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domingo, 6 de maio de 2018

ERROS E CONCEITOS ERRADOS ACERCA DA LIDERANÇA NA IGREJA

Quando pensamos erroneamente sobre o que significa liderança na igreja, a igreja sofre. Às vezes nós fazemos líderes das pessoas erradas. Eu não conheço nenhum pastor que jamais tenha se equivocado ao apontar pessoas sem qualificação para funções de liderança na igreja. Todos que conheço já erraram nisso um dia e se arrependem do que fizeram, quando a necessidade da igreja ou a amizade pesoal (coração de pastor é um problema!) falou mais alto que a razão, atropelando-se a fundamentação bíblica necessária que um candidato a liderança precisa possuir antes de ser colocado em tal posição.

Eu, como pastor, já cometi esse erro em algumas ocasiões; graças a Deus nem sempre, mas aconteceram sim. Coloquei como líder na igreja quem nunca teve nenhuma chamada, nenhuma condição para ocupar a posição. Os resultados foram péssimos, passando desde mal-exercício da função (exercício desleixado, não-exercício, arrogância/prepotência pelo sujeito, ensino bíblico distorcido, aconselhamentos errados, etc.), até a mais bruta e simples traição. Acabei criando um punhado de "Franksteins", como diz meu irmão que também é pastor. Gente que passou a amar mais o cargo alcançado do que a mim e a igreja, que na minha "noite escura da alma" levantaram-se como verdadeiras "assombrações", semeando discórdia e dividindo a igreja. Gente ingrata, infiel; diziam-se amigos e assim eu os considerava, com verdadeiro amor cristão, me doando a estes; mas na verdade nunca o foram, de fato, meus amigos. Quando muito, eram simpatizantes, amigos apenas na teoria.

Outras vezes, como igreja, distorcemos a relação entre a igreja e seus líderes. Sobre isso, há três pontos que gostaria de destacar:

1º ERRO: LEITURA INCORRETA DE I TIMÓTEO CAP. 3

Em 1 Timóteo 3, Paulo dá a Timóteo - e através de Timóteo à igreja - a lista de qualificações morais para os anciãos. Ele inclui aspectos positivos como "acima de reprovação ... auto-controlado, respeitável, hospitaleiro ..." Ele também inclui negativos como "não é um bêbado, não violento ..." E então ele dá três qualificações finais com motivos ligados a eles : um presbítero deve mostrar uma boa administração doméstica, não ser um novo convertido e precisa ter uma boa reputação. A lista em si é clara e fácil de entender.

Mas nota-se que há pessoas interpretando essa lista de duas maneiras erradas. A primeira é ler essas qualificações como a lei de Deus contra a qual nenhuma infração pode ser tolerada. Neste modo de leitura, ninguém será qualificado, exceto aqueles que fingiram ser perfeitos. A segunda é ler essas qualificações como algumas boas sugestões, mas não regras rígidas. Neste modo de leitura, quase todo homem na congregação parece elegível para o ofício de ancião.

Se a nossa leitura de 1 Timóteo 3 nos leva a crer que ninguém está qualificado ou que quase todo mundo é qualificado, não entendemos a passagem. Paulo escreveu a Timóteo com a expectativa de que ele seria capaz de encontrar homens assim nas igrejas que ele estava servindo. E ele também escreveu com a expectativa de que alguns seriam desqualificados do cargo. Lendo 1 Timóteo 3 requer sabedoria, compreendendo o equilíbrio: Deus não requer perfeição nos líderes, mas requer a piedade.

Piedade é algo muito importante. A palavra aponta para duas coisas: (1) devoção, amor pelas coisas religiosas; religiosidade; virtude que permite render a Deus o culto que lhe é devido e (2) compaixão pelo sofrimento alheio; comiseração, dó, misericórdia. Em suma, piedade significa amar a Deus acima de todas as coisas e ao próximo como a si mesmo, como ensinou o Mestre de Nazaré. Significa cumprir a Lei. Infelizmente, sempre haverá quem ama a Deus acima de todas as coisas ao ponto de ignorar o seu próximo. Gente que se faz "caras e bocas" no louvor, que frequenta assiduamente o templo e seus eventos de segunda à segunda, mas que é incapaz de mover uma palha de piedade para quem sofre ao seu lado, para compreender e ter compaixão pela dor humana. Gente que quer mais é o outro se lasque, que se ferre para lá; que o sofredor, o pecador, o endividado, o adúltero, o bêbado, a prostituta, ou mesmo que o "irmãozinho" não atrapalhe sua fé. "Xiiii... lá vem esse chato de novo! Vai ficar me alugando, impedindo meu culto! Ah, essa não! Vou dar um "pode ir" para esse cara!" "Ficar depois da hora? Nem pensar!" "Baixo astral? Vou pra Porto Alegre! Tchau!"

É muito interessante - e relevante - que quando o Senhor explica acerca da necessidade de amar o próximo e então lhe perguntam quem é o próximo, ele diz: "Jesus prosseguiu, dizendo: Certo homem descia de Jerusalém para Jericó e veio a cair em mãos de salteadores, os quais, depois de tudo lhe roubarem e lhe causarem muitos ferimentos, retiraram-se, deixando-o semimorto. Casualmente, descia um sacerdote por aquele mesmo caminho e, vendo-o, passou de largo. Semelhantemente, um levita descia por aquele lugar e, vendo-o, também passou de largo. Certo samaritano, que seguia o seu caminho, passou-lhe perto e, vendo-o, compadeceu-se dele. E, chegando-se, pensou-lhe os ferimentos, aplicando-lhes óleo e vinho; e, colocando-o sobre o seu próprio animal, levou-o para uma hospedaria e tratou dele. No dia seguinte, tirou dois denários e os entregou ao hospedeiro, dizendo: Cuida deste homem, e, se alguma coisa gastares a mais, eu to indenizarei quando voltar." (Lc 10.30-35)

Quem se desviou de socorrer aquele homem? Os religiosos - o sacerdote e o levita - aqueles que iam buscar a Deus e que diziam-se "servos de Deus, homens de Deus". Que diziam "conhecer a Lei de Deus e o próprio Deus", "ungidos", "pregadores", "servos do Altíssimo". Mas quem socorreu? O não-religioso! O dito "endemoniado", "perdido", "filho do diabo que vai para o inferno", "pária" - o samaritano. A verdade subjacente é que não raro encontra-se mais misericórdia e piedade naqueles que são considerados pelos religiosos de plantão (ditos "da luz"), como sendo "das trevas". Há mais amor, mais fidelidade, mas verdade na vida daqueles sobre quem diz-se serem "não-cristãos" do que na vida de muitos cristãos beatos de igreja, infelizmente. Como podem dizer amar a Deus e não amar o próximo?!?!?!? Como podem ir ao altar de Deus, apresentarem louvores, escutarem a Palavra, e desprezarem o próximo - muitas vezes o próprio irmão?!?!? Serem falsos, traidores, mentirosos?!?!?

"Se, pois, ao trazeres ao altar a tua oferta, ali te lembrares de que teu irmão tem alguma coisa contra ti, deixa perante o altar a tua oferta, vai primeiro reconciliar-te com teu irmão; e, então, voltando, faze a tua oferta." (Mt 5.23,24) Ou seja, podem ofertar, podem sacrificar, podem dar dízimo gordo, participar de campanha, evangelizar, pintar o sete em nome de Deus, mas sem reconciliação não há aceitação da parte de Deus! Sem vir pedir perdão, sem arrependimento pelas ofensas, pelas traições, pelas mentiras e deturpações, podem esquecer: culto será vazio, sem Deus!

2º ERRO: VISUALIZAR O PRESBITERATO COMO O PINÁCULO MINISTERIAL

Meu irmão, pr. Marcelo, já abordou isso várias vezes. A turma que vê ministério e as funções ministeriais como escada para atingir a posição de pastor/presbítero. Os que não são pastores são vistos, muitas vezes, como alguém que ficou estacionado no ministério. Especialmente em igrejas pentecostais (ou cujo pastor viveu anos a fio no pentecostalismo), há o entendimento que se alguém foi consagrado a cooperador, obrigatoriamente tem que ser diácono, se diácono tem que ser presbítero e assim por diante, um tipo de escadinha ministerial. O sujeito começa como diácono, fazendo tudo certinho PIV (para inglês ver) e então ser, depois de um tempo, elevado a presbítero; mais um tempo de serviço PIV e então vira pastor. Aí surta e degringola, fica com ego inchado e vira traíra e ursurpador. 

Deus chama o Seu povo para "respeitar aqueles que trabalham entre vocês e estão sobre você no Senhor e admoestar você". (1 Tim. 5:12) É bom e correto respeitar os anciãos da igreja. Mas um perigo sutil surge quando assumimos que os anciãos são necessariamente os maiores cristãos entre nós. E com isso vem a idéia nunca declarada, mas muitas vezes presumida, de que ser um ancião na igreja é, de alguma forma, o auge do cristianismo, o ápice ao qual todo homem deve aspirar - e o pico que as mulheres nunca conseguem escalar. O resultado é elevar o cargo a uma posição tão alta que uma distinção doentia é estabelecida entre os anciãos e o resto da igreja.

Em contraste, a Bíblia ensina que a maioria dos cristãos é desqualificada ao presbiterado, não com base em qualificações morais, mas com base em qualificações espirituais. Ser um presbítero requer que um homem não somente possua as qualificações em 1 Timóteo 3, mas que ele mostre os dons espirituais de liderança (Rm 1.28) e ensino (Tt 1: 9). E enquanto Deus dá esses dons a alguns, Ele dá muitos outros dons para o resto da igreja. Alguns são chamados para liderar enquanto todos são chamados (e talentosos) para servir de alguma forma.

Em toda igreja saudável, haverá anciãos celestiais servindo com liderança sacrificial e ensino bíblico. E também haverá muitos outros cristãos piedosos servindo ao Senhor de acordo com seus próprios dons. A liderança ordenada na igreja não é o pináculo da espiritualidade cristã. Ser pastor não é ser o CEO da igreja, nem ser diácono/obreiro é ser menos!

3º ERRO: VISUALIZAR OS DIÁCONOS COMO "ANCIÃOS JÚNIORES"

Relacionado a uma visão excessivamente alta do presbitério é a idéia comum, se não falada, de que ser diácono é o campo de treinamento para se tornar um presbítero. Diaconato não é trainee para presbiterato. Um estudo da igreja no Novo Testamento deve deixar claro o quão ruim é tratar o diaconado como oficiais juniores do time do colégio. Não só serve para desvalorizar grandemente o trabalho dos diáconos, como também ajuda a diminuir as diferenças importantes entre os dois ofícios - para não mencionar o fato de ignorar os padrões da igreja que vêem o ofício de diácono aberto tanto para as mulheres como para os homens.

É certamente verdade que as qualificações morais dos dois cargos são muito semelhantes. Mas as qualificações espirituais para os dois cargos são muito diferentes porque sua área de trabalho é muito diferente. E embora seja concebível que um homem possa ter dons espirituais que o qualifiquem para qualquer cargo, é provavelmente bastante raro. Se todos os presbíteros da igreja são antigos diáconos, estamos escolhendo mal nossos diáconos ou nossos anciãos.

Um diácono que serve fielmente por muitos anos de acordo com seus dons espirituais deve ser honrado e valorizado pela igreja. Enquanto homens que são diáconos devem estar dispostos a serem chamados por Deus para se tornarem presbíteros, eles nunca devem experimentar a pressão para "avançar" para o presbiterado.

Por fim, vale a pena refletir no que nos ensinou Jesus: "Mas Jesus lhes disse: Os reis dos povos dominam sobre eles, e os que exercem autoridade são chamados benfeitores. Mas vós não sois assim; pelo contrário, o maior entre vós seja como o menor; e aquele que dirige seja como o que serve." (Lc 22.25,26)

Pense nisso. Graça e paz!

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