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quinta-feira, 3 de novembro de 2011

EU QUERO O VINHO NOVO... MAS AINDA SOU ODRE VELHO!

Ninguém deita remendo de pano novo em roupa velha, porque semelhante remendo rompe a roupa, e faz-se maior a rotura. Nem se deita vinho novo em odres velhos; aliás rompem-se os odres, e entorna-se o vinho, e os odres estragam-se; mas deita-se vinho novo em odres novos, e assim ambos se conservam. (Mt 9.16,17)

"Eu quero, ó Senhor, Teu vinho novo...". Esse é o desejo de muitos crentes em Cristo, cantado em verso e prosa nas igrejas. Querem viver o novo de Deus em suas vidas; querem poder usufruir daquilo que Deus prometeu e que, segundo elas, está muito além realidade vivida no dia-a-dia. Na concepção desses irmãos, o dia-a-dia, com o seu mesmismo, é enfadonho e impede-os de crescerem e atingirem maiores patamares espirituais na presença de Deus. "Chega do velho, queremos o novo!" é o brado do coração desses irmãos, ansiosos por algo que definiram como "novo" mas que não sabem explicar do que se trata. O que é esse novo que tão ardentemente desejam? O que esse novo que é muito melhor do que o velho? Aliás, o que é esse velho e o que há de tão ruim nele que torne-o tão indesejável?

Penso que o grande problema aqui é a adoção de jargões e expressões de efeito sem o devido entendimento. Pouquíssimos entendem o significado daquilo que falam; trata-se de mera repetição de palavras. Muitos pregadores fazem uso de expressões como essa, mas poucos são aqueles que definem o significado e a aplicação prática para a vida dos ouvintes. Tampouco as condições para entender aquilo que a expressão conota. Se explicando tudo "muito bem explicadinho, nos mínimos detalhes", como diria o personagem "Seu Explicadinho", do programa humorístico "A Praça é Nossa", já está difícil de compreender, imagine sem explicar...

A interpretação do texto de Mateus 9 é única. Mas a aplicação prática pode variar, dependendo do contexto onde ela é aplicada. Assim, o que é esse novo, tão almejado pelos crentes? Há a tendência de se entender esse "novo" a uma nova forma de viver, voltada apenas para o viés secular. Assim, o tão sonhado novo seria, por exemplo, um novo trabalho, um novo patamar financeiro, um novo relacionamento. Neste viés, empobrecedor a luz das imensas possibilidades envolvidas no conceito de "novo", o anseio é com relação ao "aqui e agora", restringindo-se "as coisas dessa vida".

Se formos considerar esse viés, é preciso fazê-lo em sua totalidade, ou seja, se o novo aqui refere-se às coisas seculares, então o secular precisa necessariamente servir para a glória de Deus e não apenas para a satisfação pessoal. Se não há nada de mais em se desejar a melhoria de vida de forma justa e coerente, essa mudança de vida deve, na vida do crente, refletir um propósito superior, espiritual: o Reino de Deus e a Sua Justiça. Assim, ao desejar um "novo emprego" (com salários e condições de trabalho melhores), este novo emprego precisa, por exemplo, redundar em melhor apoio à causa do Reino, como o suporte financeiro de forma a suprir as necessidades da Agência de Expansão do Reino (a Igreja), de acordo com o novo patamar, a podendo envolver a compra de projetores de slides ou financiamento de eventos evangelísticos. 

Porém, para que o novo venha a acontecer, é preciso atender a uma série de prerrogativas. A mais básica delas é o fato de que o novo não se acerta com o velho. É preciso que tudo seja novo, tanto o que vai ser recebido como novo quanto aquele que recebe o novo. Abordar as condições necessárias na vida daquele que deseja o novo de forma que possa recebê-lo, este é um tema pouco explorado nas mensagens pelos "pregadores do novo". Quais seriam as condições? Numa simples leitura de Mateus 9, é fácil ver que as condições são aquelas que envolvem mútua preservação - do novo e daquilo que recebe o novo. Quem recebe o novo não pode (1) ser prejudicado pelo novo por seu estado de velho e nem (2) desperdiçar o novo recebido por seu estado de velho.

Vejamos um exemplo prático. Há pessoas que anseiam viver um novo relacionamento sentimental, mas ainda não abriu mão dos sentimentos antigos de um relacionamento anterior. Ainda sonha com o outro relacionamento, ainda experimenta emoções fortes com relação ao relacionamento antigo. Assim, por exemplo, se viúvo(a) a procura de um novo relacionamento, ainda está a viver o relacionamento antigo com o(a) falecido(a). Se é um noivado que não deu certo, a pessoa ainda vive as bases emocionais do antigo relacionamento. Ela ainda não conseguiu se desvincular do relacionamento anterior e já está ansiando um novo relacionamento - deseja o novo, mas ainda vive o velho. Neste caso, se o novo vier a existência em sua vida, este novo ser-lhe-á prejudicial: haverá inúmeras brigas por comprações entre o novo e o antigo. O próprio novo será desperdiçado, acabando por ir embora e intensificando ainda mais as dores antigas, podendo levar a estados emocionais patológicos.

Suponhamos, por exemplo, o seguinte caso prático, muito comum em nossos dias: um casal que se separa fisicamente, mas um dos antigos cônjuges ainda nutre emoções intensas ou mesmo vínculos emocionais-afetivos com relação ao outro cônjuge. Para o cônjuge que está emocionalmente vinculado ao outro - mesmo que seja um sentimento de raiva ou ira, ou qualquer outro vínculo - o relacionamento, na prática, ainda existe, apesar dos corpos estarem já separados. Assim, é impossível que qualquer possibilidade de novo relacionamento que possa vir a surgir tenha qualquer chance de dar certo, pois os vínculos com o relacionamento antigo ainda existem.

Abre parênteses: O assunto do divórcio no contexto cristão já foi tratado neste blog em inúmeras postagens (veja por exemplo "E EU VOS DECLARO... UMA SÓ CARNE" em http://www.apenas-para-argumentar.blogspot.com/2011/01/e-eu-vos-declarouma-so-carne.html e "ONDE MORA O MONSTRO?" em http://www.apenas-para-argumentar.blogspot.com/2011/04/onde-mora-o-monstro.html). Como já declarei, creio na restauração tanto de pessoas como de relacionamentos. Creio no casamento enquanto instituição divina, ordenado por Deus como monogâmico, heterossexual e indissolúvel. Mas é preciso reconhecer que em alguns casos extremos, o divórcio pode ser livramento de Deus para muitas mulheres; a última solução, um mal necessário, numa sociedade cada vez mais doente e miserável, onde os casamentos são feitos sem a concordância ou bênção de Deus. Há cada vez mais casais que estão juntos apenas pela conveniência - "casamento fake"; do mesmo modo, há muitas separações que são também "fakes" na prática, onde muito do antigo ainda é preservado (por exemplo, fazem planos de longo prazo em comum mesmo estando separados). Ambas as coisas estão erradas do ponto de vista Bíblico, pois ambas não passam de mentira. Fecha parênteses.

Há outra forma de se ver o novo: trata-se do viés espiritual. Por exemplo, o batismo com Espírito Santo, os dons ministeriais e espirituais ou uma maior atuação - em termos de amplitude - na Obra de Deus (como ser um missionário transcultural, por exemplo). Aqui também existem as mesmas pré-condições necessárias para receber o novo: (1) não ser prejudicado pelo novo por seu estado de velho e nem (2) desperdiçar o novo recebido por seu estado de velho. O profeta Jeremias já ensinava: "Se te fatigas correndo com homens que vão a pé, como poderás competir com os cavalos? Se tão-somente numa terra de paz estás confiado, como farás na enchente do Jordão?" (Jr 12.5) Como ter um ministério mais amplo, se o pensamento e a prática ainda são típicos de um ministério incipiente? Se a gestão administrativa e espiritual são ainda amadoras em seus aspectos? Se nos enrolamos no básico, no B-A-BA, como falar noutras línguas com outros povos? Acaso "batendo cabeça contra cabeça" em coisas simples, como o exercício das funções básicas na Igreja, poderemos desempenhar coisas maiores? Ora, se há anseio pelo novo de Deus, é preciso haver preparação interna - emocional e administrativamente - para receber esse novo. Pensamentos novos precedem obrigatoriamente atitudes novas.

Por exemplo, imaginemos o seguinte caso: um pastor centralizador, incapaz de delegar funções e de exercer a coordenação dos delegados. O pensamento dele é: "só sai bem feito se eu mesmo fizer". Ora, como este equivocado ministro de Deus poderá receber mais pessoas em sua grei - e assim ampliar o seu ministério, se com as que ele possui a obra já é 100% dependente dele para acontecer? Deus, que o ama, não permitirá o crescimento (sim, porque é Deus quem dá o crescimento da Sua obra) do ministério deste pastor enquanto ele não renovar a sua mente, a fim de que ele não venha até mesmo sofrer um enfarte por causa da obra - e assim perder tanto o novo quanto quem recebe o novo. Se você, amado pastor que lê essa postagem, questiona Deus porque seu ministério não cresce numericamente, saiba que uma das razões disso acontecer pode ser sua forma antiquada, centralizadora, de gestão da Obra.

Abre parênteses: É possível inovar na gestão da Obra de Deus sem incorrer em pecado. Nem tudo o que é novo é ruim e nem tudo o que é velho é o melhor. Há muitos bons conceitos de liderança e de gestão que podem ser aplicados na Obra com algum exercício mínimo de adequação a um novo contexto, assim como há novos métodos de ensino e comunicação. É claro que isso envolve estudo, envolve empregar tempo (e às vezes recursos) num curso ou seminário, ou mesmo num retiro para liderança a fim de explorar as diversas facetas e conceitos envolvidos. Afinal, "todo o escriba instruído acerca do reino dos céus é semelhante a um pai de família, que tira do seu tesouro coisas novas e velhas". Os filhos deste mundo serão sempre mais prudentes que os filhos da luz? É hora de darmos um basta nisso, não acha? Fecha parênteses.

Concluindo: para receber o vinho novo, é preciso ser odre novo. Antes de receber o novo, é preciso ser novo, é preciso renovar emoções, idéias, conceitos, atitudes e visões. É sempre possível renovar sem cair em pecado, sem transgredir as Verdades Bíblicas com as quais estamos comprometidos. Somente a partir do renovar interior é que poderemos usufruir do novo - interior e exterior.

Pense nisso. Deus está te dando visão de águia!

2 comentários:

  1. Pastor, muito esclarecedor e edificante o seu estudo. Gostei muito, pois foi exatamente o que estávamos conversando semana passada e fiquei pensando muito nisso. Se puder, pregue isso na igreja também.
    Abraço!
    Luciana

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  2. Enquanto nos mantivermos no Jardim de Infância espiritual,tomando leitinho,fica muito complicado.Precisamos crescer(já é tempo).Ou será que continuaremos anões para sempre?Sim,porque crianças não somos mais.Temos nos comportado é como adolescentes:ora com atitudes adultas,ora com atitudes infantis.E pior,dando trabalho.Muitas vezes,até mesmo falando o que não devemos,sendo rebeldes(sem causa).

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