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terça-feira, 8 de dezembro de 2015

RAZÕES DE UM RACHA: ROBOÃO E SEUS CONSELHEIROS

"E FOI Roboão para Siquém; porque todo o Israel se reuniu em Siquém, para o fazerem rei. Sucedeu que, Jeroboão, filho de Nebate, achando-se ainda no Egito, para onde fugira de diante do rei Salomão, voltou do Egito, Porque mandaram chamá-lo; veio, pois, Jeroboão e toda a congregação de Israel, e falaram a Roboão, dizendo: Teu pai agravou o nosso jugo; agora, pois, alivia tu a dura servidão de teu pai, e o pesado jugo que nos impôs, e nós te serviremos. E ele lhes disse: Ide-vos até ao terceiro dia, e então voltai a mim. E o povo se foi. E teve o rei Roboão conselho com os anciãos que estiveram na presença de Salomão, seu pai, quando este ainda vivia, dizendo: Como aconselhais vós que se responda a este povo? E eles lhe falaram, dizendo: Se hoje fores servo deste povo, e o servires, e respondendo-lhe, lhe falares boas palavras, todos os dias serão teus servos. Porém ele deixou o conselho que os anciãos lhe tinham dado, e teve conselho com os jovens que haviam crescido com ele, que estavam diante dele. E disse-lhes: Que aconselhais vós que respondamos a este povo, que me falou, dizendo: Alivia o jugo que teu pai nos impôs? E os jovens que haviam crescido com ele lhe falaram: Assim dirás a este povo que te falou: Teu pai fez pesadíssimo o nosso jugo, mas tu o alivia de sobre nós; assim lhe falarás: Meu dedo mínimo é mais grosso do que os lombos de meu pai. Assim que, se meu pai vos carregou de um jugo pesado, ainda eu aumentarei o vosso jugo; meu pai vos castigou com açoites, porém eu vos castigarei com escorpiões. Veio, pois, Jeroboão e todo o povo, ao terceiro dia, a Roboão, como o rei havia ordenado, dizendo: Voltai a mim ao terceiro dia. E o rei respondeu ao povo duramente; porque deixara o conselho que os anciãos lhe haviam dado. E lhe falou conforme ao conselho dos jovens, dizendo: Meu pai agravou o vosso jugo, porém eu ainda aumentarei o vosso jugo; meu pai vos castigou com açoites, porém eu vos castigarei com escorpiões. O rei, pois, não deu ouvidos ao povo; porque esta revolta vinha do SENHOR, para confirmar a palavra que o SENHOR tinha falado pelo ministério de Aías, o silonita, a Jeroboão, filho de Nebate." (I Reis 12:1-15)

O texto bíblico acima revela os acontecimentos que imediatamente antecederam a cisão de Israel em dois reinos, o reino do Norte (Israel), com as  tribos de Rubem, Simeão, Dã, Naftali, Gade, Aser, Issacar, Zebulom, Efraim e Manasses (capital: Samaria) e o reino do Sul (Judá), com as tribos de Judá e Benjamim (capital: Jerusalém). A grande nação, conquistada finalmente por Davi e de grande prosperidade material e espiritual na época de Salomão estava agora sendo dividida. Os livros de I e II Reis e II Crônicas vão mostrar o triste estado do povo de Deus, que culminará no cativeiro.  O Templo de Jerusalém, construído por Salomão em 7 anos, considerado uma das sete maravilhas do mundo antigo, foi destruído por Nabucodonosor, rei de Babilônia, em 586 antes de Cristo, que levou todos seus tesouros para a Babilônia. Vale dizer que quando Salomão dedicou esse grandioso Templo ao Senhor, com a presença confirmatória do Shekiná, o próprio Senhor aparece a Salomão uma segunda vez e lhe advertiu sobre a possibilidade da destruição do Templo (I Reis 9:6-9). Isso sem mencionar que inúmeras vezes o Senhor adverte sobre Seu juízo e consequente cativeiro de Seu povo.

Porém, vamos nos ater por um momento ao texto de I Reis 12:1-15. Como facilmente se percebe, a história da divisão de Israel tem um componente espiritual e um componente humano. A bem da verdade, todas as coisas que acontecem no mundo físico tem um componente espiritual. Diga-se ainda que esse fato, de haver uma componente espiritual em todas as coisas que o homem faz, não elimina o livre-arbítrio humano: o homem faz o que quer fazer, o que entende como bem e o que entende como mal. O homem faz suas escolhas pessoais e coletivas. O homem não perdeu seu livre-arbítrio, sua capacidade de escolha, com a queda no Éden (como postulam os teólogos adeptos do calvinismo), ainda que todas as suas decisões ficaram passíveis de serem influenciadas pelo pecado, assim como todo o seu ser.

Voltando ao texto, esse componente humano de que falamos anteriormente é a decisão. A escolha que Roboão, rei de Israel, faz conscientemente acerca do pedido que lhe fora feito por Jeroboão e toda congregação de Israel de aliviar os altos impostos (tributos) que vinham sendo cobrados desde a época de Salomão. Diante desse pedido, o que Roboão faz? Ele vai consultar os anciãos que estiveram na presença de Salomão quando este ainda era vivo. Ele inicialmente faz, portanto, a coisa certa: ele consulta os anciãos, experientes conselheiros de Salomão.

É interessante notar o valor que a Bíblia dá aos anciãos. Por exemplo, no Antigo Testamento, o Senhor ordenou que Moisés ajuntasse 70 homens dos anciãos de Israel e seus oficiais, para auxiliarem Moisés na tarefa de "levar a carga do povo" (Nm 11.16,17). Eram os anciãos que faziam a parte prática da expiação por um morto desconhecido (Dt 21). Nos sacrifícios pelos pecados do povo, os anciãos tinham a tarefa de impor as suas mãos sobre a cabeça do novilho (Lv 4.15). Os anciãos decidiam e executavam o castigo quando um homem, após coabitar com uma mulher, a desprezava,  lhe imputando coisas escandalosas, e contra ela divulgava má fama ("não a achei virgem") (Dt 22.13-19). Julgavam também outras causas, como o dever de cunhado (Dt 25.7-9). O caos moral e espiritual apresentado no livro de Josué tem como uma das principais causas a morte de Josué e dos anciãos de Israel (Js 2.7-12). No Livro de Rute, aos anciãos foi apresentada a causa de Boaz como remidor (Rute cap. 4). No Livro de Esdras, é dito que "os olhos de Deus estavam sobre os anciãos dos judeus" (Ed 5.5). No Novo Testamento, no Livro de Atos, é dito que eram eleitos anciãos em cada igreja (At 14.23). Paulo e Barnabé levaram o caso do papel da circuncisão na salvação dos crentes aos "apóstolos e aos anciãos" em Jerusalém (At 15). Pedro ordena que na Igreja os jovens sejam sujeitos aos anciãos (I Pe 5.5). Até no Céu há anciãos (Ap 4)! Mesmo nos desvios do povo de Deus, quer no Velho quer no Novo Testamento, vemos em evidência a figura dos anciãos.

Roboão consultou corretamente o conselho dos anciãos. O problema é que ele "deixou o conselho que os anciãos lhe tinham dado, e teve conselho com os jovens que haviam crescido com ele". Ele não confiou no conselho dado pelos mais experientes, que já haviam vivido muitas coisas com seu pai Salomão; e resolveu consultar o conselho da moçada.Veja: ele podia ter até consultado o conselho dos jovens também; esse não foi o problema. O problema é que diante dos dois conselhos, ele resolveu seguir o conselhos dos jovens, que nesse caso específico era um conselho maligno. Roboão não sabia discernir qual era o conselho mais sábio dentre os dois e, assim, preferiu confiar na amizade em detrimento da experiência e maturidade. E isso culminou no "racha" de Israel.

Um mau conselho pode fazer muitos estragos, em todos os aspectos. Note: um conselho pode ser mau independentemente da intenção do conselheiro. É possível, hipoteticamente falando, que os jovens conselheiros de Roboão não deram o mau conselho por malícia, para ver Roboão se dar mal; apenas não tinham condições de aconselhar. Foram elevados à condição de conselheiros do rei por terem crescido com Roboão, por pura amizade, não por terem real condição de exercer essa função. E assim, como não tinham condições de aconselhar, mas eram conselheiros, o conselho daqueles jovens foi ruim. Note que Roboão teve, aqui, no mínimo dois erros: primeiro, levantou conselheiros que não tinham condição de sê-lo, por conveniência e amizade; segundo, sendo rei de Israel, não soube discernir qual conselho - dos jovens ou dos anciãos - era bom.

Infelizmente, hoje há muitos que, como Roboão, erram nas mesmas coisas! Quer na vida particular, quer na vida ministerial, estão a "levantar conselheiros" por amizade e conveniência, não por suas qualificações. Assim, por exemplo, a mulher que experimenta alguma crise em seu casamento vai buscar conselho com a amiga que vê o casamento como supérfluo (não como uma aliança). O homem, na mesma crise, elege como seu confidente e conselheiro o amigo leviano. O(a) jovem, em crise com sua sexualidade, vai buscar conselho com alguém que considera a questão à maneira do "tanto faz". O crente, diante de questões espirituais e emocionais, vai buscar conselho com o amigo descrente, confidenciando para ele suas mais profundas crises. O pastor levanta seu presbitério por conveniência (interesse financeiro, capacidade de controle, etc), desprezando os mais antigos que com ele estão desde o início da obra.

Outro ponto importante é o discernir o conselho. Às vezes, nem mesmo o conselho de um crente ou pastor é um bom conselho; já vi casos onde o conselho pastoral foi um desastre completo, que quase acabou em agressão física. Por outro lado, tem muita gente por aí, dentro e fora de Igreja, aconselhando com "segundas intenções". Como discernir se o conselho dado é bom ou mal? Primeiramente, é preciso ter maturidade. Se você é uma pessoa imatura, a coisa complica, porque o imaturo via de regra é levado por suas emoções, não pela razão. Ele não pondera, não reflete, não pensa, mas age na base do impulso. É preciso então averiguar se a decisão foi escolhida na base da auto-determinação, ou seja, o conselho será seguido se ele for exatamente de acordo com aquilo que a pessoa desejava ouvir do conselheiro, ou se o conselho será seguido porque é aquilo que a pessoa precisava ouvir do conselheiro. Há pessoas que nos aconselham segundo aquilo que sabem que queremos para nos agradar e nós tenderemos fortemente a fazer aquilo que nos agrada.

É preciso aprender a discernir os conselhos. Muitas pessoas se prejudicaram ouvindo "conselhos errados". Saber separar as coisas, por exemplo, conselhos bons dos maus, não é o bastante ainda. É preciso escolher entre um e outro. O Salmo 1 nos ensina como discernir o conselho - meditando na Palavra do Senhor. No conselho dos jovens a Roboão, ficou claro a contrariedade com a Palavra. A opressão jamais será algo da parte de Deus. Seguindo o conselho dos jovens, Roboão disse que iria oprimir ainda mais o povo, o que acabou causando o racha na nação. Relacionamentos desfeitos, famílias arruinadas, Igrejas rachadas, ministérios rachados... tudo porque "Roboão" resolveu seguir o caminho da opressão, da dureza, até da tirania; menosprezou o conselho dos anciãos e abraçou o dos jovens. "Puxe mais a corda", "leve ao extremo", "mine as forças"; vamos ver "até onde ele aguenta".  No texto em questão, o conselho dos anciãos a Roboão era para que ele tivesse sensibilidade de perceber que o povo estava cansado, vinha de um período difícil e precisava de um alívio. Roboão deveria tratar o povo com respeito, bondade, discernimento, ética, sensibilidade, sem discriminação, generosidade, verdade, paciência, humildade, justiça, sabedoria.

Note o conselho dos jovens a Roboão: oprima ainda mais este povo! Aumente os impostos! Lucro! Grana! Na cabeça daquela moçada, as pessoas valem o quanto pesam. Só tem valor se e por gerarem recursos para o reino. Não é à-toa que Tiago nos diz que "o amor ao dinheiro é a raiz de toda a espécie de males; e nessa cobiça alguns se desviaram da fé, e se traspassaram a si mesmos com muitas dores." (Tg 6.10) Há gente desviada da fé pela cobiça ao dinheiro! Há gente hoje que está a Casa de Deus, falando em nome de Deus, que na realidade está perdida de Deus! Perderam-se de Deus, perderam-se seguindo o caminho da opressão que o amor ao dinheiro exerce. Venderam seus ministérios, venderam sua ética! E hoje estão "fazendo da piedade fonte de lucro", ou seja, vendendo serviços religiosos! Isso precisa ser considerado com muito cuidado: tem gente perdendo a fé por causa de grana! Mais do que nunca, há uma pressão infernal em nossos dias para se ter sucesso na vida, e esse sucesso é medido por quanto dinheiro você tem! Pelo poder - financeiro, político, até espiritual - que a pessoa possui! Hoje, por exemplo, "pastor de sucesso" é pastor que "faz crescer" numericamente a Igreja - esses são ovacionados publicamente; são parabenizados e postos como "exemplo" para os demais. Não importa quantos princípios bíblicos o sujeito tenha quebrado para chegar a isso; não importa se ele vendeu a si mesmo e a mensagem. E o conselho - falado ou demonstrado - é o mesmo de Roboão: "traga lucro", "faça prosperar financeiramente o tesouro real", que com isso "você demonstrará que governa bem Israel". O texto bíblico não diz isso, mas talvez, hipoteticamente falando, é possível que o aumento dos impostos trouxesse mais regalias para aqueles jovens conselheiros e por isso eles deram tal conselho. Hipoteticamente falando... 

Quer um conselho? Cuidado com tais pessoas, que aconselham por interesses pessoais e à luz daquilo que seu coração anseia. Isso sempre acaba em problema, em crise, em racha. Há ações que trarão consequências que se estenderão por toda uma vida. Busque ao Senhor, medite na Palavra, aprenda a discernir o bem e o mal. Não seja como Roboão, mas dê ouvidos àqueles que segundo Deus transmitem a Palavra do Senhor para direcionar sua vida no Caminho santo. Não despreze um bom conselho, só porque você não concorda com ele; e não despreze uma pessoa, só porque não concorda com ela. Analise todas as coisas, retenha o que for bom!

Pense nisso! Deus está te dando visão de águia!

Um comentário:

  1. Essa postagem é muito elucidativa. Pessoas, igrejas, famílias, casamentos são destruídos por maus conselhos. Nesses maus dias nos quais vivemos, há pessoas que vivem uma total inversão de valores.Elas não possuem condições de aconselhar, mas muitos que buscam favorecer suas secretas aspirações e usando de certas prerrogativas junto ao aconselhado, acabam por arruinar a vida de tal pessoa.
    Há também aqueles que buscam os conselhos de líderes sérios, passam horas conversando com ele, mas de antemão não pretendem sequer seguir o conselho recebido . Nós já sabemos como esse " filme " termina. Aquele (a) que assim age não quer solução, visto que ocupa tempo precioso à-toa.
    Deus é tão gracioso, que nos deixou conselhos na Sua Santa Palavra e conselheiros sábios e cheios do Espírito.
    Se erramos é por não atentarmos para as respostas e soluçao apresentadas por Deus.
    Quanto aos líderes que tem atropelado a Palavra é bom que procurem se consertar enquanto é dia. Deus não se compromete com aqueles que deturpam as Escrituras.

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