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terça-feira, 11 de outubro de 2011

RUDIMENTOS DA DOUTRINA DE CRISTO - IV: IMPOSIÇÃO DE MÃOS

POR isso, deixando os rudimentos da doutrina de Cristo, prossigamos até à perfeição, não lançando de novo o fundamento do arrependimento de obras mortas e de fé em Deus, e da doutrina dos batismos, e da imposição das mãos, e da ressurreição dos mortos, e do juízo eterno. E isto faremos, se Deus o permitir. (Hb 6.1-3)

Nesta argumentação, estudaremos a "imposição de mãos", do grego "epithesis te cheir" (ἐπιθέσεώς τε χειρῶν). Sobre a imposição de mãos, há duas principais opiniões teológicas: (1) que a imposição de mãos confere, por transmissão, bênçãos ou maldições para as pessoas sobre as quais as mãos são impostas e (2) que a imposição de mãos é simplesmente um "rito" que confirma para os presentes que aquela pessoa, sobre a qual as mãos são impostas, detém a partir daquele momento autoridade ou comissão para realizar alguma tarefa específica. Na primeira, o dom sobrenatural é transmitido de pessoa para pessoa; no segundo caso, o dom é apenas confirmado.

Em seu comentário, Barnes argumenta que as mãos eram impostas sobre alguém não para conceder algum poder ou habilidade, mas para indicar que aquela pessoa recebera a autoridade ou comissão de quem lhe impunha as mãos. (Barnes' New Testament Notes) Em concordância com Barnes,  o "Novo Dicionário da Bíblia" explica que o toque das mãos de uma pessoa era considerado como algo que comunicava autoridade, poder, ou bênção. Já segundo São Tomás de Aquino, em sua obra Summa Theologica, "a imposição das mãos [...] é feita para designar um abundante efeito da graça, pela qual, os que recebem essa imposição, por uma certa semelhança se associam aos ministros, que devem ter uma graça mais abundante."  


Calvino, em seu comentário sobre a Epístola aos Hebreus, conecta os batismos à imposição de mãos. Conforme o comentário, os filhos menores dos catecúmenos eram batizados nas águas e assim uniam-se a Igreja; quando cresciam não eram novamente batizados, mas sobre eles as mãos dos presbíteros eram impostas. Não há, contudo, nenhuma referência bíblica sobre esta prática; mesmo na hipótese dela se constituir numa prática da Igreja, seria preciso que ela se desse após a escrita da Epístola, não se constituindo, deste modo, no propósito original do autor.

Mas o que a Bíblia tem a dizer sobre isso?

A prática de impor as mãos sobre a cabeça de uma pessoa quando se invocava sobre ela uma bênção era comum entre os hebreus. A bênção seria então transmitida por Deus à pessoa sobre a qual as mãos eram impostas por alguém que detivesse autoridade para isso, como um pai de família, ou sacerdote (Gn 48.5-20; Nm 8.5-20). Em Atos 6, os apóstolos impuseram as mãos sobre os irmãos escolhidos pela Igreja para servirem como diáconos (At 6.6). As mãos também eram impostas sobre a cabeça da vítima, por ocasião do sacrifício, confessando os pecados (Lv 16.21; 24.14; Nm 8.12; II Cr 29.23). As crianças eram trazidas a Jesus para que Ele lhes impusesse as mãos (Mt 19.13). É preciso considerar que no livro de Atos o Espírito Santo era concedido aos fieís sob a imposição de mãos dos apóstolos (At 8.17). As mãos eram também impostas sobre uma pessoa quando esta era separada para um ofício específico (Num 27.18 comp. At 8.19). Paulo exorta a Timóteo: "Não desprezes o dom que há em ti, o qual te foi dado por profecia, com a imposição das mãos do presbitério" (I Tm 4.14). Em sua segunda epístola ao jovem discípulo, novamente consta a mesma admoestação: "Por cujo motivo te lembro que despertes o dom de Deus que existe em ti pela imposição das minhas mãos." (II Tm 1.6; ver também I Tm 5.17-22)

A verdadeira doutrina a respeito da imposição das mãos é um dos elementos da fé cristã. Que o costume da imposição das mãos, como simbolismo de transmissão de dons espirituais, prevaleceu na Igreja no tempo dos apóstolos, não há dúvida. (Barnes' New Testament Notes) Assim, os dois conceitos - transmissão de dons espirituais e reconhecimento do chamado e dos dons - parecem estar inseridos na antiga prática de imposição de mãos. É provável que o ensino - rudimento - sobre a imposição de mãos consistia em esclarecer os propósitos da imposição de mãos aos irmãos hebreus, que muito possivelmente confundiam "quem" (sobre animais? sobre coisas? sobre pessoas?) e "quando" (em que casos) impor as mãos.

O ensino envolvia, com toda certeza, quem era, em última análise, responsável pela ação desejada na imposição de mãos pelos crentes em Cristo (o Senhor Jesus), pois Seu precioso nome é que deveria ser invocado na prática. Assim, aquele que impunha as mãos era simplesmente um canal pelo qual as bênçãos do Senhor fluiriam sobre outrem.

Ao contrário, as religiões de mistério que também praticavam a imposição de mãos tributavam a eficácia da prática ou ao sacerdote da mesma ou a entidade específica. Argumentando pelo viéis das religiões comparadas, a prática de transmissão espiritual via imposição de mãos é até hoje comum a várias religiões e seitas pseudocristãs, como o budismo, a Igreja Messiânica Mundial, o Mormonismo, o Espiritismo, dentre outras. 

Há uma questão pendente: será que o ensino de que maldições podem ser transferidas pela imposição de mãos tem fundamento? Será que Paulo, ao escrever a Timóteo para que ele "não impusesse precipitadamente as mãos, nem participasse dos pecados alheios" referia-se a uma "retro-transmissão de pecados'? Essa passagem pode apoia o ensino de que há transmissão ou transferência de pecados de quem recebe a imposição de mãos ou de quem impõe?

Com base no sistema sacrificial do Antigo Testamento alguns grupos, como os Adventistas do Sétimo Dia, erroneamente afirmam que os pecados da nação eram transmitidos para o bode emissário (o bode para Azazel) pela imposição de mãos. Assim, em tese, haveria a transmissão de pecados pela imposição de mãos.

Parênteses: O uso do bode emissário para expiação do pecado de Israel é relatado em Levítico 16. Conforme o texto, dois bodes eram trazidos diante do Tabernáculo no deserto e sobre eles lançavam-se sortes, de forma que um dos bodes era sacrificado (o bode onde recaía a sorte pelo Senhor) e o outro era enviado para o deserto, como bode emissário. O sumo-sacerdote Arão então impunha suas mãos sobre a cabeça do bode vivo, e sobre ele confessava todas as iniqüidades dos filhos de Israel, e todas as suas transgressões, e todos os seus pecados. Esse bode era então conduzido para o deserto pela mão de um homem designado para isso, devendo ser deixado no deserto.
É interessante notar que o termo "Azazel" não aparece em todas as versões da Bíblia. A versão inglesa da Bíblia, conhecida como King James Version, usa o termo inglês "scapegoat", traduzido por "bode expiatório" (o mesmo termo é também encontrado nas versões New American Standard Bible, American King James Version, Webster's Bible Translation e World English Bible).  O termo Azazel aparece em outras versões (American Standard Version, Darby Bible Translation, English Revised Version, Reina Valera, Louis Segond (1910), French: Darby, French: Martin (1744), German: Luther (1912), etc.). No texto de Lv 16.8, o termo hebraico utilizado é "`aza'zel". Porém, este termo é precedido pelo termo "gowral" (gowral aza'zel), que é traduzido por "uma parte ou destino" (como se determinado por sorte). Assim, o texto de Levítico seria "e outro com destino a Azazel".
O Pr. Natanael Rinaldi, especialista em apologética cristã, apresenta uma explicação bastante esclarecedora: "Alguns entendem que "azazel" vem das raízes hebraicas: ez (bode) e azal (virar-se). Outros dizem que a palavra procede do árabe: "azala" (banir, tirar, remover). Os rabinos, em sua maioria, entendiam que Azazel era o local, no deserto, para onde o bode era enviado" (Expiação por Azazel - A quem representava o bode Azazel? site: http://www.cacp.org.br/adventismo/artigo.aspx?lng=PT-BR&article=9&menu=1&submenu=3). Fecha parênteses.

Parênteses 2: Como entender o papel do bode emissário? Ambos os bodes de Levítico tipificam, juntos, de forma inseparável, a Cristo. O primeiro era sacrificado, já o segundo levava sobre ele as transgressões do povo. Isaías diz que o Senhor Jesus tomou sobre si as nossas iniqüidades: "Ele verá o fruto do trabalho da sua alma, e ficará satisfeito; com o seu conhecimento o meu servo, o justo, justificará a muitos; porque as iniqüidades deles levará sobre si." (Isaías 53:11). Por ocasião de sua obra expiatória, o Senhor Jesus exclamou dizendo "Deus meu, Deus meu, porque me desamparaste?" (Mt 27.46). Porque Ele exclamou assim? Por causa dos pecados da humanidade que estavam sobre Ele - são os pecados é que fazem separação entre o homem e Deus (Is 59.2) e isso se cumpriu em Jesus. Naquele momento de solidão, na cruz, antes de sua morte, Jesus cumpriu o tipo do bode emissário; Ele estava sozinho, no deserto da existência, com os pecados do povo sobre si. Quando o Senhor morreu, Ele cumpriu o tipo do bode para o Senhor, imolado em favor do pecado do povo. Fecha parênteses.

No texto de I Timóteo 5:22, Paulo está dizendo a Timóteo que não separe, eleja, escolha anciãos (oficiais da Igreja) sem que estes evidenciem genuína conversão, sem que estes cumpram os requisitos básicos para o ofício que desempenharão (ofício pastoral). Se Timóteo não atentasse para estes requisitos e separasse oficiais para a Igreja (e para isso imporia sobre eles as suas mãos), os homens escolhidos sem critério acabariam por não honrar sua posição e com isso pecariam. Como Timóteo seria o responsável por separar pessoas incapacitadas, espiritualmente falando, ao ministério, ele seria o responsável pelos pecados que estes cometessem na execução de seu ofício; isto é, Timóteo, mesmo sabendo o que poderia ocorrer por sua escolha precipitada, agindo de forma precipitada, irresponsável, seria o responsável por tudo o que redundasse dessa escolha. 

Em Provérbios 26:2, está escrito: "Como o pássaro no seu vaguear, como a andorinha no seu vôo, assim a maldição sem causa não encontra pouso." Deste modo, se o crente em questão é fiel aos Princípios da Palavra de Deus, a possível maldição, que poderia se abater sobre sua vida através do ato impenetrado por outra pessoa não ocorrerá. Na vida do cristão genuíno não há "brechas" para atuação demoníaca; muito pelo contrário: Há suficiente vida com Deus para fazer com que a maldição seja trocada por bênção. O texto de 1 João 5.18 fala que o maligno não "toca" no crente: "Sabemos que todo aquele que é nascido de Deus não vive pecando; antes o guarda aquele que nasceu de Deus, e o Maligno não lhe toca."

E se tanto aquele que impõe as mãos como aquele sobre quem as mãos são impostas, na Igreja, forem não-cristãos; ou seja, forem cristãos nominais? Essa hipótese se assemelha a imposição de mãos por não-cristãos fora da Igreja, membros de religiões e seitas heréticas, com uma única ressalva: O nome invocado não é o nome de um deus pagão, ou de um demônio; mas o nome invocado, neste caso, é o de Jesus. À primeira análise, talvez devêssemos concordar com a Tese de Agostinho - a tese do "ex opere operato": "Ao aceitar a natureza comunicativa dos sacramentos, comprovamos que este comporta em si a graça de Deus, independentemente da fé ou do caráter moral do celebrante ou de seus destinatários".

Assim, segundo Agostinho, a eficácia do sacramento não depende de quem o ministra, ou de quem o recebe, porque a eficácia do sacramento reside nele mesmo. O conceito é diferente no Protestantismo, onde o sacramento não depende do ministro, mas de Deus, e a sua eficácia realiza-se sempre no respeito da liberdade humana, isto é, a sua eficácia requer a resposta da fé (ou seja, na condição de quem o recebe).

Note que Jesus, ao cumprir os tipos dos bodes de Levítico 16, leva os pecados sobre si, garantindo àquele que reconhece a si mesmo como pecador, que se arrepende e tem fé em Deus o perdão dos pecados. Porém, os pecados do não-convertido permanecem sobre os próprios, a despeito da obra de Cristo. Os benefícios do sacrifício de Cristo no que tange à salvação do pecador dependem da fé deste último; não operando tais benefícios salvíficos independente da fé do pecador. A graça de Deus opera sobre o homem à medida que ele crê em Deus, pois "pela graça sois salvos, por meio da fé". (Ef 2.8)

Porém, há uma ressalva muito grande, que impede de usarmos a tese agostiniana neste caso: Quem recebe a imposição de mãos não possui fé no que se está realizando; tampouco quem está impondo as mãos. Assim, a imposição de mãos é, em si mesma, nula em efeito (note que o ato não é suficiente em si mesmo). O ato, deste modo, não passa de uma mera cerimônia, tipo "para inglês ver", não possui eficácia, não possui "referendum" de Deus; muito pelo contrário: possui reprovação, estando tanto o celebrante quanto o participante debaixo de pecado e, em última análise, debaixo de maldição.

Portanto, não há transmissão de pecados via imposição de mãos, mas pode haver transmissão da graça divina em favor daquele que recebe a imposição, pela operação do poder de Deus através de quem impõe as mãos. Por outro lado, há casos onde a imposição de mãos se aplica, noutros não. É muito importante haver discernimento espiritual, para não transformarmos a operação da graça de Deus em mais um ritualismo vazio e sem propósito.

Na próxima argumentação, estudaremos acerca do ensino sobre a ressurreição dos mortos e o juízo final. Até lá, permitindo Deus! Lembre-se: Deus está lhe dando visão de águia!

1 comentários:

lui disse...

Há extrema necessidade de entendermos essa questão de imposição de mãos.Isso porque muitas seitas a praticam.Se não fosse importante ninguém se preocuparia.A Bíblia nos dá várias situações onde tal ocorreu,bem como o motivo.E é muito interessante tomarmos conhecimento,para que não venhamos a criar todo um mistério acerca do ato,ou de repente as pessoas entenderem como algo mágico ,capaz de resolver todos os problemas.

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