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terça-feira, 14 de dezembro de 2010

COMO ENTENDER AS FESTAS BÍBLICAS NO CONTEXTO DA IGREJA

Tenho a impressão de que nunca se falou tanto nas festas bíblicas como em nossos dias. Muitas denominações evangélicas - até mesmo históricas - passaram a redescobrir esta parte da Bíblia, voltando-se para as celebrações específicas, de acordo com a época do ano. Também conhecidas como festas judaicas, foram determinadas por Deus a Israel como momentos de alegria, de gratidão pelas bênçãos alcançadas, para louvor ao Senhor; para perdão e reflexão, rememorando episódios importantes na vida do povo do Senhor.

Muito se tem discutido acerca da celebração destas festas. Deveria a igreja celebrá-las, ou isso ficou no passado distante do Velho Testamento? A igreja cairia no erro dos judaizantes, conforme a epístola de Paulo aos Gálatas, por celebrar as festas? Será que a igreja perde sua essência neo testamentária ao celebrar a festa dos tabernáculos, por exemplo? Há muito debate, pouco consenso e muita confusão... permitindo-me a citação, Hiney Ma Tov umanaim Shevet achim gam yachad!

Ora, se vamos discutir se a igreja vai celebrar as festas judaicas/bíblicas, vamos ampliar a discussão, de modo a não debatermos superficialmente. Vamos começar com a seguinte pergunta: a igreja deve celebrar festas? As festas fazem - ou podem fazer - parte da liturgia da igreja? Ou a alegria - inerente às festas - atrapalha a adoração a Deus e a meditação nas Escrituras? A alegria favorece a carnalidade, a sensualidade, o pecado?

Muitos pastores e líderes denominacionais acreditam que sim. "A igreja do Senhor não é lugar para risos, para alegria!". Nem o simples ato de bater palmas é permitido! Se alguém manifesta-se durante o culto, quebrando o silêncio sepulcral entre as falas do pregador com um "aleluia!", "glória a Deus!" é logo visto como "perturbador da ordem do cultoe, no mínimo, será repreendido - ou exortado, se preferir, pelo próprio pregador, ou por um diácono, ou pelo irmão do lado. O "consensus" dominante é o expresso pelo Venerável Jorge ("O Nome da Rosa"): "O riso mata o temor. E sem temor, não pode haver fé. Porque se não se teme ao demônio não há mais necessidade de Deus."

O que está por detrás disso? Me desculpem os praticantes, mas o que há é uma religiosidade falida, hipócrita. São incapazes de manifestar qualquer emoção num culto, mas são prontos a se emocionarem num jogo de futebol, num casamento, ou mesmo com as piadas que circulam na sociedade. São capazes de sorrir diante das pegadinhas, diante dos próprios erros. "Mas no culto, não! Deus é santo, e santidade é contrária a alegria!" Infelizmente, existe muita gente doente que acredita nisso. Doentes de alma, isso é o que são! Veja, por exemplo, a celebração da Ceia (isso é outro "motivo de guerra", já no nome. Usar o adjetivo "Santa" para qualificar a "Ceia do Senhor" está terminantemente proibido. Pergunto: o Senhor é santo? Se sim, a Ceia dele não o é? O Santo Senhor tem uma Ceia não-santa? Por favor...). A Santa Ceia foi transformada em culto fúnebre! Cada um come seu pão e bebe seu cálice apressadamente e sai da igreja com cara de santo, de circunspecção...É, infelizmente a igreja tem muitos como "venerável Jorge": eliminam a alegria (e com ela a espontaneidade) em tudo o que se refere à fé...

"Porque o reino de Deus não é comida nem bebida, mas justiça, e paz, e alegria no Espírito Santo." (Romanos 14:17) Qualquer outra definição do que venha a ser o Reino de Deus e que não envolver estes elementos é espúria, produto de uma mente humana sem a revelação de Deus. As atividades que fazemos no Reino de Deus precisam, necessariamente, envolver justiça, paz e alegria no Espírito Santo; sejam elas àquelas ligadas ao serviço cristão ou à adoração. Sem alegria, até o pastoreio é inútil aos crentes (Hb 13.17). Se até João Batista saltou de alegria, ainda no ventre de sua mãe Isabel, na presença do Salvador que ainda estava no ventre de Maria, porque nós não podemos fazer o mesmo? (Lc 1.44) Se ao voltarem da missão, os 70 o fizeream com alegria (Lc 10.17), porque nós nos voltaremos para a tristeza? A ALEGRIA É CARACTERÍSTICA INERENTE DO SALVO EM CRISTO, TEMA CONSTANTE EM TODO O NOVO TESTAMENTO!

Agora que esclarecemos que a alegria é característica inseparável do crente em Cristo, voltemos ao início: a igreja pode celebrar festas. O próprio culto cristão deve ser sempre encarado como festa. Há muitas festas que as igrejas celebram. Por exemplo, o dia do pastor; os aniversariantes do mês; o batismo (a exemplo da Santa Ceia, outra ordenança celebrada sem o elemento festivo e alegre...); o aniversário da igreja; os congressos; o casamento; o natal; festa das nações; etc. Há algumas igrejas que, de forma inovativa, passaram a celebrar outras festas, como "festa jesuina", "halloween gospel", etc. (não vamos neste post argumentar acerca do mérito destas festas, apenas apresentá-las como prática) Observe que a própria celebração do Natal, conforme estabelecido pela tradição, tem sua origem no paganismo babilônico e nem por isso muitos cristãos deixam de decorar suas casas e igrejas...um "vivas!" a liberdade cristã!

Bem, se podemos celebrar várias festas sem prejudicar a nossa espiritualidade - mesmo aquelas que têm origem não-bíblica - porque não podemos celebrar as festas bíblicas? Porque não podemos celebrar o Shavuot (também conhecida como Festa das Colheitas ou Festa das Prímicias)? Ou Tabernáculos? Penso que o problema está no entendimento das festas no contexto da igreja. Há, infelizmente, muitos que entendem (e querem impor este entendimento) que as festas são ordenanças do Senhor para a igreja. Trata-se do mesmo grupo que quer impor o sábado como dia da guarda, o uso obrigatório de shofar, o uso de talit para ministração do culto cristão, imposição do nome de Jesus em hebraico, e coisas do gênero. Tais elementos não são obrigatórios ao culto cristão, em hipótese alguma! Algumas são ordenanças para Israel, no período do Velho Testamento; outras são produto da cultura e tradição judaica. Judaizar a igreja é algo combatido veementemente pelo apóstolo Paulo. Igreja não é sinagoga, nem é derivado dela; mas é algo completamente novo no contexto do Novo Testamento!

Outra coisa: Deus não é propriedade de ninguém. DEle são todos os homens, de todas as culturas, de todos os povos, tribos, línguas e nações. DEle é a terra e toda a sua plenitude, o mundo e aqueles que nele habitam (Sl 24.1). Deus não é aculturado nem busca aculturar ninguém, Ele respeita cada cultura que há nesta terra. Deus não escolheu uma cultura, escolheu um povo e o comissionou para ir ao mundo como missionários transculturais.

Seu isolamento fez com que o Senhor se voltasse para os gentios. Aqui, há outro grande erro, só que desta vez por parte da igreja, que se acha substituta de Israel. Porventura rejeitou Deus o seu povo? De modo nenhum! Deus não rejeitou o seu povo, que antes conheceu. (Rm 11.1,2) Deus não substituiu ninguém, apenas permitiu que nós, que não somos parte do Israel natural, pudéssemos ser parte do Israel espiritual (gentios e judeus, convertidos à Jesus Cristo). Deus reservou um remanescente em Israel segundo a graça. Agora, perceba o argumento paulino: "Mas se é por graça, já não é pelas obras; de outra maneira, a graça já não é graça. Se, porém, é pelas obras, já não é mais graça; de outra maneira a obra já não é obra." Israel foi eleito - assim como nós - não por suas obras, por sua tradição, por sua cultura, por suas festas ou coisas do gênero. Foi eleito pela GRAÇA, pelo favor imerecido de Deus!

Assim, a igreja não deve celebrar as festas enquanto obrigação de Deus para ela. Mas ela pode fazê-lo enquanto ensino. As festas possuem toda uma tipologia voltada para o Novo Testamento (assim como o cada utensílio do tabernáculo, por exemplo). Ensinar as verdades do Novo Testamento de uma forma lúdica, alegre, é muito gratificante, além de possibilitar a assimilação destas verdades com mais facilidade. Por exemplo, ao celebrar a festa dos tabernáculos (Sucot), a igreja pode ensinar sobre a vinda e sobre a volta de Cristo. A festa das Trombetas (Yom Teruah) pode servir, dentre outros, para ensinar acerca do arrebatamento da Igreja. Shavuot pode servir para ensinar acerca do Pentecostes (aliás, estudando Shavuot é fácil perceber porque há tanta carnalidade no meio pentecostal). Além disso, o aspecto visual fica muito bonito.


Agora, é óbvio que o nó górdio consiste na imperiosa necessidade de se preparar doutrinariamente a igreja antes de celebrar as festas. Celebrar as festas bíblicas sem o correspondente ensino bíblico é uma temeridade, podendo acarretar, dentre outros, invencionices, falsos misticismos e idolatria, além de judaizar a igreja. Ao contrário, os benefícios são evidentes. Lembre-se: Jesus é o tema central da Bíblia, Ele é o alfa e o ômega, o princípio e o fim, a razão e o cumprimento de todas as profecias, símbolos e festas bíblicas!

Para finalizar, pergunto: como devem ser o tratamento entre os que celebram e os que não celebram as festas? Os que não celebram devem ser julgados pelos que o fazem, ou vice-versa? De modo nenhum. "Portanto, ninguém vos julgue pelo comer, ou pelo beber, ou por causa dos dias de festa, ou da lua nova, ou dos sábados, que são sombras das coisas futuras, mas o corpo é de Cristo." (Cl 2.16,17 = grifo adicionado). Novamente, Hiney Ma Tov umanaim Shevet achim gam yachad!


Pense nisso. Deus está te dando visão de águia!

5 comentários:

  1. Infelizmente há muitos fariseus de plantão:Gostam do "isso pode ,aquilo não pode" e de lançar cargas pesadas nas costas alheias.O meio evangélico está parecendo uma torre de babel,Uma confusão só.Enquanto isso,os sem-igreja vão ficando de fora.Quem quereria de sã consciência,entrar para uma religião esquisita?Uma religião que vive de aparências.Ainda bem que Cristo não veio fundar uma religião...Viva a liberdade,viva a graça,viva o discernimento.Enquanto isso,lá em Gospellândia as festas sempre acabam em maracutaias...e não se pode falar nada dos ungidos...Apenas uma pergunta:Jesus frequentava festas?

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  2. Pr. Ricardo,
    Seu texto é pertinente em dias onde impera a confusão doutrinária e um crescente misticismo, tentando transtornar a vida dos crentes de uma forma geral.
    Tanto o liberalismo como o radicalismo sem fundamentação bíblica são altamente prejudiciais.
    A falta de equilíbrio na prática do Cristianismo, tanto no ato de congregar como na forma individual de culto tem trazido ou uma metodologia "triste" e sem "vida" ou uma desordem e confusão total, sem reverência e temor a Deus.
    Muitos veêm os cultos como rituais engessados pelo tradicionalismo e preconceitos, outros simplesmente como um forma de entretenimento e diversão.
    Sou a favor de um culto alegre, festivo e expontâneo (incluindo a Ceia do Senhor e o Batismo) e não vejo que a ordem e a reverência excluem isso. É possível, desejável e relevante.
    Com relação as festas do AT, achei interessante sua explanação. Contextualizando-as aos nossos dias, tendo cuidado na interpretação de cada uma e educando a igreja pode realmente ser algo a ser usado.
    No mais, somos um povo "festeiro" porque somos felizes. Não somos felizes porque somos "festeiros". rsrsrss

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  3. Passei por aqui lendo. Nenhuma pessoa me convidou.Eu tenho um blogue e estou lhes chamando a visitar ne se possivel seguirmos juntos por eles. Estarei grato esperando por voce lá
    Abraços de verdade

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  4. ALELUIA!!! Até que enfim alguém esclarecido. Até onde li, concordo 100% .Evangelho puro... quero conhecer sua Igreja, eu ja estava achando que nao existia...

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  5. Irmão Yosef, obrigado pelo seu comentário! Fique à vontade se quiser nos fazer uma visita. Estamos no RJ, no bairro de Vila da Penha, sito à Rua Tomás Lopes, nº 257 (próximo ao Clube Olimpo). Nos reunimos aos domingos, a partir das 17h.
    Graça e Paz!

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