito da letra mediante revelação do Espírito Santo quando este ilumina a mente do leitor. Isto independe da versão ou da gramática do texto, pois o Espírito Santo poderá usar qualquer versão disponível[8] no idioma do leitor, contanto que ela não seja nem falsa nem espúria.

II. A PALAVRA DE DEUS É ELEVADA

 "... engrandeceste a tua palavra acima de todo o teu nome" (Sl 138.2). A tradução de um documento ou obra literária de natureza bíblica requer de seus tradutores capacidade teológica, técnica, histórica, geográfica e linguística, pois uma tradução mal feita não terá credibilidade, nem reconhecimento nem aceitação, a não ser pelos incautos e ignorantes.

Conta-se que para traduzir a Versão dos Setenta, a Septuaginta (LXX), foram necessários setenta e dois tradutores, seis rabinos de cada uma das doze tribos de Israel, sendo todos eles homens sábios e eruditos, conhecedores do hebraico e do grego. Tais atributos foram necessários e exigidos para que a obra de tradução fosse concluída com fidelidade. Alguns eruditos e estudiosos não confirmam esse fato, mas, de qualquer maneira, ainda que seja uma lenda, ela serve para demonstrar o grande respeito que tinham os hebreus pelo texto sagrado, pois era muito comum ao povo hebreu expressar importantes verdades por meio de contos, fábulas e estórias.

Caso isso fosse verdadeiro, que a Septuaginta tivesse sido traduzida em apenas 72 dias, por 72 rabinos, isso teria sido o resultado de uma ação extraordinária do Espírito Santo sobre eles, pois nunca se ouviu falar de alguma tradução que tenha sido elaborada em tão curto período de tempo.

Para nós é mais provável crer, de acordo com o historiador Flávio Josefo, que judeus sábios traduziram a Torah para o grego Koiné no século III A.C. e os demais livros ao longo dos dois séculos seguintes, totalizando um período de quase três séculos. Certamente essa tarefa tão grandiosa exigia um tempo assim tão prolongado.

As versões que temos atualmente, em língua portuguesa (como as demais), não foram concluídas em dias ou meses. Não foram elas irresponsavelmente traduzidas um capítulo por dia, como faz o autor da “Versão Free Style”. Todas as versões e revisões que temos atualmente requereram dos seus exegetas e tradutores um esforço enorme, que demandou horas de pesquisas e leituras, além do indispensável conhecimento das línguas originais, e do conhecimento da gramática tanto das línguas originais quanto do próprio idioma para o qual foram traduzidas.

Vários fatores devem ser considerados na tradução de uma obra. Na tradução da Bíblia esses fatores se complicam por causa de sua natureza tão específica e diversa: diversidade de livros, de autores, de épocas[9], diversidade de expressões idiomáticas, diversidade de cultura, etc.
Algumas regras são básicas numa tradução. A seguir mencionaremos três que entendemos fundamentais na tradução da Bíblia. Certamente há outras, mas as três que citaremos são suficientes para nossa argumentação.

1) O tradutor deve evitar ambiguidades. Isto é, o tradutor tem o dever de traduzir com clareza, não dando margem a entendimento duplo e duvidoso. Essa regra foi quebrada pelo tradutor da “Versão Free Style”, pois ela tem muitas ambiguidades; suas palavras e frases dão margem a sentidos diversos.

2) O tradutor deve observar o contexto. O tradutor deve ater-se ao contexto do texto, para evitar o pretexto. Inegavelmente na “Versão Free Style” há mais pretexto do que contexto.

3) O tradutor deve ter conhecimento das expressões. As expressões idiomáticas e figuras de linguagem devem ser traduzidas com exatidão, e transmitir o exato sentido do texto. A “Versão Free Style” destrói a riqueza cultural, e peca pela substituição de expressões idiomáticas, pela escolha de palavras que, no vernáculo, não transmitem o seu verdadeiro significado. Murchou a Flor do Lácio!

As três regras acima citadas são fundamentais e essenciais, e deveriam existir mesmo numa tradução que se caracteriza como “tradução livre”. Basta uma rápida leitura da “Versão Free Style” para perceber a inexistência dessas regras. Facilmente se percebe que as frases usadas, as palavras e os termos escolhidos por seu tradutor, induzem o leitor a interpretações ambíguas e a conclusões duvidosas.

Na “Versão Free Style” a riqueza cultural que encontramos nas expressões idiomáticas das traduções regulares, foram corrompidas e substituídas por termos impróprios, de extrema pobreza literária, carregados de vileza e de insana profanação. Esta é uma constatação que lamentamos profundamente, pois a Palavra de Deus merece tratamento respeitoso no mais alto nível. Tratar o texto sagrado – tão precioso e sagrado – de forma assim tão acintosa, profana e desprezível, evidencia uma mente perversa e um coração submerso "...em fel de amargura, e em laços de iniquidade" (At 8.23).

A Palavra de Deus, sendo a mais elevada obra literária existente no mundo, por causa de seus elevados ensinamentos morais, por seu estilo literário ímpar, e sua riqueza poética e histórica[10], não poderia, nem pode ser manuseada de forma irresponsável, e resultar numa pretensiosa obra de tradução, ainda que se denomine “tradução livre”.

Nada existe tão elevado quanto Deus, ou acima dele. Somente sua Palavra é tão alta quanto Ele "Engrandeceste a tua palavra acima de todo o teu nome" (Sl 138.2), porque a Palavra de Deus é o próprio Cristo, pois Ele é a Verdade[11]. Portanto os homens deveriam ser cautelosos na forma como se utilizam da Palavra de Deus e como se referem a ela e como a manuseiam[12]. A fidelidade e reverência à Palavra de Deus é algo que se requer de todos nós, pregadores, exegetas e tradutores, e nós não encontramos essa preocupação na “Versão Free Style”.


 III. A PALAVRA DE DEUS É PURA

 "As palavras do SENHOR são palavras puras, como prata refinada em fornalha de barro, purificada sete vezes" (Sl 12.6). A Bíblia não faz rodeios, nada ela oculta. Ela conta os fatos como eles são, e os narra exatamente como aconteceram. Entretanto, quando relata a conduta escandalosa das pessoas ou expõe o mal caráter delas, procura dizer toda a verdade, mas não usa palavras chulas ou gírias impróprias. Há muitas passagens que poderíamos citar como exemplo, mas queremos mencionar apenas duas:

1.  Em Ezequiel 16.26 Deus acusa Israel de ter se prostituído com os egípcios porque eles eram homens "grandes de carne" (Ez 16.26). Qualquer um entenderá que tal expressão refere-se ao órgão genital masculino, mas a linguagem, ainda que seja a mais exata possível, está longe de transmitir vulgaridade.

2.  A outra passagem encontra-se em Ezequiel 23.20 onde lemos igualmente acerca de Israel que se prostituiu com os egípcios. Perceba como o tradutor foi cuidadoso na tradução desse verso: "E enamorou-se dos seus amantes, cuja carne é como a de jumentos, e cujo fluxo é como o de cavalos" (Ez 23.20). No uso de uma linguagem digna, procurou o tradutor por palavras que transmitisse o exato sentido do texto, mas sem provocar a imaginação libidinosa do leitor, portanto em lugar de “membros grandes”, como faz outra tradução, eles usaram “carnes grandes”, um eufemismo.

Vejamos três exemplos da “Versão Free Style”:

"Se algum dos seus amigos fizer alguma merda, puxe ele no canto e quebre o pau. Se ele cair na real e pedir desculpas, você salvou seu amigo. Mas se o mané teimar, leva mais uns dois ou três pra por pressão. Se nem assim o safado reconhecer a cagada, leva a gangue inteira pra lhe dar uma surra moral! E se ainda sim o desgraçado não assumir o que fez, então nem considerem ele como amigo." (Mateus 18.15-17 – “Versão Free Style”).

“Jesus, que da escola de malandragem havia sido expulso, respondeu: Ô cambada de hipócritas. Acham que eu sou otário? Aqui é curintia! Me empresta uma moeda aí pra eu mostrar uma coisa". Então emprestaram uma moeda qualquer. Jesus então perguntou: "Quem que imprimiu essa cara feia aqui na moeda?". Todos responderam: "Foi a Dilma!". E ele explicou: "Então deixa pra Dilma o que é dela. E deem pra Deus o que é de Deus!" (Mateus 22.18-21 – “Versão Free Style”).

“Mas Pedro, o bonzão, disse que Jesus nem precisava se preocupar, porque ele tava junto pro que der e vier. Jesus já jogou a real, dizendo: "Ô Pedro, baixa a bola! Você vai ser o primeiro a bundar feio nessa noite, antes do despertador tocar três vezes na função soneca (na verdade era o galo, mas quem usa galo pra acordar hoje em dia, heim?)". E Pedro dizia que não, que não ia abandonar Jesus nem a pau” (Mateus 26.33-35 – “Versão Free Style”).


A leitura desses trechos produz asco. Neles foram usadas as expressões “merda”, “quebre o pau”, “mané”[13], “cagada”, “escola da malandragem”[14], “otário”, “curintia”, “Dilma” [15], “baixa a bola”, “bundar”.

Tais termos são ultrajantes e profanos, e não correspondem à dignidade da Palavra de Deus. Eles não conferem graça, não edificam, e levam o leitor ao caminho inverso daquele recomendado por Paulo, que em sua epístola aos filipenses, ordena aos crentes que pensem em tudo “...o que é verdadeiro, tudo o que é honesto, tudo o que é justo, tudo o que é puro, tudo o que é amável, tudo o que é de boa fama...” (Fp 4.8), em tudo o que tem “...virtude” e produza “louvor” (Fp 4.8). Ora, a “tradução” da Versão Free Style não produz nenhuma virtude de pensamento. Suas palavras baixas e chulas tornam impossível o louvor que Paulo recomenda. Elas produzem indignação e desonra.

Se a “Versão Free Style” usasse apenas gírias, já seria inadequado para a tradução de um clássico literário (a Bíblia certamente é um deles), porque gírias são geograficamente restritas, de duração efêmera, e tem alto índice de rejeição pela linguagem gráfica. Entretanto o tradutor da “Versão Free Style” foi além do simples uso de gírias. Ele conseguiu, superando os mais vis e desprezíveis contos do populacho, vulgarizar a Palavra de Deus, e isto sem mencionar a extrema pobreza literária encontrada no texto.

Se nesses três textos bíblicos que citamos, onde não há nenhum indecoro no texto original, foram utilizadas palavras chulas, ficamos imaginando que palavras o tradutor utilizaria na tradução de Ezequiel 16.26 e 23.20. Dá para imaginar?[16]

 IV. O TERMO “BÍBLIA” É IMPRÓPRIO PARA A VERSÃO FREE STYLE

 Há muitos anos uma tradução pervertida da Bíblia foi levada aos tribunais americanos. Os tradutores foram questionados em seu conhecimento teológico, e examinados em seu saber linguístico. Uma vez comprovada a deformação daquela versão, o Tribunal deu o seu veredito proibindo o uso do título “Bíblia Sagrada” na capa daquelas traduções. As traduções poderiam continuar sendo vendidas, mas sem o uso do título “Bíblia Sagrada” em suas capas.[17]

Este foi um caso verdadeiro, e serve para demonstrar a seriedade que se requer na tradução da Bíblia. Foi necessária a intervenção da Justiça para garantir a veracidade do texto bíblico[18]. Não podemos impedir a continuidade da “Versão Free Style”. Seu autor é livre para continuar com essa obra, mas queremos tornar pública nossa rejeição a ela, e manifestar nossa reprovação pelo uso do título “Bíblia” associado a essa versão, porque esse termo – “Bíblia” – que é um vocábulo consagrado para nós, e para todo o povo evangélico em geral, não pode nem deveria estar vinculado a esta obra tão funesta, espúria e infiel ao texto sagrado. Chamar essa tradução de Bíblia, além de ser um grande equívoco, é um ato de profanação.


 CONCLUSÃO

A “Versão Free Style” utiliza palavras chulas, termos indecorosos e expressões ofensivas. Com tais palavras, ela fere os símbolos sagrados da religião cristã, e ofende, não apenas os evangélicos, mas a toda a comunidade religiosa cristã. Fere o bom siso da inteligência e da consciência.

A “Versão Free Style” é, de fato, uma grande profanação, não somente do ponto de vista da fidelidade teológica, mas também da sensibilidade literária, pois empobrece o acervo cultural da literatura em geral, mas especialmente o da literatura cristã. Trata-se de uma literatura de extremo mau gosto, talvez atraente ao gosto do populacho, mas completamente reprovável a quem tem bom siso.

Voltando a citar a tradução dos setenta (LXX), conta-se que o rei pessoalmente empenhou-se a financiar tal empreendimento, porque queria orgulhar-se de sua biblioteca, que, para completar-se, necessitava dum exemplar do Antigo Testamento dos hebreus. Desse fato podemos verificar que até mesmo um rei impenitente e rude pôde manifestar o gosto pela arte superior e pela boa literatura. Por meio desse conto entendemos que pessoas ignorantes e sem nenhuma escolaridade podem revelar graça e poesia. Portanto é desnecessário e reprovável baixarmos ao nível da ignorância e da mediocridade, sob o argumento de se fazer entendido, porque o que deveríamos fazer é tomar o caminho inverso, ou seja, incentivar àqueles que possuem baixa escolaridade ou pouco entendimento, a subirem o seu nível na escala cultural.

Para tanto a leitura e o estudo das Escrituras vem cumprindo muito bem esse papel, pois é isso que temos visto nas igrejas onde a Bíblia é respeitada, porque ela, não somente TRANSFORMA a pessoa dando-lhe uma nova identidade espiritual em Cristo, como também INFORMA. A Bíblia edifica a pessoa e produz nela uma nova mente e uma nova mentalidade (intelectual e espiritual). Além disso, abre-lhe novos horizontes na área do saber, na medida em que se transforma num vasto campo de pesquisa e de desenvolvimento cultural[19]. A Bíblia mostra o caminho para o céu, mas também abre as portas da erudição[20]. É bem verdade que a própria Bíblia recomenda a simplicidade[21], mas devemos entender que simplicidade não deve confundir-se com mediocridade, e a “Versão Free Style” ainda que tenha aparência de simplicidade, está mais para a mediocridade.

A “Versão Free Style” é distorcida, medíocre, blasfema, ultrajante e profana, porque nela se misturam em meio às santas palavras de Deus palavras torpes e indecorosas; nela se mistura a água doce com a amargosa: "Porventura deita alguma fonte de um mesmo manancial água doce e água amargosa? Meus irmãos, pode também a figueira produzir azeitonas, ou a videira figos? Assim tampouco pode uma fonte dar água salgada e doce" (Tg 3.11-12).

Ainda que o tradutor da “Versão Free Style” esteja imbuído de prestar um serviço a Deus, e esteja bem intencionado, e tenha sido movido por um desejo sincero de tornar o texto bíblico inteligível a todas as classes de pessoas, cremos que ele cometeu um grande equívoco, e que está sendo movido por um espírito de confusão e de torpeza, e está na verdade, trazendo vilipêndio para o verdadeiro Evangelho de Jesus Cristo, e juízo contra si.

Pelos motivos aqui expostos, não podemos aceitar essa nova “versão”, e por isso nós a repudiamos e rejeitamos veementemente, juntamente com nossos irmãos em Cristo da OPBCB.


Notas:

[1]    O autor é o Pastor Ariovaldo Carlos Jr., da Igreja Manifesto.
[2]    A “Versão Free Style” pode ser lida em http://bibliafreestyle.com.br/
[3]    Vocábulos passivos: aqueles que se entendem.
[4]    Vocábulos ativos: aqueles que se usam.
[5]   Ef 1.18 - "Tendo iluminados os olhos do vosso entendimento, para que saibais qual seja a esperança da sua vocação, e quais as riquezas da glória da sua herança nos santos".
[6]    Jo 6.63 - "O espírito é o que vivifica, a carne para nada aproveita; as palavras que eu vos digo são espírito e vida".
[7]    2Co 3.6 - "O qual nos fez também capazes de ser ministros de um novo testamento, não da letra, mas do espírito; porque a letra mata e o espírito vivifica".
[8]    O Espírito Santo pode usar inclusive versões antigas e eruditas (aquelas que muitos hoje consideram arcaicas), pois antes de surgirem as versões modernas da Bíblia só havia essas, e foram elas, que o Espírito Santo usou para converter os pecadores.
[9]    Cada livro da Bíblia foi escrito numa época diferente, alguns livros mais próximos uns dos outros, outros em épocas mais distantes. Toda a Bíblia foi escrita em um período de 1600 anos.
[10] Há muitos outros atributos que caracterizam a natureza sobrenatural da Bíblia, mas esses que citamos são suficientes para nossa argumentação.
[11] Jesus é a Palavra de Deus: "...o nome pelo qual se chama é A Palavra de Deus." (Ap 19.13). Em outra passagem João diz que Jesus é a Verdade: "Eu sou o caminho, e a verdade e a vida...". (Jo 14.6), e em outra que a Palavra de Deus é a Verdade: "Santifica-os na tua verdade; a tua palavra é a verdade." (Jo 17.17).
[12] 2Tm 2.15 - "Procura apresentar-te a Deus aprovado, como obreiro que não tem de que se envergonhar, que maneja bem a palavra da verdade".
[13] Mané, gíria oriunda do nome Manoel (de Emanuel), o nome santo do Senhor (Mt 1.23; Ex 20.7). Essa expressão carrega um sentido pejorativo, pois surgiu do preconceito contra os portugueses, que no Brasil são alvos de piadas nas quais sempre figuram como sendo ignorantes.
[14] O autor afirma descaradamente que Jesus pertencia a essa escola.
[15] O autor cita a Presidente do Brasil, em flagrante desobediência a Judas 8, por se referir de forma desrespeitosa à mais alta dignidade da nação, veja Ec 10.20.
[16] Para exemplificar confira a tradução de Mateus 1.25 - "E não a conheceu até que deu à luz seu filho..." (ACF). “José, cabra macho e obediente, não transou com a dona Maria até que nascesse o menino...” (Versão Free Style).
[17] Essa tradução ficou conhecida como “Tradução do Novo Mundo das Escrituras Sagradas”. Até a cor da capa era diferente, mas hoje esse grupo distribuem suas traduções com capa preta e com o título “Bíblia Sagrada”.
[18] Um bom exemplo disso é a King James Version ou Versão do Rei Thiago que foi autorizada pelo Rei e recebida pelo povo após aprovação pela mais alta autoridade da nação.
[19] Sl 119.99 - "Tenho mais entendimento do que todos os meus mestres, porque os teus testemunhos são a minha meditação".
[20] Is 50.4 - "O Senhor DEUS me deu uma língua erudita, para que eu saiba dizer a seu tempo uma boa palavra ao que está cansado...".
[21] 2Co 11.3 - "Mas temo que, assim como a serpente enganou Eva com a sua astúcia, assim também sejam de alguma sorte corrompidos os vossos sentidos, e se apartem da simplicidade que há em Cristo" .

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 A presente postagem tem como base no documento intitulado "Manifesto de Repúdio da Ordem dos Pastores Batistas Clássicos do Brasil (OPBCB) contra a Bíblia Free Style". Originalmente assinada pelos seus pastores Luiz Antonio Ferraz, Relator - Igreja Batista Vida Nova – SP e  Wagner Antonio de Araújo, Presidente - Igreja Batista Boas Novas do Rodoanel – SP, disponível na íntegra no site: http://opbcb.org/manifesto-contra-a-biblia-free-style/.  Reproduzido aqui sob permissão do Presidente da OPBCB, Rev. Wagner Antonio de Araújo.
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Reportagens sobre o assunto:

http://g1.globo.com/minas-gerais/triangulo-mineiro/noticia/2013/03/versao-freestyle-da-biblia-causa-polemica-e-divide-opinioes-em-mg.html

http://noticias.gospelmais.com.br/biblia-freestyle-alvo-severas-criticas-evangelicos-51623.html

quarta-feira, 10 de abril de 2013

CRISTIANISMO BÍBLICO FOR DUMMIES II

Continuando o assunto da argumentação anterior ("CRISTIANISMO BÍBLICO FOR DUMMIES I"), aqui veremos como Deus providenciou ao longo da Bíblia a salvação para o homem pecador.

Como foi visto, após a queda de Adão no Éden, o pecado por ele cometido, na condição de cabeça da raça humana, a qual estava em Adão representada, estendeu-se a toda humanidade em ação e efeitos. Esse pecado é conhecido na Teologia como "Pecado Original". Assim, toda humanidade após Adão pecou (e ainda peca) juntamente com Adão e, assim como Adão, toda humanidade sofre as consequências terríveis do pecado - a morte, em todos os seus significados. Acerca desse fato, nos ensina o apóstolo Paulo: "Portanto, como por um homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado a morte, assim também a morte passou a todos os homens por isso que todos pecaram. [...] por uma só ofensa veio o juízo sobre todos os homens para condenação [...] pela desobediência de um só homem, muitos foram feitos pecadores." (Rm 5.14-19)

Por causa do pecado de Adão é que os homens pecadores passaram a se auto-condenarem ao inferno; não tivesse Adão cometido tal pecado, homem nenhum jamais teria ido parar naquele lugar de dores e sofrimentos e, a exemplo de Adão, ainda hoje o homem escolhe, por sua livre vontade, ir para este lugar ou não. Noutras palavras, com o seu pecado, Adão optou livremente em afastar-se bem como a toda humanidade de Deus, abrindo a possibilidade de cada homem e mulher serem condenados eternamente. Ele optou por seguir o conselho de Satanás, passando ao seu lado, ao invés de permanecer firme ao lado de Deus. Foi a partir daí que Satanás passou a ser o "deus deste século": roubando o domínio, dado ao homem por Deus, pela tentação e pelo pecado. O homem passou a ser dominado pelo diabo.

Com o pecado, Adão ficou desolado, condenado a estar separado de Deus, o Deus que o criara e a todas as demais coisas, com o qual mantinha comunhão diária, no horário da viração do dia (Gn 3.7). O rompimento da comunhão com Deus gerou medo em Adão. Essa foi a primeira vez que o medo surgiu na história da humanidade e de toda a criação. O pecado gerou o medo: medo da presença de Deus. Como fazer para restaurar a comunhão? Era preciso eliminar o pecado na vida do homem. Mas como fazer isso? Só havia um único jeito: o homem, morto por causa do seu pecado, precisaria nascer novamente, de forma que o pecado que foi enxertado em sua vida, pudesse ser arrancado dali definitivamente.

Para isso, Deus já havia providenciado a solução. Segundo a Bíblia, a solução de Deus foi providenciada antes que o mundo fosse criado (Ap 13.8), ou seja, antes que houvesse a criação, a redenção já exisita! Voltaremos depois a esse ponto. Agora, vejamos como Deus aplica a solução. Após a queda, Deus chama cada parte envolvida e anuncia a consequência, para cada parte, do pecado cometido. Assim, o pecado teve consequências sobre Adão e a criação ("Porquanto deste ouvidos à voz de tua mulher, e comeste da árvore de que te ordenei, dizendo: Não comerás dela, maldita é a terra por causa de ti; com dor comerás dela todos os dias da tua vida. Espinhos, e cardos também, te produzirá; e comerás a erva do campo.", Gn 3.17,18) e sobre Eva ("Multiplicarei grandemente a tua dor, e a tua conceição; com dor darás à luz filhos; e o teu desejo será para o teu marido, e ele te dominará", Gn 3.16), bem como sobre ambos ("No suor do teu rosto comerás o teu pão, até que te tornes à terra; porque dela foste tomado; porquanto és pó e em pó te tornarás", Gn 3.19). Note que a extensão das consequências, como já foi dito, nos alcança em pleno séc. XXI. Deus também disse à serpente (que segundo a Bíblia é o diabo, satanás, o pai da mentira), na verdade a primeira a ouvir a sentença: "Porquanto fizeste isto, maldita serás mais que toda a fera, e mais que todos os animais do campo; sobre o teu ventre andarás, e pó comerás todos os dias da tua vida. E porei inimizade entre ti e a mulher, e entre a tua semente e a sua semente; esta te esmagará a cabeça, e tu lhe ferirás o calcanhar." (Gn 3.14,15) O versículo 15 é especialmente importante no contexto da redenção: ele é chamado proto-evangelho, ou seja, o primeiro evangelho.

No proto-evangelho, Deus anuncia à Serpente - que é satanás - que haveá inimizade eterna entre a serpente e a mulher e entre a descendência de ambas. Anuncia também que o descendente da mulher lhe esmagaria a cabeça, ou seja, esmagaria a autoridade adquirida pela serpente com o pecado de Adão. Foi assim que a redenção deu o seu primeiro sinal de vida dentro da história humana, afirmando ao homem que Deus, apesar do pecado do homem, haveria de providenciar o resgate do mesmo. Esse é o centro de toda a vida cristã e o foco do relacionamento de Aliança entre Deus e o homem. É interessante notar que por ocasião do nascimento de Caim, primeiro filho de Adão e Eva após a expulsão do Éden, Eva exclama: "qanah 'iysh 'eth Yhovah", que é traduzido por "alcancei do SENHOR um homem" (Gn 4.1), que também pode ser traduzido como "Gerei um homem por Jeová", ou ainda "gerei um homem, o Senhor".  Essa última forma de traduzir o texto é bem interessante, pois expressa o sentimento que Eva possuía com relação a Caim, ou seja, que ele fosse Aquele que esmagaria a cabeça da serpente.Acerca desse sentimento, comenta o Rev. José Maurício Passos Nepomuceno, em seu artigo "Cristo no Período Adâmico - Proto Evangelho" (disponível em http://www.monergismo.com/textos/teologia_pacto/cristo_adamico_nepomuceno.htm. Acesso 04 abr. 2013):

"Eva estava declarando a esperança de que sua redenção se completasse naquele que havia nascido, uma vez que ela e o marido ouviram atentamente o que havia sido dito à serpente: “...e o seu Descendente. Este te ferirá a cabeça...”. A Bíblia se silencia a respeito do desenrolar mais particular da vida do primeiro casal, mas aquela promessa, feita ainda no ambiente glorioso do Éden, que estava ressoando nas mentes de Adão e Eva no nascimento de Caim, manteve sua sonoridade no momento do nascimento de cada um dos seus filhos. Por isso, para o povo de Deus no Velho Testamento um nascimento era sempre importante, afinal trazia de volta a expectativa aguda do surgimento do libertador prometido." 

É interessante notar que apesar da esperança de Eva acerca de seu filho Caim, não foi ele o descendente prometido por Deus. O diabo, contudo, não sabia disso (ele não é onipotente nem onisciente, e não sabia quem era a semente); tendo ouvido a promessa de Deus acerca do nascimento de um descendente que o venceria e acabaria com seu domínio do homem, ele tratou rapidamente de fazer com que Caim pecasse. Para vencer Satanás, o descendente da mulher não poderia pecar em hipótese alguma. Uma vez conseguido o intento, Caim também estaria debaixo do domínio de Satanás. Esse intento foi plenamente realizado na inveja que ele teve de Abel e no seu assassinato, posteriormente, eliminando assim dois prováveis candidatos à vencê-lo. A estratégia de satanás para dominar é, sempre foi e sempre será uma só: levar o homem a pecar contra Deus. Estando o homem afastado de Deus pelo pecado, está invariavelmente nas mãos do inimigo (está morto, para com Deus, em delitos e pecados).

Note que a estratégia do diabo era, a princípio, muito boa: como ele não sabia quem seria o descendente da mulher, ele (1) tentaria todos os homens que nascessem, levando-os a pecar e/ou (2) mataria os homens. Essa estratégia foi usada pelo diabo inúmeras vezes, tanto no período patriarcal, quanto no cativeiro egípcio, quanto nos períodos que se sucederam. Por exemplo, no cativeiro egípcio, lemos: "E o rei do Egito falou às parteiras das hebréias (das quais o nome de uma era Sifrá, e o da outra Puá), e disse: Quando ajudardes a dar à luz às hebréias, e as virdes sobre os assentos, se for filho, matai-o; mas se for filha, então viva. Então ordenou Faraó a todo o seu povo, dizendo: A todos os filhos que nascerem lançareis no rio, mas a todas as filhas guardareis com vida" (Êx 1.15,16,22), fato ocorrido por ocasião do nascimento de Moisés, o libertador do povo de Deus. O mesmo episódio se repetirá anos depois: "Então Herodes, vendo que tinha sido iludido pelos magos, irritou-se muito, e mandou matar todos os meninos que havia em Belém, e em todos os seus contornos, de dois anos para baixo, segundo o tempo que diligentemente inquirira dos magos" (Mt 2.16), ocorrido por ocasião do nascimento de Nosso Senhor, o libertador do cativeiro de satanás.

Conforme explica Asher Intrater, em "Céus e Terra no Plano de Deus" (disponível em: http://www.revistaimpacto.com.br/ceus-e-terra-no-plano-de-deus. Acesso: 04 abr. 2013), depois da morte de Abel, Deus levantou outra descendência em Sete, procurando em uma geração após outra achar um grupo de pessoas leais a ele a fim de introduzir sua semente na Terra, destruir o diabo, redimir o homem e unir novamente o Céu e a Terra. Porém, a situação foi ficando cada vez pior, até que todos estavam corrompidos, dominados pelo inimigo.

Seguindo o texto bíblico, posteriormente ao episódio com Caim e Abel, vemos novamente a ação maligna do diabo, registrado em Gênesis 6, corrompendo o gênero humano. Somente Noé achou graça aos olhos do Senhor, e Deus usou a Noé para recomeçar novamente a história humana, após o dilúvio. É interessante notar que apesar da imensa corrupção humana, a Bíblia nos mostra que Deus usou Noé como "pregoeiro da justiça" (II Pe 2.5), concedendo oportunidade de arrependimento (e salvação do dilúvio) a todos que ouvissem e atendessem à pregação de Noé (I Pe 3.20; II Pe 3.4-10).  Assim, Deus julgou o mundo com o dilúvio, mas preservou Noé e toda a sua família e, com eles, seu plano redentor.


Mais adiante, vemos Abrão sendo chamado por Deus, para sair de uma cidade caldéia conhecida como Ur, onde ele residia, para "a Terra que o Senhor havia de mostrá-lo" (Gn 12.1). Abrão, assim, sai da sua terra, a qual lhe era conhecida, em direção a uma terra totalmente desconhecida, uma verdadeira jornada de fé no Deus que lhe aparecera em Ur e lhe fizera uma grande promessa: "E far-te-ei uma grande nação, e abençoar-te-ei e engrandecerei o teu nome; e tu serás uma bênção.E abençoarei os que te abençoarem, e amaldiçoarei os que te amaldiçoarem; e em ti serão benditas todas as famílias da terra." (Gn 12.2,3) Nessa promessa de Deus a Abrão vemos de forma explícita o desejo de Deus em abençoar TODAS as famílias da Terra, o que envolve, obviamente, a redenção dessas famílias. Adiantando um pouco mais, Deus:

1) Fez uma promessa a Abrão de que ele teria um filho seu, gerado de suas entranhas. "3 Disse mais Abrão: Eis que não me tens dado filhos, e eis que um nascido na minha casa será o meu herdeiro. 4 E eis que veio a palavra do SENHOR a ele dizendo: Este não será o teu herdeiro; mas aquele que de tuas entranhas sair, este será o teu herdeiro. 5 Então o levou fora, e disse: Olha agora para os céus, e conta as estrelas, se as podes contar. E disse-lhe: Assim será a tua descendência." (Gn 15)

Aqui, há um das mais belas relações tipológicas da Bíblia, apontando para Aquele que cumpriria a promessa de Deus a Eva acerca da redenção do homem. Quando Deus faz essa grandiosa promessa a Abrão, ele pergunta a Deus: "Senhor DEUS, como saberei que hei de herdá-la?" (Gn 15.8). Deus, então, corta uma aliança com Abrão (vv. 9-11): Abrão toma uma bezerra de três anos, e uma cabra de três anos, e um carneiro de três anos, uma rola e um pombinho. Em seguida, ele mata esses animais, parte cada um deles pelo meio (com exceção das aves), e põe cada parte deles em frente da outra, formando assim um corredor. Para que esse corredor? Para que as duas partes - Deus e Abrão - atravessassem-no, em juramento, acerca da aliança entre eles (Jr 34.18-20).  Aquilo que aconteceu com aqueles animais deveria acontecer com aquele que quebrasse a aliança - esse era o juramento. Ora, esse juramento teria destruído a descendência de Abrão caso ele tivesse entrado com Deus nesse corredor, porque Abrão sendo humano não tinha condições de celebrar uma aliança condicional com Deus. Para evitar isso, Deus faz com que um sono profundo caia sobre Abrão, junatmente com grande espanto e grande escuridão (vv.12). Deus então substitui Abrão no juramento: "E sucedeu que, posto o sol, houve escuridão, e eis um forno de fumaça, e uma tocha de fogo, que passou por aquelas metades." (vv.17)  Assim, aliança celebrada não era condicional, mas incondicional. Deus estave dizendo: "Eu farei isso, Eu cumprirei a promessa independente do que você faça ou venha a fazer Abrão. Aconteça o que acontecer, Eu o Senhor cumprirei a minha promessa". Ao passar sozinho entre as carcassas, Deus jurou fidelidade às Suas promessas e tomou somente sobre si a responsabilidade pelo seu cumprimento, novamente confirmando que tinham sido dadas unilateral e incondicionalmente. Nada e nem ninguém, no céu, na Terra ou em qualquer lugar do Universo poderia impedir que Deus cumprisse o que prometeu!

Aqui, há também uma profunda revelação da Palavra de Deus acerca da forma do cumprimento da promessa de redenção.  "Ao iniciare ste sacrifício de sangue com Abrão, Iahweh ilustrou como Ele planejava cumprir Sua promessa de um herdeiro. Um herdeiro é um que herda algo. Para que haja uma herança, aquele que tem algo a deixar para o herdeiro precisa morrer. Isso significa que alguém teria que morrer para Abrão e sua semente posterior ganharem a herança prometida por Iahweh." (Charles Elliott Newbold, Jr.  A SEMENTE TRANSCENDENTE DE ABRAÃO, Um povo para Iahweh)

2) Mudou o nome de Abrão (significa "grande pai") para Abraão ("pai de multidão") e de sua esposa Sarai para Sara. "1 SENDO, pois, Abrão da idade de noventa e nove anos, apareceu o SENHOR a Abrão, e disse-lhe: Eu sou o Deus Todo-Poderoso, anda em minha presença e sê perfeito. 2 E porei a minha aliança entre mim e ti, e te multiplicarei grandissimamente. 3 Então caiu Abrão sobre o seu rosto, e falou Deus com ele, dizendo: 4 Quanto a mim, eis a minha aliança contigo: serás o pai de muitas nações; 5 E não se chamará mais o teu nome Abrão, mas Abraão será o teu nome; porque por pai de muitas nações te tenho posto; 6 E te farei frutificar grandissimamente, e de ti farei nações, e reis sairão de ti; 7 E estabelecerei a minha aliança entre mim e ti e a tua descendência depois de ti em suas gerações, por aliança perpétua, para te ser a ti por Deus, e à tua descendência depois de ti. 15 Disse Deus mais a Abraão: A Sarai tua mulher não chamarás mais pelo nome de Sarai, mas Sara será o seu nome. 16 Porque eu a hei de abençoar, e te darei dela um filho; e a abençoarei, e será mãe das nações; reis de povos sairão dela." (Gn 17)

É interessante notar que a mudança de nome está associada a uma mudança de natureza. De acordo com a concordância de Strong, Sarai significa “princesa” e Sara significa “mulher nobre.” A concordância de Young sugere que Sarai significa “Iah é príncipe” e Sara significa “princesa.” O Dicionário da Bíblia, de Unger, diz que Sarai pode ter significado “contenda.”

3) Fez com que Sara, que era estéril, já sendo velha, e Abraão sendo já velho, concebesse e desse à luz a um filho, chamado Isaque. "1 E O SENHOR visitou a Sara, como tinha dito; e fez o SENHOR a Sara como tinha prometido. 2 E concebeu Sara, e deu a Abraão um filho na sua velhice, ao tempo determinado, que Deus lhe tinha falado. 3 E Abraão pôs no filho que lhe nascera, que Sara lhe dera, o nome de Isaque. 5 E era Abraão da idade de cem anos, quando lhe nasceu Isaque seu filho." (Gn 21)

Em Isaque, Deus reafirma novamente a promessa de redenção quando pede a Abraão que sacrifique a Ele seu único filho. No momento em que Abraão levanta o cutelo para matar Isaque, a Bíblia diz que "o anjo do SENHOR lhe bradou desde os céus, dizendo: Abraão, Abraão! Não estendas a tua mão sobre o moço, e não lhe faças nada; porquanto agora sei que temes a Deus, e não me negaste o teu filho, o teu único filho. Então o anjo do SENHOR bradou a Abraão pela segunda vez desde os céus, e disse: Por mim mesmo jurei, diz o SENHOR: Porquanto fizeste esta ação, e não me negaste o teu filho, o teu único filho, que deveras te abençoarei, e grandissimamente multiplicarei a tua descendência como as estrelas dos céus, e como a areia que está na praia do mar; e a tua descendência possuirá a porta dos seus inimigos; e em tua descendência serão benditas todas as nações da terra; porquanto obedeceste à minha voz." (Gn 22.15-18) Isaque saiu ileso! Mais uma vez, o Senhor mostrou, a partir desse episódio, de forma claríssima, como se daria a redenção da raça humana!

Assim, ao longo da Bíblia, outros inúmeros acontecimentos vão surgindo na história da redenção, como por exemplo as ofertas registradas no livro de Levítico, todas apontando para um desfecho final, o surgimento de um Redentor definitivo: o nascimento de Nosso Senhor Senhor. Ele é o descendente da mulher, que esmagou a cabeça da serpente na cruz do Calvário. Ele, sem pecado, ofereceu-se a Si mesmo como oferta pelo nosso pecado, cumprindo cada promessa feita por Deus ao longo da história. Jesus foi sepultado. Seu corpo estava embaixo da terra, e seu espírito desceu para o inferno. Satanás pensou: “Finalmente ganhei! Jesus deve ter-se contaminado com orgulho, e Deus o está rejeitando. Eu ganhei, venci Jesus!”  Porém, o que o diabo não sabia era que a morte de Jesus não era gerada pela Sua transgressão pessoal, mas pelo simples e puro amor pela humanidade. Ali, no inferno ("as regiões inferiores da Terra"; Ef 4.9), Jesus não entra no inferno como um pobre pecador condenado por algum pecado como o diabo entendia, mas como VENCEDOR! Ele proclama a sua vitória aos espíritos em prisão (I Pe 3.19), toma do diabo as chaves da morte e do inferno (Ap 1.17,18) e leva cativo o cativeiro (Ef 4.8), esmagando a cabeça da serpente, expondo-a e a todos os principados, potestades e demônios à vergonha pública (Cl 2.14,15). Torna, então, a entrar em Seu corpo e ressuscita dentre os mortos e, em carne, comparece diante do Trono de Deus!

Com a morte, sepultamento e ressurreição de Nosso Senhor, todo o homem pecador pode, se assim desejar, ter a redenção dos seus pecados e consequentemente a vida eterna. Quando o pecador, ao ouvir a mensagem evangélica, as boas novas de salvação, de que Jesus morreu em seu lugar, passa então a crer na morte de Jesus como substitutiva para a sua própria, confessando os seus pecados e recebendo o Senhor como parte integrante e principal de sua vida ("aceitar a Jesus") então seus pecados são perdoados por Deus. Assim, a salvação é obtida somente e exclusivamente pela fé identificadora em Jesus e Sua obra, o que advém de ouvir a Palavra de Deus. Não é, portanto, obtida por quaisquer outros meios, tais como sacrifícios, despachos, caridade, boas obras, filosofias, ciências, espíritos, pedras, energias, rituais, religiões, caminhos de auto-aperfeiçoamento, etc. O PLANO DE DEUS PARA SALVAÇÃO DO HOMEM É A FÉ EM CRISTO EXATAMENTE COMO ENSINA A BÍBLIA. Qualquer alternativa fora do plano de Deus, ao qual acabamos de relatar aqui de forma resumida mas que pode ser visto de forma completa na Bíblia, nada mais é do que a manifestação do pecado original, da rebelião do homem contra Deus, da tentativa de auto-suficiência humana em detrimento da total dependência divina e, consequentemente, um fracasso em seus esforços e propósitos.  Daí, também, deriva-se a grande importância que os cristãos genuinamente evangélicos (que seguem o Evangelho, ou a Bíblia, sem invencionices e sandices) conferem à pregação, quer seja ela dentro da Igreja ou fora da Igreja (por meio do Evangelismo).

No que consiste (ou deveria consistir) a pregação evangélica, portanto? Resumidamente:

1. No estado espiritual que a humanidade se encontra - mortos espiritualmente. Separados espiritualmente de Deus, vivendo em densas trevas espirituais, sob a influência (direta e/ou indireta) de Satanás e seus demônios. Pecadores inveterados, costumazes. Se morrerem nesse estado, condenar-se-ão a si mesmos a viverem eternamente separados de Deus, num lugar chamado inferno.

2. A solução de Deus para esse estado humano. Deus ama o pecador (a pessoa), mas odeia o pecado (o que a pessoa faz). Daí, há intensa pregação contra o pecado. Um genuíno cristão JAMAIS, em HIPÓTESE ALGUMA, concordará com qualquer prática que Deus considere pecado (*) tal como está na Bíblia, seja esta prática realizada POR QUEM QUER QUE SEJA, pois sabe quais são as terríveis consequencias que essas práticas geram.  Para resgatar o homem dessa vida de pecado, Deus enviou Jesus para morrer pelos pecados. O homem, conscientizado de sua vida errática, pecaminosa e distanciada de Deus, precisa então somente reconhecer-se pecador, confessar os seus pecados e crer em Jesus como propiciação pelos pecados, recebendo-O como Único Senhor e Salvador pessoal. Tal pessoa passa a estar em Cristo. 

(*) Pecado é um conceito bíblico-teológico, não é um conceito científico ou social. Mesmo que a ciência, a sociedade ou o governo permita e/ou até incentive uma prática ou comportamento, se esse comportamento estiver enquandrado na Bíblia como pecado ele será encarado desse modo pelo cristão, exatamente como a Bíblia ensina. O cristão genuíno não só se absterá dessa prática mas a condenará como pecado em si mesma, exortando, por meio de pregações e estudos, cada pessoa a fugir da mesma (e do mundo) para Cristo, exatamente como ensina a fé cristã bíblica. Para o cristão que segue verdadeiramente a Cristo conforme a Bíblia ensina, o pecado (a prática de algo) é e sempre será algo a ser evitado e combatido; isso por amor a Cristo e aos pecadores (o praticante de algo).

3. Como esse homem, agora em Cristo, deve buscar viver a sua vida, segundo a vontade de Deus expressa na Bíblia, vivendo sua vida de forma piedosa e honesta, evitando toda a sorte de maldade, de pecado e de vícios (sejam eles quais sejam), servindo a Deus em sua Igreja e vida cotidiana, sendo fortalecida a sua fé por meio de pregações, orações, jejuns e estudos bíblicos e aguardando a sua redenção final, quando então morará para sempre ao lado do Senhor.


Pense nisso. Deus está te dando visão de águia!