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terça-feira, 20 de julho de 2010

O RESULTADO DO ENEM 2009 E A EVASÃO DA ESCOLA BÍBLICA DOMINICAL

A rede pública de ensino do Brasil tem apenas duas escolas entre as 20 melhores do país no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) 2009. Os dados foram divulgados pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep) nesta segunda-feira (19/07). Entre as 20 escolas com as piores médias, 19 são estaduais e uma é municipal.

(fonte: http://g1.globo.com/vestibular-e-educacao/noticia/2010/07/rede-publica-tem-so-duas-escolas-entre-20-melhores-do-enem-2009.html. Acesso 20/07/2010, às 15h40min)

Comentários:

Parte da missão da Igreja está ligada ao ensino. Na grande comissão, Jesus disse que deveríamos fazer discípulos e ensiná-los a guardar todas as coisas que Ele nos tem mandado (Mt 28.19,20). Para este mister, a Igreja instituiu formalmente o ensino bíblico-doutrinário por meio da criação da Escola Dominical, em 1780 na Inglaterra. Robert Raikes, jornalista e crente em Cristo, fundou uma escola que funcionava aos domingos porque as crianças e os jovens trabalhavam 6 dias por semana, durante 12 horas. Usava a Bíblia como livro de estudo, cantava com os alunos e ministrava-lhes, também, noções de boas maneiras, de moral e de civismo. No Brasil, a primeira escola dominical permanente foi fundada pelo casal Robert e Sarah Kalley, missionários congregacionais escoceses, em Petrópolis, no dia 19 de agosto de 1855.

Atualmente, todos os anos são elaboradas várias revistas com as mais diversas lições bíblicas, resultando num material com, via de regra, excelente conteúdo, arte, diagramação e encadernação, vendidos a preços acessíveis ao público em geral. Há diversos materiais auxiliares disponíveis, como mapas, artigos, fotos, etc, vendidos ou mesmo de graça, pela internet. Porém, apesar da grande quantidade de material de qualidade, um dos maiores desafios das Igrejas evangélicas sérias é, talvez, a assiduidade dos crentes à Escola Dominical. Muito se tem teorizado acerca das causas desse esvaziamento, focando em sua grande maioria a figura e desempenho do professor. Assim, foram criados diversos cursos e treinamentos visando capacitar e aperfeiçoar o corpo docente desta Escola. Apesar disso, a freqüência dos crentes à Escola continua em queda. Por quê? Será que é porque a Escola Dominical está ultrapassada enquanto instituição de ensino?

Ainda que muitas causas possam ser apontadas para o esvaziamento da Escola Dominical, há pelo menos duas que detêm importância ímpar. A primeira causa é o imediatismo que grassa a Igreja evangélica. Como imediatismo, refiro-me a busca incessante por resultados imediatos. Cada vez mais, o imediatismo torna-se o modus faciendi dos crentes, desde o púlpito até os bancos da Igreja. A presente geração fast food não investe tempo em coisas como estudo e reflexão bíblica; não interessa mais a formação integral do crente por meio do discipulado cristão. De igual modo, infelizmente, há pouco ou nenhum interesse em sermões expositivos, repletos de instrução e conhecimento. Não; hoje a tônica é o "aqui e agora", da solução imediata para os males da vida. Por conseguinte, o estudo bíblico sistemático perde sentido, afinal, não há necessidade de doutrina porque o que vale é unicamente a experiência. A Escola Dominical perde o propósito. A Igreja precisa crescer tão rápido como o bolo da vovó, os crentes precisam de solução “para ontem”; então nada melhor do que uma boa dose de fermento. Todas as doutrinas bíblicas acabaram, com isso, sendo reduzidas, na prática, para se adequarem às urgências terrenas dos crentes.

Deste modo, por exemplo, a Soteriologia (doutrina da salvação) passou a ser, na prática, o ensino de como Jesus pode salvar os crentes da dívida, das doenças e males que afligem a humanidade. Cristologia (doutrina de Cristo) e Teologia (doutrina de Deus) se constituem num único ensino: Deus está preso em sua Palavra, assim "peça qualquer coisa em nome do Filho que o Pai será obrigado a atender". Paracletologia (doutrina do Espírito Santo) foi ressignificada para "estudo das unções e do frenesi". Angelologia virou a doutrina dos escravos invisíveis. Bibliologia resume-se em 10 versículos decorados, interpretados fora de contexto (na luz da nova hermenêutica), que são citados sempre que os problemas surgem, uma espécie de SHAZAM moderno, conferindo aos crentes "a sabedoria de Salomão, a força de Hércules, o vigor de Atlas, o poder de Zeus, a coragem de Aquiles e a velocidade de Mercúrio" (crentes "Billy Batson": parecem adultos e maduros, mas ainda assim têm a mente de uma criança).

A segunda causa é a baixa qualidade do ensino público secular, ofertado à sociedade. É preciso entender que a educação cristã-doutrinária pressupõe uma educação secular mínima. Conhecimentos básicos de leitura e interpretação de texto são imprescindíveis para o início da compreensão do texto bíblico. No entanto, a educação em nossa sociedade está cada vez mais relegada às classes sociais que podem pagar por ela, uma minoria decerto. Enquanto algumas Igrejas sérias buscam capacitar razoavelmente seus professores, pouco ou nenhum recurso é investido na capacitação dos professores da rede pública de ensino, responsáveis pela educação secular. Assim, tanto os professores quanto os alunos carecem de uma formação mínima que permita o aprendizado bíblico. Como ensinar a Bíblia, se muitas pessoas sequer sabem ler corretamente, entendendo o que lêem? Não sabem sequer interpretar um texto, nem ao menos de um jornal.

Lembro-me do episódio ocorrido por ocasião de uma aula no Seminário Teológico sobre Didática Cristã, quando um seminarista leu a passagem de Mateus 27:17 e fez-me a seguinte pergunta: “Professor, não entendi o que significa ‘toma-o, e dá-o por mim e por ti’. Obviamente, não era o conteúdo bíblico que faltava ao seminarista, mas sim o conhecimento mínimo do vernáculo.

Consoante ao exposto fica a pergunta: como solucionar o problema de evasão da Escola Bíblica Dominical? Por certo, não há soluções prontas, imediatas, já que o imediatismo é um dos problemas desta Escola. Particularmente, creio que será preciso repensar a Escola Dominical. Talvez seja preciso aliar o ensino secular mínimo ao ensino bíblico, num novo desenho de currículo. Ensinar técnicas de redação e interpretação de texto, língua portuguesa e ciências com auxílio da Bíblia. Para isso, será necessário investir não apenas na formação doutrinária e pedagógica do professor, mas também em sua formação cultural.

O reformador Calvino tinha um alvo muito claro quanto à educação. Ele desejava que os alunos das escolas de Genebra fossem futuros cidadãos da cidade, bem preparados "na linguagem e nas humanidades", além de terem formação cristã e bíblica. O currículo que ele ajudou a elaborar tinha ênfase nas artes e nas ciências, além da ênfase nas Escrituras. Outro ponto das convicções religiosas de Calvino era o entendimento de que todo conhecimento vem de Deus, quer seja o conhecimento "sagrado", quer seja o "profano". Calvino tinha uma visão ampla da cultura, entendendo que Deus é Senhor de todas as coisas e que, por isso, toda verdade é verdade de Deus.

Por outro lado, se a Igreja deseja realmente ter uma Escola Dominical efetiva, precisa repensar suas prioridades. Se formar pessoas é mais importante do que crescer a qualquer custo, será necessário mudar o foco dos sermões e a liturgia da Igreja, de base pragmática para uma base bíblica-doutrinária. A Igreja precisa valorizar o conhecimento e o ensino se deseja ter sucesso na tarefa de ensinar e formar discípulos de acordo com a fé cristã genuína, de acordo com o evangelho bíblico. A fé e a prática cristã precisam, obrigatoriamente, estarem de acordo com as Escrituras Sagradas. A Igreja deve ser o lócus do conhecimento bíblico, não o agente de alienação e apassivação mental; deve ser a luz do mundo (Mt 5.14) em todas as áreas que o Senhor nos comissionou, não o lócus da ignorância e das trevas.

Pense nisso. Deus está te dando visão de águia!

2 comentários:

  1. Infelizmente para muitas igrejas é melhor que o povo continue cego,sem instrução,pois só assim é
    mais fácil de ser manipulado.Os políticos agem de igual modo,ninguém se incomoda com o ensino!Falam dele no momento das eleições ,porque lhes interes
    sa.É assutador ver o número de analfabetos funci
    onais e eles se encontram até mesmo nos bancos das
    universidades.Nas igrejas este fato vem se repetin
    do,por ser ela formada de pessoas saídas da sociedade vigente.

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  2. Excelente texto, acho que hoje usam a palavra gospel e se for jugar a luz da biblia vai ver que nem tudo que é gospel é cristão.

    Marcelo Lopes
    Professor da escola dominical

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