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sexta-feira, 19 de agosto de 2016

A PARÁBOLA DO MORDOMO INJUSTO E A MORDOMIA CRISTÃ

"1 E dizia também aos seus discípulos: Havia um certo homem rico, o qual tinha um mordomo; e este foi acusado perante ele de dissipar os seus bens. 2 E ele, chamando-o, disse-lhe: Que é isto que ouço de ti? Dá contas da tua mordomia, porque já não poderás ser mais meu mordomo. 3 E o mordomo disse consigo: Que farei, pois que o meu senhor me tira a mordomia? Cavar, não posso; de mendigar, tenho vergonha. 4 Eu sei o que hei de fazer, para que, quando for desapossado da mordomia, me recebam em suas casas. 5 E, chamando a si cada um dos devedores do seu senhor, disse ao primeiro: Quanto deves ao meu senhor? 6 E ele respondeu: Cem medidas de azeite. E disse-lhe: Toma a tua obrigação, e assentando-te já, escreve cinqüenta. 7 Disse depois a outro: E tu, quanto deves? E ele respondeu: Cem alqueires de trigo. E disse-lhe: Toma a tua obrigação, e escreve oitenta. 8 E louvou aquele senhor o injusto mordomo por haver procedido prudentemente, porque os filhos deste mundo são mais prudentes na sua geração do que os filhos da luz. 9 E eu vos digo: Granjeai amigos com as riquezas da injustiça; para que, quando estas vos faltarem, vos recebam eles nos tabernáculos eternos. 10 Quem é fiel no mínimo, também é fiel no muito; quem é injusto no mínimo, também é injusto no muito. 11 Pois, se nas riquezas injustas não fostes fiéis, quem vos confiará as verdadeiras? 12 E, se no alheio não fostes fiéis, quem vos dará o que é vosso?" (Lucas 16:1-12)

Essa parábola é, talvez, uma das quais mais polêmicas e discordâncias tem suscitado em torno da sua interpretação. É, realmente, um texto difícil de interpretar e por conta disso muita confusão é feita, com evidentes erros bíblicos e que acabam gerando prejuízo para o exercício da fé. Longe de querer solucionar esta polêmica, a intenção dessa postagem é apresentar uma proposta de interpretação que não venha a ferir as regras da hermenêutica bíblica.

Primeiramente, devemos estabelecer o que é um mordomo. Um mordomo, no grego, oikonomos, é aquele que estabelece o "nomos" (lei, regra) da "oikos" (casa). A regra da casa, ou seja,  a forma do bom funcionamento da casa, é de responsabilidade do mordomo. Ele é um servo sobre servos, que tem responsabilidade com tudo que envolve a administração da casa do Seu Senhor. O mordomo não é dono, mas o dono da casa lhe confia tudo o que tem para ser cuidado e desenvolvido - inclusive Seus próprios servos. 

Inicialmente, vemos que no texto de Lucas 12:42, o Senhor já havia feito menção acerca do "mordomo fiel e prudente", como resposta à pergunta de Pedro. Ele aplica o conceito, assim, aos seus discípulos; não apenas os Doze, mas a todos aqueles que fossem colocados pelo Senhor como seus mordomos. Esse "mordomo", em Lucas 12, é aquele que dá a ração, a tempo, aos servos do seu senhor. Ração, nesse texto, é a tradução do termo grego "sitometron", "porção de carne", "uma porção medida de grãos ou de alimento" (desse termo veio a palavra "sitômetro", "aparelho usado para medir a densidade dos cereais"). Caracterizaria uma administração fiel (e sábia), portanto, a ração ser (1) entregue aos servos (não subtraída pelo mordomo, em todo ou parte), (2) a tempo, ou seja, na hora da alimentação e (3) na quantidade certa (nem mais, nem menos), de forma fiel e justa, conforme a necessidade de cada servo. Assim, vemos o exemplo bíblico de José, que "sustentou de pão a seu pai, seus irmãos e toda a casa de seu pai, segundo as suas famílias" (Gn 47.12), bem como a toda a terra do Egito

Nosso Senhor, em Lucas 12, nos diz que "bem-aventurado" (isto é, feliz) será o servo-mordomo que for achado fiel, quando Ele voltar. Ele será posto sobre todos os seus bens (Lc 12.43,44). Note que os mordomos do Senhor darão conta de seus atos nessa função, quando da volta do Senhor. Quem é o mordomo fiel? Aquele que é prudente, que governa bem, que trabalha com integridade, e dispõe as necessidades da casa, com suas mãos, com grande discrição e prudência. Novamente, aqui, vemos o exemplo de José, que foi mordomo fiel, sendo nomeado por Faraó o segundo no seu reino, governador de todo o povo do Egito (Gn 41.40,41), cercado de honras (Gn 41.42-44) e, por fim, teve o nome mudado - de José para Zafenate-Panéia (Gn 41.45). O apóstolo Paulo nos ensina que o que se requer de um mordomo é que ele seja achado fiel (I Co 4.2) e, sem sombra de dúvidas, o Senhor promete recompensar àqueles que forem achados, por ocasião de Seu retorno, nessa condição. Todo mordomo fiel sabe que Seu Senhor voltará e trará nas suas mãos o Seu galardão, para dar a cada um segundo as suas obras (Ap 22.12). Grandes recompensas, que durarão por toda uma eternidade!

Quando o mordomo deixa de cuidar com zelo e fidelidade dos bens do seu senhor, ele torna-se infiel. Em Lucas 12, esse mordomo infiel age como se Seu Senhor não fosse voltar: ele "começa a espancar os criados e criadas, e a comer, e a beber, e a embriagar-se" (Lc 12.45). Este mordomo infiel passou a agir com infidelidade para com seus conservos e para com si mesmo. Ele passou a abusar de sua autoridade com seus conservos; enquanto a si mesmo entregou-se a embriaguez e a glutonaria, vivendo sua vida com devassidão. Se entregaram aos prazeres mundanos. O Senhor promete que o mordomo infiel será pego desprevenido pelo próprio Senhor, dando a este mordomo a sua porção - eterna - com os infiéis (Lc 12.46). 

Em Lucas 16, ao contrário de Lucas 12, o destaque é dado somente ao mordomo como sendo infiel, "acusado de dissipar os seus bens" (ou seja, injustiça). Dissipar, do grego "diaskorpizo", significa, dentre outros, "desperdiçar", "espalhar", "defraudar". Portanto o mordomo infiel é incompetente, irresponsável ou negligente em suas funções que o seu Senhor o conferira. Note que o Senhor deste mordomo é "homem rico" (16.1), portanto a mordomia aqui é sobre muitos bens. Essa defraudação, conforme o texto da parábola indica, consistia em não cobrar as dívidas que outros haviam contraído com seu senhor. Sua função, portanto, era cobrador de dívidas. Assim, este mordomo, em sua infidelidade, simplesmente ignorava a sua função, ou seja, não cobrava as dívidasEste mordomo foi, assim, justamente acusado de infidelidade com os bens do seu senhor, o qual, por sua vez, chama-o e demite-o de sua função de mordomo (v.2). 

Note que há várias diferenças entre Lucas 16Lucas 12: o mordomo infiel, em Lucas, recebe uma recompensa eterna, enquanto o de Lucas 16 recebe uma recompensa terrena. Essa diferença já nos mostra que há pelo menos dois aspectos diferentes (e portanto duas intenções diferentes) sendo tratados pelo Senhor nesses dois textos e, portanto, não podem ser encarados como se fossem a mesma coisa. Entender isso é imprescindível para compreender as parábolas; sem isso, criaremos doutrinas estranhas à Bíblia e colocaremos palavras na boca do Senhor Jesus as quais Ele não disse e nem tencionou dizer. Em Lucas 12, o contexto requer que os discípulos são os mordomos e o Senhor Jesus é o dono da casa; já em Lucas 16 nem uma coisa nem outra estão em foco ou são aplicáveis, apesar das semelhanças; o "senhor/homem rico" é um dos filhos deste mundo, que se admira com a nitidez e rapidez de ação do mordomo. Em Lucas 12, o mordomo é considerado infiel por abuso de autoridade e devassidão moral; em Lucas 16 o mordomo é considerado infiel por defraudação/desperdício (por injustiça), por esbanjar os bens do seu senhor (como acontece na parábola do filho pródigo). 

Em Lucas 16, o mordomo é despedido pelo seu senhor. O que ele passa a fazer? Ele passa a negociar as dívidas com os devedores, de forma que estes devedores o recebessem, após a sua demissão, em suas casas. Note que ele permanece infiel - ele manda que os devedores "escrevam num papel" uma dívida menor do que a verdadeira.  Ele estava garantindo seu lugar às custas do seu senhor, pensando egoisticamente só em si mesmo. A intenção óbvia do mordomo aqui é agradar a estes devedores; uma vez que já estava com "aviso prévio" conferido pelo seu senhor. Obviamente, um ato de desonestidade. No entanto, há algo na atitude do ex-mordomo que o ex-senhor (o homem rico da parábola) louva: a prudência (do grego "phronimōs", "sensibilidade"; "inteligência", denotando astúcia e habilidade).  Talvez o melhor título para esta parábola fosse "O Mordomo Hábil", porque e este o destaque e principal lição da mesma. 

Nosso Senhor conclui esta parábola dizendo que "os filhos deste mundo são mais prudentes na sua geração do que os filhos da luz" (v.8) e que nós, crentes em Cristo, devemos "granjear amigos com as riquezas da injustiça; para que, quando estas vos faltarem, vos recebam eles nos tabernáculos eternos" (v.9). A interpretação do versículo 8 é bem simples: ela dá aplicação direta da parábola, mostrando que os filhos da luz precisam aprender a terem criatividade e habilidade para conduzirem os assuntos de Deus, assim como os filhos deste mundo são hábeis e criativos naquilo que pertence ao reino das trevas. A comparação, portanto, está na habilidade em conduzir os assuntos que são confiados, não nos assuntos per se.  

A partir daí, nos versículo 10 o Senhor Jesus continua a aplicação da parábola, mostrando que a fidelidade (ou infidelidade) não está ligada à quantidade do que é confiado, mas é uma questão de princípio (v. 10). Ou seja, ninguém será desculpado por má administração de recursos alheios com a justificativa de que "eram poucos os recursos".  Se os recursos são poucos, a criatividade e a habilidade precisam ser maiores ainda! Aqui, o Senhor responde de antemão àqueles que justificam sua infidelidade para com ele na quantidade de recursos materiais disponíveis - tamanho de Templo, volume de recursos financeiros, etc. Não há desculpa para não fazermos o que o Senhor requer de nós; os recursos podem ser poucos aos nossos olhos, mas se mostrarão suficientes se forem usados com inteligência, habilidade e criatividade! Afinal, o Senhor não pede para fazermos algo "além das nossas forças". Obviamente, aqui figura a necessidade de planejamento para aplicação de recursos, de forma a alcançar metas e objetivos pré-determinados. Este planejamento abrange a identificação e equilíbrio das receitas e despesas, o ajuste de contas, a escolha de investimentos e a renegociação de dívidas, quando necessário.

Sobre planejamento financeiro, o site "Dinheirama.com" traz uma importante reflexão e recomendação: "Ao contrário do que muitos imaginam, o planejamento financeiro independe da renda do indivíduo. No Brasil, não temos a cultura de desenvolver este plano, assim, ficamos mais vulneráveis às incertezas e riscos e deixamos passar as oportunidades. Todos precisam se planejar, pois, além de termos sonhos e objetivos, imprevistos fazem parte da vida e somos capazes de encará-los com muito mais tranquilidade quando preparados financeiramente para tal" (http://dinheirama.com/blog/2014/10/30/planejamento-financeiro-por-onde-comecar-como-fazer/. Acesso: 19/08/2016)

Ainda com relação ao assunto, há uma excelente recomendação feita por Marcel Nozaki Ulharuzo, em seu Trabalho de Conclusão de Curso de graduação em Administração, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, intitulado "Planejamento financeiro em igrejas: estudo de caso na Igreja Batista Brasa Zona Norte": "[...] sugere-se à organização a continuidade das campanhas que visem buscar um adicional às receitas da igreja. Entretanto, propõe-se uma nova abordagem. Conforme o proposto por Drucker (2006), a melhor forma de incentivar que os indivíduos contribuam é trabalhar a relação entre a instituição e os mesmos de forma a proporcionar aos recebedores uma ligação de interesse com os objetivos organização. Isso significaria deixar de expor as necessidades da instituição, para evidenciar as necessidades dos próprios membros que são supridas por intervenção da BZN. [...] Outra sugestão feita é que sejam abertos aos membros os orçamentos elaborados para os grandes investimentos, de maneira a expor as necessidades de captação para a execução dos mesmos [...]. Assim, reformas e investimentos em infraestrutura devem ser viabilizados, na medida em que os próprios contribuintes se identificarem com as carências mencionadas pelos gestores e participarem das campanhas especiais estabelecidas." (https://www.lume.ufrgs.br/bitstream/handle/10183/67514/000868554.pdf?sequence=1. Acesso: 19/08/2016)

Quem quer "viver mudando os móveis" não pode reclamar de que o "salário" é baixo! Não é sair gastando com projetos elaborados "na paixão", mal planejados (especialmente projetos de alto risco), e depois queixar-se que não tem recurso para as obrigações. Por exemplo, não adianta "torrar recursos" com a aquisição de um ônibus para a Igreja se não há volume de entradas capaz de sustentar o abastecimento de combustível e a manutenção do mesmo. Não adianta "investir na produção de música" com a banda da Igreja, se não há negociação com canais de produção e de distribuição e nem estratégia de lançamento e divulgação, nem de manutenção dos integrantes da banda (salário/participação nos lucros/diárias para hospedagem em viagens), ou um mínimo estudo de preferência musical dos eventuais compradores das músicas (lembrando que tudo isso envolve custo, em um investimento de alto risco). Será recurso perdido! Esse conhecimento é básico nas escolas de administração, quer nos cursos de graduação, quer nos MBA! Note que nada aqui é "tesouro no céu", nada aqui é "riqueza eterna"; antes, são "riquezas mundanas" (ou injustas).

É preciso fidelidade na administração das "riquezas injustas"! Por isso, o Senhor pergunta no vers. 11: "Pois, se nas riquezas injustas não fostes fiéis, quem vos confiará as verdadeiras?" Ou seja, quem vos confiará as verdadeiras riquezas - as riquezas espirituais - se nem nas terrenas vocês são fiéis?  Se não conseguimos ser fiéis na gestão do dinheiro, como seremos fiéis na gestão dos dons espirituais? Como receberemos dons de cura, ou operações de maravilhas, se não conseguimos ser fiéis na administração financeira e secular dos aspectos da Igreja? Afinal, se eu administro mal um ("o pouco"), administrarei mal o outro ("o muito") e o Senhor não tem interesse em uma má administração daquilo que é seu. A gestão das "riquezas injustas" (do grego translit. "mamōna adikō") é o estágio profissional para ser "gestor das riquezas verdadeiras". Novamente, o pouco e o muito contrastados. E esse "muito" pode ser ainda muito maior: pode envolver a gestão de nações no milênio (Ap 2.26,27), só para ficarmos no que foi revelado! 

Porém, o versículo 9 é o mais difícil de se interpretar. O fato é que o versículo 9 parece deslocar a interpretação do versículo 8. Porém, o versículo 9 precisa ser interpretado à luz de tudo o que foi dito até aqui, ou seja, à luz do princípio que a parábola de Lucas 16 ensina. É possível "granjear amigos com as riquezas da injustiça", de forma que esses amigos nos recebam nos tabernáculos eternos? Sim, é possível. Exemplificando: é possível usar as riquezas injustas para socorrer aqueles que precisam, e isso ter como desdobramento mais que um laço de gratidão: aquela pessoa pode, dependendo da situação, vir a tornar-se cristã! Veja, por exemplo, Barnabé. Em Atos 4:36,37, encontramos Barnabé vendendo a sua propriedade a fim de ajudar a Igreja no desempenho de sua missão. Ele era um homem bom, de coração disposto e de larga visão. Além de todos os outros belos traços de seu caráter, devemos acrescentar seu forte espírito de fraternidade para com seus irmãos em Cristo, pois era guiado pelo Espírito Santo ao ofertar para suprir a necessidade daqueles que não tinham. Esse, aliás, era o fruto visível da mudança de vida daqueles que confessavam a Cristo. As escrituras dizem: "Todos os que creram estavam juntos e tinham tudo em comum. Vendiam as suas propriedades e bens, distribuindo o produto entre todos, à medida que alguém tinha necessidade...Pois nenhum necessitado havia entre eles, porquanto os que possuíam terras ou casas, vendendo-as, traziam os valores correspondentes e depositavam aos pés dos apóstolos; então, se distribuía a qualquer um à medida que alguém tinha necessidade" (Atos 2:44-45; 4:34-35). 

Acerca disso, comenta o saudoso Rev. David Wilkerson em seu sermão "O Toque de Deus - O Toque Humano": "[...] as possessões que vendiam eram coisas que eles tinham acima e além de suas necessidades, coisas não essenciais à sua sobrevivência. Em alguns casos, elas provavelmente tinham se tornado como fortalezas dentro do coração dos proprietários. Então os bens foram vendidos, transformados em dinheiro, e doados para sustentar as viúvas, os órfãos e os desamparados da igreja. Eis o testemunho que se propagou de Jerusalém - é a mensagem que o Espírito de Deus queria espalhar por todo o mundo: Somente o poder de Deus poderia romper o espírito de materialismo que asfixiava Israel há séculos. Pense no poder que foi necessário para agitar e despertar um povo autocentralizador e ambicioso, que por centenas de anos havia desprezado o pobre. Os estrangeiros que ouviram estes crentes falando em suas próprias línguas, agora viam-nos se desfazendo de materiais valiosos. E estas possessões não eram sucata. Elas obviamente estavam sendo vendidas como sacrifício. Mais uma vez, os observadores tinham de perguntar: "O quê está acontecendo? Por que está havendo tantas placas de 'Vende-se'? Será que essas pessoas estão sabendo de algo que nós não sabemos? [...] Aqui estava o testemunho do Pentecostes. O mundo viu aqueles crentes cheios de poder amando uns aos outros, vendendo seus bens, dando aos necessitados. E era exatamente isso que o Santo Espírito queria deles. Ele desejava um testemunho vivo para o mundo quanto ao amor de Deus. Eles estavam proclamando o evangelho de Cristo através de seus atos." (http://www.tscpulpitseries.org/portuguese/ts020527.html. Acesso: 19/08/2016)

Isso é fazer amigos para a eternidade! E se a forma de fazer esses amigos é ser um bom mordomo com as "riquezas injustas", então que assim seja! Um tesouro no céu é também uma alma que lá entrará por nosso bom testemunho, mas também pela nossa sabedoria e inteligência. Se é a venda de alguma propriedade ou patrimônio adicional, com recurso oriundo sendo revertido para atender à necessidade urgente de uma pessoa; se é a generosidade em ajudar alguém, ou mesmo um simples almoço, roupa, remédio ou carona; enfim, se assim é que essa pessoa conhecerá a Cristo através da minha vida, então assim seja! Eu não devo "reter além do necessário", nem encolher a minha mão frente às necessidades daqueles que me são próximos. Afinal, até dos recursos injustos somos mordomos de Cristo!  Não é à toa que Nosso Senhor Jesus conclui esse ensino, dizendo: "Nenhum servo pode servir dois senhores; porque, ou há de odiar um e amar o outro, ou se há de chegar a um e desprezar o outro. Não podeis servir a Deus e a Mamom" (Lc 16.13). Mamom, aqui, é o termo aramaico transliterado para o grego que é traduzido por riqueza, o mesmo termo usado desde o início desse capítulo. Não é possível, nas palavras de Jesus, servir a Deus e às riquezas ao mesmo tempo; ou somos servos de Deus e assim procuraremos agradar a Deus (e portanto desprezaremos as riquezas) ou agradar as riquezas (mamom) e com isso desprezaremos a Deus!

Concluindo, surge uma pergunta: quem são os mordomos, hoje? Levando em consideração que cada crente em Cristo tem um ou mais dons espirituais (I Co 12.11; I Pe 4.10) e talentos humanos, cada crente, como servo do Senhor, é um mordomo do Senhor a quem o Senhor conferiu Seus bens para serem usados em prol de Sua Igreja e Reino. Porém, há aquele servo a quem foi confiado outros servos - são estes os apóstolos, profetas, evangelistas, pastores e mestres - além dos presbíteros e diáconos e líderes em geral. Mesmo um líder de departamento infantil é um mordomo. Todos os mordomos tem grande responsabilidade com àquilo que é do Senhor, porém muito mais responsabilidade tem aqueles que cuidam também dos outros servos. E um dia o Senhor voltará! Voltará e se reunirá com cada um dos seus mordomos para acerto de contas: "o que fizeste com aquilo que é Meu? Com aquilo que confiei a Ti? Dá contas da tua mordomia!" Vamos prestar conta da nossa mordomia (Lc 16:1), de como usamos nossa vida, família, bens, recursos, talentos, dons,oportunidades, tempo, dinheiro, inteligência, etc. E aí, querido(a) leitor(a), como será no seu caso? O Senhor disse que há quem muito é dado, muito será cobrado (Lc 12.47,48)! Será você considerado fiel ou infiel? Será você posto sobre os bens do Seu Senhor, ou a sua parte será com os infiéis?  

Pense nisso! Deus está te dando visão de águia!