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domingo, 7 de junho de 2015

CUIDADO COM O TRIUNFALISMO CRISTÃO


"No mundo tereis tribulações; mas tende bom ânimo, eu venci o mundo." (João 16:33)

No mundo tereis tribulações. Viver nesse mundo é estar sujeito a experimentar tribulações, do grego thlipsis, "aflições, angústia, sobrecarga, perseguição, tribulação". Não há como estar imune a estas tribulações, porque elas são o produto comum, o constituinte inseparável do mundo. Por que o mundo inteiro jaz no Maligno (I Jo 5.19), completamente (em extensão, quantidade, tempo e grau) no Maligno, não pode produzir outro fruto a não ser as tribulações, a serem infligidas sobre os cristãos e sobre toda classe de homens e mulheres. Elas são, portanto, inevitáveis.

Com o avançar do plano de Deus para fim de todas as coisas, devemos esperar ainda mais tribulações. Não há como ser diferente. O cronograma de Deus vai se cumprindo tanto no céu quanto na Terra, Sua vontade é absoluta e de inevitável cumprimento. A Palavra de Deus não cai jamais por terra, ou seja, jamais deixou ou deixará de se cumprir. O que Deus planejou para o fim da atual dispensação ou economia irá se cumprir cabalmente; se olharmos com atenção, já veremos os sinais desse cumprimento. O ódio contra o próximo - a antítese do mandamento de Cristo - está cada vez maior e influenciando cada vez mais e mais pessoas, nas mais diversas nações. A sociedade moderna está falida ou em processo de acelerada falência; o caos social, a abrangente violência sem controle diante da impotência dos governos, os homicídios, sequestros, estupros, e toda a sorte de violência, vistas atualmente, só aumentarão. O que hoje vemos a nível individual se alastrará sem controle, influenciando líderes mundiais. O resultado disso é o que Cristo Jesus predisse em Mateus 24:7a - "Porquanto se levantará nação contra nação, e reino contra reino". As guerras e o ódio, aliadas ao desamor pelo próximo e ao egoísmo, aumentará grandemente a cobiça, a ganância e a corrupção, influenciando no acesso e na distribuição de alimentos e víveres, havendo escassez e, portanto, fome (Mt 24.7b), o que acirrará ainda mais os ânimos naqueles dias. Alie-se isso ao fato de que os terremotos aumentarão tanto em seus episódios quanto em sua intensidade (Mt 24.7c) e mais violência,  mais mortes, mais fome e mais guerras surgirão.

Junto com isso tudo virão as doenças. Hoje, já vemos o ressurgimento de doenças que até então haviam sido erradicadas ou controladas, como a dengue, a febre amarela, a tuberculose, a malária, dentre outras. Junto com elas, virão outras novas doenças ou delas derivadas, pela mutação dos vírus. As bactérias ficarão ainda mais resistentes aos antibióticos. Essas doenças e muitas outras terão alcance mundial, não ficando restritas apenas ao "terceiro mundo"; mesmo Estados Unidos e Europa, até a Ásia e Japão provarão com intensidade a amargura desses dias.  Haverá um caos completo nos sistemas de saúde e hospitais; hoje isso já é realidade no Brasil, com o SUS e até na rede privada (a despeito da obviedade das mentiras politiqueiras).

Haverá sinais no céu, como acrescenta Lucas ("[...] haverá também coisas espantosas, e grandes sinais do céu"; Lc 21.11). "Coisas espantosas" é a tradução do termo grego phobetron, "uma coisa assustadora, uma visão temerosa".  Hoje, os homens já estão mais do que nunca olhando para o céu e temendo diante do que estão vendo (para exemplificar, assista o vídeo: https://www.youtube.com/watch?v=_GkuGz4diJo). Até os cientistas estão cada vez mais temerosos diante dos possíveis cenários de queda de meteoros no planeta (ver: http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2014/12/141205_asteroides_protege_rp). Veja também a reportagem "Asteroide com seis caudas assombra cientistas", onde um dos cientistas chega a afirmar "ficamos assombrados quando o vimos" (http://noticias.terra.com.br/ciencia/espaco/asteroide-com-seis-caudas-assombra-cientistas,554c0b74c2232410VgnCLD2000000ec6eb0aRCRD.html). O temor é tanto que alguns cientistas chegam a "prever" que a Terra experimentará uma nova era glacial em escala global, o fim da lua, a extinção da raça humana, o choque da Via Láctea com a Andrômeda, o esfriamento do Sol, etc. A humanidade pode aguardar muitos outros sinais, ainda mais poderosos e mais atemorizantes que estes.

Assim, a realidade presente a ser ainda mais intensificada e piorada é a realidade que aguarda a humanidade. Não há nenhuma chance de haver paz na Terra, de haver solução aos atuais problemas da humanidade na realidade profética que se aproxima de seu cumprimento. Nenhum político, presidente, rei, governador, deputado, senador, etc. poderá fazer coisa alguma para evitar isso. Nenhuma religião, por mais adeptos que possua, nem nenhum "sacerdote", por mais "poderoso" que se considere ou seja considerado, poderá fazer coisa alguma para deter a vinda desses dias. Nem mesmo a Igreja de Nosso Senhor Jesus Cristo pode deter a vinda desses dias. Porém, infelizmente, parece que a Igreja ainda não compreendeu isso. Infelizmente, a fé utópica da "onda triunfalista" a cada dia amplia sua influência na vida dos filhos de Deus.

O triunfalismo, segundo o dicionário Houaiss, é a "atitude excessivamente triunfante; sentimento exagerado de triunfo". Esse ensino gera o comportamento do "super-crente", da teologia da performance, onde o fiel é ""cabeça e não cauda", “amarra e desamarra o Diabo”, “pisa na cabeça da serpente”; "determina a cura, a aquisição da casa própria"; “profetiza restituição, bênçãos e vitórias" e "toma posse de todas as bênçãos" e ninguém o detém! É o evangelho que tem sua ênfase na luta contra o diabo, "o evangelho do "sim" que desqualifica o "não" da existência humana" ("What Has Wittenberg to Do with Azusa?: Luther's Theology of the Cross and Pentecostal Triumphalism", David J. Courey).  A base do “triunfalismo” é dizer que, a partir do momento em que o homem aceita a Jesus como seu único e suficiente Senhor e Salvador, não é mais possível que o homem passe a ter problemas na vida sobre a face da Terra, pois a sua comunhão com Deus, a sua salvação lhe traz uma posição de “triunfo”, de vitória sobre o diabo. Portanto, é impossível que o salvo venha a sofrer enfermidades ou quaisquer outras necessidades, em especial, as relativas à vida econômico-financeira (https://pentecostalismo.wordpress.com/2008/02/19/o-triunfalismo/).

O triunfalismo é muito comum nos círculos pentecostais e neo-pentecostais. Isso é muito bem explicado no livro "What Has Wittenberg to Do with Azusa?: Luther's Theology of the Cross and Pentecostal Triumphalism", de David J. Courey. O problema é o silogismo construído em torno da real experiência Pentecostal: segundo essa lógica, se o verdadeiro crente é cheio do Espírito Santo então o único resultado possível é "uma vida cristã vitoriosa, sem nunca experimentar fracasso ou derrota". "O cristão cheio do Espírito é o modelo de afirmação confiante, de superação pela fé, de compromisso inabalável e profunda sensibilidade à voz do Espírito. Acima de tudo, o crente pentecostal é convencido que quando faz o seu melhor, Deus irá fazer o resto" (Courey, op. cit.). Há muitos erros reducionistas e simplificações nessa tese (como por exemplo considerar o enchimento com o Espírito no ato único da experiência Pentecostal), além de ser uma fé fundamentada em slogans, frases de efeito, fórmulas e versículos interpretados de forma isolada dos seus respectivos contextos. Nesse ponto, é preciso deixar claro a separação entre o que ensina o triunfalismo e o que ensina a fé cristã genuinamente bíblica. Apesar do caos que relatei, Cristo triunfará sobre o mal ao final de tudo. Porém, isso se dará após todas as etapas do plano de Deus terem sido cumpridas e a Igreja gloriosa apenas se beneficiará dessa vitória (ou terá sido arrebatada antes desse período ou depois - o pré e o pós-tribulacionismo, segundo a Escatologia Bíblica).

Parêntese: Enquanto o pré-tribulacionismo ensina que a Igreja (a verdadeira, parte da Igreja visível) será arrebatada pelo Senhor Jesus antes do início da Grande Tribulação, o pós-tribulacionismo ensina que os cristãos desta geração serão expostos às aflições finais sob o anticristo, sendo somente arrebatados ao final deste período. Há muitas incoerências entre a tese pós-tribulacionista e a Bíblia (ver: http://solascriptura-tt.org/EscatologiaEDispensacoes/TeoriaArrebatamentoPostribulacionista-JDPentecost.htm). O pré-tribulacionismo é, portanto, a posição teológica aderente com o ensino das Escrituras. Fecha parênteses.

O problema do triunfalismo é que essa posição não corresponde a realidade. Daí, quando o crente triunfalista se depara com os problemas, com as tribulações, ele invariavelmente interpreta isso como "fracasso de sua fé" ou condição espiritual, com perdas inevitáveis em sua fé e auto-estima. Muitos são os que chegam a se desviarem da fé e da Igreja, considerando a si mesmos como "reprovados por Deus"; outros chegam ao ponto de "culparem Deus" por "não ter honrado sua fé e devoção cristã para com o próprio Deus e com a Obra".  Courey, na literatura supracitada, menciona o caso da menina Brittany, de 9 anos de idade, filha de pais cristãos pentecostais, que padecia de leucemia, que sucumbiu a morte depois de um longo período de declínio. Sua avó, uma veterana do movimento de cura da década de 50, se manteve "repreendendo o diabo", "suplicando pelo sangue" e "clamando a vitória". Seus pais, no sepultamento, estavam no fim da esperança emocional, dormentes demais para pensar sobre Deus ou qualquer outra coisa; seus irmãos tentavam processar toda confusão teológica e suas emoções conflituosas. Exatamente assim estão diversos cristãos atualmente: maridos que se desviaram da fé ao perderem para doença suas esposas amadas, vendo-as agonizar e definhar mesmo diante de "unções" e "orações de poder"; pais que não conseguem conciliar sua fé com os dramas de seus filhos; jovens que diante dos problemas tendem a cair numa profunda depressão emocional e espiritual, e por aí vai. O fato é que muitos dos que acreditaram na mensagem triunfalista estão hoje decepcionados pelos resultados a longo prazo de sua fé performática. 

O problema é que o triunfalismo propõe soluções simplistas a problemas multifacetados, além de enfatizar a meritocracia ao invés da Graça. Nem tudo que acontece na vida do crente em Cristo possui uma única explicação ou forma de interpretação. Nem todas as suas adversidades são "por falta de fé" ou por causa do pecado. Há adversidades que acontecem para o amadurecimento da fé, para o aperfeiçoamento dos santos conforme a imagem do Senhor (I Pedro 2 e ss). Há adversidades que acontecem para a Glória de Deus. Há adversidades que acontecem sem nenhuma explicação aparente; explicação que só teremos SE for da Vontade de Deus e QUANDO for de Sua Vontade revelar-nos tal coisa. O piedoso Jó, a fiel Sunamita (II Reis 4:8-37; 8:1-6), Lázaro (João 11:4), o homem cego de nascença (João 9:1-3), os heróis da fé (Hebreus 11:35-38), etc. nos mostram que as adversidades podem ter vários propósitos e, portanto, explicações. Do mesmo modo, nos revelam que mesmo os filhos de Deus genuínos, fiéis, podem experimentar tais coisas em suas vidas, sem que isso seja por algum demérito espiritual ou moral. Algumas são até mesmo provas de Deus nas nossas vidas. Se Deus fez com que Israel caminhasse por 40 anos no deserto do Sinai, aumentando e muito o caminho para a Canaã, para provar Seu povo (Dt 8.2,3), porque nós suporíamos ser tratados de modo diferente, isto é, uma vida somente de benesses sem reveses?!

É preciso ter cuidado com o triunfalismo cristão. É possível vencer o mundo e o maligno por meio da fé, mesmo sendo perdendo a vida, tal como Nosso Senhor Jesus. Tal como Paulo e os outros apóstolos. Todos venceram o diabo, venceram o pecado, venceram o mundo, triunfaram sobre eles; porém, todos foram mortos por causa do seu testemunho e fé. O Senhor Jesus nos deixou a Sua paz e para nossos sofrimentos temos a Sua Graça, com o divino auxílio intercessor e consolo do Espírito Santo. Isso significa que não há poder em Deus? Que devemos reprimir ou mesmo condenar a experiência pentecostal? CLARO QUE NÃO. Mas precisamos ter equilíbrio em nossa fé. Por exemplo, a cura divina é possível? Sim, lógico; mas a cura divina só acontecerá se o divino, isto é, Deus, assim o quiser. Pode ser que Ele não queira operar a cura divina, pode ser que Ele queira que a cura aconteça por meio das mãos dos médicos; pode até ser que Ele não queira curar. Porém nada disso deve ser interpretado além do que é: se Ele curou fulano, foi por Sua soberana Vontade e Supremo poder e Misericórdia, não pelo mérito humano; se não curou, não foi necessariamente por demérito humano, nem porque não podia ser feito ou porque não amasse a pessoa para fazer tal coisa. O salmista afirma que a morte física do crente fiel é vista pelo Senhor com prazer (Sl 116.15), ou segundo Lutero "a morte dos seus santos é considerada de valor perante o Senhor". Deus considera a morte de seus santos como algo importante, conectada com Seus grandes e eternos planos; conectada com a Glória de Deus e com o cumprimento de Seus propósitos. O pensamento particular na mente do salmista parece ter sido de que como ele tinha sido preservado quando esteve aparentemente tão perto da morte, então isso era porque Deus viu que a morte de um de seus amigos era uma questão de tanta importância que deveria ocorrer somente quando o bem maior pudesse ocorrer por meio dela; Deus não iria decidir sobre isto apressadamente, ou sem as melhores razões; e que, portanto, Deus iria prolongar a sua vida ainda mais. Há além disso uma verdade geral implícita aqui, a saber, que o ato de remoção de um fiel do mundo é, por assim dizer, um ato de profunda deliberação por parte de Deus (Barnes' Notes on the Bible). EM TUDO O SENHOR NOS AMA E SEU AMOR JAMAIS POR NÓS JAMAIS SE ACABA!

Um conselho: descanse no Senhor. Nossa vida está em Suas mãos e Seus planos se cumprirão em nossas vidas. Não tente explicar, de forma reducionista e simplista, o mal na sua vida ou na vida dos outros. Não atribua como falta de fé aquilo que outros passam, nem como pecado. Você não é o Senhor, não tem o conhecimento do Altíssimo. Não julgue aqueles que ao seu lado estão sofrendo, mas estenda-lhes sua compaixão, suas orações e, se for o caso, suas mãos. Não seja mesquinho, nem miserável, nem egoísta, dizendo para si mesmo "isso não é problema meu; que fulano se vire, que ele se lasque!" Isso é maldade de sua parte, e o Senhor o verá. Aproveite esse momento e aprenda alguma coisa com Deus: aprenda a ser uma bênção para quem precisa de você; aprenda a ouvir mais e falar menos; aprenda a ser humilde e fiel. E não venha com papo "anti-emoções", condenando as emoções intensas de quem está a sofrer. Não tente separar as emoções da pessoa, lembre-se que Deus foi quem criou as emoções e que estas nada tem a ver necessariamente com a fé: a pessoa pode estar triste com o que está vivendo, mas ainda assim estar firme na fé em Cristo. Antes de condenar as emoções, seja você um instrumento do paracleto - aprenda a emprestar o ombro para abraçar, o ouvido para escutar e o lenço para enxugar as lágrimas; só depois use a boca e esta somente para abençoar, para transmitir Graça aqueles que dela precisam.

Cuidado com o triunfalismo, ou você poderá acabar longe dos caminhos do Senhor. Tenha fé em Deus, creia no Senhor, creia que Ele tudo pode; mas creia que acima de tudo Sua Vontade é o melhor para sua vida, independente de qual seja esta Vontade! Lembre-se: no mundo, havemos de ter aflições! Pense nisso. Deus está te dando visão de águia! 

Um comentário:

  1. É muito fácil taxarmos os que estão a sofrer , de os desqualificarmos como cristãos. Temos o costume de olharmos para os líderes( principalmente ) como pessoas intocáveis, que tem proteção especial, que ninguém tem .Esquecemos ,por isso mesmo, de interceder por eles, mas gostamos de que orem por nós. Costumamos viver, nos trancar no nosso mundinho, e que cada um cuide de si. Precisamos entender de uma vez por todas : Jesus , nosso exemplo maior, nosso Mestre e Senhor, passou por tribulações. Ele ,o homem perfeito, não se protegeu , não as evitou. O que diremos nós então? Gostemos ou não ,as tribulações fazem parte da vida e teremos que encará-las. Elas fazem parte do currículo do discípulo!

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